abril 30, 2004

Santana num buraco

Para não me repetir, mais uma vez publico aqui o meu texto n’A Capital sobre o Túnel do Marquês.

Ao fim de dois anos e meio, quais foram as duas grandes batalhas de Santana Lopes? Um túnel para fazer entrar carros em Lisboa e a construção de um casino. Como currículo autárquico que é, no mínimo, caricato.

Vamos então ao burburinho do momento. Justiça seja feita, desde a campanha eleitoral, há dois anos, que Santana tinha avançado com a proposta do túnel. A legitimidade democrática da decisão não está, assim, em causa. A proposta de Santana Lopes é a da construção de um túnel que vem das Amoreiras e desemboca no Marquês de Pombal e na Fontes Pereira de Melo.

A ideia quase só tem defeitos. O “timing” é o pior de todos. Fazer as obras antes do Euro implicou apertar prazos sem que tal fosse indispensável. Depois há os custos. A proposta de Santana Lopes tem valores exorbitantes. E há os problemas técnicos. O túnel proposto tem uma inclinação de 9%, quando a União Europeia não permite túneis viários com inclinações superiores a 5% e recomenda mesmo que sejam inferiores a 3%. O túnel cruzará duas das principais condutas da EPAL e a linha de metro, ficando a 45 centímetros deste. Por fim, atravessa as zonas húmidas das nascentes da Ribeira da Liberdade, com os resultados que se puderam observar no Martím Moniz ou na Avenida de Ceuta.

Mas a questão central é outra. O maior crime do Túnel de Santana, como ele próprio o gosta de chamar, é o de, em vez de tirar carros de Lisboa, os querer meter cá dentro.

(artigo continua no link em baixo)

Lisboa tem cerca de 700 mil carros, nos dias de semana. Não cabe nem mais um e muitos têm deixar de deixar de entrar. Isto sim, e não números circenses ou teimosias destituídas de conteúdo político, exigem coragem. Qualquer túnel que se faça em Lisboa deve ter uma função central: facilitar a saída e, arrisco-me a dize-lo, mesmo sabendo da impopularidade do que digo, dificultar as entradas. O resto deve ser investimento no transporte público.

Há alternativas ao túnel que propõe e até já foram apresentadas. Um túnel que comece no lado direito da Avenida da Liberdade, junto à Alexandre Herculano, que siga próximo à superfície, paralelo ao metro, não o cruzando, e que vá desembocar na Fontes Pereira de Melo, servindo para escoar o que vem da Baixa para Lumiar, Pontinha, Campo Grande e 2ª Circular. Este túnel bifurcaria, para que outro seguisse para o parque de estacionamento do Parque Eduardo VII, levando os carros para a Artilharia I, para seguirem daí para a Avenida Duarte Pacheco. Ou seja, um túnel que tirasse depressa, nas horas de ponta, os carros de Lisboa. Para além desta vantagem, teria outras, não negligenciáveis: uma das linhas não cruzaria a linha de metro e a outra só o faria quando ele está praticamente à superfície. Não perturbaria os lençóis freáticos da Avenida da Liberdade. Custaria, no mínimo, menos de um décimo do que está proposto.

Outra questão é o problema que está agora criado. Santana estava legalmente obrigado a realizar um Estudo de Impacto Ambiental e não o fez. Bem pode Santana mandar as culpas para o secretário de Estado do Ambiente. Esta era uma responsabilidade sua. E fica-lhe mal, quando as coisas apertam, sacudir a água do capote.

Santana quis abreviar caminho, e o resultado está à vista: o Tribunal de Administrativo de Lisboa suspendeu as obras no subsolo. Os custos e o atraso serão ainda maiores. Tentar, como fez Santana Lopes, responsabilizar um cidadão que usou do seu direito ao controlo democrático das decisões públicas, José Sá Fernandes, por este imbróglio, é uma inversão moral inaceitável. Quando um titular de um cargo político não cumpre a lei e é sancionado por isso, não é o cidadão que o denuncia que deve ser responsabilizado. É quem não cumpre a Lei. Se quem paga o preço da ilegalidade somos nós todos, deve ser o político a pagar o preço político. Esperemos que Santana Lopes tenha aprendido a lição, cumpra agora a decisão de suspensão e não improvise mais.

Mas Santana dá os piores sinais. O anúncio publicado na terça-feira, em dois diários (quem pagou?) a marcar uma manifestação contra a decisão do tribunal é uma demonstração de infantilidade política indescritível. Santana diz que não foi obra sua. Ou tem um admirador secreto, ou há aqui qualquer coisa para explicar. Esperemos que Santana explique, porque esta história já começa a enjoar.

Publicado por danieloliveira em
Comentários

O mais interessante é que, se não me engano, há algum tempo atrás, este senhor queria tirar os carros de Lisboa introduzindo o pagamento de uma taxa. Uma medida bem mais eficaz, na minha opinião...

Afixado por: Nuno em abril 30, 2004 07:36 AM

a taxa era para pagar o túnel para permitir mais carros para aumentar a receita da taxa para fazer mais túneis...

Afixado por: tchernignobyl em abril 30, 2004 09:22 AM

A "alternativa ao túnel" não me parece nada boa ideia. Mais faixas para o tráfego conduzem necessariamente a mais tráfego. E a avenida da liberdade já é a zona mais poluída do país.

Se se quer tirar carros do centro de Lisboa, taxe-se a entrada nesse centro, e controle-se melhor o estacionamento. NÃO se construam mais túneis.

O pior do túnel é que ele exibe que Santana Lopes não é um lisboeta: é um cascaense. Para ele, o grande problema de Lisboa é o problema dos habitantes de Cascais e Oeiras que não conseguem entrar na cidade suficientemente depressa. Ele faz obras em Lisboa para os habitantes de Cascais e Oeiras. Não para os lisboetas.

Afixado por: Luís Lavoura em abril 30, 2004 10:03 AM

Já temos candidato a candidato do BE à CML. Chama-se Daniel Oliveira.

Afixado por: Fernando Martins em abril 30, 2004 12:39 PM

O pior é que foi mesmo isso que ele prometeu... e está lá porque ganhou.

Afixado por: Mariana em abril 30, 2004 01:56 PM