Cá recebi em casa a cartinha que teve a amabilidade de me remeter directamente da Praça do Campo Pequeno. Foi uma leitura, acredite, bastante instrutiva. O desdobrável está bonito, colorido, com os quentes tons da nação. E a sua foto ficou bem, com cara de embaixador que gosta de conviver. Quanto ao conteúdo da sua carta e ao programa político da coligação “Força Portugal” dirigido aos eleitores portugueses residentes no estrangeiro, é precisamente por isso que lhe respondo.
O Senhor Deus Pinheiro não me conhece. Não tem, por isso, a obrigação de saber que eu nunca, mas nunca por nunca, votaria em si nestas eleições. E noutras quaisquer também não. Mas, visto que se deu ao trabalho de procurar a minha morada no consulado de Portugal em Paris, sinto-me no direito de lhe responder à mesma. O que eu queria dizer-lhe é simples: as afirmações europeístas iniciais da sua carta são pura retórica. Você diz-me que Portugal já não é o país “orgulhosamente só” do passado e até me fala no direito à cidadania europeia, mas depois as únicas coisas concretas de que a sua carta fala são assuntos consulares (simplificação do BI, de reaquisição de nacionalidade, direitos para os emigrantes ex-combatentes). Ora, como o próprio senhor afirma, isto são medidas do governo nacional, algumas delas por cumprir. Nada têm a ver com as eleições que se avizinham, em que o senhor e a sua lista concorrem para deputados ao Parlamento Europeu. De resto, a ver por esta carta, para si a Europa é porque tem que ser. O que para si conta é "dar força a Portugal", ser uma "voz forte de Portugal na Europa". Para si esta Europa, no fundo, é apenas algo a que os portugueses já não podem escapar. Já não estamos "orgulhosamente sós", mas não queremos saber muito dos outros europeus. Estamos orgulhosamente mal acompanhados.
Como não quis acreditar que o seu discurso se resumisse a um elenco de medidas do governo nacional e às três palavras de ordem nacionalistas a que a sua carta se resume, dei-me ao trabalho de ir consultar o seu manifesto eleitoral. E verifiquei que, apesar de tudo, ali você fala alguma coisa de Europa. Eu não acredito em que você acredite muito no que ali fala, mas fala. E verifico que ali até reconhece “que a maior parte dos nossos concidadãos não sabem que à sua cidadania nacional acresce a europeia e, sobretudo, não a sentem nem a vivem”. Mas como é que a havemos de sentir e viver se é você o primeiro a contribuir para essa ignorância quando se dirige aos cidadãos portugueses que vivem noutros países europeus como se a sua única cidadania fosse a nacional? Ora nós, que vivemos na Europa —e desculpe a pretensão deste nós—, somos a vanguarda da cidadania europeia. Falamos mais do que uma língua, temos filhos com dupla cidadania, casamos com cidadãos europeus, vivemos com as contradições das diferentes administrações nacionais. Muitos de nós já estavam a construir a cidadania europeia ainda antes de terem direito a ela. Vai ser eleito para a Europa? Então fale-me do equilíbrio dos poderes entre as instituições europeias, fale-me do projecto de constituição, diga-me se a promessa que você faz de referendar a mesma é para cumprir. Fale-me da política externa europeia no contexto actual. Já não espero que me fale de direitos sociais. Mas, olhe, fale-me ao menos de uma efectiva harmonização dos diplomas académicos, fale-me da simplificação e embaratecimento do reconhecimento dos direitos cívicos nos diferentes países, fale-me nem que seja de uma maior facilidade nas transferências bancárias, fale-me de qualquer coisa que seja europeia.
Atenciosamente, peço-lhe que me creia grato eleitor n° 23777 do consulado geral de Portugal em Paris.
Publicado por andrebelo emAmigo Rebelo, gostei muito do seu texto mas, com muita pena minha, imagino que ao visado essas considerações devem entrar por uma orelha e sair pela outra. Ou nem isso, que ele deve fazer parte da seita daquele outro que dizia que não lia jornais para não se deixar influenciar e ter as ideias claras. Sabe a quem me refiro com certeza.
Afixado por: antónio em maio 30, 2004 01:38 PMAnd Rebelo?! LOL!
Afixado por: Jorge Moniz em maio 30, 2004 02:12 PMExcelente post, André.
Efectivamente, aos candidatos, falem-nos de alguma coisa que seja europeia, porra!
Mais do que isso, deixam a porra da bola de vez e falem do que realmente defendem.. ainda não vi um raio de uma medida que queiram defender, ou adoptar. ZERO. Só se fala em bola, cartões vermelhos, cartões amarelos.
A única motivação que me levaria a votar no Deus Pinheiro, era apenas pelo facto de o ver fora de Portugal! :)
Cumprimentos
Enresinados!!
Caro eleitor n. 23777, desde ontem que aguardava um comentário ou artigo deste género aplaudo a sua carta e coloco-me (embora em portugal) ao seu lado na pertinência de um programa eleitoral, por parte dos partidos políticos...
Senão veja:
andava eu em descontraidas compras no mercado da ajuda, quando de repento saindo não sei donde vejo-me frente a frente com um dos eurodeputados do PS que simpáticamente estende-me um folheto, sorrio, aceito e dou uma vista de olhos. Rapidamente percebi que o folheto era composto por umas tantas frases (que mais dizem respeito à politica caseira) da praxe...Bom, fiquei curiosa, qual é o programa do PS!?
Assim, noutro momento de passagem pelo cortejo solicito um outro planfleto diferente, esperando que neste estivesse o dito programa, não estava apenas umas tantas frases tipo headline. E como não há duas sem três, pedi a um jovem 1 terceiro folheto perguntando em qual dos folhetos estava as intenções do programa.
Explicou-me que esse terceiro folheto era JS, se conhecia...!?
- acenei que sim, e voltei à questão; o programa elitoral...?
Ao que me respondeu, A POPULAÇÃO NÃO LÊ, e simpaticamente remeteu-me para o site...
Posto isto não sei o que pensar. :-(
Afixado por: cristina em maio 30, 2004 07:10 PMcaro andré belo,
dou-Lhe os parabens pelo seu texto, convidando-o a enviá-lo, não apenas a Deus Pinheiro, mas a todos os partidos que estão em campanha... O pS dá um cartão amarelo ao governo e miguel portas quer que a europa substitua o bagão felix... quanto à ilda, essa não tem ideia nenhuma de nada...
Afixado por: cparis em maio 31, 2004 04:43 PMExcelente poste, André. Magnífico.
Afixado por: Luís Lavoura em junho 1, 2004 10:19 AM