Anteontem, o Daniel resolveu assinalar a vitória de José Sócrates com um post ilustrado pelo rosto de Tony Blair. O triunfo de Sócrates representará, pois, o retorno à “Terceira Via” (ou ao seu equivalente nacional, o “guterrismo”), após o curto interregno ferrista. Será esta comparação justa? Depende da forma como o Daniel quis que ela fosse lida.
A campanha eleitoral no PS permitiu aos militantes socialistas escolherem entre duas alternativas, nem sempre muito marcadas em termos doutrinários e programáticos, mas ainda assim suficientemente distintas para assegurar algum pluralismo. Há umas semanas atrás, o Vital Moreira escreveu um excelente artigo sobre as linhas de clivagem entre as duas principais candidaturas – tenho pena de não poder fazer o link, mas o arquivo do Público dura apenas uma semana. Sócrates é, claramente, o candidato da “direita” do PS, ou, numa visão mais caridosa, dos “modernizadores” do partido – daqueles que estão dispostos a aceitar uma retirada do Estado de algumas actividades (daí a sua ênfase na função “reguladora” do Estado, uma expressão que estamos sempre a ouvir na boca de elementos do PSD, não obstante as referências feitas ao modelo escandinavo na moção redigida por Sérgio Sousa Pinto), enfim, a efectuar mais concessões ao consenso liberal-capitalista dominante. Neste sentido, a analogia Sócrates/Blair faz ou pode fazer algum sentido (com imensas ressalvas, que não posso agora desenlvolver).
Não sou militante do PS, não segui as discussões com particular atenção e por isso evitei mandar palpites. Mas agora que o pretexto surgiu, tenho de confessar que, tudo somado, prefiro a vitória de Sócrates. Sim, a sua candidatura juntava alguns dos piores caciques do partido e muitas figuras dos governos Guterres que todos preferíamos esquecer, o próprio Sócrates parece não ter ideias muito sólidas acerca de vários assuntos - mas pelo menos oferece aos militantes e eleitores socialistas a perspectiva de uma oposição mais efectiva e, claro está, um possível regresso ao poder. Não são credenciais muito lisonjeiras, admito, mas este é o estado a que chegou a nossa democracia. Tal como Kerry nos EUA, Sócrates é a melhor esperança para desalojar a direita portuguesa do poder. Desculpem o ar pomposo do que vou dizer a seguir, mas é algo em que acredito fortemente: não penso que Portugal se possa dar ao luxo de ter um governo Santana Lopes para além de 2006.
Agora, comparar Sócrates a Blair neste ano da graça de 2004 pode ter uma segunda leitura. Nos últimos tempos, a reputação internacional de Blair tem estado estreitamente associada à guerra do Iraque. Ele foi o caniche de Bush em 2003, e hoje, face ao caos reinante no Iraque, é um caniche em negação … Ora, merecerá Sócrates esta comparação?
Penso que não. Em relação ao Iraque, desafio o Daniel a mostrar-me uma declaração dele que possa ser tomada como um endosso à linha preconizada por Bush e Blair, ou que traduza uma certa complacência face à posição assumida pelo governo de Durão Barroso. Aliás, tanto quanto me lembro, a liderança de Ferro Rodrigues teve de ser praticamente arrastada para as manifestações anti-guerra pelo venerável Mário Soares.
Sim, Sócrates disse recentemente que se fosse primeiro-ministro manteria o contingente da GNR até ao fim da missão, a fim de honrarmos um compromisso internacional, mas isso não faz dele um “blairista” (um seguidista em relação aos americanos) – pelo menos nesta questão tão crucial.
Sócrtaes igual a Blair? mas estamos a brincar ou quê?
Pode-se não gostar de Blair, pode-se usar o pretexto da guerra do iraque para insultar o homem, mas é bem não esquecer certos factos:
1-Blair é um homem culto;o Sócrates um chico-esperto português, pouco lido, sem preparação humana e científica, um fala-barato, que estraia logo á partida derrotado, tal o estado de ingigência intelectaual que manifestou na entrevista ao expresso;
2-Blair é um homem honesto, e que leva uma vida decente, tanto mais que não conseguiria viver num "loft" cheio de novo-riquismo e parolo, com pseudo-design, como o nosso damasozinho consegue-Sócrtaes pelo contrário, é um petulante que dá "ares" de "gravitas", que se vivesse no reino Unido, teria de explicar o conúbio das negociatas com a máfia ligada às autarquias em que ele está metido;
3-blair não é demago nem ignorante:é o primeiro-ministro do único país da UE que cresce, que não tem desemprego e que vê crescer os salãrios reais; sócrates é a luminária que nos propõe um "plano tecnológico" que a dar resultados, só seriam visíveis para daqui a 20 anos. E até lá?
blair acaba de apresentar um plano para melhorar a educação, a ciência, a saúde, a habitação em Inglaterra, devidamente quantificado e que será executado mandando para a aposentação 100.000 funcionários excedentários.
Sócrates é capaz de explicar como resolve o problema financeiro português, sem ser agravando-o?
Quem é o sócrates? Nada...Um simples vendedor de ilusões....
Dizer que Sócrates é o candidato mais adequado para derrotar a coligação Santana-Portas será mais que verdadeiro. Mas daí até concluir que será o melhor para a esquerda vai um longo caminho. Na realidade, escolher entre Sócrates e Alegre (o outro nem vale a pena ser mencionado, pois ninguém o leva a sério) seria escolher entre o mau e o menos mau. Mas escolher entre Sócretes e Santana será escolher entre o mau e o péssimo.
Quanto à comparação entre Blair com Sócrates, só peca por ser desfasada no tempo. Esperemos mais dois anos e logo se verá como a história se repete.
"Não penso que Portugal se possa dar ao luxo de ter um Governo Santana Lopes para além de 2006".
Bom, quanta generosidade! 2006? Meu caro isso é demais. Isso é a eternidade e a desgraça. 2005 e no primeiro trimestre s.f.f. e já é demais.
(além de que seja duvidoso que exista "um governo Santana Lopes". Mas isso é outro assunto.
Estava tentado a dizer que fazia minhas as palavras do comentador joão.
Mas ao ler isto : "3-blair não é demago nem ignorante:é o primeiro-ministro do único país da UE que cresce, que não tem desemprego e que vê crescer os salãrios reais;", é impossível concordar com tudo o que diz.
Então em inglaterra não tem desemprego? era uma piada?
Afixado por: cachucho em setembro 27, 2004 04:07 PM
A escolha foi democrática, não tenhamos quaisquer dúvidas, mas não foi nem inteligente nem favorável às necessidades dos portugueses.
Esta facção vitoriosa do PS estaria, da mesma maneira, muito confortavelmente inscrita no PSD - talvez só não tão confortavelmente neste contexto de aliança com o PP de Portas – e quer é muitos tachos tal como no Governo de Guterres.
E depois, basta que não se toque no establishment, nos maus presidentes de autarquias que garantem muitos votos e nos maus gestores que representam os interesses do partido.
O desenvolvimento do país é um problema "menor"...
Afixado por: JAM em setembro 27, 2004 04:08 PMO velho bla, bla, bla centrista.
Parte do principio que os swing voters entre os 2 partidos são politizados. Duvido que sejam: desde que não surjam propostas revolucionárias liga porventura a outras coisas: personalidade, honestidade, adequeção do estilo ao momento, ...
Exemplos não faltam:
1. A vitória do ultra-direitista Bush contra o centrão Gore.
2. Os resultados honrosos ou muito bons do esquerdista Ferro
3. O mau resultado do centrista Guterres na segunda vez (lembrar que estávamos em tempos de vacas muito gordas e pensar nos resultados aqui ao lado do Aznar)
4. O resultado de referendos, por exemplo o Euro na Suécia em que o centrão vai num sentido, e as pessoas vão com os extremos.
Podia arranjar muitos mais (Tal como em sentido inverso aliás se podem arranjar). O ponto é: ser "centrão" não significa ter mais ou menos chances na maioria dos casos.
A teoria do centrão na prática serve para puxar a esquerda para a direita (nunca a vi a ser usada na direcção oposta).
E contra este governo, se eles continuarem assim, tenho a sensação que até o pato Donald ganhava as eleições
Afixado por: Jean-Luc em setembro 27, 2004 04:08 PM"blair acaba de apresentar um plano para melhorar a educação, a ciência, a saúde, a habitação em Inglaterra, devidamente quantificado e que será executado mandando para a aposentação 100.000 funcionários excedentários."
Não, o plano foi apresentado pelo Chanceler Gordon Brown, o rival de Blair, um Old Labour (mais old que new).
Aliás boa parte da coisa económica não está nas mãos do new labour, mas do referido Gordon Brown.
E já agora, os desastres do governo labour parecem esquecidos: coisas menores como saude e transportes.
E sobre o Blair não ser um demagogo: antes pelo contrário a sua maior "qualidade" é saber falar. Lembro-me de ouvir um discurso dele sobre o Iraque, brilhante, absolutamente brilhante. De repente ele começa a falar dos amigos sauditas e o que ele me tinha convencido em 20 minutos vai por água abaixo. Como amigos destes...
Para não dizer que há outros países com resultados positivos na Europa. Vide a social-democrata Suécia, com os seus 5.5% de desemprego, por exemplo.
Afixado por: Jean-Luc em setembro 27, 2004 04:26 PMNovamente a apologia do voto util na esquerda moderada/moderna/centrista/da terceira via/etc. para derrotar a direita... Bem Pedro, estou enganado ou é o que tem acontecido nos últimos 30 anos? Olha só o resultado. E a situação actual nem se compara aquilo, que temo, nos vá acontecer no futuro e que hoje já se verifica por exemplo, em Inglaterra: Esvaziamento completo da esquerda partidária, divisão dos votos da direita pelos dois principais partidos, etc. Antes que isto aconteça, talvez devamos pensar um pouco mais nas velhas ideologias (que em portugal, salvo raríssimas excepções, nunca foram seguidas) e menos no pragmatismo do centro e na simples luta pelo poder.
Afixado por: DEMO em setembro 27, 2004 04:48 PM1-Ao cachuchu: o brown é o chanceler do tesouro, que quer dizer ministro das finanças (do old ou do new labour, ele é o minsitro do orçamento);
2-o desmprego em Inglatrerra é rsidual-3%
3-referia-me aos grandes países da UE(alemanha, frança, itália). É verdade que os nórdicos são diferentes para melhor: por exemplo(há dois anos), o primeiro-ministro norueguês, social-democrata, era vivamente criticado porque as receitas do petróleo não eram gastas, porque eram activos das futuras gerações.embora o criticassem, os noruegueses davam-lhe razão. Por isso é que a Noruega é o país mais rico do mundo.
Transportar o "anything.. but Bush" para cá, merece o meu desacordo.
Acho que merecemos mais e melhor!
Pois. Sócrates, ao contrário de Blair, ñ defendeu a invasão do Iraque: Sócrates, ao contrário de Blair, estava na oposição e não no Governo. Mas isso há-de ser um pormenorzinho sem importância... A triste realidade é q a "democracia bipolar" só demonstra q pouco importa a q partido pertence quem nos governa;: organizações mais altas se alevantam...
(vidé o silêncio do PS acerca das irregularidades na eleição q deu a CML a SLopes. Pq será?)