O meu anúncio de suspensão dos comentários foi lacónico e apressado. Sinto que devo uma explicação mais desenvolvida.
A opção de abrirmos uma janela de comentários aos nossos posts (sem qualquer espécie de filtragem) foi inicialmente pensada como uma maneira de nos submetermos a um escrutínio cerrado, de abrirmos o Barnabé ao agora tão parodiado “princípio do contraditório”. Com o decorrer do tempo, os comentários tornaram-se praticamente inseparáveis da dinâmica do blogue – para o bem e para o mal. Alguns de nós, mas especialmente o Daniel, passaram a ser alvo de insultos sistemáticos, habitualmente feitos em regime de anonimato. Em Dezembro do ano passado, os primeiros comentários começaram a ser apagados. Alguns dos difamadores foram vencidos pelo cansaço; outros hibernaram por uns tempos e depois regressaram com novos pseudónimos. Dada a minha participação mais esporádica – e o meu tom mais manso – fui sempre dos barnabés mais poupados pela ferocidade dos comentadores. Até que há algumas semanas atrás uma referência a um artigo de jornal de um historiador português deu azo a que um certo troglodita invadisse a minha caixa de comentários e iniciasse uma campanha nojenta que, entre outras coisas, apelava à morte da pessoa em causa e de todos os que ousavam exprimir alguma simpatia por Bush e Sharon (Por coincidência, o assassinato de Theo Van Gogh ocorreu mais ou menos na mesma altura). O incidente entristeceu-me. Mesmo que involuntariamente – e a uma escala modesta - não quero estar a contribuir para que um clima de intolerância e intimidação psicológica envenene o nosso debate público.
As coisas pioraram quando um outro bando de Neandertais decidiu utilizar o espaço de comentários do Barnabé para difundir boatos caluniosos sobre algumas figuras políticas. Nas discussões que tivemos entre nós, prevaleceu a posição dos que acham que a melhor forma de lidar com este género de assaltos é ter paciência e ir limpando a porcaria. Eu – e penso que o André me acompanha neste ponto – penso que essa é uma solução pouco prática, que nos obriga a fazer turnos de 24 horas para termos a certeza de que as calúnias não ficam muito tempo on-line. Entre o suposto “capital de participação cívica” (a expressão algo lisonjeira que o Celso inventou para se referir aos nossos comentadores) e o direito de terceiros ao seu bom-nome, pareceu-me que os pratos da balança deveriam pender para este último.
Daí a decisão algo drástica que tomei na semana passada. Ver nisto uma limitação ao debate plural não faz o menor sentido: por um lado, nós não desempenhamos aqui nenhum “serviço público” e, por outro, qualquer pessoa com espírito de iniciativa pode iniciar o seu blogue. Admito que nem toda a gente tenha disponibilidade de tempo para o fazer, mas para muitos dos comentadores “profissionais” do Barnabé o passo que teriam de dar seria bem pequeno. Resmungar pelos cantos não é a mesma coisa que intervir de parte inteira num debate.
Ontem o Barnabé mudou de formato com vista a eliminar alguns dos problemas do velho sistema de comentários - o que desactualiza algumas passagens deste post. Até esclarecer uma ou outra dúvida de carácter mais técnico, manterei os meus posts sem a opção dos comentários.
Publicado por pedrooliveira em