Acabo de ver na TSF que o número de mortos da catástrofe na Ásia já vai em mais de vinte mil. De viagem, sem acesso a noticiários regulares sobre o assunto, fico apenas estupefacto. Andamos nós em guerras, em transe com revoltas, assustados com atentados, e de repente vem a natureza e leva-nos vinte mil irmãos nossos, de vários países, línguas, crenças e fortunas.
Se não for como uma exortação a que nos deixemos de puerilidades sobre "choques de civilizações" e passemos a entender que todas as culturas são potencialmente uma cultura só; que cada cultura é potencialmente todas as culturas e que cada indivíduo traz potencialmente em si todas as ideias do mundo.
Se não for como uma exortação a que nos juntemos todos para dar educação e informação ao maior número.
Se não for como uma exortação a que utilizemos o engenho e a tecnologia da humanidade unida na prevenção possível da dor e do sofrimento.
Eu confesso a minha impotência para interpretar construtivamente esta tragédia.
Publicado por ruitavares em- No seguimento da "minha" teoria exposta nos comentários do post anterior...
- A "sobrevivência" às catrástrofes (naturais ou não), faz parte daquilo a q se chama, Evolução.
- A Natureza (neste caso) "exige" uma adaptação dos sobrevivêntes.
Confesso que me surpreende um pouco o tom de reedição do título "Cada homem é uma raça", e mais ainda a teleologia subjacente às hipóteses de "exortação".
Mas... que se lixe! Se as tragédias fizerem colocar essas perguntas, que tantos tão rapidamente regeitam em tempos correntes, estaremos perante mais um efeito positivo do aleatório, e da necessidade que todas as culturas demonstram de lhe atribuir um sentido.
Este post e o anterior, mais a tragédia e o Natal, dão também para ver mais outra coisa: o peso que a formação judaico-cristã tem entre os mais atrevidos de nós.
Confesso que nunca gostei do "Drama de Jean Barrois".
Afixado por: Paulo G em dezembro 27, 2004 03:28 PMEsta catástrofe é a prova da "Mãe Natureza".
Afixado por: José Manuel Faria em dezembro 27, 2004 03:33 PMcomo ser construtivo perante tamanha arbitrariedade? realmente é necessária muita fé no imaterial...
Afixado por: Pedro Vieira em dezembro 27, 2004 03:40 PMExcelente post.
Afixado por: miguel em dezembro 27, 2004 04:21 PMMas por que é que se há-de interpretar construtivamente uma tragédia?
As catástrofes naturais não dependem do peso que cada um de nós possa colocar em questões éticas, sociais ou políticas.
Acontecem.
Afixado por: misspinkdragon em dezembro 27, 2004 04:33 PMEsquecemos com frequência que a terra se formou em convulsões, e continuará a ter convulsões, por mais que a ciência evolua e as técnicas se aperfeiçoem. Por exemplo, ao longo dos séculos virão novos períodos glaciares - quem duvida? A nossa tragédia - e ao mesmo tempo a nossa sorte - é sermos inteligentes para compreender isso.
Afixado por: Carlos Frota em dezembro 27, 2004 04:51 PMChama-se a um Post como este "falar para não estar calado", mas às vezes é melhor estar calado.
Afixado por: Joaquim Silva em dezembro 27, 2004 05:30 PMChama-se a um Post assim "falar só para não estar calado" às vezes era melhor estar calado
Afixado por: Joaquim Silva em dezembro 27, 2004 05:34 PMPor vezes, o silêncio é de ouro... outras uma obrigação...
Afixado por: Kaiser em dezembro 27, 2004 06:11 PMMuito bom este post...parabéns
Afixado por: Luna em dezembro 27, 2004 07:53 PMAPAREÇAM EM De tudo um pouco
Afixado por: Peter Mc em dezembro 27, 2004 10:03 PMOs mortos entediam alguns, parece.
Eis o problema, para truncar o termo de Arendt: a "banalização da tragédia", um virus muito contagiante.
A recusa em reflectir sobre uma tragédia contribui para criar um monstro, aquele que vive no sono da razão. Neste caso, a haver silêncio, seria obviamente um silêncio de papelão.
Em 1967, a censura salazarista quis a todo o custo abafar a tragédia das cheias do Tejo, em Novembro daquele ano, que provocou a morte de cerca de 300 pessoas. É uma das mais tristes histórias do regime anterior, inepto em meios para prevenir um problema mais do que conhecido à época, e kafkiano na tentativa de disfarçar uma calamidade natural. Isto é, a absurda tentativa de censurar a Natureza.
Atingido um, atingidos todos. Por oposição, citando o Talmude: "Quem salva uma vida, salva o mundo todo".
Uma vítima de tsunami não morre menos que um passageiro de comboio em Madrid.
Afixado por: João Macdonald em dezembro 27, 2004 11:05 PM
O que o Sr. Rui Tavares prova neste post é aquilo que a maior parte de nós já sabia.
O Ser Humano é realmente encantador aos olhos dos outros depois de morto. O problema é até lá chegar.
Afixado por: Alfredo Vieira em dezembro 27, 2004 11:13 PMAo longo da existência da Humanidade (ou deverei dizer humanidade) o homem sempre se perdeu em coisas mesquinhas como a guerra, o terrorismo, debates políticos sobre factos insignificantes e outras coisas que caem por terra perante tamanha catástrofe! Esquecemo-nos que somos todos da mesma espécie e que deveríamos lutar todos pelos mesmos objectivos. Acabamos por nos agarrar a ideais discutivelmente importantes que não servem de modo nenhum para a melhoria da nossa condição como seres humanos. Para onde caminhamos nós?
Afixado por: MrX em dezembro 28, 2004 12:08 AMCatástrofes naturais são catátrofes naturais e nada mais há a dizer do que enterrar os mortos e cuidar dos vivos.
O importante é que existam mecanismos internacionais de auxílio rápido organizados pela comunidade das nações (enquanto não houver o socialismo mundial, não estou a ver outra hipótese de formulação possível) com fundos e meios rapidamente disponíveis.
Devia haver um programa mundial de alerta rápido para o caso de catástrofes (queda de meteoritos, choques com cometas (!!!????), variações climáticas anormais e sismos. Os sismos podem-se prever com alguma antecedência e o marmoto é uma consequência "normal" dum sismo com epicentro no mar.
Em relação a Portugal há que ser absolutamente exigente nas novas construções de todo o tipo e no melhoramento das antigas, e há que ter planos de protecção civil capaz de responder rápidamente e de absorver integradamente ajudas internacionais.
Isto quer dizer que em vez de 100000 mortos podemos ter APENAS 5000. É para isso que servem os Políticos, perdoem-me o cinismo.
Afixado por: Luís Pires em dezembro 28, 2004 02:01 AMJá existem sistemas de detecção e alerta preventivos de maremotos instalados em algumas partes do mundo pelos U.S.A e Japão(penso?)."pena" não hajam sido solidariamente partilhados,talvez se o Papa,se tivesse lembrado
de ter sugerido a tempo essa proteção ,tal tragédia pudesse ser evitada ,as bençãos pelo visto não ajudam
PEQUENA AJUDA À “IMPOTÊNCIA PARA INTERPRETAR CONSTRUTIVAMENTE ESTA TRAGÉDIA”
ou
VIAGRA DOS ESPÍRITOS ATORMENTADOS
Caro Rui Tavares,
Aqui vão algumas possíveis interpretações construtivas para esta tragédia. Prometo que assim que tiver mais alguma a postarei de imediato.
INTERPRETAÇÃO DO MEU TIO
(padre e pároco na pequena paróquia Fimdomundo, algures no interior do país, membro da Opus Dei; este meu tio tem no seu escritório uma grande fotografia de Sua Eminência o Cardeal Cerejeira, acha que “no tempo da outra senhora” nada d’isto acontecia e acredita piamente que o Pinochet acedeu de forma justa ao poder, nunca matou ninguém, sendo portanto uma vítima dos comunistas que teimam em não se extinguir do mundo)
Deus na sua infinita sabedoria e omnipotência envia-nos periodicamente estes sinais para que nos arrependamos dos nossos pecados e nos convertamos à única e verdadeira fé: a que é pregada e defendida pela Santa Sé. Afinal porque é que a tragédia ocorreu em terra de infiéis, lá nas Áfricas, Índias, e Ásias onde só há indús, muçulmanos e budistas?? Porque morreram milhares de pessoas na Tailândia e em Pukhet, esses paraísos do turismo sexual?? Porque achais que este sinal ocorre precisamente nesta santa época de comemoração do nascimento do verdadeiro Salvador???
Não nos esqueçamos que Deus está sempre atento e nos vai tentando despertar para a conversão e salvação. Lembremos o terramoto de Bam, no Irão (terra de infiéis) o ano passado; lembremos a SIDA, uma doença meticulosamente seleccionada por Deus para atingir os toxicodependentes, os promíscuos e os adeptos da sodomia, tal e qual fez em tempos bíblicos ao destruir Sodoma e Gomorra.
Em suma: tudo o que de bom existe, a Deus o devemos e à Sua infinita bondade; tudo o que de mau existe se deve aos pecados do Homem.
INTERPRETAÇÃO DE UM FUNDAMENTALISTA AMBIENTAL
A Terra é um ecossistema em equilíbrio perfeito que o Homem tenta violar e destruir permanentemente. A mãe Natureza não aceita de modo passivo esta agressão constante, pelo que se vinga periodicamente com grandes catástrofes naturais. Que esta tragédia nos faça pensar no aquecimento global do planeta, na extinção das espécies, no tratamento dos resíduos sólidos e industriais, na energia nuclear e na destruição das grandes florestas tropicais e de outros ecossistemas!
INTERPRETAÇÃO DE THOMAS MALTHUS
Tal como já tinha dito no meu livro de 1798 “An Essay on the Principle of Population” a capacidade de crescimento da população é indefinidamente maior que a capacidade da terra de produzir meios de subsistência para o Homem, ou seja, se a população não for contida por freio algum, crescerá em progressão geométrica enquanto que os meios de subsistência, nas mais favoráveis circunstâncias, só poderiam aumentar, no máximo, em progressão aritmética. Temos assim uma verdade óbvia, já abordada por vários outros autores: population must always be kept down to the level of the means of subsistence. Para que esta discrepância entre o crescimento da população e a disponibilidade de meios de subsistência não ocorra temos então os Obstáculos positivos (A Fome, a Desnutrição, as Epidemias, Doenças, as Pragas, as Guerras, etc) no sentido de aumentar a taxa de mortalidade e os Obstáculos preventivos (as Práticas Anticoncepcionais Voluntárias) no sentido de reduzir a taxa de natalidade.
Verifica-se infelizmente que continuamos e ter a intervenção dos Estados, sob a forma de auxílio material prestado ao homem incapaz de ganhar o suficiente para o sustento da sua família. Esta intervenção não só é inútil, como também nefasta para a sociedade; as leis de amparo aos pobres têm contribuído para empobrecer a classe de gente cuja única posse é o seu trabalho. Por outro lado constatamos que o Homem teima em não querer controlar a natalidade através da abstinência sexual, o que tem como consequência a queda progressiva do salário real da mão-de-obra, reduzindo o bem-estar da população.
Resta-nos assim que o controlo da população tenha que ser feito por outro tipo de Obstáculos positivos como sejam este tipo de trajédias naturais que agora se verificam.
Acabo de ouvir na TSF que PSL pondera fazer uma declaração ao país a propósito do Sismo na Ásia!
Mas que pouca-vergonha é esta? Que escândalo é este de aproveitar a tragédia dos milhares de afectados por esta catástrofe como pretexto para fazer campanha eleitoral em tempo de antena oficial?
Até quando esta impunidade? Afinal onde está o nosso Estado de Direito?
REFLEXÕES SOBRE A TRAGÉDIA
Reflexão de Tó Cavalas
(ex-pescador algarvio que no início dos anos 90 vendeu a um resort de luxo, por várias dezenas de milhar de contos, a propriedade onde se situava a sua barraca. Hoje em dia vive dos rendimentos e da actividade de gigolo.)
“...dasssss, pensar qu’ainda o ano passado estive lá em Pukhet!!! Podia ter sido eu a ir c’os porcos!! Bem, mas há umas quantas chinocas que não se foram sem antes conhecerem as capacidade aqui do Tó!”
Reflexão de Zé Foice
(destacado militante do poder local comunista, ex-PIDE que por alturas da revolução achou que era mais saudável para o seu corpo ingressar no vermelho da moda. Hoje em dia está desempregado e é candidato a um lugar nas listas do partido pelo círculo de Aveiro)
“Não sei se consigo lembrar-me de 12 mil políticos, patrões, latifundiários, fascistas e outros gajos afins, que gostava que estivessem na Tailândia ou no Sri Lanka há uns poucos de dias, mas consigo lembrar-me de bastantes!! Consigo até imaginar o Santana Lopes com uma santanete de olhos em bico ao colo numa praia paradisíaca em Pukhet e de repente ser levado por uma onda gigantesca... ainda maior que aquela que o levou mais ao Portas para fora do poleiro. Bom, no fim desta história a santanete salva-se; afinal é inocente!”
Reflexão de um economista
(licenciado em economia em 1975, 10 anos após ter iniciado o curso; na altura era militante activo do PCTP-MRPP, o que lhe valeu o direito a ser mobilizado para servir o glorioso exército português na guerra colonial contra os comunistas da Guiné-Bissau. Hoje em dia é gestor de uma PME que declara anualmente prejuízos ao fisco e desloca-se frequentemente no seu Mercedes S 500 para fazer conferências sobre as vantagens da globalização)
“Dava um jeitão uma ondinha destas a varrer paises com políticas e opiniões pré-históricas sobre a economia de mercado como Cuba ou a Coreia do Norte. Bom na verdade também os outros países sub-desenvolvidos podiam ser varridos; custam milhões em ajudas aos países que realmente produzem. Uma tragédia destas em toda a China também não seria mau... uma economia deste tamanho a querer aproximar-se do liberalismo económico é muito perigoso. Já imaginaram se em vez dos EUA a controlar o mundo fossem os gajos dos olhos em bico??!!!”
Reflexão de um ex-tripulante do “Lusitânea Expresso”
(ex-deputado que sabe-se lá como, conseguiu sempre lugar elegível nas listas do partido, conseguindo até ser deputado durante 9 anos; certas más-línguas dizem que o pai, empresário de muito dinheiro, era um importante financiador do partido. Farto de ser um ilustre anónimo do país resolveu embarcar nessa aventura, procurando alguma visibilidade. Hoje em dia continua a ser anónimo, já não tão ilustre, vivendo da onerosa reforma a que tem direito pelo tempo de serviço prestado à Pátria.)
“Bem que o terramoto mais a onda podiam ter feito desaparecer por completo do mapa essa terra de carniceiros que é a Indonésia! Bom, se calhar é melhor assim... afinal podem ser bons parceiros económicos de Portugal.”
Pretendo chamar a atenção de que anda por aí um usurpador, ladrão e cobarde "olho vivo", que em "27, 2004 03:01 PM" e em "27, 2004 07:15 PM", entrou com comentários ao post de Celso Martins "O que fazer com isto", atacando Vasco Melo.
Com a linguagem indigna usada e com essa sua atitude de usurpação de identidade, demonstra falta de respeito para com todos nós, leitores e comentadores do Barnabé.
Seria muito útil que a equipa pudesse desmascarar publicamente tal sujeito.
misspinkdragon (e outros):
desde 1755 que reflectir e "interpretar constructivamente" uma catástrofe natural já salvou milhares ou milhões de vidas - aprovando legislação anti-sísmica, criando serviços de protecção civil, investindo no estudo dos fenómenos naturais.
quantas vidas já salvou a perspectiva do "olha, acontece"?
é a única pergunta que eu vos consigo fazer.
Afixado por: rui tavares em dezembro 28, 2004 01:58 PMExcelente Post.
Parabéns.
Às vezes a única forma de olhar para uma tragédia desta dimensão é reflectir em termos absolutos. Tudo o resto é pequenez.
Notou-se a impotência no post.
(A todos e a outros)
Talvez eu tenha entendido mal o comentário final: "Eu confesso a minha impotência para interpretar construtivamente esta tragédia."
A utilização de "construtivamente" neste contexto leva a várias interpretações, e não remete necessariamente para a protecção civil.
Vou explicar: não é preciso acontecer uma tragédia de proporções ainda não inteiramente conhecidas e muito dramáticas, como a que afectou e afectará a vida de milhares de pessoas por tempo indeterminado, para se pensar em planos de protecção às populações. E é pena que só em face destas circunstâncias se verificquem os actos de contrição.
Foi nesse sentido o meu comentário - e não no "olha, acontece"!
Fish?
Caro Tavares,não aproveite este drama para fazer propaganda política. É óbvio que o choque de civilizações existe e vai até agudizar-se, isso não implica que deixemos de lamentar a morte de toda aquela gente.
Afixado por: Rui Pereira em janeiro 2, 2005 05:20 PM