janeiro 15, 2004

A notícia morreu

Não o costumo fazer, mas resolvi publicar aqui o texto que hoje escrevi para A Capital. Porque o debate tem aqui estado presente, a propósito da Casa Pia:

Sobre a comunicação social, tem sido dito que não vale a pena tentar matar o mensageiro quando não se gosta da mensagem. Como muito bem escreveu José Vítor Malheiros, no “Público”, tentar diferenciar o mensageiro da mensagem é desresponsabilizar o mensageiro e tratar a mensagem como se ela fosse neutra. Não o é. Por isso existem jornalistas. Eles não são estafetas nem pé de microfone. São técnicos que devem estar tecnicamente preparados para distinguir o essencial do irrelevante, o facto do boato, a informação da manipulação. A verdade é feita de verdades contraditórias, não é uma maçã pendurada numa árvore à espera que alguém a apanhe.

Durante o caso da Casa Pia acentuaram-se características da comunicação social que não são, no entanto, novas. Resumiria assim: rapidez, inconsequência e vulnerabilidade.

Com o reforço relativo do papel da televisão, marcado primeiro pelo nascimento das televisões privadas, depois pela televisão por cabo e por fim pelos canais noticiosos, o ritmo do conjunto da comunicação social acelerou drasticamente. O papel, que era das rádios, passou a ser cumprido pelas televisões. O telejornal das oito transformou-se no epílogo de um longo dia noticioso. Quando chega a essa hora, já a notícia foi esventrada até ao seu mais ínfimo pormenor. Quando, no dia seguinte, chega aos jornais, está morta. O directo, que substituiu a notícia, é inviável nos jornais. Por isso, incapazes de cobrir as “curvas longas” da informação, os jornais ocuparam um lugar de complementaridade das televisões. Eles agarram no que não morreu no dia anterior. Ou seja, o acessório.

A rapidez com que as notícias (os “escândalos”) se sucedem, são impossíveis de acompanhar quer pelo cidadão comum, quer pelos sujeitos noticiados, quer por quem deve reagir a elas, quer pelos próprios jornalistas. Esta rapidez faz com que todas as notícias, cada uma delas, isoladamente, sejam inconsequentes. Elas são sempre devoradas pela notícia seguinte. Os leitores e telespectadores só entendem o sentido geral das notícias, ou seja, ficam com o desconforto sem compreenderem a sua origem. Os agentes, por exemplo, políticos, optam pela reacção de efeito rápido, sem terem de se preocupar com a resolução do “problema” referido pela notícia. Os jornalistas sentem-se desobrigados a acompanhar as consequências das suas histórias e até a veracidade das mesmas. Se um jornalista, no fim, quiser desmentir uma notícia sua, já ninguém se lembrará o que está ele a desmentir. O ritmo alucinante da informação e a overdose de factos não seleccionados cria um buraco na memória de todos. Sabemos, com todos os escândalos que nos têm inundado, que o excesso de informação não é diferente da completa ausência de informação.

Por fim, temos assistido a dois fenómenos nas redacções: concentração e desregulação. A concentração da propriedade dos meios de comunicação social, aliada a contratos precários dos jornalistas, à confusão entre funções administrativas e informativas dos directores e à restrição de meios – técnicos, humanos e de conhecimento –, transformou os jornalistas numa mistura explosiva: frágeis perante as pressões, poderosos perante a opinião pública.

Esta situação da comunicação social (rápida, inconsequente e vulnerável) é hoje um dos maiores perigos para a democracia. Porque as soluções não são rápidas, porque as decisões não podem ser inconsequentes, porque a opinião pública não pode ser vulnerável.

A solução não existe, mas existem caminhos. Passam todos pela regulação, num tempo que é de desregulação. Três, pelo menos, são urgentes: uma Autoridade Reguladora competente, credível, despartidarizada e desgovernamentalizada, que faça aplicar a Lei; regulação da propriedade dos meios de comunicação social; e garantias (laborais e funcionais) da autonomia dos jornalistas e responsáveis editoriais em relação aos proprietários dos meios de comunicação social. É por aqui, e não pela limitação da liberdade de imprensa, que a democracia se defende. Porque atacar a liberdade nunca é a forma de a defender.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

E o que pensas dos jornalistas violarem o segredo de justiça, ou publicitarem essas mesmas violações por outrém? Deveria ser crime publicar factos que são objecto do segredo de justiça?

Afixado por: mondrian em janeiro 15, 2004 08:48 PM

A discussão sobre o segredo de justiça e a sua violação pelos jornalistas é paralela a esta, já que o segredo de justiça tem como função a protecção da investigação. É um assunto judicial em que os jornalistas estão também envolvidos. É um outro debate. Tenciono ir a essa questão. Mas por agora preferia ficar-me pela imensidão de problemas que a situação da comunicação social levanta.

Afixado por: Daniel Oliveira em janeiro 15, 2004 09:13 PM

Excelente artigo Daniel, como é hábito.
Nem sabia que a Capital ainda existia, lá vou ter que gastar mais uns centímos para ler os artigos. No fundo é justo porque aqui leio de borla.

A minha questão é esta. o objectivo não é vender mais jornais ? eles existem é para ser vendidos e quanto mais melhor não é ? sendo assim, como é que compatibilizas o que disseste com esta realidade inequivoca.

Afixado por: Real em janeiro 16, 2004 12:14 AM

"autonomia dos jornalistas e responsáveis editoriais em relação aos proprietários dos meios de comunicação social"

Mas quem serão os proprietários que irão investir num jornal cujos jornalistas sejam totalmente independentes? Então eu dou o guito para o jornal, mas depois não mando nele? Então eu pago aos jornalistas, para eles fazerem e dizerem o que quiserem? Será isto justo?

Quem paga, manda. Este é o princípio geral e, em certa medida, é um princípio justo.

Se o Daniel não souber como descalçar esta bota, não se preocupe que eu também não sei.

Afixado por: Luís Lavoura em janeiro 16, 2004 09:49 AM

Adeus mundo cruel... Arghhh....

Afixado por: Notícia em janeiro 16, 2004 03:14 PM


Não terá chegado a altura de reconhecer que "o homem é a medida de todas as coisas" (protágoras)?
ou seja, que cada jornal reflecte a dimensão do seu público? se há público que quer "sangue", por que não dar-lho, fresquinho e bem trabalhado? Se o leitor quer seriedade, então ela será servida a frio e também devidamente trabalhada. É que, tal como já foi dito, quem custeia e gere um jornal gostará de poder meter a colher em algumas decisões noticiosas cruciais para a vida da publicação ou orgão. Como também já foi dito, a palavra censura é eufemisticamente trocada pelo jargão "critérios jornalísticos". Para fechar o silogismo, conclui-se que quem manda impõe os seus critérios e eles reflectem a percepção de que a equipa que para ele trabalha tem de ser pulverizada consoante as circunstâncias. (perdoem-me a explanação atabalhoada, mas tenho uma gaja boa que quer tomar café com esta eminência)

O vosso

Richelieu, Cardeal

Afixado por: Richelieu, Cardeal em janeiro 16, 2004 04:10 PM

Depois conta como é que correu.

Afixado por: rui tavares em janeiro 16, 2004 04:18 PM

Um cardeal que vai tomar um café com uma gaja boa. Um gajo que diz que quem paga manda e, vejam bem, acha justo que quem pague pode mandar (qual direito, qual carapuça!!). Isto é o Barnabé, reflexo do nosso país. Depois de uma posta/texto intelectual para jornal com uma mensagem apreciável e com muito sumo, temos isto. Ó Pátria, ó mores!!!

Afixado por: rodion em janeiro 16, 2004 05:51 PM

Desde quando é que o poder económico que domina um jornal pode influenciar a redacção?

Esta pergunta só tem uma resposta: desde que a maioria das pessoas viva na ausência de liberdades ou em excesso de ignorância. Eu cá faço a seriação e se todos fizermos vão ver que o dinheiro faz rodar muitas cabeças começando pelos amigos dos donos dos jornais, é este o principio que se deve defender não vejo um povo culto a defender e ajudar a vender injustiças ou informações manipuladas.

Afixado por: Pro-Socialista em janeiro 18, 2004 12:21 PM


Correu muito bem. A loira levou uma amiga morena, pelo que também deu para conversar.

O vosso

Richelieu, Cardeal

Afixado por: Richelieu, Cardeal em janeiro 22, 2004 06:34 PM
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