janeiro 18, 2004

SimCity

Durante a primavera foi demolido um velho armazém na 24 de Julho, ao lado de onde trabalho. O trabalho foi feito em duas semanas, com apoio policial, trânsito interrompido, tudo muito profissional. Eu, que apanhei com o meu pai e os velhotes da idade dele a mania de ficar de boca aberta a olhar para as obras na cidade, perguntava-me o que dali sairia. Passado umas semanas li no Local do Público que ali se ergueria um edifício comercial inovador, da autoria de Norman Foster, que se dedicaria à área do design. Achei estranho a falta de informação à volta do assunto, mas fiquei todo contente por Lisboa ter um Foster. No lugar onde o edifício foi demolido passou a estar um cartaz da CML que dizia o seguinte «VOCÊ NEM IMAGINA O QUE AÍ VEM! (Mas sem demoras)». Passado mais umas semanas o solo começou a ser asfaltado. Que estranho, pensei, este edifício não tem fundações? O chão vai ser de asfalto? Deve ser qualquer ideia nova do Norman Foster, pensei, imaginando já um edifício sem piso térreo.

Os meses passaram. O out-door continuava exclamando a sua promessa de qualquer coisa que eu «nem imaginava» mas que viria «sem demoras». Expectativa. Mas aquilo que via todos os dias começava a lembrar-me estranhamente um parque de estacionamento. O perímetro foi cercado com barreiras de betão e eu dizia, não pode ser, então e o edifício? Foram levantadas duas entradas para carros de cada lado e eu pensava, então e a promessa do cartaz? Começaram a pintar umas marcas brancas no chão e eu estranhava, ou o Foster quer fazer uma homenagem aos desenhos extraterrestres do planalto do Perú, ou esta brincadeira é mesmo um parque de estacionamento. Os carros começaram a estacionar lá dentro, eu próprio lá entrei com o meu, peguei no meu bilhete e paguei a minha conta, e ao fazê-lo devo ter sido o último lisboeta a convencer-se de que aquilo era um parque de estacionamento.

Há uns dias tiraram o cartaz. E, meses depois da demolição, na falta de qualquer informação oficial da CML sobre o que ali se vai fazer, penso que das duas uma: ou a CML acha que os lisboetas não têm imaginação para perceber que "ali vinha" mais um parque de estacionamento, ou o parque foi desenhado por Norman Foster, o que seria um desperdício de talento. Pelo sim pelo não nunca mais acredito no Santana nem no seu cartaz. Vade Retro, Santanaz!

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

infelizmente lisboa esta assim...
fizeste-me lembrar aquele cartaz perto da praça de espanha, na ponte "do rêgo", do lado do hospital...a falar do que se tinha feito ali, e era so uma horta...
ou entao os grandes cartazes de cascais, nas rotundas, a dizer "mais um espaço verde!"

concordo. Vade Retro, Santanaz!

Afixado por: palmeirim em janeiro 18, 2004 07:47 PM

carros, carros e mais carros. o dia em que poderei andar descansado num PASSEIO de lisboa é, cada vez mais, uma miragem. fogo te abrace, ó santana.

Afixado por: restos de ontem em janeiro 18, 2004 08:23 PM

É quando leio estas coisas que não me arrependo de ter migrado para o Algarve.

Afixado por: Gato gaspar em janeiro 18, 2004 09:22 PM

Em contrapartida, os três (3) parquezitos de estacionamento que havia na rua de S. Bento que serviam para os "pobres" residentes deixarem as suas "tristes" pilecas vão ser convertidos em ... Vá-se lé saber o quê?! Mais alguma "óptima" ideia dos iluminados cérebros que nos calharam em sorte(?!).
Não haverá por aí outra Figueira da Foz a precisar deles, urgentemente?!

Afixado por: jcm em janeiro 19, 2004 03:11 PM

o projecto do Norman Foster para o aterro por detrás do IADE foi apresentado hoje, e inclui uma torre de 100m. O que dirão os velhos do restelo desta vez? criticaram o Siza por querer fazer 3 torres de 105m em alcântara, mas agora levam com uma de 100m em Santos!!!

Viva o Foster!

Afixado por: Paulo em fevereiro 9, 2004 07:21 PM
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