Durante a primavera foi demolido um velho armazém na 24 de Julho, ao lado de onde trabalho. O trabalho foi feito em duas semanas, com apoio policial, trânsito interrompido, tudo muito profissional. Eu, que apanhei com o meu pai e os velhotes da idade dele a mania de ficar de boca aberta a olhar para as obras na cidade, perguntava-me o que dali sairia. Passado umas semanas li no Local do Público que ali se ergueria um edifício comercial inovador, da autoria de Norman Foster, que se dedicaria à área do design. Achei estranho a falta de informação à volta do assunto, mas fiquei todo contente por Lisboa ter um Foster. No lugar onde o edifício foi demolido passou a estar um cartaz da CML que dizia o seguinte «VOCÊ NEM IMAGINA O QUE AÍ VEM! (Mas sem demoras)». Passado mais umas semanas o solo começou a ser asfaltado. Que estranho, pensei, este edifício não tem fundações? O chão vai ser de asfalto? Deve ser qualquer ideia nova do Norman Foster, pensei, imaginando já um edifício sem piso térreo.
Os meses passaram. O out-door continuava exclamando a sua promessa de qualquer coisa que eu «nem imaginava» mas que viria «sem demoras». Expectativa. Mas aquilo que via todos os dias começava a lembrar-me estranhamente um parque de estacionamento. O perímetro foi cercado com barreiras de betão e eu dizia, não pode ser, então e o edifício? Foram levantadas duas entradas para carros de cada lado e eu pensava, então e a promessa do cartaz? Começaram a pintar umas marcas brancas no chão e eu estranhava, ou o Foster quer fazer uma homenagem aos desenhos extraterrestres do planalto do Perú, ou esta brincadeira é mesmo um parque de estacionamento. Os carros começaram a estacionar lá dentro, eu próprio lá entrei com o meu, peguei no meu bilhete e paguei a minha conta, e ao fazê-lo devo ter sido o último lisboeta a convencer-se de que aquilo era um parque de estacionamento.
Há uns dias tiraram o cartaz. E, meses depois da demolição, na falta de qualquer informação oficial da CML sobre o que ali se vai fazer, penso que das duas uma: ou a CML acha que os lisboetas não têm imaginação para perceber que "ali vinha" mais um parque de estacionamento, ou o parque foi desenhado por Norman Foster, o que seria um desperdício de talento. Pelo sim pelo não nunca mais acredito no Santana nem no seu cartaz. Vade Retro, Santanaz!
Publicado por ruitavares em | TrackBackinfelizmente lisboa esta assim...
fizeste-me lembrar aquele cartaz perto da praça de espanha, na ponte "do rêgo", do lado do hospital...a falar do que se tinha feito ali, e era so uma horta...
ou entao os grandes cartazes de cascais, nas rotundas, a dizer "mais um espaço verde!"
concordo. Vade Retro, Santanaz!
Afixado por: palmeirim em janeiro 18, 2004 07:47 PMcarros, carros e mais carros. o dia em que poderei andar descansado num PASSEIO de lisboa é, cada vez mais, uma miragem. fogo te abrace, ó santana.
Afixado por: restos de ontem em janeiro 18, 2004 08:23 PMÉ quando leio estas coisas que não me arrependo de ter migrado para o Algarve.
Afixado por: Gato gaspar em janeiro 18, 2004 09:22 PMEm contrapartida, os três (3) parquezitos de estacionamento que havia na rua de S. Bento que serviam para os "pobres" residentes deixarem as suas "tristes" pilecas vão ser convertidos em ... Vá-se lé saber o quê?! Mais alguma "óptima" ideia dos iluminados cérebros que nos calharam em sorte(?!).
Não haverá por aí outra Figueira da Foz a precisar deles, urgentemente?!
o projecto do Norman Foster para o aterro por detrás do IADE foi apresentado hoje, e inclui uma torre de 100m. O que dirão os velhos do restelo desta vez? criticaram o Siza por querer fazer 3 torres de 105m em alcântara, mas agora levam com uma de 100m em Santos!!!
Viva o Foster!
Afixado por: Paulo em fevereiro 9, 2004 07:21 PM