janeiro 19, 2004

Lá está ela: a lamúria da lamúria

O Ivan, n'A Praia, chama a atenção para a resposta de Pedro Magalhães a um artigo de José Cutileiro sobre os defeitos dos Portugueses. Segundo Cutileiro, os portugueses deveriam ser mais ambiciosos e optimistas e, de caminho, dar uma mão ao governo, que vai no caminho certo e faz o que tem de ser feito mas não anda a ser ajudado pelo resmungão e desconfiado cidadão comum.

Quem nunca se sentou à mesa do café a mandar umas bocas de "os portugueses são assim" ou os "portugueses são assado" que mande a primeira pedra. Ora, o que acontece é que é precisamente enquanto conversa de café que o artigo de Cutileiro é nulificado pelos argumentos de Pedro Magalhães. Este chama a atenção para a, afinal, "normalidade" dos portugueses em termos internacionais e mostra a inexistência de base empírica para o texto de José Cutileiro.

Pedro Magalhães também remete para outro aspecto que me parece essencial, principalmente porque é uma característica genética da maioria que governa o país, – e não só da maioria "política" como também da opinião publicada que a tem apoiado. É que ao resmungar acerca dos defeitos dos portugueses, esta opinião inutiliza a política e demite-se do pensamento político para se constituir numa vaga censura moral que tem tanto de útil para a consciência do emissor como de inútil para a sociedade em geral. Estou certo de que os portugueses gostariam de ser optimistas se tivessem condições para isso. Eu também me queixo do pessimismo todos os dias mas tenho de admitir que com as nossas pensões e salários mínimos, com os nossos professores de liceu a ficar ano-sim ano-não no desemprego, e com todos os entraves que os bancos actualmente colocam a quem queira fundar uma empresa, fica difícil ser-se optimista. Ou seja, se o governo começasse por nos dar uma mão seria mais fácil corresponder-lhe. Mas isso este governo nunca pensou em fazer.

Não se trata apenas, nem principalmente, da opinião de Cutileiro. Este tem até a vantagem de nos querer motivar. As intenções parecem boas. Só que esta mania de querer trocar o debate político pelos enunciados psico-morais tornou-se, infelizmente para nós, dominante nos últimos anos – e não só em Portugal. Por aqui, e tanto quanto me lembro, começou com João Carlos Espada lamentando-se pelo desaparecimento dos "gentlemen" e de pais que soubessem ser firmes com os filhos. E tornou-se numa posição cómoda que fez escola, de António Barreto a Luís Delgado, de Helena Matos a Maria Filomena Mónica, de Vasco Graça Moura a Francisco José Viegas, atingindo a sua forma paradigmática em debates como os do pacote laboral, das propinas ou da educação. Aqui há um ano lembro-me de ver José Manuel Fernandes dizer num "Prós e Contras" sobre o pacote laboral qualquer coisa como "se todos os portugueses chegassem a horas ao emprego, se todos cumprissem com as suas obrigações, se todos entregassem as coisas no prazo, o país estaria melhor". Claro que estaria. Se fôssemos todos óptimos, então, ainda estaria melhor. Só que a ideia é tão lapalissiana que já nem pertence à política. Tal como não lhe pertence toda a tinta que se gasta com a frouxidão dos pais, com o hedonismo dos filhos, com o relativismo dos intelectuais. Nem com a desconfiança e o pessimismo dos portugueses na versão José Cutileiro.

Ou o assunto é legislável e regulável e então legisle-se e regule-se, ou então é uma mera enunciação de preceitos de vida e os autores estariam melhor como pastores de uma congregação evangélica do que como comentadores políticos. Porque para ler acerca da personalidade portuguesa nos jornais há muito melhor por onde escolher. Miguel Esteves Cardoso, por exemplo. Não se arma em sério nem profundo e ao menos gosta de nós como somos.

Isto não seria nada se o governo nos seus primeiros anos não tivesse optado uma versão prática desta posição. Substituiu o estado de graça que não teve por um estado de desgraça e de desconfiança em que a sua mediocridade se disfarçasse. Foi o "deviam estar presos" de Manuela Ferreira Leite para os funcionários dos CTT, as diatribes contra os estudantes preguiçosos, os trabalhadores retardatários e os funcionários públicos relaxados. Como nunca deixarão de existir preguiçosos, retardatários e relaxados, o país lançou-se numa espécie de gigantesca discussão de café acerca de quem o era mais, cada um convencido da sua própria virtude, e o governo aproveitou para ser preguiçoso, retardatário e relaxado. Aí chegou a Casa Pia, e esta espessa catarse foi substituída por outra que não tem fim à vista. Como na citação de José Mario Branco que o Ivan lembrou, cada um de nós é sempre óptimo, todos juntos é que somos péssimos.

Do PP, então, pouco vale a pena falar. O proclamado patriotismo do PP é um patriotismo meramente facial. Paulo Portas gosta do hino e da bandeira mas nota-se que se sentiria melhor se lhe tivesse saído outro povo mais à medida das suas ambições.

Só me espanta que José Cutileiro, experimentado diplomata, tão pragmático e tão culto, se tenha juntado a esta tendência informe no esquecimento da primeira regra de Espinosa: a política faz-se para os homens tal como eles são e não como nós gostaríamos que eles fossem.

"Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda a espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efectivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem". [Tratado Político, I-1]

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

PP gosta do Hino, gosta da pátria e...pasme-se nem foi à tropa!!!!
Esse país!...

Afixado por: Açoriana em janeiro 19, 2004 02:53 AM

Não sei quem foi, mas lembro-me de ler um Barnabé a dizer mal do Daniel por este, logo nos primeiros dias de Janeiro, ter escrito o post do ano. O Rui Tavares não foi, certamente, se não não teria escrito este texto. Os post´s do ano, por estas bandas, são como os chapéus. Há muitos.

Afixado por: Pedro Sales em janeiro 19, 2004 03:00 AM

Muito bem, Rui

Afixado por: torquemada em janeiro 19, 2004 11:55 AM

Para o idiota do magalhães os Portugueses são iguais aos outros europeus, internem este homem!!

Afixado por: akkenatton em janeiro 19, 2004 12:06 PM

Grande texto, Rui. Parabens.

Afixado por: Luís Lavoura em janeiro 19, 2004 04:52 PM
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