Segundo o Público de ontem 30000 alunos de escolas portuguesas vao copiar em conjunto a Bíblia à mão, por iniciativa de uma editora bíblica, com o apoio da igreja católica e de uma igreja evangélica. Espero sinceramente que seja uma medida laica, isto é, sem a participação do Estado nem de alunos e professores exteriores à opção de religião e moral. Alfredo Abreu, coordenador do projecto, diz que este se destina a pôr os alunos a interagir com o texto bíblico e apresenta os copistas medievais como modelo. Podia ter usado o exemplo da enorme tradição de cópia manuscrita do Corão. Mas vê-se que, percebendo talvez muito da venda de bíblias, Alfredo Abreu não percebe nada de copistas, sejam eles cristãos ou muçulmanos. Os copistas caligrafam e iluminam. Só lêem para depois transcrever. Fazem com o texto um trabalho artesanal que tem o objectivo de exaltar na forma física do texto a beleza da palavra de deus. Italo Calvino escreveu: "Por momentos pareceu-me perceber qual devia ter sido o sentido e o fascínio duma vocação hoje inconcebível: a do copista. O copista vivia simultaneamente em duas dimensões temporais, a da leitura e a da escrita; podia escrever sem a angústia do vazio que se abre diante da caneta; ler sem a angústia de que o próprio acto se não concretize em nenhum objecto material”. (Se numa noite de inverno um viajante)
Publicado por andrebelo em | TrackBackGostei muito da citação. Só tenho pena de não ter sido eu a pô-la no meu blog. Fantástica.
Afixado por: Ivan Nunes em janeiro 25, 2004 02:25 PMé uma notícia que andava perdida na redacção do público há mais de mil anos
Afixado por: tchernignobyl em janeiro 25, 2004 05:49 PMCaro André, a laicidade é outra coisa...
(A despropósito, porque o comentário é despropositado: Tchernignobyl, não sabe o que diz, nem do que fala, mas deve ser a irrepremível vontade "laica", como habitualmente se confunde, de meter a foice em seara alheia.)
Afixado por: Marujo em janeiro 26, 2004 12:01 AMCaro Miguel Marujo,
Então gostava que me explicasses o que é no teu entender a laicidade.
Abraço
André
Afixado por: André Belo em janeiro 26, 2004 10:21 AMCaro André
A laicidade do Estado não se joga na ausência do Estado de iniciativas que partam da Igreja Católica - ou de outras igrejas e comunidades.
A laicidade do Estado joga-se na pluralidade de todas as religiões no espaço público (podemos discutir se é isso que acontece na prática, mas isso é outro ponto). Não me incomoda uma manifestação religiosa - cristã, muçulmana, judaica, ... - ter a "participação" «de alunos e professores exteriores à opção de religião e moral». Ou as religiões apenas são toleráveis metidas na sacristia ou enfiadas em sinagogas clandestinas?
É uso e costume de algum discurso da esquerda se insurgir contra o discurso da Igreja (assim se identificando a Igreja de Roma, o Vaticano) na moral sexual. Que devia ser outro o discurso do Papa. Concordo. Mas a seguir parece querer remeter-se as igrejas para o interior dos seus templos. Este sinal também é dado, sobretudo em espaços à direita, quando as questões são políticas. Por exemplo, no fórum de leitores do PortugalDiário, a propósito das declarações críticas do bispo católico Januário Torgal Ferreira, sobre a política de imigração deste Governo PSD-PP, houve comentadores que escreveram: "a igreja não se deve meter na política" (claro: se for contra este Governo; se for a favor, lá escreverão que "até os senhores bispos falam bem"). Noutros sítios, há quem reclame ainda por mais intervenção da Igreja Católica na área social, na denúncia de más políticas sociais (como as do católico Bagão, por exemplo)...
São dois ou três exemplos. A condição da laicidade também é a minha. Defendo a laicidade do Estado, mas esta não se deve basear no totalitarismo da "ausência" de sinais religiosos, como na Albânia de Enver Hoxa ou, salvas as devidas proporções, na França de Chirac, que se meteu (como bem sublinhaste) numa alhada com a "lei do véu"...
Por fim, remeto para um texto do Movimento Católico de Estudantes, redigido já em 1993, por uma Equipa Nacional, que incluía pessoas conhecidas tuas (versão na íntegra aqui:
http://64.177.137.149/movimentos/mce/materiais/index.php?download=evangcult.pdf):
«O cristão não é "a alternativa a este mundo corrompido", a única possibilidade de salvação. Evangelizar a partir da cultura, discernir como viver a fé no diálogo reconhecedor da autonomia e da pluralidade da Cidade e das especificidades culturais, exige que os cristãos não se posicionem paralelos a nada, mas numa cidadania feita com outros [...]».
Afixado por: Marujo em janeiro 26, 2004 12:33 PMParabéns Marujo! Nada a acrescentar. Concordo na Integra.
Afixado por: Pedro Lino em janeiro 26, 2004 02:49 PMCaro Miguel,
Eu estou de acordo com todos os princípios que defendes. Não tenho nada contra a religião cristã, católica ou protestante, antiga ou moderna, como imagino que saibas.
Mas a igreja católica em Portugal, como tu também saberás melhor que eu, está longe dessa de estar remetida à "sacristia ou enfiada em sinagogas clandestinas". Baseando-me apenas numa hipótese não confirmada (nem desmentida) pela notícia, o que me pergunto é se o Estado, ao apoiar uma iniciativa destas, não está a ajudar quem precisamente de ajuda não precisa. Numa iniciativa que vem de uma empresa privada e em que o carácter pedagógico para todos os alunos, cristãos ou não, me parece bastante discutível, preocupa-me que o Estado a apoie. Concretizando, para não ficarmos pelas abstracções: se a cópia da Bíblia passar para as aulas de português e de história, porquê a Bíblia em vez de outros textos de outras religiões? Precisamente porque este é o espaço público controlado pelo Estado que deve garantir a pluralidade de religiões, porque não aproveitar para usar textos mais ecuménicos? E mais ainda nos tempos que correm, dominados por discursos etnocêntricos sobre o ocidente. E, enfim, uma vez que a cópia não serve realmente para grande coisa, porque não falar de religiões comparadas ou mesmo de como se copiavam manuscritos nos conventos da Cristandade, sei lá, há tanta coisa interessante para se falar com alunos.
Meus caros,
há uma reacção na Voz do Deserto.
Tanto quanto sei, o ensino público e gratuito (tendencialmente ou não) fez-se com o intuito de possibilitar aos grupos sociais desfavorecidos o acesso a uma posição mais favorável na hierarquia social, contribuindo para nivelamento desta "por cima". Essa melhoria qualitativa depende de muita coisa, mas depende, sobretudo, da elevação do nível cultural das populações tidas como mais desfavorecidas. Para se fruir plenamente de muito daquilo que a história da civilização ocidental hoje nos pode proporcionar, um bom conhecimento do fenómeno religioso, da sua história, é indiscutivelmente imprescindível, por mais agnósticos ou ateus que sejamos. No mundo em que vivemos a presença do cristianismo é (ainda) esmagadora e está por todo o lado: na música, na pintura, na escultura, no teatro, na filosofia, na arquitectura, etc.. Sustentar, portanto, que por ser laico o Estado se deve abster de dar formação religiosa - nomeadamente cristã - a todos os cidadãos é uma atitude que condena à ignorância aquela parte das nossas crianças e dos nossos jovens que, fora do sistema de ensino público e laico, nunca terão possibilidade de conhecer, de estudar e de discutir o cristianismo, de que o Antigo e o Novo Testamento são parte vital. Às crianças que irão (ou estarão a) copiar a Bíblia, apenas podemos felicitá-las porque, independentemente de tudo o resto, irão tomar contacto com uma das mais maravilhosas peças literárias da história da humanidade. Depois disso, tudo poderá ficar na mesma, ou então poderão ser levados a um conhecimento mais aprofundado daquele Livro Sagrado e da história do cristianismo. Tornar-se-ão crentes, beatos, ateus empedernidos? Pouco importa! Mas quando ouvirem a Paixão Segundo São Mateus de Bach ou o Requiem de Mozart, entrarem na Sé Lisboa ou na Igreja de Marco de Canaveses, estarão muito mais perto de poder saber do que é se trata, de apreciar todo o seu valor estético e todo o seu significado histórico. Nesse momento, sobretudo aqueles que tiveram a oportunidade única, ou primeira, nas suas vidas, de melhor conhecer o cristianismo transcrevendo trechos da Bíblia, terão a possibilidade de louvar as infelizmente tão poucas vezes notadas vantagens de um sistema público de ensino laico e democrático. O Estado laico, que tantos crimes políticos e culturais – voluntários e involuntários, evitáveis e inevitáveis – tem cometido ao longo da sua longa história, estará mais uma vez de parabéns!
Afixado por: Fernando Martins em janeiro 27, 2004 06:51 PMAcho bem que esta parvoíce não interfira com as aulas de português e história! Brincamos ou quê?
Lá meterem os gaiatos da religião moral a copiar calhamaços de mais de mil de páginas sem qualquer razão ainda se aceita, que os escuteiros também o façam, OK! Agora, ai deles se obrigarem alunos que não partilhem das mesmas crenças ou gastar o tempo de disciplinas vitais para uma tarefa tão inútil e despropositada! Que eu saiba ainda vivemos num Estado Laico!!! Eu não quero que um filho meu seja obrigado a tomar parte de tamanho disparate! Se querem praticar a sua religião façam-no nas suas casas, nos seus santuários, nas suas festas, etc. E mais importante, façam-no entre aqueles que partilhem das mesmas convicções! Eu não tenho nada contra as pessoas que acreditem em religiões, desde que não mas impinjam e não influenciem a vida pública! O ensino público católico já acabou há algum tempo!!