Em Portugal, por norma, o disparate não paga imposto. As declarações ou profecias mais extravagantes podem ser desmentidas pelos factos, mas é muito raro que alguém se sinta compelido a fazer um mea culpa ou a admitir, muito humildemente, que se enganou (uma das excepções foi o deputado José Magalhães, que em tempos pintou a cara de preto numa sessão do Flashback, já não sei a propósito de quê). Suponho que uma explicação para este nosso (mau) costume residirá na ausência de uma pressão efectiva para pedir contas a quem intervém no espaço público. Veja-se o caso das armas iraquianas (um dos ossos preferidos do Barnabé). Durão Barroso teve o desplante de dizer que viu «provas» acerca das ADM iraquianas e que essa foi uma das razões que levou o Governo português a apoiar a intervenção anglo-americana. Desconheço qualquer iniciativa parlamentar ou investigação jornalística para confrontar o nosso p-m com o conteúdo das suas declarações. Um dos comentadores mais beligerantes da nossa praça foi mesmo ao ponto de garantir que se as ADM não aparecessem, ele estava disposto a despir-se no Rossio (o que, diga-se de passagem, dificilmente seria um espectáculo digno de se ver). Ora, em democracias mais amadurecidas do que a nossa, como a norte-americana e a britânica, o disparate paga mesmo imposto. As reputações são constantemente escrutinadas e quem se engana sente que deve uma explicação ao público – ou, então, como sucede no caso dos políticos, é mesmo obrigado a dá-la. Enquanto decorre a contagem decrescente para a divulgação do Relatório Hutton, sugiro-vos a leitura de dois artigos da edição de Janeiro/Fevereiro da Atlantic Monthly. Um é assinado por Kenneth M. Pollack, autor de The Threatening Storm: the case for Invading Iraq (recenseado no NYRB em 2003), antigo analista da CIA e asssesor do NSC durante a administração Clinton. Pollack foi um dos mais convictos defensores da política de «mudança de regime» no Iraque e, embora com muitas ressalvas, manifestou a sua concordância em relação ao rumo de acção adoptado pela administração Bush após o Verão de 2002. Agora, com a ausência de quaisquer indícios palpáveis de que o programa nuclear iraquiano estaria suficientemente avançado para justificar a intervenção, Pollack procede a um exame exaustivo da forma como a administração Bush distorceu a informação que tinha ao seu dispor para vender a «urgência» da guerra à opinião pública. O segundo artigo («Blind into Bagdad»), do jornalista James Fallows, é bem mais devastador para a reputação de Bush & Cª. O que é notável nesta peça é o seu tom sóbrio, ponderado, meticuloso. Fallows demonstra para além de qualquer dúvida de que o governo americano tinha toda a informação de que precisava para evitar o caos que se seguiu à fase pós-bélica no Iraque. Espiões, militares, académicos, exilados iraquianos, gente das ONG’s, submeteram aos vários departamentos todos os cenários possíveis e imaginários para um planeamento cuidadoso e responsável da ocupação do Iraque. O único problema é que todos esses prognósticos colidiam com as certezas e os preconceitos de algumas figuras carismáticas da administração, a começar pelo vice-presidente e pelo Secretário de Estado da Guerra (Rumsfeld foi ao ponto de proibir oficiais do Pentágono de assistirem a seminários da CIA sobre o pós-guerra no Iraque...). Sempre que elementos de agências humanitárias solicitavam uma audiência a membros do governo, era-lhes dito que «o presidente já gastou uma hora com as questões humanitárias». Entre várias citações possíveis, esta parece-me sintetizar bem as conclusões de Fallows: «None of the government working groups that had seriously looked into the question had simply ‘imagined’ that occupying Iraq would be more difficult than defeating it. They had presented years’ worth of experience suggesting that this would be the central reality of the undertaking. Wolfowitz either didn’t notice this evidence or chose to disbelieve it. What David Halberstam said of Robert McNamara in The Best and the Brightest is true of those at OSD [Office of the Secretary of Defense] as well: they were brilliant, and they were fools» (infelizmente, o artigo de Fallows só está disponível na edição em papel).
Coincidência, estou agora mesmo a ler esses artigos. Para depois poder discutir com you know who.
Afixado por: marta em janeiro 27, 2004 12:11 AMdá-lhe para ver se aprende!
beijinhos a todos, rui
Afixado por: rui tavares em janeiro 27, 2004 02:38 AMNão vale a pena perdermos mais tempo a discutir essa treta das armas de destruição maciça (AMDs). As AMDs não passaram de uma invenção da admnistração norte-americana para procurarem convencer os outros países isoladamente, e a ONU em conjunto, de que a invasão seria legítima. É falso dizer que os EUA se cagaram na ONU: bem pelo contário, tentaram o melhor que puderam convencê-la a dar a benção à invasão. Usaram a mentira das AMDs - mas mentir faz parte da profissão de estadista, já o sabíamos.
Portanto, esqueçamos de vez essa mentira, deixemos de nos preocupar com as AMDs. Não vale a pena bater mais no Bush por causa delas. Mentiu, mas não foi o primeiro, nem será o último, estadista a fazê-lo.
Exacto! Mentiu, mentiu. Azar do caraças! Não se fala mais nisso. Quem é que mandou o resto da malta acreditar nele? Que é que importa que o nosso PM também tenha sido enganado ou pior que isso, nos tenha também enganado? Ó pá, pronto, mentiu... (devia ser giro se tudo na vida pudesse ser assim).
Afixado por: Turra em janeiro 27, 2004 11:08 AMO José Magalhaes prometeu que pintava a cara de preto se o Pina Moura saisse do governo.
Ingénuo cretino...