janeiro 27, 2004

Eu seja ceguinho

Confesso que não esperava ver o País Relativo (ou parte dele) a defender o indefensável: o cartaz do PS sobre a insegurança em Lisboa. O Filipe Nunes diz, em resposta ao Barnabé, no post com o título «O pior cego é aquele que não quer ver», que «enquanto o discurso da segurança for monopólio da direita, a esquerda dificilmente volta a ganhar». Concordo que a esquerda tem um problema no debate sobre a segurança. Tem o problema de se limitar às causas (questão central) e achar pouco importante as consequências. Ainda não é desta que irei contrariar este hábito. Lá irei, com tempo, brevemente. Fico-me, por agora, pelo cartaz.

O que o cartaz faz é a mais pura das demagogias. Há imensa coisa por onde atacar Santana. O que não falta é tema. Mas nada de fundamental que Santana tenha feito tem qualquer relação com a insegurança em Lisboa. Ele, de facto, não gere as polícias. Ele não inverteu a desastrosa política de habitação social, que tem muito de habitação e nada de social, mas ela vem de todos os executivos anteriores (Sampaio, que apoiei convictamente, incluido).

O cartaz limita-se, pela foto e pelo resto, a apelar ao medo e a criar alarmismo sem qualquer conteúdo político. E Filipe, digo-o com pesar, tu fazes o mesmo: «quem nunca foi assaltado na Lisboa de Santana que atire a primeira pedra». Eu nunca fui mas podia ter sido. Na de Santana, na de Soares, na de Sampaio e na de Abecassis. Claro que não se deve deixar o exclusivo de nenhum tema à direita. Mas se é para dizer o mesmo que eles, se é para dizer "socorro, tenham medo, tenham muito medo», mais vale ficar calado. Porque o demagogo acaba sempre por levar com a sua demagogia na cara. Que o diga Fernando Gomes. Que o diga, agora, Santana Lopes.

É que há um cego pior do que aquele que não quer ver: o que finge que está a ver tudo. Esse estatela-se no chão.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

«enquanto o discurso da segurança for monopólio da direita, a esquerda dificilmente volta a ganhar»

Para todos os efeitos, esta frase quer dizer: não deixes a direita ganhar o poder, ganha-o tu fazendo a política da direita.
Ou seja, combate-se formalmente a direita, mas copia-se-lhe a política.
É como ver em França a "esquerda" (chamemos-lhe assim, convencionalmente...) votar a favor de uma lei restritiva à liberdade de cada um se vestir como quiser. Adoptam as políticas xenófobas da direita, dizendo embora combatê-la.

Afixado por: Luís Lavoura em janeiro 27, 2004 09:53 AM

O pior erro de Santana Lopes é a construção do túnel do Marquês. Obra de fachada, completamente inútil, mas ainda assim, muito dispendiosa. Traz incómodos do arco da velha durante a construção e contribuirá mais tarde para um (ainda) maior acréscimo da entrada de carros em Lisboa, que deveria ser reduzido em, pelo menos, 40 %.
E não tenho visto o PS a bater-lhe por causa do túnel.

Afixado por: Arlindo Correia em janeiro 27, 2004 11:21 AM

Lá está o Daniel a fazer-se ao PS

Afixado por: Real em janeiro 27, 2004 11:58 AM

Totalmente de acordo, Daniel.
Também concordei com a ideia principal do texto do Filipe Nunes - a questão da segurança pública é - e não pode ser - um tabu para a esquerda. Mas também não pode ser motivo para populismos. A esquerda não pode ser populista onde a direita o é. A esquerda tem que ser populista onde a direita não o é.
Por isso acho os cartazes de muito mau gosto.

Afixado por: Filipe Moura em janeiro 27, 2004 01:06 PM

Até ver e com uma lágrima no canto do olho, devo dizer que estou 99% com este post do Daniel. Sou não estou 100% porque não estou para aí virado.

Afixado por: Fernando Martins em janeiro 27, 2004 06:12 PM

O que é que eu disse de mal? O que foi? Digam? Tenho a certeza que disse alguma coisa que não devia. Vou reler. Ó Fernando, não vês que no fundo eu estou a defender a anarquia revolucionária? Não reparas que eu estou a piscar o olho à selvajaria cabojana de Pol Pot? Não nota que estou a elogiar o caos da Revolução chinesa? Terá isto tudo lhe passado ao lado?

PS: Desculpa, mas eu no fundo sou um conservador. Habituei-me a ter-te aqui a bater. Não estragues a nossa relação. Estava muito bem como estava.

Afixado por: Daniel Oliveira em janeiro 27, 2004 08:34 PM

Meu caro Daniel, a nossa relação está tão bem que caso o namoro continue, ainda temos que arranjar duas testemunhas. É que em relações de facto eu não entro.
Um abraço

Afixado por: Fernando Martins em janeiro 27, 2004 11:18 PM

Fernando Martins,

Já não são precisas testemunhas para casar. Modernices!

Afixado por: Pedro Sales em janeiro 28, 2004 02:16 AM
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