janeiro 27, 2004

A religião do Obélix

Nos últimos dias tenho apanhado um bocado de porrada e sem dúvida porque me pus a jeito para isso. Também procuro devolver.
A propósito das bíblias manuscritas responderam-me em desacordo, se não erro, um católico, o Miguel Marujo da Cibertúlia, e um protestante, o Tiago de Oliveira Cavaco da Voz do Deserto. Não vou insistir muito na questão da laicidade a propósito do projecto de cópia manuscrita da Bíblia: não vivo em Portugal, aqui onde estou vejo mal o que se passa, falta-me informação para avaliar bem. Mas, lendo só a notícia que saiu no Público, mantenho as minhas dúvidas. Penso que se, como diz o Miguel Marujo, a laicidade do Estado se joga "na pluralidade de todas as religiões no espaço público", ela deve ter em conta o peso relativo que essas religiões já têm nele. Estamos, se a distância não me enviesou muito a percepção, a falar de um país em que a presença de actos e símbolos religiosos em actos eminentemente estatais (como a inauguração de estradas) é tão habitual que ninguém se indigna por aí além.
É possível que isto das bíblias manuscritas não tenha importância nenhuma. Aliás, a principal razão porque me "arrepio", como se pode ler no post, é porque é uma iniciativa estúpida, em que não se vai aprender nada. A copiar aprende-se a copiar, mais nada. Copiar na era da "Internet nas escolas" daria vontade de rir a qualquer copista medieval. E copiar umas linhas de bíblia por aluno, por mais que custe à missão civilizadora do Tiago, não vai fazer os jovens portugueses ficarem a conhecer um texto que desconhecem. Ler é outra coisa.
A este propósito, uma última observação: é normal que cada um dos Barnabés individuais seja colado à imagem que o blogue colectivamente transmite. Na blogosfera essa imagem tem muita importância, e ninguém é virgem na matéria. Não me importa nada ser colado a um partido em que nunca votei mas em que espero vir a ter ocasião para votar (o Bloco de Esquerda) e de ser considerado todas as coisas que andam associadas ao Barnabé, para uns boas, para outros más, para mim muito boas. O Tiago, como não me conhece, também não tem a obrigação de saber que a minha relação com o cristianismo é assim como a do Obélix para a poção mágica. Caí no caldeirão quando era pequeno. Mas, se o Tiago me permite, devolvo-lhe o convite para ir escrevinhar versículos para o liceu. Estou farto de que me mandem ir para o liceu. Olhe, vá você.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

Estou consigo AB.
Começo a estar farto dos prosélitos que pregam com os apoios do Estado, ora o Estado somos todos nós, mesmo os que cairam no caldeirão...
Façam como os Mullahs, criem escolas religiosas, e então serão livres de pregar.
Com os meus impostos não.

Afixado por: makako em janeiro 27, 2004 10:45 AM

Eu não me importam que preguem com os meus impostos... Desde que preguem a verdade, a justiça, a igualdade... E não nos façam gastar o precioso, porque curto, tempo, a ter que responder à letra à estupidez que por aqui vai grassando.

Afixado por: jcm em janeiro 27, 2004 11:43 AM

O Tiago da Voz do Deserto está outra vez a ser injusto quando diz que o Barnabé "é um lugar a frequentar com muita reserva porque nunca teve contacto com a Bíblia". Que eu me lembre, já citámos a Bíblia pelo menos uma vez, para atacar Martins da Cruz com Eclesiastes 20:18. O que se passa é que, como quaisquer bons ímpios, somos dissimulados.

Aproveito para mandar um abraço de velho admirador ao André e felicitá-lo. Bravo, rapaz! Já conseguiste juntar protestantes e católicos. Estão mesmo onde a gente os queria. Agora é que é!

Afixado por: rui tavares em janeiro 27, 2004 01:09 PM

Vem a meus braços, meu irmão ateu. Ferpeitamente!

Afixado por: André em janeiro 27, 2004 01:26 PM

Onde nos querias a nós (ímpios crentes?), Rui? Eu, por mim, voltarei ao debate, com mais tempo, noutra oportunidade. E com um abraço aos dois, pois claro!

Afixado por: Marujo em janeiro 27, 2004 04:56 PM

Tanto quanto sei, o ensino público e gratuito (tendencialmente ou não) fez-se com o intuito de possibilitar aos grupos sociais desfavorecidos o acesso a uma posição mais favorável na hierarquia social, contribuindo para nivelamento desta "por cima". Essa melhoria qualitativa depende de muita coisa, mas depende, sobretudo, da elevação do nível cultural das populações tidas como mais desfavorecidas. Para se fruir plenamente de muito daquilo que a história da civilização ocidental hoje nos pode proporcionar, um bom conhecimento do fenómeno religioso, da sua história, é indiscutivelmente imprescindível, por mais agnósticos ou ateus que sejamos. No mundo em que vivemos a presença do cristianismo é (ainda) esmagadora e está por todo o lado: na música, na pintura, na escultura, no teatro, na filosofia, na arquitectura, etc.. Sustentar, portanto, que por ser laico o Estado se deve abster de dar formação religiosa - nomeadamente cristã - a todos os cidadãos é uma atitude que condena à ignorância aquela parte das nossas crianças e dos nossos jovens que, fora do sistema de ensino público e laico, nunca terão possibilidade de conhecer, de estudar e de discutir o cristianismo, de que o Antigo e o Novo Testamento são parte vital. Às crianças que irão (ou estarão a) copiar a Bíblia, apenas podemos felicitá-las porque, independentemente de tudo o resto, irão tomar contacto com uma das mais maravilhosas peças literárias da história da humanidade. Depois disso, tudo poderá ficar na mesma, ou então poderão ser levados a um conhecimento mais aprofundado daquele Livro Sagrado e da história do cristianismo. Tornar-se-ão crentes, beatos, ateus empedernidos? Pouco importa! Mas quando ouvirem a Paixão Segundo São Mateus de Bach ou o Requiem de Mozart, entrarem na Sé Lisboa ou na Igreja de Marco de Canaveses, estarão muito mais perto de poder saber do que é se trata, de apreciar todo o seu valor estético e todo o seu significado histórico. Nesse momento, sobretudo aqueles que tiveram a oportunidade única, ou primeira, nas suas vidas, de melhor conhecer o cristianismo transcrevendo trechos da Bíblia, terão a possibilidade de louvar as infelizmente tão poucas vezes notadas vantagens de um sistema público de ensino laico e democrático. O Estado laico, que tantos crimes políticos e culturais – voluntários e involuntários, evitáveis e inevitáveis – tem cometido ao longo da sua longa história, estará mais uma vez de parabéns!

Afixado por: Fernando Martins em janeiro 27, 2004 06:57 PM

Tens toda a razão, Fernando. O Estado laico é responsável por inúmeros crimes políticos e culturais como as Leis da Separação. Horríveis republicanos. E a nacionalização dos bens do clero? Horríveis republicanos? Que digo eu! Horríveis liberais. Antes disso tudo é que se estava bem. Acabaram com o lindo mundo em que viviam os nossos avós, um mundo de Ordem, de Valores, de Sentido, de Crentes. Um mundo de Pontos Cardeais (e sobretudo de Cardeais). E fizeram esta sopa laica e democrática sem valores. O que vale é que podem aparecer pessoas como o Fernando Martins que, no meio dos escombros, nos vêm explicar, a nós crianças ignaras, o valor histórico e estético do legado cristão.
Mas serás tu um verdadeiro cristão, ó Fernando? A mim pareces-me que és só um esteta. Usas a religião como estética para o teu reaccionarismo de base. Sem ela ele não subsiste. Ainda não inventaram um reaccionarismo laico (e daí sim: nos mais empedernidos dos jacobinos!). Não repares no radicalismo e nas provocações, é que perdi a paciência para adoptar um estilo diferente do teu quando te respondo.
Saudações maçónicas.

Afixado por: André Belo em janeiro 27, 2004 09:17 PM

Tanta raiva, tanto ódio! Logo contra um texto escrito em tom moderado e com conteúdo moderado que nem sequer pretendia ser anti coisa nenhuma e certamente nunca anti-laico, pelo menos contra o laicismo moderado que é uma peça essencial de qualquer Estado moderno, livre e democrático. Vai um ansiolítico?

Afixado por: Fernando Martins em janeiro 27, 2004 09:33 PM

Tanto ar de donzela ofendida! E logo contra um texto que só pretendia espelhar a tua ideologia. Vai um cinto de castidade?

Afixado por: André Belo em janeiro 27, 2004 10:11 PM

o vosso problema, no barnabé e nos outros blogues, é terem tempo livre em excesso. Parecem-me, à primeira vista claro, o que em psicologia se caracteriza por débil simples, mas com um narcisismo exuberante. Permitam-me um conselho desinteressado e em inglês: Get a life!

Afixado por: manuel martins em janeiro 27, 2004 10:51 PM

Enquanto não tenho uma vida - mas na esperança que o meu homólogo Manuel me consiga uma o mais depressa possível - uma letras apenas para dizer que ainda é possível "espelhar" ideologia. Não há maç nenhum nisso. Ou há? Que tal um digestivo, André? Quanto ao cinto, não pode ser. Sou muito macho! Não te abespinhes, arranja uma vida (português oara "get a life")!

Afixado por: Fernando Martins em janeiro 27, 2004 11:16 PM

Manuel: "Get a life" não exprime bem. É melhor dizer-lhes: Get some sense of proportion!

Afixado por: José em janeiro 27, 2004 11:24 PM

e eu que pensava que o nosso blog era cómico! Vocês são os melhores! Vocês levam-se demasiado a sério... a única coisa que achei relevante dessa vossa verborreia toda foi mesmo a questão cultural e histórica levantada pelo F. Martins.

Afixado por: Joca (Paletós) em janeiro 28, 2004 02:01 AM

-E pela última vez, vai cortar o cabelo!

-Não posso, senhor, foi uma promessa.

Afixado por: Efigénio em janeiro 28, 2004 03:55 AM

Caro Fernando,

O teu comentário é muito lindo mas não é verdadeiro. Ensinar a Bíblia seria analisá-la criticamente, confrontá-la com os factos históricos, debater a sua actualidade (ou não). A fruição estética não se impinge, muito menos com ditados ou cópias. Podes levar uma criança a ouvir as oratórias de Bach meia dúzia de vezes e até obrigá-la a trautear uma duas que não será por isso que ela deixará de preferir a Shakira.

Afixado por: J em janeiro 28, 2004 11:00 AM

E, já que o objectivo é meramente exposição cultural, porque não pô-las também a copiar a Odisseia, a República, o Corão, o Kama Sutra e o Mahabarata?

Afixado por: J em janeiro 28, 2004 11:11 AM

"Sustentar, portanto, que por ser laico o Estado se deve abster de dar formação religiosa - nomeadamente cristã - a todos os cidadãos é uma atitude que condena à ignorância aquela parte das nossas crianças e dos nossos jovens que, fora do sistema de ensino público e laico, nunca terão possibilidade de conhecer, de estudar e de discutir o cristianismo, de que o Antigo e o Novo Testamento são parte vital. Às crianças que irão (ou estarão a) copiar a Bíblia, apenas podemos felicitá-las porque, independentemente de tudo o resto, irão tomar contacto com uma das mais maravilhosas peças literárias da história da humanidade."


MAS QUE MERDA É ESTA !?

Fernando, vá-se lixar!
Mas você pensa que isto é o quê! Viver num Estado Laico significa isso mesmo!
Significa que pessoas como você não têm o direito de nos impingir as vossas crenças estúpidas! Era o que mais faltava estarem a ensinar a um filho meu a doutrina cristã! Você tem ainda o desplante de chamar ignorantes àquelas pessoas que não pertencem à mesma seita que o senhor e que não conhecem a palavra(TUDO EM MINÚSCULAS!). Ignorante é você e os da sua laia!
Aliás, não são só ignorantes, são também racistas e etnocenristas! E por que carga de água não há-de ser o Islamismo ou o Judaísmo ensinados na escola (para além de razões óbvias!), pois, claro, a cultura do ocidente é sempre melhor!
E para culminar, acha-se o maior especialista em literatura de que há memória! Para você, a bíblia até pode ser "uma das mais maravilhosas peças literárias da história da humanidade.", já não espero muito de si, contudo, isso não significa que para todas essas crianças o seja!

Afixado por: _achtung_ em janeiro 29, 2004 12:23 AM
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