Logo agora que tenho tanta preguiça e tanto trabalho, pus-me a ler um daqueles livros que pede uma leitura lenta, a desfrutar os ambientes, como nos bons filmes. No outro dia, estava eu a entrar na FNAC da rue de Rennes e — isto mesmo comigo a acabar de entrar na loja, como se houvesse ali um plano qualquer — ouço o altifalante: "lembramos que no 1° andar desta loja o escritor inglês David Lodge vai agora fazer a apresentação do seu novo livro...". Corri, pois David Lodge é um dos escritores actuais de que realmente gosto e era a ocasião para ver ao vivo o Autor, o Autor. Este é precisamente o nome do último romance de Lodge, que começa com a morte do escritor anglo-americano Henry James e depois volta atrás para falar de momentos centrais da vida deste e das pessoas que fizeram parte dessa vida. O escritor, a vida do escritor (e na vida Lodge inclui o corpo, a inveja, a frustração, não apenas a alma e a aura literária), é o objecto do romance. Lodge é rigorosamente fiel aos factos da biografia de James, apenas inventa uma personagem insignificante, para além, é claro, de tudo o resto e que é muito (diálogos, sentimentos dos personagens, imaginação de lugares e ambientes). O que coloca evidentemente a obra do lado da ficção: a biografia de James funciona essencialmente como constrangimento criativo. E para aqui ando a ler o livro e a fascinar-me com a forma como o romancista cumpre a função que neste caso é a dele: a de apagar bem as passagens, de modo a que ninguém as note, entre os documentos históricos e aquilo que inventa. E talvez pela primeira vez dá-me a vontade de fazer uma recensão a uma obra de literatura. Mas não sei se farei, porque quanto mais devo trabalhar mais preguiço.
Publicado por andrebelo em
E conseguiste um autógrafo? Ai quem me dera estar aí também.
Afixado por: Clara Belo em janeiro 18, 2005 10:54 AM