
A recepção da carreira literária de Chico Buarque é capaz de ter sido, até agora, prejudicada pela excelência da sua outra obra – enquanto compositor, poeta para música, e cantor. Digo isto porque para mim foi-o certamente. Chico Buarque escreveu quatro peças de teatro (Roda Viva, Calabar, Gota d'água e Ópera do malandro), uma novela (Fazenda modelo) e, já na maturidade literária, três romances: Estorvo, Benjamim e Budapeste. Vendo esta lista, e excluíndo Ópera do Malandro porque também existe como álbum musical, reparo que dos primeiros li apenas Fazenda Modelo, que se bem me lembro era uma espécie de distopia rural inventiva e engenhosa que hoje me faz pensar, talvez errando na memória, no Animal Farm de Orwell e em Um Copo de Cólera de Raduan Nassar.
Isto apesar de (ou precisamente por causa de, como defenderei) desde cedo ter sido educado a regime de Chico Buarque de manhã à noite pelos meus irmãos.
Quando, após anos de afastamento da literatura, saiu Estorvo, fui um dos que comprou imediatamente o livro. O problema é que a quase-perfeição da música de Chico Buarque coloca o horizonte de exigência demasiado alto. Se fosse um livro de outro autor, talvez tivesse ficado com vontade de o seguir. Mas era um livro "de Chico Buarque". Quando terminado, Estorvo era um bom romance, mas não se aproximando da "outra" obra do autor, deixava um gosto a desilusão.
Quando saiu Benjamim, o segundo romance da maturidade, não fiz esforço para o procurar ler.
No mais recente livro de Chico Buarque, Budapeste [ed. Companhia das Letras; ed. port. será da Dom Quixote], a editora decidiu colocar um excerto do início do romance logo na capa. Não sei se foi propositado, pode não ter sido por nenhuma razão em particular, às vezes faz-se isto por maneirismo. Mas tem certamente a virtude de dar logo a ver, a quem tenha medo de se desiludir, que isto não é um livro simplesmente bom, como Estorvo. Que isto, afinal, é outra coisa:
Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo.
Quando se abre o livro e se lêem, ainda na livraria, as primeiras páginas, verifica-se que há mais e até melhor de onde aquele veio. E acabou. Já estamos nas mãos dele. Se aquele é o tipo que fazia a música da nossa infância não têm a mínima importância.
Como quem não quer a coisa, palavra atrás de palavra, facto atrás de facto, a intriga toma caminhos estranhos. O protagonista é um escritor de discursos para políticos e colunistas de jornal, pago, confidencial, com brio profissional e vaidade no seu trabalho quando vê as pessoas no café comentar a frase do candidato, o achado do cronista, a gravidade do editorial. O protagonista é um homem que não sabe se ama a sua mulher, que tem medo que ela não o ame. O protagonista é um homem que acabou de tropeçar e cair numa língua estranha e com isso perdeu o seu eixo. Daí surgem palavras em húngaro, frases em húngaro, desejo de ouvir falar uma língua que não se compreende. E depois o romance sai disparado aos solavancos.
Costuma muito falar-se em page-turners, ou seja, livros que não se consegue abandonar. Budapeste é certamente um desses livros mas não pelas razões habituais, que são muitas vezes agradáveis. Não conseguimos abandonar o livro porque a partir do momento em que a vida do protagonista se estilhaça a escrita parte numa corrida desenfreada por fazê-lo sair do sufoco e nós, enquanto leitores tomados de asfixia, queremos sair também. Talvez seja dos verdadeiros page-turners, não aqueles que queremos continuar a ler porque gostamos deles ou para ver como acaba, mas como aqueles em que somos mero instrumento das páginas que se querem virar sozinhas.
Mal damos por isso estamos em Budapeste e vivemos com uma húngara chamada Kriska. O protagonista de nome banal, José Costa, tornou-se num duplo invertido, os húngaros torceram-lhe, como é sua tradição, o nome, acham que o seu nome próprio é Costa, Kosta Zsoze. Mas agora, chega. Como uma pessoa que nada mal e está no meio duma piscina, o remédio é dar aos braços e chegar ao outro lado logo. Com esta mesma urgência Chico Buarque é bem capaz de se ter chegado à frente na literatura na nossa língua. O malandro.

Aconteceu-me praticamente o mesmo. Não consegui terminar o Estorvo. Seduz-me a sinopse deste Budapeste. Mais propícia à extravasão do génio criador do Chico.
Afixado por: thirdbacus em janeiro 29, 2004 07:31 PM"um copo de cólera" ou "lavoura arcaica"?
abraços dos marrabenta
miserere nobis
Faz-me lembrar mais o Copo de Cólera, apesar do Lavoura Arcaica ser reconhecidamente o melhor dos dois.
Afixado por: rui tavares em janeiro 30, 2004 02:23 AMEsclareça-se que em húngaro o apelido vem em primeiro lugar e o nome próprio depois. As pessoas são tratadas pelo nome próprio, em qualquer caso.
E os amigos tratam SEMPRE os seus amigos pelo diminutivo.
Afixado por: Pedro Sá em janeiro 30, 2004 01:46 PMEsclareça-se também, a quem interessar, que na Hungria não trocam o nome aos estrangeiros. Os próprios hungaros nos business cards em Inglês ou Alemão apresentam os seus nomes à europeia. Quanto à utilização dos nomes próprios e apelidos existem vários niveis de formalidade. Tal como em Portugal existe o Senhor (Úr), o Doutor (só para médicos e advogados e aparece em todos os documentos oficiais - incluindo passaporte!!!), e a terceira pessoa.
P.S: Budapeste é uma cidade a visitar e conhecer.
Afixado por: dmarques em janeiro 30, 2004 02:54 PMTambém me deixou esse sabor a pouco, o Estorvo... Mas tu deixaste-me com água na boca...
Afixado por: cm em janeiro 30, 2004 11:40 PMOlá, eu vim cá ter a este blog que é muito interessante e li Budapest; é onde nasci e é aonde temos todos que ir. A cidade é maravilhosa e aconselho todos os que possam para ir até Budapest...
Afixado por: Sphinx em fevereiro 21, 2004 03:42 PMSó um pequeno reparo: "quase perfeição", não! A absoluta perfeição da música e da poesia de um dos maiores génios musicais de sempre e, seguramente, o maior entre os maiores da, já de si superlativa, música popular brasileira. Com Chico, o reconhecimento do Génio não é uma mera constatação formal mas uma enorme emoção, que se renova diariamente, em cada canção sua, escutada uma e outra vez.
Vou já ali comprar o livro.
Chico é hors-concours em tudo: como poeta, ficcionista, compositor de música popular, dramaturgo, ficcionista e, principalmente, como BRASILEIRO!
Concordo qto à superioridade de Budapeste.Mais uma vez a palavra se fez poesia. Parabéns ao artesão da palavra!
fantástico...
esse foi o primeiro livro do chico que lí, e me alivia a idéia de já ter começado pelo melhor.Sempre apaixonada pelas músicas dele, o livro apenas aumentou meu sentimento.
beijos.
Eu gostei de "Estorvo", e aburreume un pouco "Benjamim". Verei por facerme con ese "Budapeste" que xa me leva rondando pola cabeza desde hai moitos meses, cando souben da súa aparición no Brasil.
Afixado por: Martin Pawley em agosto 1, 2004 08:29 PMAinda não consigo acreditar que li Budapeste em menos de um dia, e que agora que terminei não há mais o que ler...
O livro é maravilhoso!
Eu amei Budapeste. Adorei o que você disse sobre as páginas que se querem virar sozinhas, bem profundo. Excelente texto. Parabéns.
Afixado por: Beatriz em outubro 16, 2004 06:34 AMentrei nesta página para ver se encontraria algum resumo sobre o livro do tão ilustre,adorado,admirado e iluminado compositor e escritor,meu ídolo Chico Buarque,Budapeste,pois tenho que fazer um trabalho sobre ele e só tenho 1(um)dia para lê-lo e entregar o trabalho na faculdade uma boa arguição me valerá um 10(dez).
O negocio é ão perder tempo e ler logo o livro ,pois a hora esta passando. obrigado pela atenção e pelo incentivo de fazer eu ler o livro todo já que só encontrei nessa página só elogios a mil sobre esse tão bem falado livro. valeu, fuiiii!!
Estou a ler o livro Budapeste. Tenho pena de não ger tempo para o ler de uma vez, mas a vida obriga a que me separe dele de manhã
Afixado por: leonor besugo em novembro 29, 2004 06:10 PMEstou a ler o livro Budapeste. Tenho pena de não ter tempo para o ler de uma vez, mas a vida obriga a que me separe dele de manhã. Mas do Chico até o respirar tem valor.
Afixado por: leonor besugo em novembro 29, 2004 06:11 PMEstou a ler o livro Budapeste. Tenho pena de não ter tempo para o ler de uma vez, mas a vida obriga a que me separe dele de manhã. Mas do Chico até o respirar tem valor.
Afixado por: leonor besugo em novembro 29, 2004 06:11 PMEstou a ler o livro Budapeste. Tenho pena de não ter tempo para o ler de uma vez, mas a vida obriga a que me separe dele de manhã. Mas do Chico até o respirar tem valor.
Afixado por: leonor besugo em novembro 29, 2004 06:11 PMEstou a ler o livro Budapeste. Tenho pena de não ter tempo para o ler de uma vez, mas a vida obriga a que me separe dele de manhã. Mas do Chico até o respirar tem valor.
Afixado por: leonor besugo em novembro 29, 2004 06:13 PM