Enquanto o realismo e o bom senso governativo chegam à esquerda rebelde, o pensamento utópico, já se sabia, foi alojar-se na direita. Um exemplo é o Presidente da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (só o nome é um programa. António Barreto, M. Filomena Mónica, Pulido Valente! Onde estão os críticos do pedagoguês quando mais precisamos deles? Tá a acordar, people!), Diogo Vasconcelos, que escreveu ontem no Público lindas palavras líricas, demonstrando uma fé inabalável na construção de uma nova sociedade. Um excerto: "Os caminhos de saída para as crises múltiplas em que ainda vivemos, os roteiros para a criação de uma dinâmica construtiva, os horizontes do desenvolvimento português passam, precisamente, pela reforma das reformas: a de substituir uma sociedade tradicional, inoperante, fechada no seu próprio círculo vicioso, por uma sociedade moderna, inclusiva, aberta às forças internas e externas de mudança". Curtam-me só as palavras, que podiam ser usadas em física e em termodinâmica, tão típicas da ideia de progresso. Se se quisesse sublinhar aqui todas as palavras que dão ideia de movimento, direcção ou mudança, só sobravam preposições e artigos.
Mas é neste momento de crença colectiva algo irracional nos amanhãs que cantam, em que a Ideia contagia a Vontade, que a direita pode aprender alguma coisa com o património, de recordação por vezes dolorosa, da esquerda. É por isso bom lembrar as dúvidas que já exprimia Zeca Afonso: "Será que existe/ lá para os lados/ do Oriente/ Este rio, este rumo, esta gaivota...?"
A mim parecem-me mais palavras de romance daqueles tiradas que se escrevem para encher página.
Somos todos líricos.
Considero que existe uma diferença entre as actuais esquerda e direita.
Há 30 anos a esquerda inovou (essecialmente para mal - a meu ver) e a direita estava estagnada.
Hoje, Portugal está mais próximo do que a esquerda sempre pretendeu para o nosso país do que da direita.
Esta é a razão para o facto de a direita ser, como afirma, utópica.
Mas não me parece que o seja. O que se passa é que a sua esquerda parou. Não tem ideias nem projectos. Baseia-se e cultiva-se na crítica à mudança.
O André Belo chama-lhe "bom senso governativo". Eu chamo-lhe tristeza.
http://observador.weblog.com.pt
Afixado por: André em fevereiro 3, 2004 12:13 PMAh! grande Zeca! Como tu nos fazes falta...
Estás mesmo a ver, não é? A "sociedade da informação e do conhecimento" é mesmo o que faz falta ao pastor transmontano, ou ao guardador de porcos do Alentejo...
Ah! arautos do progresso, carago!!!
O André tem razão. Os utopicos e os doutrinarios dos dias de hoje são maioritariamente liberais. Fariam bem em ler mesmo os autores que apregoam, e ja' agora, se não lhes der um crash do sistema operativo, "A grande transformação" do Karl Polanyi.
Se calhar também la volto esta noite, entre três ou quatro artigos académicos, o Kierkegaard, o Harry Potter e o indispensavel "O meu pipi" na casa de banho. Em todo o lado nos podemos treinar para Marcello ;-)
Afixado por: Vasco do Ginjal em fevereiro 3, 2004 02:01 PMHá gente neste governo que tem feito um trabalho notável na área da sociedade da informação, implementando medidas progressistas e de relevo na área das tecnologias. As redes wireless, o programa "e-u", são disso exemplos. O barnabé André, emigrante num país civilizado, homem atento e dado à cultura, prefere centrar as suas atenções nas palavras utilizadas pelo presidente da UMIC quando este de algum modo partilha as suas esperanças e fala do seu trabalho, assim como pôr a tónica na designação do projecto governamental. As bandas largas não interessam nada pó caso.
Afixado por: STP em fevereiro 3, 2004 02:35 PMCaro STP: deu os únicos exemplos de alguma actividade por parte da UMIC (não vem aqui ao caso o facto de ambas serem dirigidas às empresas que lucram com a venda de equipamento, disfarçadas de "grande empenho em dotar as universidades de infraestruturas", pois essas já lá estavam...).
Não há mais exemplos de actividade da UMIC.
André Belo centrou-se na vacuidade das palavras de Diogo Vasconcelos, que articulou um discurso aplicável a qualquer situação/lugar/política. Fez bem: chama a atenção para o vazio de ideias e acções que define a política deste governo para o sector.
Esta é a Semana da Banda Larga, diz a UMIC. Eu celebro-a à minha maneira. Num post de resposta a Vasconcelos (A banda larga em que não acredito) e numa peça política sobre A nossa (risos) Sociedade da Informação e do Conhecimento. Ambos os artigos fazem Trackbak para este post de André Belo.
Afixado por: Paulo em fevereiro 3, 2004 03:41 PMNo DN escreveu qualquer coisa como isto: "Dispor de banda larga é uma aspiração óbvia de qualquer cidadão da sociedade global do início do século XXI". Se vocês soubessem o que ele dizia antes de mandar na UMIC...
Afixado por: filinto em fevereiro 3, 2004 03:49 PMSTP,
O texto é um chorrilho de chavões, como já aqui foi dito. O que eu acho extraordinário é a defesa abnegada que faz do "trabalho notável na área da sociedade da informação" feito pelo governo. Não brinque com coisas sérias:
Segundo dados saídos ontem, Portugal é o país da OCDE com menor número de computadores por aluno: 1 para 14, quando a média é de 1 para 9.
E os preços da banda larga? Como é que se aceita que Portugal tenha dos preços mais caros da União Europeia. Pior, pagamos caro e com pouca qualidade. Na Bélgica, pelo mesmo preço que a Netcabo, a transmissão é feita a 1600 kbs por segundo, contra os 512 da Netcabo. Banda larga de velocidade moderada, eis uma inovação cá do burgo.
E o oligopólio da PT? Ausente, tem sido este o papel do governo na limitação desta "concorrência" entre 3 empresas do mesmo grupo: Sapo, Telepac e Netcabo. Como a maioria chumba todas as propostas anti-concentração, a maioria dos portugueses (a excepção são os clientes Netvisão) não consegue ver as chamadas telefónicas incluídas no serviço da netcabo.
Afixado por: Pedro Sales em fevereiro 3, 2004 06:08 PMCaro STP: Eu, exactamente por estar emigrado e não querer falar do que não sei, pronunciei-me só sobre o ridículo da "literatura" inclusa à Banda Larga. Pelos vistos, há também muito quem ache que esse "trabalho notável" do governo é muito discutível...
Afixado por: André Belo em fevereiro 3, 2004 09:31 PMAndré, STP e Paulo: O Diogo, que conheço e pessoalmente até gosto muito dele (não, não sou político), era o porta-voz do governo-sombra do PSD para a ciência e tecnologia e vimos no que deu: despacha a ciência para outro lado e cria-se o UMIC para fazer as contas (ele acha que tudo se resolve com benchmarking - pod estar mal escrito - e gestão criativa).
Se bem me lembro uma das propostas era avançar com especificidades no âmbito da Administração electrónica, tratar de arranjar uma forma Logística de aquisição de bens para o Estado (em português corrente "comprar por atacado"), avançar para o e-gov nacional e local... Se bem me lembro estão todas adiadas e por cumprir.
O pior é que a oposição, nomeadamente a oposição que é responsável pela carta de Lisboa (o PS) abstém-se de fazer oposição. Acho que o zé magalhães tentou dizer qualquer coisa, mas o Luís Nazaré, por exemplo, anda completamente a dormir (digo isto em termos oficiais por que não tenho lidos as crónicas do Jornal de Negócios).
É pena que o site da Ideiasenegocios.com (fundada pelo Diogo) esteja em baixo porque perdem-se os arquivos do que está dito aí. É pena que o Diogo se tenha perdido na política, mas se calhar não é de estranhar. É bom que o Paulo e o STP ainda consigam lembrar-se daquilo que a UMIC fez, eu sinceramente só me lembro de umas conferências para meia dúzia de maduros... se não era sobre a banda larga era sobre a concentração das telecoms (que nos levaria a outra discussão).
No Coliseu, na que viria a ser a despedida, o Zeca apresentou uma canção nova, que terminava assim:"Sou como o morcego/Vejo sem ver/Sou como o sossego/Sei esperar..."
Chama-se, como sabes, "Canção da Paciência", mas poderia chamar-se também "Canção da Sabedoria"...
A falta de bom senso parece ter sido apanágio da esquerda em geral, senão vejamos, sempre que a esquerda chega ao governo provoca o caos e deixa ou foge deixando um rasto de desordem e anarquia.
Interessante é também a mudança de objectivos e a crescente ambição de querer chegar ao poder, apetecível não é. Será que nos próximos tempo vamos assistir a uma colagem do BE ao PS?
http://vozcritica.blogspot.com/2004_02_01_vozcritica_archive.html#107589511716154631
Afixado por: vmga em fevereiro 4, 2004 04:14 PMVmga,
Parece que te enganaste no post. Olha que é azar, logo agora que os barnabés perderam um ou dois dias a discutir o assunto entre eles. Chegaste atrasado. Talvez seja apanágio da direita.
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Afixado por: Jacob em abril 27, 2004 07:20 AM