fevereiro 15, 2004

Esquecer a mentira com outra mentira

O nosso maradona escreveu, no dia 11 de Fevereiro, um texto sério ( Encómios à parte...), a atirar-se ao Pedro Mexia, que a direita, que anda mansa e sem saber o que dizer, aplaudiu com alívio. Não vou defender o Pedro, que isso é uma coisa lá entre direitosos e a minha ajuda só lhe pode causar problemas. Eles, que são brancos, que se entendam.
De tudo o que maradona disse, retenho três coisas:
1. A existência da ADM era apenas um dos argumentos.
2. A guerra faz-se por causa da conjugação de muitas razões, entre as quais a possibilidade do outro nos poder vir a atacar, seja porque sofre de desequilíbrio hormonal, seja porque é tarado, seja porque tem esse vicio, seja porque sim.
3. O mais importante de tudo era que o Iraque era uma ditadura sanguinária.

Respostas merecidas, porque ele é freguês cá da casa:

1. Quase todos os que defenderam a guerra (e não apenas Bush e Blair) usaram e repetiram até à náusea o argumento das armas. Hoje sabemos que não acreditavam nele. Registado: era apenas o argumento mais eficaz. Os aliados apoiaram a guerra usando o mesmo argumento. Os inspectores independentes foram obrigados a sair do Iraque porque disseram que precisavam de mais tempo (hoje sabemos que nem com mais tempo lá chegariam). A resolução das Nações Unidas que serviu de argumento para começar a defender a guerra era, no essencial, sobre o controlo ao fabrico de ADM. Se tudo isto é apenas uma má gestão do processo, estamos conversados. A verdade é esta: o direito internacional já não vale nada para esta gente. Nem a ONU, nem as regras da guerra e da paz. Ou seja, com esta gente o Mundo volta ao período pré-Guerra Fria, o que nos ofereceu duas guerras mundiais.

2. Defendendo a intervenção para impedir um ataque futuro, o maradona justifica o conceito de guerra preventiva. A guerra preventiva destrói qualquer possibilidade de regulação internacional dos conflitos e acaba com o velho princípio de que a guerra se faz quando a política já não consegue resolver os problemas. Se guerra se faz ainda antes dos problemas porque achamos que um dia eles podem acontecer, todas as guerras passam a ser legitimas. Esta lógica é a que olha para a guerra como uma coisa banal e não como algo de intrinsecamente errado, mesmo que por vezes inevitável. É o relativismo moral da direita. Mal por mal, prefiro o da esquerda.

3. Volto ao do costume: se o problema para o Mundo (para os iraquianos era de certeza muito mais do que um problema) era o Iraque ser uma ditadura sanguinária (não insisto nas velhas relações de Saddam), então a coerência obriga a várias intervenções militares rapidamente e em força: China, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Iémen, Vietname, Líbia, Irão e por aí adiante até chegarmos a quase metade do planeta. Claro que ninguém leva a sério (espero) tal possibilidade. O Mundo arranjou outras formas de o fazer: a pressão internacional, a diplomacia, a solidariedade e o apoio a movimentos de oposição, quando os há. Não serão as mais eficazes, mas são as menos arriscadas. Qualquer conservador compreende este raciocínio. A intervenção militar para derrubar ditaduras (já para não referir a falta de legitimidade que os EUA têm para este tipo de intervenções) tornaria o Mundo num lugar à beira da destruição global. Essa nunca foi nem nunca será uma razão para se fazer uma intervenção militar.

As razões, as verdadeiras, as que foram dadas internamente pelos neo-conservadores, desde o primeiro dia em que o seu idiota inútil tomou posse, todos ficámos a saber e a direita recusa-se sempre a discuti-las, foram outras: o controlo estratégico do Médio Oriente, criando no Iraque um novo pólo de intervenção na região; o controlo de uma das principais fontes de energia para o EUA; o aviso a todas as potências regionais que, em cada lugar, saiam dos carris definidos pelas várias administrações norte-americanas; e a destruição sistemática da regulação internacional dos conflitos, assumindo definitivamente a lógica do direito imperial de intervenção.

Maradona e o resto da direita podem concordar com estes princípios e então vamos discuti-los. Não podem é, para se livrarem de uma mentira, repetir outra. É que a ditadura existia – essa ninguém precisava de procurar –, mas a intervenção nada, nem por um segundo, teve a ver com ela. Estamos só perante mais um pretexto, não de uma razão. E maradona e a direita que por este caminho resolveu agora ir sabe isso tão bem como eu.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

right on target:

http://www.wnd.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=37064

Afixado por: patty em fevereiro 15, 2004 05:59 AM

O que mais chateia é que, não tendo os defensores da guerra nenhuma razão, lá se mataram uns milhares por causa disso e lá se criaram mais uns focos de conflito para uma eventual futura intervenção algures, quando outros sem razão acharem que mais vale prevenir do que remediar e largar umas bombas antes que outros o façam. Se o direito internacional foi substituido por esta lógica (e tudo incida que sim, embora só unilateralmente), então parece-me que devíamos prevenir-nos contra futuras guerras e começar já a bombardear os Estados Unidos... (Na realidade, e antes que algum 'comentarista' se enerve, não me parece nada disto... mas é o que a lógica dos senhores da guerra me oferece!).

Afixado por: Sara Figueiredo Costa em fevereiro 15, 2004 12:32 PM

Alto Lá. A China já não é uma ditadura sanguinária

Afixado por: Luis Lavoro em fevereiro 15, 2004 12:32 PM

Prosseguindo o pensamento da Sara ( e também previno que é uma brincadeira, não se ponham com coisas!) porque é que o Pentágono não abre os seus portões aos inspectores da ONU para confirmar que não se fazem por lá ADM? Oh Diabo, e se fazem?

Afixado por: L.G. em fevereiro 15, 2004 02:15 PM

Sim, porque se a guerra preventiva passou a ser subitamente boa onda, o melhor que temos a fazer é pegar em todos os arsenais nucleares do mundo e atirá-los para os Estados Unidos. Com aquilo radioactivo durante um milénio ou dois, já não corremos o risco de eles lá decidirem de repente que nós por cá somos um risco potencial daqui a 100 anos e virem desalvorados atravessar o Atlântico invadir-nos com as suas ADMs.

Certamente que o maradona concordará com o raciocínio, a não ser que esteja convencido de que os americanos são incapazes de fazer uma coisa dessas porque são intrinsecamente bonzinhos, pensamento que fica mal ao pessimismo sociológico que qualquer direitista digno desse nome deve ostentar sob pena de se tornar incoerente. Quando o pessimismo sociológico só serve para justificar algumas coisas, estamos mal.

Claro, concordando com isto o maradona também estará a concordar com a legitimidade do ataque preventivo da Al Qaeda a 11 de Setembro, embora talvez sinta um certo alívio por não ter sido inteiramente eficiente e não ter atingido nem a Casa Branca nem uma zona vital do Pentágono como parecia estar nos planos. E se não concordar, deve ter uma dificuldade do caraças a explicar a incongruência. Com imaginação suficiente, tenho a certeza de que chega lá, mas mesmo assim eu é que não queria estar na pele destes direitistas que andaram a brandir mentiras descaradas como verdades e a apoiar o terrorismo de estado sob falsos pretextos. Deve ser cansativo passar a vida em contorcionismos deste género. Mesmo que se seja desprovido da mais mínima capacidade de auto-avaliação moral. Mesmo que não se consiga sentir repugnância por si próprio.

Afixado por: Jorge em fevereiro 15, 2004 02:31 PM

Não percebi se o Luis Lavoura estava a brincar ou a sério. Era a brincar?

Afixado por: L.G. em fevereiro 15, 2004 03:30 PM

Tendo aparecido aqui um comentário assinado "Luis Lavoro", quero esclarecer que essa pessoa, seja quem fôr, não deve ser confundida comigo. Eu sou Luís Lavoura.
(Mas, é fácil falsificar a assinatura de seja quem fôr.)

Afixado por: Luís Lavoura em fevereiro 15, 2004 03:46 PM

Enfim, em ambos os casos 'trabalha-se'.Qualquer dia as caixas de comentários começam a exigir o número do b.i.

Afixado por: thirdbacus em fevereiro 15, 2004 04:24 PM

O que vocês se dão ao trabalho...
E as mamas da Winona Ryder? Nem uma palavra?

Afixado por: O Prusidente da Junta em fevereiro 15, 2004 04:55 PM

Não me leve a mal o Daniel Oliveira que é homem inteligente mas já reparou que no seu comentário escreveu sei lá quantas vezes «Maradona». Que eu saiba Maradona ou maradona há só um e mais nenhum. Certamente que este, o do pontapé na bola, que ocupou os neurónios do Daniel... Ignorava que tinha um blog, o Maradona.
Desculpe lá, mas isto não parece um episódio qualquer de uma qualquer série menos conseguida da BritCom.
Repare na sinopse: Um homem chamado Daniel Oliveira escreve a Maradona.

Afixado por: Mafalda em fevereiro 15, 2004 05:45 PM

O que é que quer que eu faça? O autor do blogue assina maradona (com minuscula). É uma figura incontronável da blogosfera, não conhece?

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 15, 2004 06:42 PM

Pelos vistos, a Mafalda contornou a figura incontornável.

É o acontece quase sempre com as figuras incontornáveis: há sempre quem as contorne.

;)

Afixado por: Jorge em fevereiro 15, 2004 11:32 PM

Sara Figueiredo Costa,

os Estados Unidos já comecaram a ser bombardeados, não se lembra?
Pelo que disse, deduzo que bateu palmas com o ataque de 11 de Setembro.

Afixado por: Heroi do Silêncio em fevereiro 16, 2004 12:41 AM

Ái Herói do Silêncio, você e as suas deduções. Se é para voltar à vaca fria, mais vali que fizesse juz ao seu nome.

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 16, 2004 01:03 AM

Obrigado pela atenção, Daniel. Não precisavas. Não admito é que me chamem “contornável”: comigo, se passa a bola, não passa o jogador. Querem ver a carga por trás que vou fazer ao Daniel sem o árbitro ver?

Não tem sentido prolongar muito esta discussão. Ia-mos mastigar mais umas vez os mesmos argumentos, continuar surdos ao que não nos interessa, e eu continuaria com toda a razão. Nem me mostro ofendido com o fingimento da Sara quando se diz preocupada com os mortos desta guerra, e até dou um abraço ao Jorge apesar de não ter percebido nada do comentário dele.

Gostava só de anotar uma evidente falta de concordância lógica no discurso do Daniel, falta de concordância essa que me complica um pouco com os nervos, admito, mas, como já falei pessoalmente com ele e a firmeza de carácter nunca foi o meu forte, tentarei corrigi-la na maior das calmas (isto é: sem aplicar toda a minha altura). Primeiro, uma fábula quase verdadeira:

Por duas razões, ontem almocei peixe grelhado. Primeiro porque havia peixe fresco na praça da Costa-da-Caparica (no caso, salmonetes); segundo porque estavam a menos de 25 euros o quilo (que já os vi a 45). Se os salmonetes estivessem com ar de terem andado a dar a volta ao mundo com o Willy Fog eu não tinha almoçado salmonetes, mesmo que custassem dois cêntimos a tonelada; se os salmonetes estivessem a 45 euros o quilo eu também não tinha almoçado salmonetes, mesmo que ainda estivessem agarrados à cana de um pescador.

O Daniel ficou assim a saber que eu aprecio particularmente locais onde exista peixe fresco a preço acessível. Como é uma pessoa que irradia simpatia e boa vontade, não me admiraria nada que, se a vida assim conspirasse e acabássemos amigos, me forneceria toda a informação que lhe chegasse aos ouvidos sobre locais onde se comprasse peixe fresco a menos de 5 contos o quilo. Não o imaginaria a aconselhar-me, por exemplo, uma banca onde se vendesse peixe podre, só porque é barato; ou uma peixaria com material de primeiríssima qualidade, mas ao preço do caviar recheado a trufas brancas.

Diz o Daniel que eu defendi a guerra por uma “conjugação de muitas razões”. Concordo. Sucede que ele não incorpora na sua amável resposta todas as conclusões necessárias da sua própria interpretação do que eu disse, o que, na melhor das hipóteses, será caso para uma revisão às leis da boa contra-argumentação. Pelo contrário: responde-me como se nunca tivesse entrado em contacto com o pensamento “aquele palhaço do maradona defendeu a guerra do Iraque por uma conjugação de razões”. Só assim se explica que depois utilize o velho remoinho de que

“se o problema para o Mundo (...) era o Iraque ser uma ditadura sanguinária (...) então a coerência obriga a várias intervenções militares rapidamente e em força: China, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Iémen, Vietname, Líbia, Irão e por aí adiante até chegarmos a quase metade do planeta”

e que acabe com a frase

“Essa nunca foi nem nunca será uma razão para se fazer uma intervenção militar.”

Comete então o Daniel a proeza de avaliar a coerência do meu discurso a partir de uma única das razões que eu dei para justificar a guerra (que era uma “ditadura sanguinária”), mesmo admitindo que eu a defendi por um conjunto “de razões”. Temos acrobata.

Sei que não será difícil de perceber que estamos perante um argumento inválido no contexto do meu discurso. Estou a insinuar que o Daniel utilizou a demagogia? Utilizou, claro. Se voluntariamente ou por discuido, cabe a ele responder.

O certo e sabido é que eu só gosto de peixe que seja simultaneamente fresco e barato. Um belo sargo de quilo fresquíssimo mas que custe dez contos, com muita pena minha, não me serve (a carteira, que o estômago...). Uma magnifica cabeça de garoupa de quatro quilos e seiscentas gramas, mas podre, lamento, mas também dispenso.

A “China” não serve neste momento para invasão porque tem demasiada gente e é, no imediato, o grande motor da economia mundial. A “Coreia do Norte” não tem no seu subsolo riquezas de que dependamos no imediato. A “Arábia Saudita” tem estado tal qual cordeirinho a inundar o mercado de petróleo quando a Venezuela faz greve (mantendo assim a coisa bem abaixo dos trinta dólares) e deixa-nos atacar outros países a partir do seu território. O “Iémen” é estrategicamente tão importante como Freixo-de-Espada-a-Cinta. O Vietname ainda pesa muito na psicologia americana. A Líbia está entalada entre a Argélia, o Egipto, o Sahara e a Europa, para além de já ter começado a colaborar aqui com os imperialistas e dando todos os dias gritos de abertura. O Irão, bem, o Irão se não se põe na linha e as coisas correm para o torto ao Mushraff.... não sei, não sei....

Estamos entendidos quanto ao aspecto que me incomodou? Fala da “mentira”, do mundo “mais perigoso”, de que não serve os nossos interesses, etc, etc, etc. Agora falta de “coerencia”? Em sistemas tão complexos como o das relações internacionais, demagogo é o único apelido de quem se imagina “coerente”.

Afixado por: maradona em fevereiro 16, 2004 02:23 AM

maradona,

O que eu disse foi:
O maradona quiz comprar um salmonete por uma conjugação de razões: porque é barato e é fresco. Mas, esta é a verdade:
1. O salmonete não é barato (apresento-te a tabela de preços praticados na concorrência)
2. O salmonete não é fresco (em anexo, segues testes de qualidade feitos por reputados veterinários e aprovados pela sua Ordem)
3. O salmonete nem sequer é um salmonete. Não passa de um carapau mal amanhado (apresento-te um depoimento de uma peixeira de Bulhão, que se deslocou expressamente à Costa da Caparica para verificar a espinhas do bicho que sobreviveram ao teu almoço).

E tu respondes:
O Daniel diz que eu comprei o salmonete por uma conjugação de razões e depois diz que o salmonete não era barato e compara os preços em vigor nos vários mercados, da Costa da Caparica até à Fonte da Telha, esquecendo-se que eu falei de uma conjugação de razões.

Eu falei de todos os teus argumentos - não deixei nenhum de fora. Se todos forem inválidos, a conjugação morre no vácuo.

Bem, que cheirete a peixe! Por favor, volta às tuas metáforas futebolísticas.

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 16, 2004 05:36 AM

Já agora, foste dando todos os argumentos de oportunidade, nunca os de legitimidade, para intervenções em cada país. Repito: a guerra é intrinsecamente errada, mesmo que por vezes seja inevitável. Tu pareces defender que ela é coirrecta, mesmo que às vezes seja não seja possível faze-la. Só as guerras impossíveis de não fazer podem e devem ser feitas.

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 16, 2004 05:38 AM

"Já agora, foste dando todos os argumentos de oportunidade, nunca os de legitimidade, para intervenções em cada país."

Tem sentido, esta critica. Seria muito complicado para mim tentar desmonta-la (ainda que execuivel, pois, como sabes, tenho toda a razão...), e acho que por aí, com boa vontade e boa dose de construtivismo, talvez um dia até possamos chegar a um acordo.

Quando ao resto, continuamos na mesma; o que quer dizer que continuamos bem.

Um abraço
obrigado pelo fair play, e o meu espanto pela quantidade de energia positiva que colocas nas coisas.

fernando

Afixado por: maradona em fevereiro 16, 2004 01:44 PM
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