O Mar Salgado anda agitado. Pediu-me duas vezes para lhe responder a interpelações suas e ficou zangado porque demorei uns dias. Uma imprecisão, apenas: diz que não lhe respondi ao pedido, que me fez por e-mail, de identificação da fonte que me levam a dizer que hoje, no Afeganistão, se produz nove vezes mais ópio do que antes da chegada das tropas norte-americanas. Veja lá melhor a caixa do seu e-mail.
Dizia-lhe na missiva, e digo aqui, que me baseei nas declarações do ministro Russo da Defesa ao Guardian ( ”Sergei Ivanov said Afghanistan was now producing nine times the quantity of drugs it did under the Taliban”), que aliás estavam no link do post a que reagiu.
Mas podia-me até ter baseado no próprio Mar Salgado. É que vocês sabem os números todos, só parecem ter-se esquecido da data da chegada dos norte-americanos a Cabul: Outubro de 2001. E, estranhamente, comparam os números actuais com os de 1999, só porque lhes dá mais jeito. Mas estão assim a admitir que, depois dos americanos chegarem, a produção de ópio voltou aos níveis em que estavam antes dos talibãs decretarem a proibição da produção (em 99). Na prática, os Estados Unidos revogaram essa proibição. É que recordo que um dos argumento (admito que secundário) da intervenção no Afeganistão era a produção de ópio que, naquele momento, ou seja, no momento talibã, existia.
Assim, como poderá ler nesta notícia, a produção de ópio no ano passado rondou as 3600 toneladas. Faça as contas e verá que se a produção era, em 2001, à data da intervenção americana, de 185 toneladas, você tem, de facto, toda a razão: os meus números estavam errados. Com a presença dos americanos a produção de ópio aumentou 19 vezes e não as 9 vezes por mim afirmadas. O grande aumento foi, também você o diz sem pensar no assunto, logo no ano seguinte à chegada dos americanos, de 185 para 2300 toneladas. E houve ainda um pequeno aumento (de 6%) de 2001 para 2002.
E a partir daqui, como o post é grande e ainda respondo à questão da cannabis para uso terapêutico, terá de ler no link em baixo.
Já em Fevereiro de 2002, o professor Hamid Ghodse, presidente do Órgão Internacional de Controlo de Estupefacientes da ONU (OICE) afirmava em comunicado: «estamos seriamente preocupados com o facto da cultura ilícita de papoila de ópio estar de novo a aumentar no Afeganistão» e a organização alertava para a existência de grandes stocks no território (em PDF).
Assim, da próxima vez que quiser me chamar «parlapatão» e dizer que eu me dedico a "papaguear supostas informações sopradas por supostas especialistas", veja os números que você próprio usa.
Quanto à a resposta à questão do uso terapêutico da cannabis, que também já prometera ao Mar Salgado, aqui vai:
O que se critica em Fernando Negrão não é a sua posição, que é livre como qualquer um de a defender, mas sim a sua súbita e radical mudança de opinião sobre o tema. Na Visão de 23 de Outubro de 2003, Fernando Negrão dizia: “Não sou contra o uso clínico da cannabis”. Já durante este ano, deu entrevistas a vários jornais a anunciar legislação do governo nesse sentido (Público, 17 de Janeiro). Agora diz que a ideia é perigosíssima e que é frontalmente contra. Poucos meses e uma volta de 180º.
Quanto aos estudos, indiquei apenas alguns. Há muitos outros, a defender uma posição ou outra. Apenas recusava a ideia de que não havia estudos. Mas está a ser injusto com os relatórios parlamentares (feitos e redigidos pelo Comité Científico da Câmara dos Loredes e não por uma qualquer representação partidária). A tradição legislativa anglo-saxónica é diferente da nossa, assenta em decisões jurisprudenciais tomadas pelos tribunais e/ou pela Câmara dos Lordes. O trabalho técnico que está por detrás destes relatórios é impressionante, tendo sido ouvidos dezenas dos mais importantes especialistas internacionais (Você acha que, à cautela, é melhor esperarmos pelo INFARMED). Se tem em mente as nossas comissões parlamentares, esqueça. Não tem nada a ver.
Quanto ao projecto em causa, ele reconhece que existem riscos associados ao consumo da cannabis, como acontece, aliás, com qualquer outra substância médica. O que se pretende é que sejam os médicos e os organismos competentes a avaliar, no caso da falência de todos os outros métodos. Sabe-se, por exemplo, empiricamente, que para o alívio das náuseas e dos vómitos provocados pela quimioterapia a cannabis é bastante eficaz. Mais: o facto de existirem outras alternativas, como saberá, vai dar ao mesmo. Como dizia o médico João Goulão (posição igual a Alexandre Quintanilha), conhecedor desta matéria, quantas mais tiver à mão melhor, porque cada caso e cada doente são diferentes um do outro. Eu só não entendo é porque é que a morfina, seguramente bem mais nociva que a cannabis, é por si aceite sem dúvidas e a cannabis lhe causa tamanha repulsa.
Já reparou que países bem mais avançados do que o nosso em matéria de saúde estão a adoptar esta medida: Holanda, Canadá, Inglaterra e agora também a Austrália e Nova Zelândia. Se se conhece pouco sobre os componentes da cannabis, e é verdade, em primeiro lugar isso só demonstra o peso do preconceito. A única coisa que eu não quero é que não se avance com mais esta possibilidade. A Assembleia não aprova medicamentos, mas acaba com a barreira legal para a sua utilização. Porque para usar a cannabis é preciso plantar cannabis ou importar cannabis, o que hoje é ilegal.
Tem razão na distinção que faz quanto a drogas ilegais e medicamentos com base em drogas ilegais.
Publicado por danieloliveira em | TrackBackCaro Daniel, espero para ver qual vai ser a resposta do Mar Salgado à sua (do Daniel) bem documentada argumentação. Quero perceber onde começa e onde acaba essa coisa do anti-americanismo que vai servindo de refúgio aqueles a quem custa abrir a pestana e perceber o que passa à sua volta.
Cumprimentos do Duque
Afixado por: Duque das Quinas em fevereiro 16, 2004 11:19 AMVá lá ler. Dão-me razão para concluir que não tenho razão nenhuma.
Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 16, 2004 12:30 PMCom o acontece sempre que leigos falam daquilo que pouco ou nada sabem, ouvem-se os mais divertidos disparates e temos oportunidade de dar uma gargalhadas. Comparar a Cannabis com a morfina será o mesmo, antes de mais, que comparar uma fisga com uma peça de artilharia, uma bombinha da china com um míssil scud.
Além disso é ainda comparar alhos com bugalhos, o ser com o verbo, etc.
A morfina é um analgésico, aliás é O ANALGÉSICO, o último e derradeiro recurso contra o terrível inimigo que é a dôr nesta era pré-neuro-tóxico-fármacos (drogas baseadas em neuro-toxinas, mais eficazes que a morfina mas ainda em fase de investigação).
A morfina é um dos agentes activos do ópio além da codeína e outras designadas por conseguinte de opiáceos. Existem ainda os chamdos opiáceos derivados como a heroina obtidos por modificação dos opiáceos naturais.
A ciência conseguiu ainda sintetizar drogas similares aos opiáceos designados opióides como o propoxifeno, a metadona, etc.
Todos os opiáceos e opióides tem mais ou menos a mesma acção no sistema nervoso central e que se pode resumir numa frase: Reduzem o funcionamento do SNC!
Mais cientificamente podemos contudo separar duas categorias de acção, a analgesia e a hipnose ou seja inibição da dôr e indução do estado de sonolência, a este último efeito devem o nome de "narcóticos" (nem todas as drogas são narcóticos apesar de popularmente serem assim chamados).
O nome desta classe de drogas de duplo efeito é "drogas hipnoanalgésicas".
Quanto à cannabis é a planta chamada Cannabis Sativa e não os constituintes activos chamados canabinas ou canabináceos dos quais se destaca o tetrahidrocanabinol (THC).
Os efeitos das canabinas são muito diferentes dos dos opiáceos, para começar convém deixar claro logo à partida que todos são, sem excepção, tóxicos. Tal como uma dose mínima de nicotina pode matar tb uma dose similar de THC o pode fazer.
Ou seja: os opiáceos viciam, degradam o SNC, etc. mas o THC pode pura e simplesmente matar por intoxicação.
Os efeitos do THC são além disso quer físicos, quer psíquicos.
Entre os físicos merecem destaque logo à partida a degradação de certos órgãos que a utilização continuada da droga acarreta, isto principalenmte a nível pulmunar. o fumo da droga tem ainda uma dose muito maior de alcatrão que a do tabaco e ainda uma substancia cancerígena, o benzopireno.
Além disso a droga possui acção ao nível da testosterona, reduzindo os seus níveis para metade e por arrasto uma diminuição radical do nº de espermatozóides (doença oligospermia).
Quanto aos efeitos psíquicos temos os agudos, ou seja os resultantes imediatos e os cónicos, aqueles que resultam do uso continuado da droga.
Nos primeiros temos a hilaridade(faz rir), relaxamento, calma, redução da atenção, dificuldade em calcular o tempo e o espaço e perda da memória de curto prazo.
Os crónicos são perda da capacidade de aprendizagem, degradação da memória, amotivação, dependencia e em certos casos extremos um estado psiquico similar à esquizofrenia denominado sindroma esquizóide.
E ainda lhe chamam droga leve, a verdade conhecida pelos não leigos é outra, as canabinas são na realidade piores que os opiáceos
Desde que os americanos invadiram o Afeganistão a produção de opio aumentou 10 vezes, 100 vezes, uma tera de vezes.... Que horror!! Realmente, essa é uma grande preocupação para todos nós! Veremos se conseguirei pregar olho esta noite. Vou já ali comprar uma calmante.
O Akkenatton, que teve a condescendencia de nos dar informação que só ele podia dar (em nenhum sitio da cyber espaço, ou da Britannica, ou onde quer que seja, conseguiriamos arrancar tanto nome dificil), conclui, de modo brilhante, que "as canabinas são na realidade piores que os opiáceos".
Eu sabia que devia ter começado logo pela heroina, em vez dos charros perigosissimos lá da rua... a minha mãe bem me avisou, mas já era tarde....
Afixado por: maradona em fevereiro 16, 2004 02:03 PM"Comparar a Cannabis com a morfina será o mesmo, antes de mais, que comparar uma fisga com uma peça de artilharia, uma bombinha da china com um míssil scud.[...] As canabinas são na realidade piores que os opiáceos", disse o faraó.
Ou seja, a morfina é uma bombinha da China, a marijuana um míssil scud. Boa! E eu que pensava precisamente o contrário?
Então a nossa grande preocupação não deve ser o cultivo crescente de papoila no Afeganistão, não! A grande angústia é o cultivo ininterrupto de cânhamo em Marrocos, aqui mesmo ao lado!
Sobre o assunto da cannabis e da morfina, já todos aqui se riram.
Gostei sobretudo da preocupação com os efeitos cancerígenos do fumo (apesar de ninguém aqui ter falado de fumo - em Inglaterra prepara-se um spray sub-lingual). Estamos a falar de doentes terminais com um tempo de vida previsivelmente inferior a 18 meses. Acho que eles podem viver, o pouco tempo que têm, com esse drama: não chegará a tempo.
Já agora: não há em lado nenhum nenhumas provas de que a cannabis provoque cancro no pulmão.
Outra das coisas extraordinárias que têm aparecido aí este número é o melhor: 11% dos que morreram por overdose terá sido por consumo de cannabis. Aqui o nosso amigo volta a repetir o disparate, falando de intoxicação. Este número encontra-se assim: fazem a autópsia e vêem que há verstigio de cannabis nos tecidos humanos. Por isso, meus amigos, não comam leitão da Bairrada antes de morrer, para não aparecerem como vítimas de overdose do suino animal.
A Lancet, revista muito conceituada que aqui já citei, é mesmo a favor da legalização da cannabis e da ilegalização do tabaco. Claro que não concordo, mas isto diz muito da credibilidade de toda esta conversa sobre a cannabis.
Opiáceos baratinhos!, alguém quer?
É para uma boa causa...
Quem comprar um quilo nós oferecemos um ramo de papoilas vermelhas.
P.S: - a Al-Qaeda Portugal não tem nada a ver com o tráfico de drogas. Qualquer compra deverá ser dirigida a uma empresa ilegal totalmente independente de nós: Al-Qaeda Portugal Drug-dealers, S.A. - Omam, Dakar, Riad, New York, Amesterdam, Rio de Janeiro, Mexico city, Singapure, Taiwan. Empresa essa que é, estranhamente, gerida pelo meu irmão do meio (o n.º 24).
Não me levam a mal esta interrupção, mas queria só fazer passar uma mensagem para o FNV: o Mac não tem nenhuma incapacidade para fazer links. Nós aqui somos pelo menos dois a usar Mac e a fazer links com eles. O código é o do costume: escrever o seguinte, substituindo os [ ] pelos sinais de
[a href="http://url.do.site.que.quer.linkar]palavra ou palavras que quer ver linkadas[/a]
Vai ver que funciona. Cumprimentos bloguísticos,
Rui Tavares.
Afixado por: rui tavares em fevereiro 16, 2004 07:45 PMAs coisas que se aprendem neste cantinho. Afinal, o ópio não faz mal, o que realmente faz mal é o cannabis!! Tenham cuidado, é pior que cocaína, mais perigosa do que heroína e, sobretudo, mais nociva do que a camomila!
Erradamente ao que se costuma pensar, não são as drogas "pesadas" que matam as pessoas. Não! É o Cannabis e o tabaco! Isso sim é perigoso! Pior ainda é o álcool, a droga mais pesada de todas, bem, quero dizer, não é droga, mas passa a ser! Sim cuidado com as imperiais, chutem antes uma pá veia!
Caros amigos:
Eu defendo uma ideologia baseada na legalização do consumo e venda autorizada de cannabis e seus derivados pelos seguintes motivos arrasadores:
1. O Problema não é o consumo mas sim o tráfico porque está provado cientificamente o bem que faz, portanto, a legalização acabará de uma vez só com o tráfico. Só não sei se isso acontecerá porque muitos dos barões que enchem os bolsos á custa do tráfico são políticos e outras figuras públicas.
2. A Higiene. Tal como na Holanda deveriam hesistir sitios próprios para o consumo entre outras vantagens como por exemplo o poder de escolha das diversas qualidades hesistentes e acabar com os quimicos ou as chamadas misturas de substâncias.
3. O Mais importante é por exemplo: Eu (Tal como muita gente) sou empresário trabalho 7 dias/semana e 9h/dia e chego á noite fumo a minha erva para relaxar. e kê? não posso? só pelo facto de fumar uma erva k não pode prejudicar, muito pelo contrário sou mal visto na sociedade enquanto que politicos que são reconhecidos em todo o lado e por toda a gente andam nas drogas pesadas e enchem o bolso através do tráfico de drogas leves e não só. então aqui está a razam para a qual não é legalizada. e até quando? quantas pessoas já abriram os olhos como eu? não se esqueçam que o café, o tabaco, os comprimidos para adormecer e para acordar entre outras drogas tornam as pessoas dependentes fisica e psicologicamente ao contrário da marijuana ou cannabis que por sua vez é benéfica para várias doenças, anima o estado de espirito, acalma e relaxa o consumidor e não nos torna dependentes.
Afixado por: Rui Pedro em junho 29, 2004 11:46 AM