fevereiro 16, 2004

Momento de poesia (quotidiano #3)

A manhã saiu azeda
A tarde vai pelo mesmo caminho
E como tenho de trabalhar
Nem sequer posso beber um copinho

(A roupa foi lavada, e com amaciador, mas esqueci-me do pão e do leite. O que prova que nada é perfeito. Mas li o jornal com calma.)

Publicado por andrebelo em | TrackBack
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QUOTIDIANO IV

Ela, verdadeiramente, usava vestes opacas. Às vezes, porém, acendia-se-lhe o corpo surgindo mulher corpo iluminado,
fogacho resplandecente perturbando a vista. Naquele tempo
vivíamos numa casa reconstruída por nós de pedra e xisto,
fenestrada por grandes janelas donde contemplávamos o luar.
Cantava alto sons vibratórios dos vidros. E cultivava a terra em redor da casa descalça pelas flores bravias e pessegueiros floridos.
Dançávamos ao som de Requiem de Mozart, ela ondulando as mãos como se flutuassem soltas, lentamente, pela madrugada.

...//...

Saímos de casa quando a luz avermelhada era mais intensa.
Influímos pelo caudal humano desembocando no centro da cidade.
Subimos aos pedestais e ficámos rigidamente/molemente quietos. Assim iniciámos a doutrinação.
"Povo que cavas neste pântano onde crescem ervas amargas, como se foras larva revolvendo o húmus criado pelos deuses,
desprenderam-te do anzol".

E fomos tocados pela fúria. Homens esfaimados de sabedoria, glorificaram os nossos pedestais a eles se substituindo, gritando transfigurados, querendo um lago onde se banhassem de vermelho vivo. Injectaram-se de tinta cenográfica. Escorreram-lhes das narinas aguarelas resplandecentes. Aureolados por esta turbulência, continuámos "Povo que de nós te vestes, veste de nós o deslizamento, escorre pela cidade".

Foram destruindo nas ruas a sua arquitectura, querendo dos passeios um alvoroço, uma efusão sanguínea pelas nervuras.
Ficámos nas suas cabeças um rastilho de segundos. Deixámos depois de ser-lhes necessários enquanto seres viventes. Por isto nos ergueram templos nas praças.

Da cidade ficou-nos a lembrança dos dias vermelhos. Bandeiras flutuando ao vento aquecidas pelos bafos dos cidadãos entusiasmados, transfigurando as ruas e as praças parecendo eles finalmente vida.
E então caminhámos pela cidade em direcção do seu ponto de fuga. Do outro lado estava ela para nos receber à porta da nossa casa, de cabelo pintado de verde e mãos apoiadas no umbral.
Havia apanhado figos, belos figos que nos aguardavam sobre a mesa.

Afixado por: António Silvestre em fevereiro 16, 2004 11:35 PM

Quotidiano lúcido

Eu deixei-me embriagar pelos vinhos do silêncio. E então falei:
"Bebo para ouvir o que calado bebe".
Então ele falou:
"Ouves esta turbulência?..."

Afixado por: Mateus Afonso em fevereiro 20, 2004 05:51 PM
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