Via A Lâmpada Mágica, consulto os documentos mais idiotas deste país: as listas de nomes admitidos e não admitidos no registo civil. Fique então o leitor a saber que, se gerar vida e lhe quiser dar um nome, o nosso prestimoso estado ordena o seguinte:
Pode chamar-lhe Ingeburga, mas não pode chamar-lhe Ingrid.
Pode chamar-lhe Habacuc, mas não pode chamar-lhe Adorinda.
Pode chamar-lhe Xenócrates, mas não pode chamar-lhe Orfeu.
Eu compreendo a boa intenção de não querer que os pais lixem a vida aos filhos com um nome ridículo (por estranho que pareça alguém quis dar o nome "Lúpus" a um recém-nascido, em 2001), embora fosse mais simples permitir que as pessoas mudassem o nome a partir de certa idade. Mas é uma boa intenção vazia, porque qualquer pai que queira mesmo lixar a vida aos seus filhos pode ir à lista dos nomes admitidos e escolher sem problemas Messias, Maria Ranú, Singeverga, Micaek de Jesus, Maria da Agonia, Anália ou, por exemplo, Cristiano Ronaldo.
Pensando bem, este talvez não.
Publicado por ruitavares emHá uma história engraçada que me chegou aos ouvidos e que tem a ver com isto. O estilista de moda Augustus quis, a dado momento da sua vida, mudar o seu nome de Baptismo Augusto para a versão latina do mesmo. Escreveu o pedido para o registo civil. A resposta que lhe chegou foi mais ou menos a seguinte: "os únicos nomes que existem em Português com a terminação "-us" são Mateus, Jesus e Deus. O seu caso não está abrangido." Não se tratava nem de São Mateus, nem do Pai Todo Poderoso e nem do Filho - e nem com a ajuda do Espírito Santo ele conseguiria assemelhar o seu nome ao dos outros três. E esta, hem?
Afixado por: ZeroAesquerda em janeiro 30, 2005 12:39 AMespanta-me a crescente preocupação dos bloquistas com os "assuntos" relativos à "procriação".
Primeiro o Dr. Louçã, agora o Sr., para a próxima semana calha em vez a quem?, ao Major Tomé?
Não me parece que a boa intenção é assim tão vazia como tudo isso: basta comparar a situação relativamente normal que se encontra nos nomes portugueses com o completo ridículo que tantas vezes nos chega do Brasil. Basta olhar para os nomes dos jogadores de futebol, por exemplo.
Além disso, não sei bem como é que a coisa funciona, mas sei que pais estrangeiros de filhos nascidos em Portugal podem atribuir-lhes nomes segundo as regras dos países de origem. Pode ser essa a explicação para a aceitação de Ingeburgas ou Habacucs. O que eu não sei é se, uma vez aceite uma vez, o nome passa automaticamente a fazer parte do património onomástico português. Se for assim, de facto, e a longo prazo, a boa intenção esvazia-se, mas realmente não sei.
Mas isto é mais complicado do que aparenta: será que a protecção das crianças contra os delírios dos papás se deve mesmo sobrepor à liberdade individual?
Provavelmente sim. Provavelmente a lei devia ser até um pouco mais restritiva do que é. Mas eu liberizá-la-ia por completo para maiores de idade. Se um tipo de 18 ou mais quisesse mudar de nome para Lúpus, força, à vontade. Ou para Ana Sofia. Ou para Han Solo.
Talvez requeresse apenas um teste para verificar a presença de substâncias estupefacientes no organismo... é que não deve ser lá muito agradável um gajo ir prós copos Aníbal e acordar no dia seguinte, com uma ressaca monumental e com o nome de Maria Elisa no BI.