janeiro 30, 2005

Os valores

Subitamente, o tema dos “valores” irrompeu na campanha. Entramos, pois, em terreno minado. Santana desafia Sócrates a tomar posição sobre os casamentos homossexuais e Luís Filipe Meneses alerta os portugueses para o risco da “primeira medida” de um Governo PS ser a legitimação da adopção de crianças por homossexuais. Por seu turno, Louçã responde dizendo que essa é uma questão que deve ser deixada aos tribunais, pois há precedentes de juízes portugueses terem entregue a tutela paternal de uma criança a um pai (homossexual), em detrimento da mãe (que não reunia as condições, possivelmente emocionais ou outras, para assumir a guarda da criança). Ou seja, aparentemente, o Bloco de Esquerda (à semelhança do que sucede com o PS) também não se propõe legislar já no próximo parlamento sobre a possibilidade de casais homossexuais virem a adoptar crianças (uma coisa bastante diferente da tutela paternal).
E a meu ver bem. Sou completamente favorável à possibilidade dos gays se casarem pelo registo civil e desfrutarem todos os direitos e regalias de um casal hetero. Já a questão da adopção de crianças me parece bem mais problemática. Exige um amplo debate nacional e, sobretudo, que se evitem os voluntarismos “fracturantes” da nossa esquerda jacobina, apenas susceptíveis de galvanizarem as forças mais conservadoras da sociedade portuguesa.

Publicado por pedrooliveira em
Comentários

Erro, Pedro Oliveira.

Há montes de crianças a precisar de adopção. Montes.

O objetivo não deve ser fazer "amplos debates nacionais", coisa que eu não sei o que seja, de qualquer forma.

O objetivo deve ser entregar essas crianças a quem saiba cuidar delas.

Seja esse alguém homossexual ou não. Isso é basicamente irrelevante, para a criança.

A criança não deve ser adoptada para satisfazer a visão da sociedade. Ela tem que ser adoptada PARA SEU BEM. Por sua necessidade.

Dê mais importância às crianças que necessitam de ser adoptadas, Pedro Oliveira, e menos importância aos amplos debates nacionais.

Afixado por: Luis Lavoura em janeiro 30, 2005 03:58 PM

...as crianças não podem ser adoptadas de qualquer maneira....tem de haver, de facto, uma reflexão profunda acerca do assunto...pese embora eu considerar que há muitos adultos prontos a dar o seu afecto...compreendo, mas na adopção ainda não estamos preparados, no meu entender...não queiramos eventualmente utilizar a adopção de uma criança como bandeira para lutas que ainda não estão bem alicerçadas...
Com consideração e ciente de poder estar enganado,e abem das crianças...
Morfeu

Afixado por: morfeu em janeiro 30, 2005 04:08 PM

Exemplo simples, um casal de lésbicas decide ter filhos, encontram um dador de esperma, e nasce a criança. Não é possível actualmente que a companheira possa ver desde logo reconhecido o direito de maternidade sobre a filha biológica da sua companheira. Um dia a companheira morre, e a criança vai para um orfanato. Isto não é ficção, e já aconteceu em Portugal.

Recusar o direito à adopção por alguém só porque é homossexual, é estar desde logo a eliminar que montes de excelentes candidatos possam contribuir para a felicidade das crianças - ninguém ganha nada com isso.

O debate na sociedade bla bla.. é sempre uma boa desculpa para não se fazer nada. No Sul dos EUA foi o supremo tribunal que acabou com as leis racistas, sem que a sociedade estivesse preparada. Não estava, mas teve que se adaptar, e ainda bem.

Afixado por: Boss em janeiro 30, 2005 04:32 PM

O que falta sem dúvida, é dar visibilidade aos já muitos casos de homoparentalidade que existem no país, para que se perceba a urgência de legislar este assunto. Neste caso é a comunicação social que está a falhar.

Afixado por: Boss em janeiro 30, 2005 04:36 PM

As duas questões que levanta o Pedro Oliveira parecem-me distintas em absoluto, ao contrário do rumo que muitas vezes se dá a este debate.

É lógico, para mim, que os casais homossexuais possam adoptar crianças. Já não me parece razoável estender o casamento civil a estas uniões. O argumento talvez não seja pacífico, mas lá vai..

O casamento é uma instituição social, o que significa que mais que o bem estar individualizado pretende realizar o bem estar da comunidade, potenciando o valor colectivo do acto individual. Valor que se relaciona sobretudo com o crescimento ou renovação dessa comunidade. Por isso se aceita o financiamento colectivo do casamento, seja pelos benefícios tributários, laborais ou sociais de natureza diversa.

Ora, o valor que a união entre homossexuais acrescenta ao bem estar colectivo parece ter já cobertura suficiente com a legislação que a equipara à união de facto heterossexual. Não vejo razão para a financiar além deste ponto, onde já não aporta a contribuição específica da última. Saímos do domínio do bem estar comum para o bem estar individual, que deve ser prosseguido pelos meios de cada um e não pelos recursos de todos.

Afixado por: FS em janeiro 30, 2005 04:51 PM

Chamar jacobino ao BE é (muito) pouco exacto. Mas é revelador que uma pessoa que anunciou ir votar no PS use esse termo para se demarcar dos que estão à sua esqurda. Tristemente revelador...

Afixado por: Ricardo Alves em janeiro 30, 2005 05:20 PM

Choca-me que pessoas de esquerda estabeleçam a diferença entre o sim ao casamento gay e lésbico e o talvez (e mesmo o não) à adopção. Porque isso é estabelecer uma ressalva. E quando se estabelece uma ressalva está a reconhecer-se que se acha algo de errado, neste caso, nos gays e lésbicas. O debate da esquerda portuguesa sobre questões lgbt está ao nível do debate nos países desenvolvidos nos anos 70!

Por outro lado: o exemplo do Louçã era para legitimar a ideia, CLARA no BE, de que as adopções são para toda a gente. Já o defendeu aquando da lei das uniões de facto que o PS fez com que definissem uniões de primeira e de segunda - estas as lgbt, impedidas de adoptar.

Afixado por: miguel vale de almeida em janeiro 30, 2005 06:30 PM

Creio que uma sociedade moderna com uma democracia avançada nunca poderá rejeitar a adopção de crianças a casais homossexuais.Existem milhares de crianças que não têm condições mínimas de vida, será possível, que quem pode oferecer essas condições seja impedido?Penso que a nossa sociedade ainda não está mentalizada para estas e outras medidas, sobretudo para um país como o nosso, em que ainda se discute a descriminalização do aborto!

Afixado por: Tiago Fragata em janeiro 30, 2005 07:42 PM

Pedro Oliveira é muito feio censurar quando não estamos de acordo isso são métodos que devia combater.

Afixado por: a.pacheco em janeiro 30, 2005 11:04 PM

.::OPINIÃO::.
é inquestionável o direito dos casais homossexuais a verem reconhecidas,perante a lei e o estado,a sua condição e as prerrogativas a ela inerentes - tratando-se de duas pessoas que partilham um projecto em(quase)tudo idêntico ao partilhado por cônjuges heterossexuais,devem poder usufruir dos mesmos direitos e,pelas mesmas razões,ser submetidas aos mesmos deveres..se tal desiderato se alcança através da abolição do casamento civil(e consequente revisão da legislação relativa às uniões de facto)ou da aceitação do casamento entre homossexuais,isso já pouco importa..no caso específico da adopção há,contudo,um factor novo na equação que deve ser tido em conta:a criança!deixamos,por isso,de estar em face de um problema que apenas diz respeito à relação entre o casal e o estado,formando-se,isso sim,um triângulo relacional,cujos vértices são:o casal,que pretende assumir a tutela da criança;o estado,que tem como dever maior zelar pelos interesses da criança(ainda para mais estando ela entregue aos seus cuidados);a criança,que é o elemento passivo(à partida)em todo o processo de adopção..a questão que se coloca é,deste modo,'que desvantagens podem advir para a criança da sua adopção por pais(ou mães,obviamente)homossexuais?'..e aqui é que as opiniões divergem!à partida,o sentimento que tal ideia desperta na maioria das pessoas(não homossexuais,entenda-se)é o de que se está a falar de algo que é pura e simplesmente anti-natura..e,convenhamos,não é sem razão - a concepção está,nos mamíferos e na maioria dos animais,prevista,em termos naturais,como resultado do acasalamento entre indivíduos de sexos diferentes..daí que tudo o que desafie esta norma seja geralmente visto com desconfiança por parte das pessoas..evidentemente,este argumento é pouco consistente,na medida em que nos obrigaria a rever,por exemplo,a entrega da tutela da criança ao progenitor masculino,ou,levado ao extremo,o direito dos deficientes à reprodução,ou mesmo à vida..vendo,então,a questão por outro prisma,podemos entender que,mais importante do que considerações biológicas,o fundamental para a criança é estar inserida num meio saudável e equilibrado,que lhe permita um desenvolvimento com as mesmas características - o que,acrescido da necessidade de dar um rumo à vida das crianças presentemente confinadas às instituições de acolhimento,parece fazer a balança pender a favor da adopção por casais homossexuais..e chegamos,assim,ao ponto crítico deste impasse,a partir do qual decidimos com base nos nossos afectos(ou será com base na nossa inteligência,como diz o francisco louçã?=P)..pessoalmente,tenho dúvidas de que,por mais sã e estável que seja a relação e a vida quotidiana do casal,a criança seja capaz de se desenvolver de uma forma saudável..não procuro com isto afirmar taxativamente que é impossível uma criança criada por um casal de homossexuais crescer com estabilidade,falo apenas em termos do que penso que iria suceder na maioria das situações..as referências materna e paterna(tratem-se de pais biológicos ou adoptivos)são de uma importância nuclear na formação da pessoa aos mais variados níveis - não é,por isso,de estranhar que uma parte significativa dos problemas psiquiátricos e dos desvios comportamentais tenham na sua etiologia frustrações associadas às relações com os progenitores..da mesma forma,é mais frequente encontrar casos disso representativos em famílias disfuncionais,ou em que um dos pais é uma figura ausente,ou em que a tutela da criança é entregue,por qualquer motivo,a somente um dos progenitores,etc,etc,etc..no meu entender,se estes motivos,que são frequentes na nossa sociedade,e que resultam da ausência(efectiva ou subjectiva)de uma das referências parentais,condicionam consideravelmente o desenvolvimento psicoafectivo das crianças,não imagino como será possível à criança adoptada por um casal homossexual integrar a sua realidade doméstica sem contrariar a sua percepção mais primária e instintiva de núcleo familiar(para já não falar na que é adquirida por observação)..por outras palavras,penso que a entrega a um casal homossexual da tutela de uma criança comporta um risco duplo para o equilíbrio da mesma:1)a ausência de uma das referências parentais(dado que um homem nunca será uma mulher nem uma mulher um homem),problema que se poderá levantar também às adopções monoparentais;2)a necessidade de compreensão e aceitação por parte da criança de que possui uma família diferente da norma,que acredito que não sejam pacíficas,sobretudo durante as fases cruciais de definição da identidade sexual,e particularmente da adolescência,em que essa situação poderá levar a uma insegurança e a uma revolta acrescidas..bem,mais do que a minha opinião pessoal,queria sublinhar a importância de se ter em conta todos os factores na apreciação racional deste problema(que é a única que poderá salvaguardar os interesses das crianças)..a partir daqui,critiquem à vontade,porque esta é apenas uma forma de ver a questão..assim se prove a inocuidade da adopção homossexual para o desenvolvimento das crianças,q eu serei o primeiro a defendê-la! =D saudações,camaradas;)
(leram mesmo isto tudo?'cês são doidos!!vão mas é trabalhar,malandros!=P)

Afixado por: apolo em janeiro 30, 2005 11:06 PM

Mesmo a propósito a leitura deste artigo do The New York Times:

http://www.nytimes.com/2005/01/29/politics/29marry.html

Afixado por: Boss em janeiro 30, 2005 11:29 PM