janeiro 30, 2005

As traições de Freitas

Confesso que me surpreende a sanha com que ontem, no programa “Eixo do Mal”, Pedro Mexia se referiu a Freitas do Amaral. Quer dizer, eu percebo que os intervenientes do programa tenham todos de ter o seu momento mais contundente, mas às vezes convém calibrar bem as críticas. Se o Pedro desancasse Freitas do Amaral pelas suas simplórias peças de teatro, ou pela sua medíocre biografia de Dom Afonso Henriques, por exemplo, eu até percebia. Mas criticar Freitas por ser um reles vira-casacas, isso é que já me parece mais questionável. Se nós tivermos em mente o que era a Democracia Cristã na Europa das décadas de 60 a 80, por exemplo, eu diria que Freitas se tem mantido razoavelmente coerente em relação a essa matriz ideológica (não obstante a sua participação em comícios anti-guerra do Iraque em 2003, ao lado de Soares, Pintassilgo, Ferro Rodrigues e Louçã).
Finalmente, a relação de Freitas com o Estado Novo. Pedro Mexia sugeriu ontem que no seu livro de memórias (O Antigo Regime e a Revolução, 1995) Freitas se referia fugazmente ao marcelismo, por exemplo (confesso que àquela hora – 00:45 - eu já estava a cabecear, por isso corrijam-me se eu tiver percebido mal).
Ora, eu vou refrescar a memória do Pedro. A governação de Marcelo Caetano (1968-74), e o relacionamento pessoal e político de Freitas com o seu antigo mestre e colega de faculdade, estão amplamente documentadas no livro. Têm direito a um capítulo de 63 páginas, as quais incluem vários relatos de conversas de Freitas com Marcelo Caetano (se fielmente reproduzidos ou não, isso já é outra história). Freitas, aliás, nunca negou a admiração que sempre nutriu pelo sucessor de Salazar, em especial no plano intelectual e académico. Julgo até que foi um dos proponentes da sua reintegração, a título póstumo, na Faculdade de Direito de Lisboa, não há muitos anos atrás.

Publicado por pedrooliveira em
Comentários

Caro Pedro:

O meu ponto é este: Freitas teve alguns momentos de viragem política na sua carreira, e retocou, de cada vez, o seu passado. Nas Memórias, por exemplo (e recorro à minha própria memória do livro, porque o li emprestado) a referênca a Marcello Caetano é sobretudo do domínio (como bem dizes) da admiração intelectual, como professor. Mas Freitas faz considerações sobre a sua discordância face ao regime das quais não temos provas (a não ser talvez a sua recusa a um convite para Ministro da Justiça, se não estou em erro). A mim soou-me a antifascismo póstumo, e essa pose é uma coisa que me chateia, como diria o Pinheiro de Azevedo.

De resto, é normal que eu ataque Freitas neste momento, como é normal que tu o elogies. Creio que no Barnabé se escreveram das coisas mais violentas sobre Jorge Sampaio. E ele, que eu saiba, não apelou ao voto no CDS.

Afixado por: Pedro Mexia em janeiro 31, 2005 02:38 AM