janeiro 31, 2005

Aprendendo com São Bordalo sobre escrita hieroglífica


Raphael Bordallo Pinheiro, Antonio Maria Sesostris Pereira de Melo, in Os Pontos nos Ii, 2 de Setembro de 1886. Clique para aumentar.
Tendo governado 3885 annos antes da era de José Luciano, o grande Sesostris, perfeitamente mumificado, resurge enfim, para escrever cartas com as quaes lança o terror e os erros grammaticos no seio da Europa e do Diario de Noticias
***

Depois de uma pausa para o fim-de-semana, o nosso passatempo São Bordalo regressa para excitar a emulação entre os nossos leitores. A jornada de sexta-feira foi difícil, pois tanto ao croupier como aos jogadores faltava frescura anímica. Ainda assim, quatro prestações ficaram na retina do júri, que numa competição renhidíssima decidiu por voto de qualidade atribuir o prémio ao Tulius Detritus d'A Memória Inventada. Não é preciso blogue para concorrer, minha gente! Habilitem-se a ganhar um livro do Barnabé autografado pelos autores (não, não vem embrulhado em folha d'ouro).

Estamos no segundo semestre de 1886. Fontes Pereira de Melo já não era primeiro-ministro desde o início do ano. São Bordalo fechara O António Maria e fundara o Pontos nos ii. Havia um novo governo, agora progressista e chefiado por José Luciano de Castro (que talvez seja a figura da direita), mas formado por sugestão do próprio Fontes, apesar de o seu Partido Regenerador ter maioria no parlamento. Estranho? É bem verdade. Mas poucos meses passaram antes que Fontes ressuscitasse para a política activa, embora jurasse que não, começando a escrever nos jornais cartas sibilinas, para escândalo do progressista Mariano de Carvalho que vemos ali atrás...

Esta é apenas uma explicação. A outra é que o enviado especial de Pontos nos ii ao início do século XXI tenha testemunhado algo que traduziu para os seus leitores de oitocentos em termos que eles pudessem compreender. Que viu ele?

Têm até à meia-noite para nos dizer.

Publicado por ruitavares em
Comentários

Que honra! O último prémio que ganhei foi há 25 anos (da saudosa Gazeta dos Desportos). Está visto que 2005 vai ser o ano da viragem ;-)

Afixado por: Tulius Detritus em janeiro 31, 2005 12:50 PM

Ena! A concorrência aumenta! Boa!

Quanto à imagem do dia, consta do seguinte:

A múmia ressuscitada é António de Oliveira Salazar, o ditador que já era cadáver antes de o ser mas que, paradoxalmente, circula hoje em dia, vivinho da Silva (ainda que algo fantasmagírico, como convém a um morto. Paradoxo?), pelos becos onde se acoita uma direita cada vez mais extremada. Paulo Portas, com um ar beatífico e um sorriso, incentiva Bagão Félix, que vai enchendo rolo após rolo de papel de calculadora, requisitado ao Ministério das Finanças para combater o défice, com coloridos epítetos lançados contra os neo-fascistas que se atrevem a contrariá-lo (só é pena, pensa ele, que já se tenha perdido a província ultramarina de Cabo Verde e as belas instalações que aí ficaram abandonadas, na ilha de Santiago). Com um ar chocado, Freitas do Amaral ergue as mãos à cabeça, dizendo "meu deus! Que estão os senhores a fazer?" Foi exactamente na sequência desta cena que Freitas se convenceu de que o voto certo era, afinal de contas, no PS.

Afixado por: Jorge em janeiro 31, 2005 10:45 PM

o escriba de Boliqueime arrebimba o malho nas carcassas políticas que lhe sucederam. Anos depois de exercer poder à mão cheia sem ler jornais e a comer bolo rei, no caso bolo faraó, regressa para achincalhar o filho bastardo do CCB, que já reza defronte de si de mãos juntinhas. Os bons escorraçam os maus, os saudáveis cospem os doentes, sobretudo se o deixarem rumar a Belém para ficar deitado nas palhinhas a gozar a reforma da carreira académica e o fim do tabu. A reza do Lopes não o salva da entrada na barca dos cadáveres políticos, sobretudo porque o lavrador do Caldas vem lá de trás para lhe dar o empurrão final. Faz ar de surpreso e ofendido mas normalmente é assim que se põe a jeito para dar a estocada no recém-ex-amigo. O gajo dos óculos grandes que o diga, aquele do "digaaomanel" que nunca é convidado para os debates. Dentro do sarcófago dos consagrados está José Barroso, que fecha os olhinhos à tralha lusitana. Enfaixado nas couves de Bruxelas tenta respirar outros ares, que à patrizinha medíocre já nada o prende, a não ser a alcunha de fauna marinha. Safou-se melhor o delfim de Bicesse do que o mestre guru dos algarves. E assim se vai cantando e rindo enquanto as pirâmides da mediocridade não desaparecem do horizonte.

Afixado por: Pedro Vieira em janeiro 31, 2005 11:11 PM