Para os agarrados do telelixo, o escândalo supremo do ano televisivo deu-se logo aos primeiros minutos quando Alexandre Frota pespegou um beijo na boca a José Castelo-Branco. Para os agarradinhos da política o momento equivalente deveria ser a entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã na última Sábado.
Muitas vocações desviou a arrogância – a verdadeira – dos monopolistas da realidade que estiveram no governo, daqueles que passaram três anos a dizer que não poderia ser de outra forma, que o país não chegava lá a não ser por aquela mistura tão peculiar de tacanhez, incompetência e autismo. Já tivemos Cavaco, Marcelo e Pacheco contra Santana e agora Freitas com Sócrates. Mas em nenhum caso a mudança foi tão coquette como com MEC.
Ameaçou aqui:
MEC: Até agora, só disseste coisas de senso comum, como diria um social-democrata dos mais antigos. FL: Fico muito contente [...] MEC:É que são mesmo... FL:Ainda bem que pensas assim. MEC:Oha, pela parte que me toca, também fico contente.
É impossível ler estas frases sem largar um cínico "vá lá! dêem lá um beijinho...". Mas como Louçã é do tipo arredio, MEC teve que concretizar mais à frente, na crónica que escreveu para acompanhar a entrevista. O chocho vem logo no título provocador por excelência: chamar "O Senhor Senso-Comum" àquele que tem sido o maior ódio daqueles que julgam ser herdeiros desse conceito (que proclamam aos sete ventos ser apenas e só britânico como o chá das cinco – inventado por Dona Catarina de Bragança) há de ter deixado despenteadas algumas consciências aprumadinhas (a começar pelo próprio Bloco de Esquerda). E prossegue:
«É esse atraso – e o facto de o Bloco de Esquerda estar empenhado, nas actuais circunstâncias, em partir pedra multissecular para alcançar os mínimos modernos dessa dignidade – que me leva a recomendar que qualquer pessoa de direita que esteja momentaneamente desencantada com os partidos que procuram representá-la não hesite em votar no Bloco, se a alternativa for abster-se ou votar em branco. Por agora – mas só por agora...! – faz todo o sentido.»
Repare-se. Não foi um beijo apaixonado nem um linguado de quem já perdeu a cabeça e agora que se lixe. Foi um chocho de quem sabia muito bem o que estava a fazer e a quem ia chocar no meio do bailarico. Porque esta entrevista foi um bailarico, como diz o próprio MEC, lamentando-se por Louçã não saber dançar um "fox-trot conservador" e terem tido de se encontrar num "consensual cha-cha-cha". E foi um bailarico porque nos bailaricos há sempre aquelas velhotas sentadas num banco corrido que tapam a boca com a mão e lançam "aahhs" e "oohhs" prolongados de cada vez que os jovens ameaçam namoriscar. E também não faltaram aqui, sob a forma da própria direcção da Sábado que resolveu escrever um editorial intitulado "Pense bem antes de votar no Bloco", avisando os seus ingénuos leitores de que o Bloco é um partido "revolucionário a sério" (e se calhar até eles acham que são...) e só faltando insinuar que se procurarmos bem ainda havemos de achar na sede dos bloquistas as ementas dos famosos pequenos-almoços com criancinhas.
Os meios podem ser outros, mas a mentalidade de aldeia sobrevive.
Publicado por ruitavares emLOOOOOOOOOOOOOL! Tenham cuidado com esses bloquistas-trotskistas! MUAHAHAHAHAHAHAHAH!
Afixado por: André Militão em janeiro 31, 2005 10:19 PMComprei essa Sábado, pela primeira vez, principalmente por ser o MEC o entrevistador, e qual o meu espanto, não só pelos pontos referidos no post, mas sobretudo pela péssima qualidade geral da revista.
Aliás, enviei um email a perguntar se os próximos editoriais também irão ter aquele tipo de contra-indicações ao voto nos outros partidos.
E eu nem costumo votar Bloco.