Existe uma rua no Porto que muitos continuam a chamar de Santo António. Já o foi, já deixou de o ser, já voltou a sê-lo, nunca mais o foi. Mudou pela primeira vez de nome em 1910 e recuperou a toponímia religiosa em 1940. Por fim, abandonou-a algures após o 25 de Abril. Hoje chama-se Rua 31 de Janeiro, tal como a baptizaram na I República. Mas há quem ainda insista no nome do santo, por amor ao próprio, por hábito herdado da ditadura ou por amor à monarquia.
No dia 31 de Janeiro de 1891, pelas duas horas da madrugada, vários regimentos de cavalaria, infantaria, caçadores e guarda fiscal convergiram no Campo de Santo Ovídio. Ao mesmo tempo, no quartel de infantaria 18, na actual Praça da República, duas companhias arrombaram as portas do aquartelamento e juntaram-se aos revoltosos. “Nisto aparece a música do 10 de infantaria, que forma à frente das tropas executando A Portuguesa. As cornetas tocaram, e as forças puseram-se em marcha, enquanto alguns populares a saudavam e os sinos da Lapa tocavam a rebate” (Ilustração Portuguesa, 1891).
Faz hoje precisamente 114 anos que Portugal fez a primeira tentativa para se livrar de vez da monarquia. É, e deverá ser para sempre, um dia de regozijo.
O golpe, como se sabe, correu mal. Vinte dias depois do programa do Partido Republicano ter sido aprovado, tropas e povo eram escorraçados num banho de sangue Rua de Santo António abaixo pela guarda municipal instalada nas escadarias dos balaústres da igreja de Santo Ildefonso. A República tinha durado uma manhã, proclamada por Alves da Veiga na varanda da Câmara. Porque falhou? Porque, opina José Augusto Seabra, os revolucionários, “apesar da coragem dos oficiais, dos sargentos e dos soldados, ladeados pelo povo anónimo e conduzidos por chefes como o alferes Malheiro, o capitão Leitão ou o tenente Coelho”, iam “às ordens dos chefes civis empolgados mas pouco preparados para o combate às armas”. Ou porque, diz Maria de Fátima Bonifácio, “os maiorais do partido [Republicano] abandonaram à sua má sorte” os sargentos da guarnição do Porto que fizeram a revolta.
O 31 de Janeiro é, antes de mais, o movimento de pensadores como Sampaio Bruno, Basílio Teles e João Chagas, homens que estão nos fundamentos democráticos e socialistas que sempre tiveram abrigo na cidade do Porto e na base de uma das mais esquecidas e vibrantes aventuras intelectuais da segunda década do século XX, a Renascença Portuguesa.
E tudo isto é ainda mais, diz-nos o recentemente desaparecido José Augusto Seabra: “Em todo o caso, como escreveu João Chagas, o 31 de Janeiro foi ‘o mais luminoso e viril movimento de emancipação que ainda sacudiu Portugal no último século’. E por isso mesmo Basílio Teles aduziu, em defesa dos republicanos do Porto, que ‘os erros que cometeram, prejudicando, talvez, a obra concebida por inteligências mais lúcidas e ânimos mais decididos, a posterioridade lhos perdoaria em atenção ao que sofreram, enquanto a monarquia roubava’. É que, com o seu sacrifício, os heróis do 31 de Janeiro fecundaram o húmus de onde iriam brotar as sementes vivas que no 5 de Outubro de 1910 haveriam de germinar na República democrática enfim vitoriosa” (artigo completo, incitando a Porto 2001 Capital Europeia da Cultura a celebrar o 31J, aqui.)
E quem tem tudo isto a ver connosco? Pergunto num sentido lato, bem para além das esquerdas e libertarismos que convergem no Barnabé, nestes tempos em que somos insistente e exageradamente apelidados de “o blogue do Bloco” (epíteto que gostaria que as pessoas fossem deixando de lado, porque só quem não lê com atenção as opiniões dos aqui oito escreventes é que não percebe as profundas diferenças de opinião que nos unem – sim, diferenças que nos unem). Perguntava: que tem o 31 de Janeiro a ver com todos nós?
Quero com esta pergunta chegar a isto: à ignorância, ou silêncio, a que a direita vota a história do liberalismo e do republicanismo português. Continuo a não perceber porque é que, num campo exclusivo de evocações de valores, e não de análises históricas, a direita não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país do absolutismo e da monarquia (a ditadura salazarista é outra conversa, claro). Falo, é óbvio, da direita com quem se pode ainda dialogar, uma direita ilustrada. Só vejo um motivo para este branqueamento: o medo de associação aos extremismos – e isso é absurdo. Mas, acima de tudo, ignorância. Qualquer manual de história moderna ensina-nos que também no liberalismo e na I República houve direita democrática – portanto, há um património que a direita de hoje pode reclamar com todo o à vontade. No entanto, nada disso acontece, e com isso, queira a direita ou não, para o melhor e para o pior, nesta discussão é a “esquerda histórica” que fica sempre com saldo positivo na história do progresso em Portugal.
Que tem então o 31 de Janeiro a ver com todos nós? Que devia ser uma data comemorada por todos. Em relação a isto sou totalmente patriótico. As consequências históricas do acontecido nesta data transformaram aquele dia no Porto numa referência total.
Em 10 de Abril de 1848, tão só 14 anos depois do liberalismo ter triunfado na Guerra Civil, o republicano Casal Ribeiro publicava o panfleto anónimo É tarde e terminava este texto, no mínimo embaraçoso para D. Maria II, anunciando o inevitável final da monarquia: “Se alguém duvidar, dir-lhe-emos – esperem e verão!”. E todos viram, em 1910, o resultado da obra de anos a fio, de uma forma ou de outra, de um conjunto enorme de lutadores anónimos ou conhecidos, civis ou militares, maçons, carbonários, saint-simonianos, proudhonianos, positivistas, socialistas, comunistas, anarquistas ou simples democratas à procura de um país mais humano.
No topo deste post está a fotografia dos combatentes civis do 31 de Janeiro, condenados ou absolvidos. Entre eles, João Chagas (terceiro da fila da frente a contar da esquerda), o abade Pais Pinto (quinto da terceira fila), Aurélio da Paz dos Reis (sétimo da segunda fila), Homem Cristo (na última fila, de chapéu) (foto retirada do catálogo Manual do Cidadão Aurélio da Paz dos Reis, Centro Português de Fotografia, 1998). Que gente civilizada! Presos, mas a ler o jornal! E de tranquilíssimas e convictas faces. Como se nos dissessem: “Esperem e verão!”.
Por acaso costumo vê-los quando vou à minha cidade, ali pelos lados da Baixa, subindo ou descendo a Rua 31 de Janeiro.
Publicado por joaomacdonald emOlha, olha... uma lufada de ar fresco cá pelo sitio!
Afixado por: Paulo em janeiro 31, 2005 10:58 PMGrande post, mac!
Afixado por: Ricardo em janeiro 31, 2005 11:05 PMMeu caro John,
Quando lhe vi a fotografia pensei cá para mim, este gajo é-me familiar... tem a cara chapada do Rudolf Berger.
Mas agora já sei de onde o reconheço, não é dos Lohengrins do São João, mas é mesmo da 31 de Janeiro.
Um abraço.
(e já agora, pelo que li ou me contaram, a mudança do nome da rua foi logo no dia 26, alguém desenhou num cartão a data 31 de Janeiro e colou sobre Santo António)
Afixado por: MBP em janeiro 31, 2005 11:26 PMHoje também subi e desci a rua, por mais do que uma vez. E atravessei a escadaria da Igreja de Stº Ildefonso, essa pérola alcandorada sobre a Baixa. Não me lembrei da revolta, mas também não me importo: por mim, a rua voltava a ser Stº António; por se ter adiado a instituição de um dos regimes mais ignóbeis, hipócritas e autoritário de que há memória em Portugal : a 1ª República, represntada por um reles prepotente como antónio costa.
Não queiram fazer disso património de todos. Eu rejeito-o absolutamente. E ao contrário do que querem fazer crer,os portugueses não são tão republicanos como pensam.
esperem e verão.
Fantástico post, João.
Mas eu pessoalmente, e como portuense que sou e que se orgulha das tradições liberais da sua cidade - que é também uma nação e um mundo, como toda a gente sabe -, prefiro o nome "Rua de Santo António". Porque os nomes das ruas pertencem ao povo, e não ao poder do Estado. E se o povo lhe chama e sempre lhe chamou Rua de Santo António, assim ela deve permanecer. O poder do Estado não tem nada que andar a impôr nomes ao povo.
Afixado por: Luis Lavoura em fevereiro 1, 2005 09:55 AMSe o povo lhe chama Rua de Sto. António, e não estamos num regime Estalinista, não vejo razão de lhe chamarmos 31 de Janeiro, a não ser que o amigo pretenda reprimir pela força, esta gafe popular?
O que seria correcto era colocar uma placa na referida Rua de Sto. António, a lembrar, a quem ali passa, a data e os hérois do 31 de Janeiro.
Meu caro senhor, este país anda farto de demagogos, e por essa razão poucos aceitaram ter-se trocado o nome de Praça Velasques por Praça de Sá Carneiro, ou Ponte Salazar por Ponte 25 de Abril, era preferível construirem de raiz obras novas a evocar datas ou personalidades que têm um lugar na nossa história...
Engraçado é reparar como a toponímia da cidade do Porto parece ser um dos poucos garantes da memória desta data assinalável. Porque não é só na Rua 31 de Janeiro/Santo António que perdura o movimento. Alves da Veiga, Sampaio Bruno, Basílio Teles, João Chagas, alferes Malheiro, todos eles se manifestam ainda hoje nas ruas do Porto. E alguns deles em artérias incontornáveis da cidade. Será difícil ir à Avenida dos Aliados sem passar pela Sampaio Bruno, ir à Cordoaria sem atravessar o Jardim de João Chagas ou passar pela Trindade sem cruzar a Alferes Malheiro.
Afixado por: JR em fevereiro 1, 2005 04:03 PMCaro patrício Luís Lavoura,
Também, em alguma altura, algum poder terá imposto o nome do santo à rua e ao povo. Mais: ao mudarem-lhe o nome em 1910, mais do que uma decisão estatal, foi um acto de memória pelos que tombaram e deram o seu sangue pelo povo em 1891. Por último: no seguimento da sua ideia, deveríamos ainda chamar Ponte Salazar à Ponte 25 de Abril?
Um liberal abraço.
...
Caro João Pedro,
Este ano fará 95 anos que estamos à espera e nada vemos.
Afixado por: João Macdonald em fevereiro 1, 2005 04:10 PMBelo post.
Há milhões de heróis esquecidos - estes são alguns deles. Há uma suposta tradição liberal da cidade que a cidade tem assumido apenas no seu sentido economicista. Há uma rua que se chama 31 de Janeiro, apesar de a câmara salazarista, e não o povo como alguém escreveu, ter insistido com o nome de "Santo António" (e sim MBP, no dia 26 de Abril foi colocado um cartão por cima da placa da "rua de Santo António" com a alteração para "rua de 31 de Janeiro").
Para os que não querem assumir como sua a revolta de 31 de Janeiro talvez não saibam mas estão a fazê-lo ao assumirem a bandeira da República (desculpem a pub ao jornal onde trabalho mas tem este texto revelador).
Já agora, permitam-me outra citação de um texto de José Augusto Seabra, no mesmo jornal, publicado no ano passado, ainda o professor estava vivo: "Um País à beira da bancarrota e com um regime corrupto, ruinoso e submisso a Inglaterra conduziu a uma revolta, no dia 31 de Janeiro de 1891." Há por aí alguma revolta guardada?
Por acaso na Rua 31 de Janeiro existe lá uma placa a assinalar o acontecimento.
Falta referir outra personalidade do 31 de Janeiro que também está assinalada na toponímia da cidade, o esquecido Aníbal Cunha, um académico bastante distinto na área da farmacologia que assumiu com bastante coragem, e aceitando as terríveis consequências profissionais que isso acarretou, a sua participação no 31 de Janeiro.
Afixado por: MBP em fevereiro 1, 2005 04:36 PMA Rua de Santo António continuará a ser de Santo Antonio independentemente da placa toponímica que a Camara lá mandou colocar em 1975. Os portuenses são gente pacífica e não costumam recorrer à violencia, senão a placa já lá não estaria. A rua é dos portuenses, e no seu coração continua a ser RUA DE SANTO ANTONIO.
Afixado por: Zé Fontinha em fevereiro 1, 2005 05:44 PMjoão macdonald:
Gostei do post.
Mas, permita-me a pergunta: qual é a sua visão da relação entre o Liberalismo e a República ?
Tenho comigo uma pedra rolada apanhada na praia do Mindelo, no dia do desembarque, pelo meu trisavô (ele próprio o escreveu na pedra que ainda hoje é religiosamente guardada na família). Sim, ele foi um dos 7.500 Bravos. Que foi ferido e quase lá deixou a vida, tendo, nesse dia sido condecorado pelo próprio D. Pedro IV com a Torre Espada que o Rei trazia ao peito.
Esse lado da minha família (o materno) sempre se orgulhou de ser liberal. E, no entanto, mantiveram-se monarquicos ferrenhos até à morte de D. Manuel II.
Do outro lado, o paterno, todos eram republicanos ferrenhos. Mas, os seus antepassados foram ... Miguelistas igualmente ferrenhos !
(Hoje, em ambos os lados, há gente de direita, do centro e da esquerda.)
O que se passou com ambos os ramos da minha família, passou-se com muitas outras: algumas conheço-as bem.
Não sou socióloga, mas a minha interpretação é a seguinte: os Liberais ganharam e tornaram-se situacionistas; os Absolutistas perderam e viraram oposicionistas. Daí a tornarem-se republicanos foi um passo: era a oposição que havia. Quando surge e Estado Novo, dá-se nova inversão. Os derrotados da República, voltam à mó de cima, e os antigos vencedores da mesma, passam novamente à oposição - socialistas ou comunistas: era o que havia. Com o 25 de Abril o esquema repete-se.
Onde estão afinal as raizes da esquerda e da direita em Portugal ? Em ideias ? Ou em causas muito antigas que, se formos a ver, talvez tenham ainda mais que ver com as invasões napoleónicas ? Ou mesmo com os exilados do tempo do Marquês de Pombal que importaram de Inglaterra os ideiais de Liberdade, mas também a Maçonaria ?
E muitas outras questões se poderiam por ...
PS: não sou socióloga, mas sou licenciada em História, e não me fiquei pela História que aprendi na Faculdade.
Grande post!
Bem haja pela recordação da data e, essencialmente, do seu significado.
A Liberdade conquista-se. Esta revolta, falhada, abriu as portas para 1910 e para a República. Abriu as portas para que estejamos hoje em liberdade e em democracia (ainda que com todas as limitações que conhecemos)
Só uma nota a uns comentários: no Porto ainda há quem lhe chame Rua de Sto. António mas são uma minoria saudosista. Eu, tripeiro de gema, sempre a conheci como 31 de Janeiro.
Alguns liberais tornaram-se situacionistas, outros permaneceram inconformados até ao fim.
A relação entre o liberalismo e o 31 de janeiro é mais óbvia para quem conviva, e conheça, com as instituições da cidade do Porto onde tudo aconteceu.
Cara Isabel Coutinho,
Excelentes questões, que aqui tentarei responder, eu que não sou nem sociólogo nem historiador, nem licenciado em qualquer ciência humana.
Em primeiro lugar, creio que há um erro de interpretação da sua parte quando afirma que os absolutistas, tendo perdido e virado oposicionistas, passaram rapidamente a republicanos – “era a oposição que havia”. As minhas leituras de modo algum apontam nesse sentido. Aliás, não só até à Patuleia resistiram em vários pontos do país guerrilhas absolutistas, como o próprio D. Miguel ganhou uma aura de D. Sebastião que, entre uns poucos, se prolonga até hoje (para confirmar a popularização do mito, é ler "A Brasileira de Prazins" de Camilo). Mais: pelo menos até ao início do século XX manteve-se vigente um decreto de D. Maria II que proíbia a D. Miguel e seus descendentes a entrada em Portugal, sob pena de morte em processo sumário. Se miguelistas houve que tivessem passado a republicanos, ignoro algum digno de nota (mas admito que seja apenas ignorância minha).
Por outro lado, a Isabel lança uma questão importantíssima: “Onde estão afinal as raízes da esquerda e da direita em Portugal?”. No que diz respeito ao período posterior à Guerra Civil, creio que a resposta é bastante clara.
Correndo o risco de ser simplista, permita-me a síntese. A Carta de 1826 estabelece a divisão. A direita é a que defende esta nova Constituição, que mantém o veto do rei, em última instância, superior às decisões do Parlamento. A esquerda é a que protela pelo contrário. O golpe de Setembro de 1836 – o dos setembristas – separou de vez as águas. O cabralismo – portanto, os cartistas –, mesmo com o interregno (1846-47) resultante da Guerra Civil da Patuleia, manteve a Carta de 26. Passando rapidamente por cima de algumas concessões aos setembristas, só após 1851 – isto é, depois do duque de Saldanha ter expulso Costa Cabral do poder –, portanto a partir do primeiro período da Regeneração, é que a esquerda liberal (desde sempre sob a égide de Passos Manuel, entre outros) viu finalmente consagradas as suas reivindicações liminares, entre elas um sistema de eleições directas. Foi, entre outras consagrações, o que aconteceu com o Acto Adicional à Carta de 1852.
Indo então à sua questão central: como se relaciona o Liberalismo e a República? Pois precisamente a partir da esquerda liberal.
Primeiro, o contexto europeu. Há um ano essencial para perceber isto: 1848. É o ano em que os ideais liberais e mesmo republicanos se consolidam em países como a Itália, Áustria, Hungria ou Prússia. Tão só porque a Revolução Industrial lança novos conflitos sociais e políticos ao criar novas questões sociais, novas classes, problemas novos e, consequentemente, novas expectativas. O "Manifesto" de Marx e Engels é publicado em 1848. Mau grado a nossa eterna distância em relação a estes cenários principais, não ficámos de todo incólumes às novidades.
Impossibiltada até 1852 de fazer vingar as suas ideias fundamentais, a esquerda liberal portuguesa – os setembristas, isto é, os radicais –, derrotados que foram na Patuleia (1847) começam um processo teórico e político de esvaziamento do trono da sua relevância política. Eis os argumentos e estratégias: o trono não tem legitimidade porque é hereditário; as consciências devem ser laicizadas através da educação; a fé católica deverá ser substituída pela devoção patriótica. O que temos é então a “gradual republicanização da monarquia”. Aqui está, parece-me, a resposta à sua pergunta de como o Liberalismo e Republicanismo se relacionam.
(Irmos mais atrás neste assunto, mesmo antes de chegar ao século XVIII, seria contar a incrível vida de Gomes Freire, mas isso é outra história...)
A Isabel conta-nos a sua história familiar para, se bem entendi, questionar a linearidade das origens e descendências das esquerdas e direitas, do liberalismo e republicanismo. O tema que enuncia é fascinante, muito próprio de um historiador de micro-história (o italiano Carlo Ginzburg, por exemplo), mas eu não posso, não devo e nem consigo entrar por aí. Mas creia-me que entendo perfeitamente como isso pode mexer com as nossas crenças e interpretação do nosso passado familiar e colectivo. Em 1919, durante a brevíssima Monarquia do Norte e as perseguições que aconteceram na cidade do Porto, havia dias, contava a minha avó, em que o seu pai, assustado, pedia ao seu futuro compadre para esconder a bandeira monárquica na casa daquele (que era anarquista e maçon!) e outros em que este fazia um pedido no sentido contrário, ficando a rubra e verde escondida em casa do outro! E o resultado da amizade do monárquico e do anti-monárquico, tão politicamente opostos que eram, foi o casamento dos seus filhos.
O que eu lhe invejo, Isabel, e ao mesmo tempo alegro-me por existir, é essa relíquia do Mindelo, essa pedra do seu Bravo trisavô. Essa pedra não é de esquerda nem de direita, é de todos nós, que gostamos de viver em democracia.
PS: Sou apenas um leitor da história, de modo que deixo aqui pelo menos três títulos que me ajudaram e que respondem de forma muitíssimo mais competente do que eu às suas questões: "Esperem e Verão! – textos republicanos clandestinos de 1848", introdução e selecção de textos de Fernando Pereira Marques, Alfa; "História da Guerra Civil da Patuleia 1846-47", Editorial Estampa e "O Século XIX Português", Instituto de Ciências Sociais, ambos de Maria de Fátima Bonifácio.
PS 2: Seria possível obsequiar-nos com uma fotografia da pedra? Muito obrigado.
Caro João Macdonald
Obrigado pela sua resposta.
Tem razão quando diz que o absolutistas não passaram de imediato a republicados logo após a derrota de D. Miguel.
A História do Liberalismo é tudo menos linear, e não é fácil, num local como este analisar-lhe todas as facetas. É bem verdade que entre os liberais se estabelece muito rapidamente – mesmo ainda em vida de D. João IV – uma clivagem, que se vai aprofundando e culmina no setembrismo, entre os partidários da Carta e os da Constituição de 22. A Constituição de 38, que resultou da revolução de Setembro, foi uma tentativa de conciliação das duas, que não agradou a ninguém e teve curta duração. Aliás, não houve só estas duas facções – cartistas e setembristas – ambas se encontraram minadas, desde o início por divisões internas. Se formos a ver, Costa Cabral, que veio a restaurar a Carta e cujo governo ditatorial deu origem à Maria da Fonte, era um ex-setembrista, bem como o Visconde de Sá da Bandeira, cuja lealdade a D. Maria II foi ao ponto de aceitar chefiar vários governos, tanto de um lado, como do outro. Além dos arrivistas e oportunistas, que os há em qualquer revolução, houve muitos liberais convictos que foram resvalando de uma facção para a outra. Sobre esta realidade, é muito interessante ler as Memórias do Marquês da Fronteira, liberal desde a primeiro hora, mas que morreu profundamente desiludido com o liberalismo …
Quanto ao regime monárquico, esse, ao contrário do que aconteceu em França desde a “sua” revolução, e em outras revoluções liberais, esse nunca foi posto em causa, nem por cartistas nem por setembristas. Não nego as influências que nos chegavam do resto da Europa, mas nem mesmo o Iberismo que irá ter uma considerável expressão em Portugal na 2ª metade do século, mas só podemos falar em “republicanismo” a partir da década de 70, tendo o 1º deputado republicano nas Cortes, sido eleito em 78. De facto, e muitos historiadores estão de acordo nesse ponto, o que veio a dar alento aos ideais republicanos, foi o Ultimato de Inglaterra, em 1890. Estávamos em plena crise da Regeneração que já levava aí uns 40 anos de vida. Não foi propriamente a ideia do caracter hereditário da monarquia que esteve em causa, mas o facto de muita gente pensar que os Reis da Europa eram todos primos uns do outros, colocando os interesses de família à frente nos interesses da Nação. A reacção ao Ultimato foi profundamente nacionalista e colonialista. E, nessa reacção estiveram unidos radicais e moderados. Tal como o foi (nacionalista e colonialista) a 1ª República. Basta estar atento à letra d’ “A Portuguesa”, que ainda hoje é o Hino Nacional, e que foi composto bem antes do 5 de Outubro de 1910.
Não me vou alongar mais em matéria tão complexa (e interessante). Mas a ligação directa entre Liberalismo e Republicanismo, parece-me ter quebras demais para se poder estabelecer um fio condutor. (sobre a instauração da República, “O Poder e o Povo” de Vasco Pulido Valente é, quanto a mim, de leitura obrigatória).
Quanto à “pedra do Mindelo”, fotografa-la é uma ideia, que nunca me tinha ocorrido. Acontece que não tenho, nem sei trabalhar com máquinas digitais e, muito menos sei passar fotografias para o computador … A ver vamos, talvez o possa pedir ao meu filho.
Já que falámos em histórias de família, não resisto a contar-lhe esta, de que muito me orgulho. A minha 4ª Avó, ficou viúva muito cedo, tendo o marido morrido na Guerra Peninsular. Sempre se meteu em política o que era, e se mantém, uma característica das mulheres da minha família. Liberal convicta, quando soube da revolta da Terceira, numa certa noite, chamou os seus 3 únicos filhos (o meu trisavô era o mais novo e não tinha ainda 18 anos) e instigou-os a partir para lá, afim de apoiarem D. Pedro. Foi assim que foram, cheios de entusiasmo (reza a “história” da família que, na manhã seguinte foi encontrada desmaiada na capela da casa). Depois do desembarque do Mindelo, a história soube-se e ela foi levada, presa, para o Convento de Carnide, onde as freiras – todas miguelistas – se divertiam a passar diante da porta da sua cela, a rezar por alma dos F… (desculpe omitir o nome da família). Calcule a aflição da pobre Senhora. Porém um Padre, que não era tão mau quanto isso, quando soube o que estava a acontecer, resolveu, na missa a que era autorizada a assistir, bramar contra “aqueles diabos dos F… que nunca mais morrem!”. Um desses filhos, que veio a desembarcar em Lisboa a 24 de Julho, correu de imediato a Carnide, libertar a Mãe. Ela viveu até tarde. E manteve-se Liberal (moderada, talvez … ) até à morte.
E, se o filho recebeu a Torre Espada do Próprio Rei, em campo de batalha, ela veio a receber um título de nobreza, só para ela, só em sua vida. Que nunca mais ninguém usou.
Para mim, nobreza é isto. Nobre é aquele que se notabiliza pela sua acção. A nobreza não é hereditária, porque não está no sangue. Está na alma de cada um.