fevereiro 20, 2004

Ácidos e bases da blogosfera

Este texto não foi escrito à pressa. Pede por isso que se lhe corresponda com uma leitura não demasiado apressada. Mas o leitor é quem mais ordena, como sempre.

Gostei muito dos textos com que o Daniel e o Rui ripostaram à tentativa intelectual e absolutamente política para desqualificar a blogosfera no exacto momento em que ela passou a ser vista como politicamente mais desfavorável. No momento em que a luta pela opinião dá sinais de virar à esquerda na blogosfera, uma teoria céptica sobre a blogosfera como meio, marcado pelo azedume e pela incapacidade para gerar massa crítica, vem mesmo a calhar à direita. Podemos levar a sério este diagnóstico pessimista e discuti-lo. Mas temos de perguntar-nos por que é que ele não apareceu antes, visto que nenhum indício visível permite dizer que o meio tenha sofrido uma mudança qualitativa nos últimos meses para além da dita inversão da correlação de forças. A qual, podia acrescentar-se, não é necessariamente consensual: a declaração de hegemonia, da direita ou da esquerda, faz parte da luta entre a esquerda e a direita. Mas, se esta é a parte política da coisa, sobre a especificidade do meio há talvez coisas interessantes sobre as quais reflectir. Vou portanto levar a sério o diagnóstico pessimista, com a ressalva de que ele vale também para tempos anteriores, talvez utópicos para alguns, mas não para todos.

Primeiro, a acidez e a obsessão do julgamento de carácter denunciadas por Pacheco Pereira. A blogosfera não tem só azedume. Tem azedume e tem narcisismo, é uma sociedade interesseira de elogio mútuo, entre outras coisas; tem pieguice, bons sentimentos, companheirismo, amizade, o que se lhe quiser chamar. O azedume é só o reverso de outras características muito mais amigáveis.Eu acho que isto tem que ver com a informalidade do meio: ele presta-se ao estar à vontade , ao “ambiente cosy". E da informalidade ao insulto, como sabemos, vai um passo muito pequeno. Nisto os textos dos blogues distinguem-se bem dos textos impressos: estes últimos, sendo escritos para um público em princípio mais vasto e anónimo, constrangem mais o escritor, que tende a tornar-se mais formal. A blogosfera é informal porque, em princípio, chega a menos gente - também por a publicação aqui ser mais rápida e sem intermediários. A blogosfera é mais “quente”, o texto de jornal é mais “frio”.

Depois, o azedume nos blogues é potenciado por outro fenómeno: é que a informalidade por vezes confunde-se com intimidade, o que é um erro. Nos blogues discutimos com muita gente que não conhecemos (isto para não falar do anonimato puro e simples que por vezes gera vandalismo) e isso presta-se ao equívoco, ao erro permanente na avaliação do s outros, à dificuldade de comunicação. E enquanto a amizade e a estima intelectual entre pessoas que se conhecem são obstáculos ao azedume, o desconhecimento em ambiente informal tem ou pode ter o efeito contrário. Um efeito que curiosamente seria atenuado numa conversa face a face mesmo entre desconhecidos. (Parêntesis: os blogues aparentam-se a uma conversa no café. Mas não são uma verdadeira conversa. No face a face, as pessoas trocam outros sinais, não escritos, que melhoram a sua capacidade de comunicação. É por causa dos maiores equívocos que a comunicação escrita tem em relação à oralidade que tanta gente usa os “smileys”).

Isto acontece porque, de um modo geral, a comunicação é uma coisa complicadíssima, cheia de meios diferentes a que damos sentidos diferentes. Acho que não há ideia mais errada do que a que pensa a comunicação como uma coisa transparente, imediata, automática. E talvez também não haja ideia sobre a comunicação mais espalhada do que esta. Embora haja entendimentos maravilhosos, imediatos, entre pessoas que nunca se viram, esses casos são excepcionais. O conhecimento leva tempo, o entendimento intelectual também. A incompreensão, o equívoco são a forma primeira da comunicação entre desconhecidos. Só o tempo permite a aproximação e o entendimento, mesmo na discordância, que permitem o respeito intelectual. Uma comunicação sem tempo dificilmente sai do estádio inicial de incompreensão.

Ora o tempo para as pessoas se conhecerem nos debates- partindo do princípio, talvez ingénuo, de que o querem fazer - é uma das coisas que falta nos blogues. Já escrevi sobre isso aqui e todos os bloggers experientes têm essa percepção: enquanto consomem imenso tempo, os blogues vivem numa espécie de presente eterno. Um mês parece imenso tempo nos blogues, sem deixar de ser um mês na nossa vida, com as suas chatices todas - entre as quais a falta de tempo. O paradoxo é este: as pessoas têm pouco tempo para ler e para escrever, e os blogues têm carradas de texto escrito diariamente por essas pessoas com muito pouco tempo para ler muito texto. Provavelmente não o imprimem, o que seria uma forma de ganhar tempo para a leitura. E no écran não há paciência para ler textos mais longos como este. É democrático, mas é assim, e é também muito pós-moderno. Se chegou até aqui, muito obrigado, amigo leitor, você é mesmo um porreiro. Só faltam dois parágrafos.

Faltando tempo, também falta memória aos blogues. Não é por acaso que alguns blogues, para serem de abertura mais rápida, “cortam” no peso das páginas, ficando com menos texto antigo na sua página de leitura, chutando o resto para arquivo. Dá-se assim outro fenómeno extremamente paradoxal: uma quantidade enorme de texto e de leitura diários nos blogues criam relativamente pouca memória. A blogosfera tem pouco arquivo temático porque fazer isso é um trabalho manual que rouba tempo. E só os arquivos temáticos permitem fazer buscas no passado da blogosfera que não dependam da memória da cabeça de cada um. A questão da “massa crítica” - termo empregue por Pacheco Pereira, o qual, como é público, discute pouco ou nada directamente com quem o interpela, abdicando assim de contribuir para colmatar o que critica- tem também a ver com isto: a memória é fraca. Com um meio que vive num tempo extremamente fugaz, com pouca memória e que ao mesmo tempo consome imenso tempo. Penso que esta é a principal limitação deste meio - e ela não tem só a ver com os blogues, mas com o nosso modo de vida. Vasto programa, como diria Pacheco Pereira.

Com imenso presente e pouco passado, a blogosfera terá futuro? Espero sinceramente que sim porque, como disseram o Daniel e o Rui, ela tem outras boas características que compensam estas: o alargamento da opinião publicada num país que tinha há anos uma pequena oligarquia de opinion makers, a possibilidade de escritores e leitores comunicarem directamente, a vivacidade de um debate quase em tempo real e, sobretudo, a liberdade para cada um de publicar a qualquer momento o que lhe vai na cabeça. Não é nada pouco.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

Tem imenso e intenso fututo, caro André. Mais gente a ler e a escrever e a debater. Menos dependência dos meios "frios". Mais ferramentas de interligação e pontenciação do que é relevante.

A ágora. O adro da igreja. O café de bairro. A tertúlia. Voraz, o tempo abandonou esses postos de escuta. Agora temos este. Que, mais lato e imediato, é tanto mais libertador quanto mais perigoso. E mais QUENTE, sem dúvida :)

Afixado por: Paulo em fevereiro 20, 2004 09:01 PM

A crítica mais ácida, estilo «Canard Enchaîné» é em
www.antidireitaportuguesa.blogspot.com e está cá desde Julho de 2003.
Até assusta a própria esquerda - mas leiam o «Canard Enchaîné» em que a crítica ao Presidente Bush é ainda mais ácida que no blog da esquerda não partidária e livre-pensadora!!!

Afixado por: j.silva em fevereiro 20, 2004 09:53 PM

Aquela que, pessoalmente, acho a maior virtude da blogosfera, é também, paradoxalmente, a sua maior limitação: o anonimato. Virtude, porque, ao excluir factores externos, obriga o interlocutor a concentrar-se na ideia e não no sujeito. Defeito, porque esses factores externos fazem parte da comunicação. Daí, que a blogosfera seja um meio limitado, que aconselha seja complementado pela... "atmosfera".
De todo o modo, com trabalhos como este "tríptico" de excelentes reflexões sobre a blogosfera, esta só se credibiliza.Se for à esquerda, tanto melhor.

Afixado por: zás!pás! em fevereiro 20, 2004 10:40 PM

A saída do Pedro Lomba, para muitos "bloguistas" considerado um icon da direita (não preciso escrever civilizada pois não?), suscitou sentimentos e reacções diversas. Uns, mesmo os blogs de esquerda e obviamente os de direita lastimaram-no de uma forma directa. Outros como o Abrupto preferiram fazer considerações tipo contagem de espingardas. São estilos. Mas "malgré tout" a blogosfera ácida, básica ou neutra vai continuar. Necessita de todos, os que "escrevem" política, os que se dedicam às artes, os que na base soft, vão misturando fait-diverts com a sua bicada política (à esquerda ou à direita)e até aqueles que para muitos de nós parecem estar a mais, mas que na realidade fazem deste exercício de escrita mais ou menos opinativo uma parte do seu mundo de expressão de ideias. A blogosfera com esta tecnologia ou com outra, com este nome ou com outro irá continuar e disso eu não tenho dúvidas (embora às vezes me engane). Ou quem sabe voltar às velhas tertúlias de café. Mas será sempre um espaço de opinião.
Finalmente, parabéns André Belo pelo seu excelente post.

Afixado por: predatado em fevereiro 20, 2004 11:16 PM

Boa Análise. Aqui pelo menos podemos elogiar as coisas que nos agradam, certinhos de que não é por mais nada. E neste país isso é uma grande coisa.

Afixado por: Ruben em fevereiro 20, 2004 11:30 PM

Excelente post, parabéns.Tenho lido muita coisa nos blogs que não leria nunca noutros lados, precisamente por causa do enfoque nas ideias que mais fácilmente aqui, na blogosfera, acontece.
Blogs como o Barnabé ou A Grande Loja não poderiam existir noutro suporte, não se iria com a mesma facilidade ao quiosque, pelo que o melhor da blogosfera vai manter-se no tempo com este ou outro nome.

Afixado por: Pedro Lima em fevereiro 20, 2004 11:56 PM

Só um pequeno comentário a esta afirmação acerca do JPP "Pacheco Pereira, o qual, como é público, discute pouco ou nada directamente com quem o interpela". Não sei se o que refere acerco do JPP é público... o que eu sei é que tive essa experiência quando no caso do ministro Martins da Cruz em que ele escreveu que acreditava na "palavra" do ministro e depois apareceram aqueles factos acerca do seu secretário Tigroso, eu escrevi ao JPP a confrontá-lo com a hipótese de o ministro ter formalmente falado verdade (não falou com o colega) nos ter estado efectivamente a enganar... ainda hoje estou à espera da resposta.

Afixado por: José Farinha em fevereiro 21, 2004 01:33 PM

Respondeu a muitas perguntas que vinha fazendo a mim mesma. É isto uma moda passageira ou uma maneira nova de pessoas encontrarem pessoas, de reagrupar gente? Só o incógnito faz com que lhe diga 'Obrigada, gostei muito do seu post de hoje'

Afixado por: Ana em fevereiro 21, 2004 04:21 PM

Até "prova" em contrário o Barnabé continua a ser o Blogue que prefiro ler. Esta análise é um exemplo disso mesmo e um exemplo para a blogoesfera.

Força!

Afixado por: Joseph Saint-Simon em fevereiro 21, 2004 09:59 PM

"isto" é uma forma de organizar tribos.
de passar o tempo. de ocupar espaço.
de mandar vir. de existir
apenas um bocadinho mais.
é palco de experiências.
é trip.
e trela.
vida de cão?
se for isso também é vida de cadela.
é giro.
é divertido.
é uma cena política.
é uma sena política.
é ouros
e paus.
andar na rede não é igual a não andar na rede.
eu leio o barnabé
antes e depois.
venho cá espreitar todos os dias.
gosto dos links
que me parecem fundamentais.

esse é um erro do Pacheco Pereira.
a falta de links.

toda a gente o linka mas ele só linca quem quer.
a palavra certa para "isto" será prepotência
ou omnipotência?

a questão é que já se vêem blogues que não o lincam. a ele e a outros que ocupam cada vez menos espaço, que desaparecem. que desistem. vem nos livros. isto tudo vem nos livros.

de ciências da natureza.

:-)

Afixado por: joão ruivo em fevereiro 21, 2004 11:43 PM

O que se passa realmente, e já tenho ouvido diversas passoas dizer isso mesmo,é que uma 2ª geração de bloggers está a surgir, enquanto q muitos pioneiros saiem com a sensação de dever cumprido. Por toda a blogosfera se multiplicam as mais diversas opiniões, temas ou confrontos.Qualquer assunto que se procura avidamente sabendo-se que não interessa ao comum dos mortais está aqui presente; há é que saber procurá-lo. E importa sobretudo salientar que uma imensa massa crítica se soltou e pôde dizer de sua justiça, ao mesmo tempo que publica uma magnífica escrita de forma democrática e gratuita. É talvez este o maior milagra da blogosfera.
PS:espero que o André Belo não se tenha referido ao meu blog, caso o tenha visto,quando falou dos cortes nos arquivos e na falta de memória. Os meus arquivos realmente desapareceram, e ainda não consegui repô-los, mas tal deve-se ás minhas limitações informáticas e não a qualquer ocultação de opinião incómoda!Já agora, se alguém já tiver passado pelo mesmo e souber como é que se resolve o problema, agradecia qualquer conselho...

Afixado por: João Pedro em fevereiro 21, 2004 11:59 PM

João Pedro,

não me referia ao seu blogue. Até me referia mais ao Barnabé. Além disso, não era uma crítica, era uma constatação: a rapidez com que se abre o blogue, que é uma vantagem, está em concorrência com a quantidade de texto na página de abertura.

Afixado por: André Belo em fevereiro 22, 2004 12:06 AM

Eu sabia que o barnabé podia também ser pedagógico :)

Aqui nesta entrada está o tom certo.

E os ácidos já existiam em muito sítio antes de os blogues serem inventados, já os encontrei em todos os meios de comunicação on-line, e antes disso também nas escolas, empregos, cafés e outros locais.
Não estão circunscritos à política, podemos encontrar todos os sinais deles até em discussões de filatelia :).

A acidez é muitas vezes sinal de maus figados e de digestões difíceis ;)

Afixado por: Mário em fevereiro 22, 2004 01:03 AM

Já agora, porque é que é tão importante que exista uma "hegemonia" de "esquerda" neste meio ?

Já repararam que os welogs políticos são uma gota de àgua no meio de todos os outros ?

Só reparam na existência daqueles que aparecem linkados nos mais "mediáticos" ?

Afixado por: Mário em fevereiro 22, 2004 01:07 AM

oi

Afixado por: Mj em março 12, 2004 05:43 PM
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