Receber um elogio por alguma coisa que se escreveu é gratificante, mas é sempre, inevitavelmente, insatisfatório. O narcisista ama-se e ao que faz, mas por amar sabe que não é razoável, e alimenta uma angústia mais ou menos secreta, mais ou menos intensa, sobre as qualidades do objecto do seu amor, ou seja, sobre as suas próprias qualidades. O elogio constitui um bálsamo, um ansiolítico. Mas como evitar que a dúvida íntima que alimentamos sobre nós mesmos se transfira, insidiosamente, e acabe por recair sobre a pessoa que fez o elogio? Quem nos elogia, será sensato? Será complacente? Facilmente enganável? Tolo?
Um elogio que me é feito a mim é um multiplicador de complicações, um disseminador de dúvidas. Porém, um elogio feito a outro não tem nenhuma ambiguidade. Quando o leitor me diz: «grande texto, aquele sobre a miúda que pediu um conselho», eu e ele estamos em perfeito, tranquilo e objectivo acordo: só posso reconhecer-lhe a perspicácia. Se, ainda por cima, o leitor deseja atribuir-me a mim a autoria de uma coisa bela que de facto não fiz, não será isso profundamente lisonjeiro? Algum mérito devo ter para que a confusão seja possível. (Subitamente descubro a motivação mais profunda, mais racional, mais respeitável, para o plágio. Devemos compreender o plagiador e até reconhecer que quem plagia sem que se desconfie tem, por definição, algum mérito)
posted by Ivan, ontem à noite.
Publicado por andrebelo em | TrackBack