fevereiro 26, 2004

A vaidade inútil de Ralph Nader

O problema de países como os EUA ou o Reino Unido não é que haja pessoas e partidos à esquerda ou à direita que queiram concorrer fora dos dois grandes e assim dêem a vitória ao lado oposto. O voto útil é aceitável como opção, mas tem sempre como resultado a limitação das escolhas futuras. E o sistema eleitoral maioritário serve exactamente para isso: tornar inevitável o afunilamento político.

Eu, que acho mal que Ralph Nader concorra a estas eleições, não o acho por ele dividir votos. Só divide os votos se votarem nele, só votam nele se não quiserem escolher sempre entre dois, só os querem obrigar a escolher assim porque o sistema eleitoral maioritário tenta sempre contrariar a liberdade de escolha. Eu acho que fez muito bem em concorrer nas últimas eleições. Nem estou convencido que os seus eleitores fossem votar se assim não o tivesse feito. E a chantagem dos democratas foi a chantagem de todos os que se consideram donos dos votos e olham para os sistemas eleitorais que criaram como se de uma inevitabilidade se tratasse. Mudem-no e deixarão de perder quando a esquerda, legitimamente, não os acompanhar. É que o hábito de fazer charme para o centro e para a direita e chantagem para a esquerda tem uma longa tradição e não conhece fronteiras. Até em países com sistemas eleitorais proporcionais, onde o argumento não faz sentido. Por mim, acho que se deve votar em quem se concorda. Quem faz campanha ao centro, fica-se com os votos do centro. Ralph Nader fez campanha à esquerda criando condições para que um Dean chegasse a ter a força que teve. E Dean criou condições para que um dia destes até haja um candidato de esquerda à presidência dos Estados Unidos. Na política a eficácia não se mede só pelo resultado de cada eleição.

A razão porque sou contra esta nova candidatura de Nader (apesar da minha opinião não contar para nada nesta matéria) é a de ele não ter o apoio de ninguém: nem do seu partido, os Verdes, nem da ONG que fundou, nem de jornais liberais (no sentido americano do termo). Ninguém! Ou seja, a sua candidatura não nasce de qualquer necessidade política que seja externa à sua vontade pessoal. E em política, isto está longe de ser um pormenor. Esta candidatura não passa de um exercício de narcisismo que me espanta e entristece.

O meu problema não é que o sistema eleitoral americano não esteja do lado de Nader. O meu problema não é que os democratas odeiem Nader. O meu problema é que ninguém está do lado de Nader e ninguém parecia querer a sua candidatura. Se ele, mesmo assim, avança não compreendendo o seu isolamento, não pode ser um bom candidato. E se eu sou contra o voto útil, nem por isso aprecio o voto inútil.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Tem uma ideia muito negativa do sistema político norte-americano. Não era de esperar outra coisa.

No entanto, muitos esquecem que, mesmo havendo só dois partidos, existe uma representatividade maior que em Portugal. É que, nos EUA cada congressista, cada senador, representa quem o elegeu. Em Portugal, os deputados são uns ilustres desconhecidos que, consequentemente, não têm (ou não deveriam ter) legitimidade política. Daí a disciplina de voto (mas isso é outra história).

Não concordo quando afirma que Dean abriu as portas à esquerda. Eu acho que as fechou definitivamente. De qualquer maneira, e lembrando Dean quando afirmou a pés juntos que acreditava no sistema capitalista, uma coisa é certa, quem dera que a direita portuguesa fosse tão economicamente liberal quanto a esquerda americana.

O aproveitamento político que a esquerda portuguesa faz de Dean é errado na forma e no conteúdo.

Afixado por: André em fevereiro 26, 2004 03:29 PM

Caro Daniel, antes de mais as minhas desculpas plebeidade.
E a candidatura de Tózé Seguro a lider parlamentar do PS aproveita a quem ?

Juro que estava a ler a notícia e na reacção pavloviana mais básica imaginei um post do Daniel mais ou menos assim:

Título: Dizem que a prioridade são as Europeias

Texto:Tózé Seguro próximo lider parlamentar do PS

Afixado por: Real em fevereiro 26, 2004 03:29 PM

Correcção:
Caro Daniel, antes de mais as minhas desculpas pela plebeidade.
E a candidatura de Tózé Seguro a lider parlamentar do PS aproveita a quem ?

Juro que estava a ler a notícia e na reacção pavloviana mais básica imaginei um post do Daniel mais ou menos assim:

Título: Dizem que a prioridade são as Europeias

Texto:Tózé Seguro próximo lider parlamentar do PS

Afixado por: Real em fevereiro 26, 2004 03:32 PM

O André confunde representatividade de maiorias locais com representatividade no sentido lato, que existindo quer dizer que a maior parte das diferentes opiniões que existem numa sociedade estão representadas nos orgãos legislativos. Nos Estados Unidos, os lugares na Câmara de Representantes e no Senado (tal como os votos de um Estado no Colégio Eleitoral que elege o Presidente dos EUA) são atribuídos baseados no método first-past-the-post: em círculos uninomiais ao candidato que obtiver o maior número de votos. Muito semelhante ao que se passa no Reino Unido. Dizer que tal sistema leva a uma maior representatividade que um sistema proporcional (como o Português, apesar de não ser total) só pode ser mistificação de quem não gosta de ver minorias a ter voz. Neste momento nos EUA há um forte movimento para modificar as leis eleitorais, primeiro a nível local, introduzindo o método de instant run-off voting. É um passo na direcção de maior representatividade (no sentido correcto do termo), mas está ainda longe de um sistema que assegure a pluralidade de opiniões a nível legislativo. São mantidos os círculos uninomiais, mas aos eleitores é dada a possibilidade de listarem por ordem de preferência os candidatos, sendo o eleito o que obtiver uma maioria absoluta dos votos, incluindo não só primeiras escolhas mas também subsequentes. Para mais informação ver http://www.fairvote.org/ e http://www.fairvote.org/irv

Quanto ao Dean ser de esquerda, ou mais à esquerda que os restantes candidatos às primárias do Partido Democrata, tal é uma mistificação. A etiqueta de esquerdista coldada a Dean deveu-se essencialmente a duas coisas: ter-se frontalmente oposto à invasão do Iraque antes desta ter acontecido; em parte por arrastamento, por ter sido o primeiro a fazer uma campanha de ataque a Bush, sem meias palavras, sem apelar ao famoso "centro consensual". No entanto, comparando as políticas propostas pelos vários candidatos (ver e.g. http://www.moveon.org/pac/cands/all_interviews.html ou http://edition.cnn.com/ELECTION/2004/special/president/issues/index.html) rapidamente se conclui que por exemplo Kerry é tão ou mais de esquerda que Dean. Para não falar de Dennis Kucinich. Alguém sendo eleito presidente dos EUA tornaria este país na verdadeira democracia inscrita na sua constituição. Esqueçam Nader, apoiem Kucinich.

Afixado por: viana em fevereiro 26, 2004 04:27 PM

viana,

concordo com quase tudo, mas tratas a posição sobre o Iraque como um pormenor. Como não sou americano, valorizo as posições dos candidatos sobre política externa. Por isso preferia Dean a Kerry

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 26, 2004 04:47 PM

O melhor post que já li aqui, sem dúvida. Levantas e exploras muito bem toda esta questão e fazes ainda uma observação muito importante.A da "eficácia" na política, que toda a gente associa aos resultados eleitorais e ao imediatismo do "ganhar" ou "perder". Em última instância e numa visão mais radical,em política não se "ganha" ou "perde", "faz-se" ou "não se faz" e não é num momento eleitoral que as coisas mudam. A mudança, a revolução, faz-se com avanços e recuos numa perspectiva de médio-longo prazo. Nos EUA é preciso desbravar muito terreno para que as coisas efectivamente mudem.Ainda em relação ás eleições norte-americanas, tenho muita pena que Wesley Clark tenha sido atirado ás feras tão cedo, o que não foi de todo inocente. Acredito que as coisas estão para mudar lá para as bandas do Tio Sam. Não para já, talvez (espero enganar-me).

Afixado por: MCG em fevereiro 26, 2004 06:11 PM

Por acaso tenho a opinião oposta do Daniel Oliveira. Concordo quando diz que a candidatura dele não tem apoio nenhum de interesse, mas discordo noutras coisas.
1. acho que, neste caso, o voto útil será importante. Também prefiro não enveredar por esse caminho, acho que é mais importante mantermo-nos fiéis às nossas convicções, mas neste caso o importante, para mim, é tirar de lá o Bush.
2. acho que o bom da candidatura do Nader é que vai dar algum tempo de antena a alguns assuntos que certamente não serão abordados convenientemente durante a campanha que aí vem.
3. poderá Nader tirar votos a Kerry ou a outro candidato democrata? Certamente que sim, mas como disseste, e aí também concordo, quem votar no Nader provavelmente não votaria sem a candidatura dele. Mas com a entrada de um liberal (sentido americano) na corrida, certamente que poderá haver menos ataques por esse lado a Kerry e, no final, caso este seja eleito, poderá dizer que o foi de forma absolutamente legítima e sem margem para dúvidas.

Afixado por: João André em fevereiro 26, 2004 07:49 PM

E a candidatura de Jerónimo de Sousa em 1996, que acabou a meio? Não penso que seja 'vaidade inútil', mas antes um direito constitucional. Lá, nos EUA, como cá.

Afixado por: ricardo em fevereiro 27, 2004 12:46 AM

Daniel,
cheira-me que o que tu quiseste dizer foi, por outras palavras:
"Raios partam o parvo do Nader, a meter-se onde não é chamado outra vez!
Com esta candidatura vai canibalizar os votos dos democratas e, provavelmente, favorecer a reeleição do Bush!"

Não que eu seja pelo Bush, mas o teu post queria dizer mais ou menos isto, não era? :)

Afixado por: Heroi do Silêncio em fevereiro 27, 2004 01:12 AM

Não. Mais: nas últimas eleições contribui (com pouquinho) para a candidatura do Nader, via Internet. Por isso, eu queria dizer o que escrevi, nem mais uma linha, nem menos uma linha.

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 27, 2004 01:37 AM

O Daniel não quer assumir compromissos de voto útil, para Portugal, claro está.

Afixado por: Real em fevereiro 27, 2004 11:30 AM

Em relação à candidatura de Nader, quer seja com apoios ou sem eles, penso que é importante, mais não seja porque aumenta o leque de escolha para os cidadãos.
O voto útil é a coisa mais inútil que existe para a democracia. E isso é verdade nos Estados Unidos como em Portugal.
Passe a publicidade, escrevi um livro com uma proposta de reciclagem do sistema eleitoral português depois de ter descoberto que mais de 700 mil pessoas votaram em vão nas Legislativas 2002.
Pode parecer que não tem muito a ver, mas tem. Se tivessemos outro sistema eleitoral o voto útil não seria usado como é para a típica chantagem do "voto neste para não ter lá o outro".
No sistema que proponho, que não constitui um corte demasiado radical com o actual, seria possível recuperar para efeitos de contabilização de mandatos quase 600 mil votos.
Levar estes 600 mil votos em consideração permitiria que o parlamento reflectisse de forma mais fiel a diversidade da sociedade.
O que está errado não é a candidatura de Nader - a qual será sempre útil, mais não seja para o debate de ideias - é o sistema eleitoral norte-americano.

Afixado por: Luís Humberto Teixeira em fevereiro 27, 2004 07:18 PM

Assim vai a fé na Democracia do Sr. Daniel. Essas coronárias, assim, não podem durar muito...

Afixado por: Alfredo Vieira em fevereiro 28, 2004 04:10 AM

Só queria saber se o Daniel faz ideia de quantos apoiantes tem o Ralph Nader nos EUA, mesmo fora do partido verde. É que nem sempre as estruturas organizativas e/ou organizadas têm razão. E por muitas vezes não reflectem a vontade do povo.

Afixado por: Alex Gomes em fevereiro 29, 2004 04:39 PM
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