fevereiro 28, 2004

No 5° aniversário do Bloco de Esquerda

Que força é que faz um gajo, longe da terrinha, sair de casa numa noite fria de inverno, das mais frias do ano, para ir para uma tasca cheia de fumo onde a simpatia não está garantida, ver um Benfica de presente acabrunhado jogar contra uma equipa de fiordes?

O Benfica faz 100 anos hoje. A crónica da efeméride diz que nasceu em Belém, onde um grupo de rapazes se reunia para jogar à bola. Diz também que entre eles se destacavam os “Catataus”, alcunha dos irmãos Rosa Rodrigues. Que eles fundaram oficialmente o Grupo Sport Lisboa numa farmácia de Belém, a farmácia Franco, a 28 de Fevereiro de 1904. Mas estas são memórias completamente abstractas. Toda esta gente morreu há muito tempo e não faço a menor ideia de quem fossem, como jogassem, que adeptos tinham na época, por que raio cresceram até se tornarem, algumas décadas depois, no maior clube desportivo português em títulos e adeptos.

Procurei por isso na Internet as minhas memórias benfiquistas míticas, as dos inícios dos anos 80, as de Alves e Chalana, Carlos Manuel e Humberto, Bento e Diamantino, Stromberg e Néné; mas não encontrei grande coisa. O site oficial do clube está cheio de publicidade e adjectivos gloriosos. Mas não tem títulos para celebrar, só para vender por subscrição. Não tenho nada contra a propaganda do Benfica. Mas o site não tem história nenhuma que se veja. (Há anos que penso que um dia vou para os periódicos da BN e, em vez de pedir gazetas do século XVIII, peço a colecção da Bola dos anos de 82 a 84).

Procurei mais e, noutros sites, encontrei uns fragmentos que já me deixaram mais satisfeito: os adversários da taça UEFA de 82-83, o Craiova e a Roma, deixaram vestígios daqueles dias em que tinham grandes equipas mas foram derrotados pela fantástica campanha do Benfica de Eriksson e do muitas vezes grande Zoran Filipovic.

Também é normal que nada me satisfaça: as memórias são todas afectivas, ligadas à história de cada um: os rapazes lampiões da minha geração que estiveram na final da taça de 1980 compreendem a minha emoção se eu lhes falar do golo do brasileiro César, de costas para a baliza, rodopiando, e o Fonseca, que nem a viu, só protestava não se sabe com o quê. Mas não percebem que essa emoção está associada a outras, como o facto de o meu pai ter comprado um dos últimos bilhetes na sede do Porto em Lisboa, na Avenida da República, asseverando que eu era fanático do Porto. Ou como o empate 2-2 em Setúbal, talvez dois anos depois, teve sabor de final de taça para mim, por ser a primeira vez que via o Benfica fora da Luz (antes do jogo, à porta do estádio, o homem das barbas, esse mesmo que assegurava ter conhecido Shéu em Moçambique e que contava como ele tinha perdido parte dos dedos de uma mão com um foguete, esse homem, fanfarrão, jurava — e eu acreditava — que o Benfica ainda ia ser campeão, e que apostava nisso logo ali uma “quinhentola”; mas não foi).

Tudo isto são fantasias, e haveria muitas outras assim, pessoais e intrasmissíveis. E são talvez fantasias pequenas comparadas com as desses adeptos da era da rádio de que o Público fala hoje, que não viam os jogos nem em estádio nem na TV e para quem o Torres era alto como uma torre de igreja e Eusébio furava as redes de cada vez que marcava um golo. Mesmo assim, Eriksson continua a ser para mim um penhor da superioridade inteira da civilização sueca, um gentleman que nenhuma decepção mercenária poderá apagar (na pesquisa feita no Google encontro notícias já velhas que falam da intenção de Eriksson processar o Benfica por dívidas com mais de dez anos). Também aprendo que Vale e Azevedo, na sua gloriosa gestão, decidiu patrocinar uma gloriosa equipa de pólo aquático da quarta divisão italiana, criando assim o glorioso Benfica Pallanuoto Viareggio Versilia). Não quero saber: quero a minha equipa mítica mesmo assim, de memória desbotada, retratada a preto e branco num velho recorte da Bola. Para a guardar, acho que nem à BN vou.

O Benfica faz 100 anos, a minha infância não volta, mas sempre digo que o futebol me aliena menos do que os blogues. O que é que tem o Benfica que é diferente dos outros? Bela segunda parte contra o Rosenborg. Aqueles jogadores deram-nos uma coisa: o começo de uma equipa. Tiveram vontade colectiva de ganhar. Mas é só o começo. Agora era preciso que os dirigentes começassem a perceber isso para começarmos a não ter apenas um passado glorioso que pesa, em vez de libertar. É mais difícil do que passar a eliminatória.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

André
Eu sou um pouco mais, digamos, "antigo" que você e as minhas memórias remontam um bocadinho antes, ao tempo Águas, do Cavém, do Germano, do Costa Pereira e obviamente do Eusébio. Não preciso de dizer quanto gosto da pluralidade dos vossos posts, caso contrário não vos visitaria com a efectividade e a quantidade quanto o faço. Mas este seu post que acabei de ler, emocionou-me e tal como o nosso Glorioso, também você está de parabéns. Hoje é um dia, como deve calcular muito especial para mim,portanto meu caro Daniel Oliveira, até você está perdoado pelo que disse antes sobre a colocação deste lindo simblo, no post anterior. Força Barnabés. Um abraço André e Viva o Benfica!

Afixado por: predatado em fevereiro 28, 2004 06:14 PM

O glorioso de épocas passadas que volte a proporcionar-nos de novo alegrias com vitórias
e campeonatos, honrando a sua nova catedral, são
os votos de um adepto que prefere não continuar a assistir a um confronto, quando a equipa não está a render nem a produzir os resultados desejados.

Afixado por: congeminações em fevereiro 28, 2004 06:30 PM

Folgo em saber que o homem por trás do Barnabé, enverga a camisola vermelha e branca (que por vezes é branca e vermelha e até preta e vermelha).

Afixado por: borboleta em fevereiro 28, 2004 07:02 PM

Folgo em saber que o homem por trás do Barnabé, enverga a camisola vermelha e branca (que por vezes é branca e vermelha e até preta e vermelha).

Afixado por: borboleta em fevereiro 28, 2004 07:02 PM

Noto, até surpreso pelo blog que a alberga, na confissão de reaccionarismo absoluto, tão preso ao passado, glorificando Glórias Míticas sem atentar à realidade do presente e ao futuro que se constrói. Ouça um conselho avisado, desloque essa lamúria para junto dos seus pares, ali junto ao rio, e resmunguem-se no vosso sítio comum, a sombra do Estádio do Restelo

Afixado por: jpt em fevereiro 28, 2004 10:24 PM


O Benfica é um grande clube. Mas o FC.Porto neste momento é quem promove Portugal. O Futebol é um desporto lindo e era bom que o país voltasse a ver o Benfica doutros tempos. Um clube que desse alegrias aos seus simpatizantes. Todavia discordo com a política seguida por muitas autarquias e governos de apoiar clubes de futebol que depois vão gastar rios de dinheiro em jogadores estrangeiros de fraco rendimento. Apoie-se os clubes mas para que promovam o desporto entre os seus associados. Devia ser assim. Também Eu recordo o meu Benfica dos anos 80 e 90 que perdeu três finais das competições europeias. Mas também gosto deste, pois quando se é benfiquista morre-se benfiquista.
Parabens ao clube pelo seu centenário.

Afixado por: Andropov em fevereiro 28, 2004 10:41 PM

Como adepto do BELÉM, uma dissidência do Benfica que recuperou o espírito daqueles homens que fundaram no bairro em que vivo e sempre vivi, há já 38 anos, o Benfica, não posso naturalmente desejar nada de bom aos lampiões - aos lagartos nem se fala (roubaram-nos nas Salésias, em 1955, aquele que teria sido o nosso segundo título de campeões nacionais da I divisão para o entregarem ao Benfica). Que os próximos 100 anos tragam aos encarnados da 2.ª circular mil vezes aquilo que tiveram nos últimos 10. Meu Deus, como eu odiava o Benfica e os benfiquistas quando ainda ganhavam. E agora chamam tudo e mais alguma coisa aos portistas. Não têm memória. Quantos jogos ganhos e títulos conquistados com favores dos árbitros e com a ajuda dos organismos que então dirigiam o futebol luso. Era uma vergonha! Que pena que o André já não se lembre (ou não se queira lembrar)!

Afixado por: Fernando Martins em fevereiro 28, 2004 11:32 PM

borboleta, não é só um homem por detrás do Barnabé, são cinco... e não envergam todos a camisola vermelha e branca( com muita pena minha atenção!)

Afixado por: Ines Maya em fevereiro 29, 2004 12:39 AM

Curioso...o Fernando Martins, que presumo nada ter a ver com o ex-presidente do SLB, diz aqui que odiava o Benfica quando ganhava, mas indigna-se quando os benfiquistas têm o mesmo sentimento em relacção ao Porto. Ou só os decadentes do Restelo é que têm tal privilégio, ou então confirma-se que o BElenenses é mesmo uma mera filial do Porto, e que jamais ousaria criticá-lo. Vindo de um clube que está bem próximo do abismo da 2ª, parece-me um pouco frustração, mas posso estar enganado.
Mas deixemo-nos de sarcasmos. O dia é (ou era, já que passa da meia-noite)ideal para gritar a plenos pulmões GLORIOSO SLB!

Afixado por: João Pedro em fevereiro 29, 2004 01:04 AM

Sr. Fernando Martins,
o único título que o Belenenses ostenta deve-o a uma vitória do Sporting sobre o Benfica.

André e Predatado,
eu sou um antibenfiquista primário, mas ao Benfica de 82/83 e 83/84, com uns jogadores excelentes (gajos porreiros e de esquerda) e um treinador competentíssimo e gentleman, eu tiro o meu chapéu.

Afixado por: Filipe Moura em fevereiro 29, 2004 01:56 AM

borboleta, eu envergo a camisa verde e branca. hoje estou a aguentar, estoicamente, tudo isto. Pronto, vá lá, alegrem-se lá com os 100 anos. São memórias, não nos podem fazer mal. E o texto do André está tocante. Peeeeedrooooo, volta de Londres depressa. Isto está duro e tu sabes mais de bola que eu.

Afixado por: Daniel Oliveira em fevereiro 29, 2004 04:56 AM

A melhor foi a lembrança da equipa de pólo aquático do Benfica em Itália. Brilhante metáfora do que é o SLB nos dias de hoje!! Agora, ligar o BE a um projecto velho e decadente só pode ser equívoco ou falta de coragem...mas prontsss!!!

Afixado por: rodion em fevereiro 29, 2004 05:25 AM

Há um site muito bom sobre o Benfica e a (nossa) história de 100 anos. É o http://www.sl-benfica.com/ e merece uma referência e muitas visitas.

Afixado por: CC em fevereiro 29, 2004 12:35 PM

A única memória que tenho da minha infância é de um dia chegar a casa e o meu pai me dizer que o Porto tinha batido o Benfica na Luz por 0-4, com quatro golos do Lemos. E, apesar da minha incredulidade, em breve verifiquei que o meu pai não mentira.
Mais recentemente, vi numa banca de jornais um postal ilustrado muito giro, a preto e branco, com uma fotografia de cinco jogadores do Porto, cada um deles com uma bola na mão, e um título escrito: "cinco bolas, cinco golos", só isto. Uma singela homenagem a um joguinho em que o Benfica comeu cinco secos, marcados por cinco jogadores diferentes do FCP.

Afixado por: Luís Lavoura em fevereiro 29, 2004 06:49 PM

Luís Lavoura e Fernando Martins: é muito reconfortante saber que não estamos de acordo mesmo sobre nada. Ah, que saudades do PREC, quando o Benfica ganhava quase todos os campeonatos...

Afixado por: André Belo em fevereiro 29, 2004 07:17 PM

Toda a gente grita que o Benfica "vive" das mémórias (pelo menos tem memórias de que possa viver...será que todos têm?) mas acho um piada imensa que todos "batem" no desgraçado...com as suas memórias...os 5-0 da supertaça...os 7-1 de um ano que já nem sei qual é (mas com o campeonato ganho, mesmo assim, pelo Benfica...isso lembro-me bem). Será que as mágoas são assim tão grandes?

Não sei se algum dia o Benfica renascerá para aquilo que foi (sim...as memórias de um dos mitos de portugal e da europa). Eventualmente não. Mas acho que os ódios que desperta provam bem a grandeza que tem...é que a indiferença não os gera...muito mais a "dor de cotovelo".

Mas afinal porquê? Nem sei...não passa, como todos os outros...de um clube. Se conseguissemos sentir assim Portugal, se calhar nem sabiamos o que era crise....

Parabéns ao Benfica!

Afixado por: joão em março 1, 2004 01:05 AM


Tenho que concordar contigo, André. O nosso passado pesa muito. Não nos liberta. Estamos presos ao "Glorioso". A maior parte dos adeptos está presa ao mito, e não abre os olhos. Nos últimos 10 anos, essa incapacidade de antecipar o futuro deu-nos imensas tristezas.

Eu, como nasci precisamente em 82, não tenho senão uma vaga recordação de Eriksson como treinador do Benfica (dez anos depois, antes da segunda saída para Itália, agora para a Sampdória), recordo-me perfeitamente do último título em futebol (e do 3-6 em Alvalade), mas tenho lembranças muito mais nítidas do Benfica de Mário Palma. É ali, naquele espírito único de conquista, solidariedade, união e espectáculo, naquela fantástica equipa de Lisboa, Plowden, Jacques, Guimarães, Pedro Miguel, Steven Rocha, etc., que eu fui buscar o meu benfiquismo. Agora, limito-me a sofrer por dentro. E lembrar que o Vale, afinal, acertou numa coisa: num grande treinador (que faz lembrar Eriksson) que, depois, nos fugiu por entre os dedos...

Afixado por: Adepto em março 1, 2004 07:05 PM
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