fevereiro 28, 2004

Um insulto à socapa a ver se passa

Falando, no telejornal da SIC, a propósito do célebre texto de Hannah Arendt sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém, em que a filósofa alemã aborda a questão da banalidade do mal, José Pacheco Pereira fala do surgimento de um novo tipo de anti-semitismo de esquerda. Ora, como ele não especifica de que esquerda é que está a falar, toda a gente tem o direito de pensar que se trata da esquerda que se tem oposto declaradamente às políticas de Ariel Sharon e à construção do muro que entra nos territórios palestinianos. É curioso que quem passa a vida a falar do nível geral do debate político em Portugal - segundo ele dominado pelo insulto pessoal e pelo julgamento de carácter - faça afirmações tão levianas como esta. A um atrasado mental qualquer podia desculpar-se este tipo de confusões entre o anti-semitismo, - uma das mais abjectas ideologias que alguma vez proliferaram no mundo moderno - e a recusa de uma política inaceitável dirigida por um estado ao completo arrepio do direito internacional. A Pacheco Pereira, não. Pacheco Pereira não chama filho da mãe ou sacana a ninguém, é polido, chama anti-semita à esquerda, como se se tivesse esquecido que foi o anti-semitismo que levou às câmaras de gás milhões de seres humanos. Mas ele conhece o peso das palavras e por isso o seu comportamento é ainda mais indesculpável. Há gente na direita portuguesa que anda entretida a reescrever a história, outros são mais lestos e já estão a reescrever o presente.

Publicado por celsomartins em | TrackBack
Comentários

Não vi nem ouvi o Pacheco Pereira. Se calhar nem tem razão. Mas lendo o Celso, será que só há antisemitismo quando há Holocausto?

Afixado por: Fernando Martins em fevereiro 28, 2004 11:38 PM

claro que não, fernando, mas ninguém pronuncia a palavra da mesma maneira depois de 1945.

Afixado por: celsomartins em fevereiro 28, 2004 11:47 PM

JPP nunca defendera Sharon, ate sera capaz de lhe dar uma ou outra bicada. Porque lhe ficaria mal. Mas mais que isso, a JPP interessa ajustar contas com a esquerda, seja ela qual for, embora recuse que o situem na direita.
Esta a originalidade do multifacetado JPP, uma no cravo, outra na ferradura, mas sempre distribuindo muito desigualmente as pancadas ou tacadas. Porem,sejam compreensivos, ou acham que isto nao e dramatico para um homem que, apesar de tudo, e lucido?
Quase parafraseando o nosso Primeiro, JPP e contra a por nao ser b, e contra b por nao ser a.
Uma chatice.Um drama. O horror em toda a sua dimensao.

Afixado por: Arpi em fevereiro 29, 2004 01:02 AM

Não percebo o espanto. Ele sempre fez isso, esse tipo de insinuação rasteira e insidiosa, esse tipo de bicada carregada de veneno. Faz parte da sua ausência de coluna vertebral, que é a mais óbvia das suas qualidades. Não me digas, ó Celso, que só agora reparaste?

E quanto aos reescritores da história que proliferam na direita portuguesa, devo dizer-te que não é só na portuguesa. É nela no mundo inteiro. A verdade histórica para a direita é plasticina, maleável ao sabor das conveniências do momento, e aquilo que hoje é facto indubitável, amanhã já é propaganda comunista ou vice-versa.

E, claro, quem ganhou a II Guerra Munidlal foram os EUA. Sozinhos.

Afixado por: Jorge em fevereiro 29, 2004 02:55 AM

Another structural feature of neo-liberalism consists in remunerating capital to the detriment of labour and thus moving wealth from the bottom of society to the top. If you are, roughly, in the top 20 percent of the income scale, you are likely to gain something from neo-liberalism and the higher you are up the ladder, the more you gain. Conversely, the bottom 80 percent all lose and the lower they are to begin with, the more they lose proportionally

Barnabé, estamos fodidos!

Afixado por: thucydides em fevereiro 29, 2004 03:32 AM

Another structural feature of neo-liberalism consists in remunerating capital to the detriment of labour and thus moving wealth from the bottom of society to the top. If you are, roughly, in the top 20 percent of the income scale, you are likely to gain something from neo-liberalism and the higher you are up the ladder, the more you gain. Conversely, the bottom 80 percent all lose and the lower they are to begin with, the more they lose proportionally

Barnabé, estamos fodidos!

Afixado por: thucydides em fevereiro 29, 2004 03:32 AM

Em Auschwitz houve um proceso de martírio e aprendizagem. Dos que sobreviveram uns aprenderam a respeitar os Direitos Humanos, ourtos a imitar Himmler!

Afixado por: j.silva em fevereiro 29, 2004 11:46 AM

j.silva, que péssimo gosto. e errado.

Afixado por: rui tavares em fevereiro 29, 2004 03:58 PM

A tendência para re-escrever a história não é apanágio exclusivo nem da esquerda nem da direita. É um gosto humano, de todos nós, como foi habilmente mostrado por Milan Kundera n'"O Livro do Riso e do Esquecimento". Todos nós re-escrevemos a nossa história, limpando-a dos erros e manchas poluidoras do nosso passado. Em particular, Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes e Durão Barroso continuamente re-escrevem a história, tentando afastar o espetro do seu passado (e presente) leninista.
Creio que nenhum judeu aprendeu em Auschwitz a imitar Himmler. Mas o sionismo é uma teoria filha do seu tempo e do seu espaço, o século 19 centro-europeu. No século 19 e no centro da Europa, ser-se racista e ser-se colonialista nada tinha de mal. Era mesmo considerado muito bom: ir espalhar a civilização em terras de povos atrasados, se necessário exterminando uma parcela, maior ou menos, desses povos, era considerado um ato muito belo.

Afixado por: Luís Lavoura em fevereiro 29, 2004 06:40 PM
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