Quem leu esta minha posta pode ter achado que era a minha declaração de voto. Quando muito, seria a minha desclaração de voto. É verdade que eu tenho uma desconfiança quase visceral em relação a maiorias absolutas e memória que baste para chegar àqueles oito anos de cavaquismo absoluto. Mas isso não basta para definir o meu voto. Então para quem tiver paciência aqui vai a minha intimidade política toda escorropichadinha. Para quem não tiver paciência vou deixando uns detalhes escabrosos aqui e acolá.
Em primeiro lugar, deixem-me dizer de onde venho. Desde que tenho direito de voto optei pelo PS em todas as eleições legislativas menos 1999, eleição em que decidi contribuir para deixar o BE ter o seu direito à vida. Em 2002 não tinha dinheiro para voltar a Portugal, mas teria votado Ferro. Em presidenciais votei em Sampaio I e até participei, pela única vez na minha vida, numa campanha eleitoral. Não me façam lembrar disso. No segundo mandato de Sampaio e estando a estudar no estrangeiro, até tinha direito a votar quatro dias antes das eleições, mas atrasei-me e deixei fechar a embaixada. Um esquecimento que agradeço. Em europeias oscilo: Política XXI (quando se candidatou este chavalo), BE agora nesta última e das outras vezes nem me lembro mas suponho que PS. Em autárquicas já votei PS+PC – as únicas vezes em que votei, indirectamente, no PCP – e já me aconteceu distribuir votos bem diferentes entre junta de freguesia, assembleia e câmara municipal.
Sabeis agora a terrível verdade: simpatia pelo PS e antipatia pela maioria absoluta. Contradição? Sim, se não existisse BE. Estando eu entre o PS e o BE, uma maioria relativa significa que a política portuguesa futura vai ter de se encontrar algures a três quartos do caminho entre eles, ou seja – passe o egocentrismo – mais ou menos onde eu estou.
Falemos então do PS, imaginando um governo deste partido. Nele prevejo (desejo?) gente que respeito, como Correia de Campos, Mariano Gago, António Costa e o geógrafo João Ferrão, que tenho razões para crer que seja uma excelente surpresa. Mas antevejo e receio também José Lello, Jorge Coelho, José Lamego e Pina Moura. Agora aqui é que está a manha: em geral, os meus bons ministros farão tão bem o seu trabalho com maioria relativa como com a absoluta (com excepção talvez de Correia de Campos, se a este sair a reforma da administração). E os meus mauzões farão muito menos maldades com a maioria relativa do que com a absoluta.
Quanto a José Sócrates, já aqui falei dele várias vezes. A grande questão é: merecerá ele a maioria absoluta que não demos nunca, nas legislativas, a Mário Soares ou António Guterres? Cada um que dê a sua resposta.
E agora falemos do BE, o outro depositário irregular do meu voto. Quando votei neles em 1999, desiludiram-me quase imediatamente na primeira votação na Assembleia, quando se deixaram enredar em equívocos sobre a apreciação da queda do muro de Berlim. Depois disso raramente me desiludiram e cumpriram bem com os dois papéis que eu mentalmente lhes tinha destinado.
O primeiro estão a cumpri-lo razoavelmente mas com queixas: modernizar as relações entre os componentes da esquerda portuguesa, que se tinham fossilizado no pós-25 de Abril num ódio latente entre PS e PCP.
O segundo estão a cumpri-lo brilhantemente: fazer oposição ao conservadorismo português e à direitona. Se o meu voto fosse apenas premiar o trabalho realizado na última legislatura, o BE ganharia destacadamente. Com apenas três deputados, foram muitas vezes a única oposição ao governo. Na noite escura do barroso-santano-portismo, foram os únicos que se aguentaram à bronca. O PS com Ferro Rodrigues nunca conseguiu mesmo fazer nada de jeito e o PS com Sócrates não precisou de fazer nada mesmo, com jeito ou sem ele.
Muita coisa me afasta do BE. Eles são anti-capitalistas, eu sou agnóstico. Eles vão votar contra a Constituição Europeia, eu estou inclinado a votar a favor. Eu sou anti-marxista e provavelmente estaria em minoria no BE. Eles demarcam-se do poder e eu, um pouco como o Celso, quero que eles vão a jogo. Mas outras me aproximam: porque na prática o BE é um partido social-democrata, moralmente liberal, europeísta de esquerda e pragmático quanto baste. E se é verdade que um anti-marxista poderia estar em minoria no BE, no PCP ele seria expulso (tanto quanto sei, o BE enquanto tal não é marxista).
Já sei! Já sei! O BE não é nada disso! O BE é o diabo em figura de gente! Parece moderado mas afinal é revolucionário! Deixem-me dizer-vos uma coisa a respeito desta conversa, glosada nos últimos dias por 90% dos nossos comentadores, de José Manuel Fernandes a Pulido Valente, com as excepções de Miguel Esteves Cardoso e Eduardo Prado Coelho (que são simpáticos) e Miguel Sousa Tavares (que é omisso a este respeito). Não tenho paciência para essa conversa, que só revela, da parte da nossa imprensa opinante, conservadorismo, preguiça e teimosia.
Estarei eu sendo injusto? Estaria, se visse alguma sinceridade na sua atitude anti-revolucionária, que em si pode ser respeitável. Mas na verdade vejo-os a todos derramar simpatia sobre o PCP, que fez questão de se declarar como partido revolucionário no último congresso e gritar vários vivas ao marxismo-leninismo. Foi só há meia-dúzia de meses. Porque é que isso não assusta gente tão impressionável? É simples. Aos mais conservadores o que interessa mesmo é que a esquerda portuguesa esteja como sempre foi: bloqueada nas suas irredutibilidades. Isso é o seguro de vida do conservadorismo nacional, e isso é precisamente o contrário do que eu quero. [Já agora: também há conservadorismo no BE, principalmente em que gostaria de se deitar sobre os louros conquistados como partido de protesto. Mas eu espero que o BE cresça, apareça, e ultrapasse esta tendência – para PCP já nos basta um.]
Aproximamo-nos do fim. Será então por pirraça que vou votar no BE, só para contrariar os conservadores? Não vejo eu que para "fazer as reformas necessárias" é preciso que sejamos governados por uma maioria absoluta? E não me deixa apavorado a mera possibilidade de que Santana Lopes continue como Primeiro-ministro?
Não. Quanto às reformas, respondi numa posta ali abaixo. Acabámos de passar por três anos de maioria absoluta e nenhuma reforma ocorreu. E quanto à segunda pergunta, decido-me com as sondagens. Santana já não me assusta, Paulo Portas é que sim. E se o primeiro já foi despachado, agora quero contribuir para despachar o segundo. Já sabemos quem ganha o campeonato; eu gostaria que fosse o CDS/PP a descer de divisão, tentando fazê-lo ficar atrás do BE nos resultados.
Não, o meu voto não é angelical. Ele é táctico também, e às vezes em boa proporção. Mas não gostaria de fechar esta posta e entrar em dia de reflexão neste tom. Então aqui vai uma digressão final.
Uma das coisas que me agradou na campanha de Francisco Louçã foi ouvi-lo dizer que a reforma fiscal ou outras "levavam tempo". Ora acontece que eu acho que o país não vai lá com choques, e essa frase entrou no meu ouvido. A ideia de choque faz parte do nosso ciclo emocional: mortificamo-nos pela nossa ignorância ou falta de produtividade e daí vem a retórica do choque. Com o choque queremos pular vinte anos em quatro. Quando o choque falha – porque era irrealista como os choques sempre são – voltamos à mortificação. Afinal em vez de pular vinte regredimos cinco. E então começamos a falar em sacrifícios.
Para mim, e em termos estratégicos faz mais sentido que Portugal cumpra com a modernização que já iniciou, que desbloqueie os seus maiores obstáculos e que se vá tornando um país mais justo e mais livre agora a pouco e pouco em vez de acreditar em paraísos depois do sacrifícios.
Mas esses são problemas para toda a sociedade resolver – e não só a política.
Na política esse realismo e essa modernidade passará por não atalhar por maiorias absolutas à procura de milagres, mas por fazer a política no parlamento sem pactos de regime, mas com maiorias para cada decisão. O PS terá condições para isso, podendo ganhar votações com o apoio ou abstenção de qualquer grupo parlamentar. É isto que responsabiliza todos os políticos que nos representam em simultâneo. E é isto que, provavelmente, reflectirá melhor a nossa diversidade política. Dizem todos que isto vai ser uma selvajaria, que assim não se trabalha. Eu na minha enorme ingenuidade acho que se trabalha melhor assim e que este é o caminho – mas também aqui se leva tempo.
Chega. Não quero que isto seja entendido como um apelo ao voto. Já disse que fiz campanha uma vez na vida e me arrependi. De resto, a única coisa que tenho a certeza que acontecerá destas eleições é que a esquerda terá quase 60%. Espero que nenhum comentador nem político se esqueça de retirar as devidas ilacções.
Nesse caso, para quê esta amostragem de roupa interior ideológica? E porque não? Para que se tem, afinal, um blogue, se não para partilhar estas coisas? Acho simplesmente mais justo que vocês, já que têm paciência para me ler aqui no Barnabé, saibam de onde venho e o que vou fazer no domingo.
Publicado por ruitavares emFicámos a conhecer a sua roupa ideológica interior apenas porque se quis despir. Afinal ninguém o obrigou a fazê-lo!
Mas talvez seja melhor vê-lo despido do que vê-lo vestido, com um fato incongruente.
De facto, a roupagem escolhida para ir de BE no domingo não apresenta o design adequado...
É uma roupagem demasiado inconsistente e contrastante com o seu perfil intelectual.
Mas foi você que a escolheu!
No problem...
Tanta explicação para?
Cada qual veste a casaca que quer...desde que de consciência limpa. Bom fim de semana ;-)
Afixado por: Menina_marota em fevereiro 19, 2005 01:58 AMDepois de um post completamente disparatado, o teu melhor post no Barnabé (mesmo que eu não subscreva cerca de 30% das opiniões). Pareces o Sporting.
Afixado por: celsomartins em fevereiro 19, 2005 02:17 AM
Ganda Rui,
nada do que aqui escreves me surpreende verdadeiramente. Tu expões-te bastante ao expores os teus pontos de vista e, ao contrário de outros leitores que fazem julgamentos precipitados (não só de ti), eu leio-te sempre com bastante atenção.
Queria só deixar bem claro que, quando te comparei ao Jerónimo, foi mesmo por não teres nem um bocadinho de esquerda caviar e teres origens humildes. Era só essa a comparação. E pára aí.
No resto, continuas a ser o pensador mais livre deste blogue, o gajo que não segue cartilhas e usa a sua cabeça. Vê-se bem neste texto. E isso para mim vale muito, pá. Repara: em onze gajos neste blogue, uma equipa de futebol, és o único a assumir-se como anticomunista (não foi de agora). E és o único que fala do PCP sem ser com má vontade (os outros ou não falam, ou é sempre com má vontade). Respeitarei sempre uma opinião tua, mesmo quando não concorde com ela.
Politicamente, olha que no fundo queremos os dois a mesma coisa. Mesmo que votemos sempre de maneira diferente. Porra, da única vez que votaste no PCP votei eu no Bloco! (Presumo que em 2001, não?) Tudo isto é muito interessante e dá um bom tópico de discussão com uns copos.
Eu não sou capaz de votar num partido que não quer ir para o governo.
Bom, fica bem, um grande abraço e um beijinho à C. (olha, já agora se lhe quiseres perguntar e se ela souber aquela minha dúvida do Gonzaguinha e do Collor, eu agradecia).
Filipe Moura:
Esquerda caviar? Alguém quer aprofundar essa categoria? Ter origens humildes é pré-requisito para se poder ser um verdadeiro esquerdista? Che Guevara não tinha origens humildes e apercebeu-se de que a injustiça social não deve ser indiferente a ninguém. O que não nos atinge pode nos "tocar". Posso ter percebido mal mas estaria você a fazer a apologia de que esses devoradores de caviar, não sejam autênticos nas suas ideias de esquerda? Esconde-se algum interesse por detrás dessa esquerda caviar? Sendo esquerda caviar, deve estar cheia de apoios financeiros para a sua campanha? Sendo eu de classe média estou apto para ser de esquerda ou será que já estou deslocado?
Ao Rui Tavares:
Ao contrário do que se podia esperar simpatizo com as suas oscilações políticas, elas são sinal de que o pensamento não é estático. E o importante é que alguns princípios de base não fiquem reféns dessas oscilações. Oscilações do tipo PCP para CDS-PP, a meu ver, já constituía, não uma oscilação mas uma perspectiva completamente diferente da política e inclusive da própria vida (não despenalização do aborto). Quanto à exposição gostava dizer: que a desmarcação do poder do Bloco não é definitiva e, a meu ver, neste momento é compreensível. Anti-capitalistas, eu por exemplo não sei se sou ou não, se o capitalismo servir para medidas injustas e de desequilíbrio da sociedade, sou contra, se servir para fazer a sociedade parte de um todo e as toleráveis diferenças de classe servirem para premiar a inteligência, a investigação e os que fazem da sua profissão um meio para servir a sociedade civil, sou a favor. Mas em Portugal, o chico esperto é que se safa, o construtor civil que faz todo e inimaginável tipo de tramóias, o comentador televisivo que faz a apologia de conter a despesa pública (sempre que o dinheiro vai para o povo é despesa) e aumentar o investimento privado (agora já é investimento) e os acessores de qualidade nomeados pelo governo e pagos com o dinheiro extorquido aos desgraçados. Na verdade é irrelevante ser anti-capitalista, porque sendo-o vai ter de se jogar dentro das regras do capitalismo, lutando para mudá-lo e fazer do palavrão apenas isso: um palavrão. Sim sou bloquista.
:( desapointed
Afixado por: Real em fevereiro 19, 2005 11:39 AMPost brilhante de lucidez.
"Aos mais conservadores o que interessa mesmo é que a esquerda portuguesa esteja como sempre foi: bloqueada nas suas irredutibilidades"
É exactamente isso. Por isso a escolha da esquerda é entre PS ou BE.
A novidade para mim é a de o BE não ser marxista...
Afixado por: ntc em fevereiro 19, 2005 03:00 PMComo não tenho origens humildes e sou de esquerda, voto BE. Tem que ser assim, não é, Filipe Moura? O único problema é que não gosto de caviar... Mas aquelas ovas de salmão, as do sushi nos restaurantas japoneses... HUMMMMMMM!.....
Sem dúvida, tenho que votar BE!
(O Rui tem razão, este tipo de chachadas são apenas argumentos de quem não tem mesmo imaginação pra mais...).
Até eu, era capaz de votar no BE, que não fosse o seu apelo ao aborto "à la carte", e à adopção de crianças por casais homossexuais !
Sendo assim, e porque defendo os direitos dos mais fracos, sobretudo das crianças, mesmo que ainda dentro do útero da mãe ... NÃO VOTO BE !
(ainda não sei em quem é que vou votar ... mas lá que vou votar, VOU !)
Afixado por: Isabel Coutinho em fevereiro 19, 2005 04:42 PMO Rui Tavares toca no bloqueio fundamental da esquerda portuguesa, que é a incapacidade de colaboração entre moderados e radicais. É essa a linha de divisão fundamental na política portuguesa, como o PPortas sabe bem explorar, infelizmente. É assim desde o 25/11/1975. E não é assim em mais nenhum país da Europa. Mas também não estou convencido de que o BE supere essa fractura...
Afixado por: Ricardo Alves em fevereiro 19, 2005 06:28 PMEu juro que não é provocação, é msm vontade de aprender:
então o BE é um partido social-democrata? o que define a social-democracia não é apoiarem um modelo economico neoliberal que o BE abomina???
Já agora ilucide os leitores + jovens com o que é a social-democracia :)
Afixado por: Analista em fevereiro 20, 2005 06:46 AM