fevereiro 18, 2005

Maioria para quê?

A poucos minutos de acabar a mais longa campanha eleitoral de que há memória, restam apenas duas questões por esclarecer. Saber quem será a terceira força política; saber se a esquerda conseguirá retirar a maioria absoluta ao Partido Socialista. Pela campanha que Sócrates fez, espero bem que a resposta a esta última questão seja positiva.

Estando o país a atravessar a pior crise social dos últimos 20 anos, o Partido Socialista tinha muito boas razões para defender o voto – ou a maioria que tanto persegue - invocando a ruptura com a governação de direita e prometendo retomar algumas das politicas que levou a cabo no passado. O Rendimento Mínimo Garantido ou a politica de investigação e divulgação científica, por exemplo.Não foi esse o caminho seguido. Durante toda a campanha, a estratégia socialista foi apenas direccionada para captar o voto que pretende “tudo menos Santana”. Para o conseguir, o PS optou por dois caminhos muitas vezes coincidentes. Em primeiro lugar a omissão, do qual o exemplo mais flagrante que presenciei foi um debate na SIC Notícias em que José Seguro deve ter falado menos tempo do que qualquer personagem cinematográfica de Sylvester Stallone. No segundo caso, a recusa em assumir compromissos de ruptura com a desastrada governação PSD e PP.

Para além da questão dos 150 mil empregos (que qualquer partido subscreve), ou do inglês no primeiro ciclo (para o qual até já existiam projectos a aguardar agendamento legislativo), será que alguém é capaz de se lembrar de uma proposta que marque a diferença entre o PS e o que a direita fez nos últimos três anos? A sensação que fica é que, de cada vez que Sócrates percebia que estava dizer “qualquer coisa de esquerda, qualquer coisa de cívico”, logo recuava e voltava ao “yada yada yada” do costume. Foi assim no debate na RTP na questão das isenções fiscais, ou na forma como suavizou, em directo, o que estava no seu programa eleitoral sobre o aumento da idade de reforma.

O PS podia ter feito uma campanha assegurando que iria revogar o Código de Trabalho -como assegurou Ferro Rodrigues -, combater a gigantesca fraude fiscal que arruína o país, pôr fim às ruinosas “parcerias” entre o Estado e os privados na gestão da Saúde, ou alterar a Lei de Financiamento das Autarquias que é a principal causa da destruição urbanística do nosso pais. Não o fez. Optou por não se comprometer com nada para, no dia 21 de Fevereiro, ter o campo livre para fazer o que entender. É por isso que pede a maioria absoluta. Porque sabe que o seu programa não corresponde à expectativa de mudança de milhões de portugueses. E é por isso que a grande questão ainda em aberto é saber se, à sua esquerda, se consegue retirar a maioria absoluta ao partido socialista. Para que o pais mude, espero bem que sim.

Publicado por pedro sales em
Comentários

Não há hipótese. Está no papo. Não merece a pena gastarem latim. A partir da investidura do governo PS há muita pedra para partir. Talvez precisemos de mão de obra.

Afixado por: jose antónio em fevereiro 19, 2005 12:03 AM

alguém se deu ao trabalho de comparar programas de governo? pela afirmação: "diferenças entre o PS e as políticas de direita". Acreditem, existem. De resto, sem maioria absoluta governa-se, mas até que ponto?...

Afixado por: despertador em fevereiro 19, 2005 02:46 AM

As putativas (palavra de eleição de R.Araújo Pereira) diferenças, a meu ver existem, não foram é suficientemente vincadas pelo líder. O que poderá ser compreensível visto que (infelizmente para mim) as eleições ganham-se ao centro, só que obviamente a esquerda assumida não gosta desse tipo de estratégia. Eu próprio fico a pensar...será que este governo vai desiludir a esquerda que votou nele ou os desiludidos de centro direita que votam agora PS.Posso estar enganado mas alguém vai ficar desiludido. Eu como não quero ficar na dúvida se vou ficar ou não desiludido, vou votar no Bloco.

Afixado por: João Dias em fevereiro 19, 2005 11:05 AM

Pedro não precisavas de esperar pelo último dia da campanha para vir dizer que o PS é igual ao PSD. E que achas também que tudo vai ficar igual à governação de Santana e Portas.
Estou em crer que tudo ficaria na mesma sim se o PS ficasse refém do BE. Estás, portanto, enganado! Por muito que te custe vai haver uma mudança política em Portugal e essa mudança só é possível com a maioria absoluta

Afixado por: Real em fevereiro 19, 2005 11:28 AM

Em nenhum lado disse que o PS é igual ao PSD. Não é, o PS é de esquerda e eu quero que os socialistas ganhem. Invoquei, até, boas medidas socialistas no passado. Pena é que Sócrates não o tenha feito e tenha realizado o discurso mais vazio que vi alguém do PS fazer. É essa indefinição nos assuntos essenciais - reforma fiscal, por exemplo - o sintoma que me preocupa, mais a mais com maioria absoluta. Entendidos?

Afixado por: pedro sales em fevereiro 19, 2005 11:37 AM

Como me dizia alguém durante a campanha eleitoral, na rua: a democracia é uma canseira, temos que andar sempre em cima deles
E temos.
Se "eles" tiverem maioria absoluta, é preciso mais força muscular. Se "eles" forem uma oposição de esquerda, também não podem escapar.
Bom domingo!

Afixado por: Bicho em fevereiro 19, 2005 02:02 PM

Caro Pedro, o que interessa é o governo que vamos ter e não a campanha eleitoral que fizemos. Para a maioria absoluta, em campanha eleitoral, não podia haver um discurso substancialmente diferente. Para o governo apresentámos um programa claro, está lá tudo o precisas saber. Mas se estás tão preocupado com as políticas sectoriais porque não querem participar num governo onde elas possam ser aplicadas ? Não é um eufemismo dizer que vão pugnar pelas vossas propostas na assembleia e não no governo que é onde elas se contretizam ?
Estou em crer que se o BE tivesse apostado numa possível ida para o governo o PS nunca teria a maioria absoluta. É por isso que digo que a seguir a Sócrates o mais interessado na maioria do PS é Louçã.
Como é que tu pensas ? pela tua cabeça, certamente. O Daniel eu já sei, pretende, a prazo, substituir o PS.

Afixado por: Real em fevereiro 19, 2005 04:43 PM

Claro que o PS andou a enganar o povo. Começou por prometer as scut de borla (isto é pagas por todos nós) não aumentar os impostos, arranjar 150 mil novos empregos, tirar 300 mil reformados da miséria e quando viu o disparate que estava a dizer (donde viria o dinheiro pra isso tudo) começou a falar em banalidades e a utilizar o fado choradinho dos boatos, dos ataques pesoais, dos risos amarelos, dos discuros automatizados, enfim uma lástima.
Concluindo: O PSD não é = ao PS, não. Dum lado está a demagogia habitual de soaristas, guterristas e quejandos e do outro estão homens responsáveis.
Esperemos que o povo seja clarividente para bem de todos nós. Caso contrário lá teremos 4 anos de desgovernação e no final e mais uma vez os xocialistas a fugirem e a demitirem-se.
O costume

Afixado por: maneldomoinho em fevereiro 19, 2005 07:29 PM