As últimas sondagens confirmaram aquilo que vínhamos suspeitando há várias semanas: no próximo Domingo, o que está em jogo é saber se o PS terá maioria relativa ou absoluta na Assembleia da República.
Não sou insensível à argumentação desenvolvida pelo Ivan Nunes, na melhor declaração de voto que pude ler nestes últimos dias. O PS, o PS de Sócrates, fica aquém daquilo que seria de esperar de um partido social-democrata da União Europeia em termos de quadros, ideias, propostas governativas.
Concedo isso, mas em abono de Sócrates direi o seguinte: a sua prestação nos governos de Guterres, em áreas como a defesa do consumidor e o ambiente, foi decente (como diriam os admiradores de Bush, “tem bons instintos”); o tempo de que dispôs para se preparar para o poder foi mínimo. É pois possível que Sócrates se revele melhor primeiro-ministro do que líder da oposição, como esperançosamente nota o Rui Tavares.
Mas discutamos a questão de fundo: as vantagens e desvantagens de uma maioria absoluta do PS. Sou capaz de subscrever vários dos receios do Rui em relação a governos maioritários: arrogância, autismo, prepotência… Em 1995, regozijei-me com a vitória do PS e na altura nem me passou pela cabeça suspirar por uma maioria absoluta. As farpas de Mário Soares contra a “ditadura da maioria” sempre me pareceram acertadas. O sentimento de cansaço em relação a 10 anos de governos Cavaco era notório. Com a democracia consolidada, as finanças em ordem, paz social e crescimento económico, o país parecia pronto para virar uma página, abraçar outro modelo de desenvolvimento. E para isso, a maioria absoluta não era imprescindível. O PSD estava tão prostrado que toda a gente sabia que o governo minoritário do PS iria cumprir a legislatura até ao fim.
Hoje vivemos um momento completamente diferente. Precisamos de um governo de 4 anos como de pão para a boca. Não por causa dos “sacrifícios” que os comentadores encartados andam a pedir, mas para permitir que o único partido de esquerda com vocação de governo o possa fazer num quadro de estabilidade. Não para trair o seu eleitorado com medidas de austeridade draconianas, mas para recrutar os melhores da sua área e dar-lhes um horizonte temporal mínimo para que possam desenvolver algumas das ideias-chave do programa de governo. Espero que o façam em diálogo com os parceiros sociais, que ouçam as críticas com humildade mas que na hora das decisões não fiquem paralisados, como tantas vezes sucedeu com Guterres.
Ao contrário do que alguns têm vindo a sugerir, o pior do PS tenderá a vir ao de cima num cenário de maioria relativa. Um governo minoritário será um governo onde os apparatchiks terão um peso e uma influência maiores. E todos nós sabemos que a tentação de um entendimento com o PP será grande. É duvidoso que o Bloco (sobretudo o Bloco) ou o PC queiram assumir o apoio a um governo onde pontificaram os Coelhos, Lellos e Pinas Mouras, não é?
Maiorias absolutas não são uma aberração nas democracias parlamentares. Na União Europeia, elas são a norma em países como o Reino Unido (por causa do sistema eleitoral) e muito comuns em Espanha e nos países escandinavos. Há problemas com a democracia nesses países? Claro que há – a abstenção no Reino Unido é elevadíssima, por exemplo. Mas quando o eleitorado sente que chegou a hora de mudar, a mobilização costuma ser grande. E, francamente, quem nos dera a nós ter a qualidade da vida democrática desses países!
Portanto, só numa perspectiva muito paroquial é que podemos temer a maioria absoluta (não por acaso, o grande inquérito encomendado pelo Parlamento norueguês ao estado da democracia revelava que uma das causas do desencanto de muitos cidadãos noruegueses em relação ao seu sistema democrático radicava, precisamente, na ausência de governos monopartidários de 4 anos). Por muito que isso ainda nos possa custar a admitir, os governos de Cavaco provaram que a nossa democracia é suficientemente madura para suportar a experiência de governos maioritários de um só partido.
Totalmente de acordo!
Afixado por: Robes em fevereiro 19, 2005 12:32 AMObviamente que só numa perspectiva muito paroquial é que podemos temer a maioria absoluta.
O nosso ordenamento jurídico-constitucional contém mecanismos mais que suficientes para que se combatam arbitrariedades e violações de direitos.
Daí estar francamente em desacordo com Rui Tavares.
Afixado por: Robes em fevereiro 19, 2005 12:45 AMAssim, sim. Não concordo com muitos dos argumentos e discordo totalmente das conclusões, mas assim é possível conversar com o Pedro Oliveira. Melhor seria que fosse sempre assim, sem insultos nem demagogia barata. Mas, francamente, vou esperar para ver. O que vi nas últimas semanas foi mau demais para esquecer tão depressa.
idealmente, nestas eleições votaria em branco, por razões que não vale a pena enumerar aqui.
mas eu tenho 2 objectivos claros para o meu voto: varrer santana lopes do mapa político nacional e puxar o proverbial autoclismo sobre portas. e isto julgo que só se consegue votando ps.
Afixado por: pfig em fevereiro 19, 2005 01:15 AMvamos reflectir.
vamos.
e chegar à conclusão que amanhã só muda o estilo.
Muda a forma e a substância.
Por acaso já tomou o sabor a viver numa democarcia distendida ou prefere viver numa "democracia" de arrogância?
É para viver numa democracia distendida que vou votar PS.
Afixado por: princeps em fevereiro 19, 2005 01:44 AMEntre uma dialéctica robótica de Sócrates - nem com chicote tecnológico -, um Lenine embalsamado, um braço político da comédia trotskista, o pm de cabaret, não há por onde escolher. Fds, enganei-me no blogue.
Afixado por: Circuito Curto em fevereiro 19, 2005 02:44 AMDeixem-me dizer que cada um destes apelos me convence tanto mais a votar BE. Se me dizem que o PS deveria ter maioria absoluta para não ter tentações de se aliar ao PP, então eu digo que um PS desses nunca mereceria o meu voto.
Afixado por: rui tavares em fevereiro 19, 2005 03:46 AMEste barnabé parece outro,longe do pedantismo pretensioso que originou comentários soezes que o atiraram para o pantano onde até parecia que se sentia bem!Mau de mais para ser verdade, mas também não uma completa mentira!Enfim...fica para memória futura a fotografia desses barões cortados ao meio! Neste texto o Pedro Oliveira decreta(não descortino como é que chega a tal conclusão, e como no Bloco, a pluralidade é de arrasar, Loucã dixit):"É duvidoso que o Bloco (sobretudo o Bloco) ou o PC queiram assumir o apoio a um governo(etc...)"Sobretudo no Bloco?Como e porquê essa convicção? Será porque os Coelhos & companhia não sabem nem escolher nem como beber uisque?Ou porque escolhem fragâncias que não estão na moda? Que raio!!! Os apoios não se dão a pessoas mas a políticas, à execução dessas politicas como disse Miguel Portas,e talvez ainda não se tenha esquecido,"a politica faz-se com os pés assentes na terra" embora também tenha dito que "o voto no PS era um voto de protesto".Lapsos ou então, para o Bloco, é tudo mesmo uma questão de estilo, cortes de fato etcera e tal. Lembre-se que na primeira semana o Loucã dixit, porque ele só dixit, que os entendimentos com o PS eram possíveis.Na última semana, nos últimos dias é que o tom mudou. Esperemos pelos dias vindouros, talvez se perceba o que até nem é muito dificil de perceber. Para lá das cortinas de palavras deve haver coerencia e trabalho, mesmo que o trabalho não tenha visibilidade mediática, cousa que causa imediatamente um enorme cansaço no Bloco!!!Vão ver as suas ausências nas comissões de trabalho parlamentares que não estavam debaixo do foco das objectivas.É a politica moderna da esquerda noderna dos que mais batem na direita!
Afixado por: Manuel Araújo em fevereiro 19, 2005 10:47 AMA declaração de voto de Ivan Nunes é um bom estímulo ao voto no PS. Todos sabemos que na primeira oportunidade o BE não hesitará em dar uma machadada final num governo minoritário do PS. Foi assim no passado, nada nos indica que não possa ser assim no futuro. E não é preciso muito, baste que sintam a perda de meia duzia de votos.
Afixado por: Real em fevereiro 19, 2005 11:19 AMAs maiorias absolutas não são um mal por si só, os governos vigentes é que podem transformá-las em tal. Quanto ao desejarmos ter a qualidade de vida desses países, concordo, mas quanto a ter a qualidade de vida democrática desses países, discordo. Citando o caso da inglaterra, se eu fosse inglês votaria no partido trabalhista. Mais tarde esse mesmo partido trairia-me a mim e a cerca de 80% a 90%, contrariando a esmagadoria maioria de pessoas que não desejavam a guerra no Iraque. E perguntariam, e bem: qual a diferença? Em Portugal sucedeu-se o mesmo...
Mas em Portugal a opção para penalizar esse partido não tinha de ser obrigatoriamente votar num partido conservador. Se eu fosse inglês estaria num beco sem saída, provavelmente votava em branco. Sendo assim não vejo que a qualidade de vida DEMOCRÁTICA seja assim tão invejável.
Eu voto para eleger deputados que melhor defendam as minhas ideias, que apresentem leis na assembleia com as quais eu mais concordo. Por isso voto BLOCO DE ESQUERDA. É-me indiferente que o PS tenha ou não a maioria absoluta.
Afixado por: JPT em fevereiro 19, 2005 12:03 PMCompreendo perfeitamente os argumentos do meu amigo Pedro Oliveira, mas não posso concordar com a maioria absoluta do PS. Não porque tenha medo da dita em abstracto:o medo das maiorias absolutas faz-me lembrar um dos argumentos contra a democracia do reformista Marcelo Caetano, a saber, que os portugueses não teriam a necessária maturidade política. A minha principal razão é outra: gostaria de ver o Bloco de Esquerda com responsabilidades governativas ou, pelo menos, de poder.Não tenho qualquer simpatia pelo programa do Bloco, muito pelo contrário, mas se isso acontecesse, seguir-se-ia uma de duas coisas. Ou o Bloco apanhava um tal choque de realidade que acabaria por suavizar o seu radicalismo adolescente, com vantagem para todos, ou criava tais problemas ao PS que os portugueses perceberiam finalmente que o Bloco não se pode lavar a sério quando a toca a governar realmente. A primeira opção foi a que seguiram Fischler e os verdes alemães no governo com o SPD de Schroeder, e Paulo Portas, entre nós e à direita,depois das últimas eleições. Ainda se lembram do tempo em que Fischler, tal como o Bloco por cá, queria a Alemanha fora da Nato? E em que Portas não queria que Portugal aderisse ao euro ou comia ministros cavaquistas ao pequeno-almoço? Eu também não. Uma coisa é certa: a passagem pelo poder só lhes fez bem. Estarão Louçã y sus muchachos preparados para semelhante upgrade? Pelo menos, tirava-se a coisa a limpo e Louçã y su muchachos, com a ajuda da irmã Lúcia, talvez perdessem aquela aura iluminada de quem vem trazer o progresso aos cafres sem nunca sujar as mãos.
Afixado por: Pedro Picoito em fevereiro 19, 2005 02:19 PMPedro: é bom ver-te por cá. Obrigado pelo comentário e volta sempre.
Afixado por: Pedro Oliveira em fevereiro 19, 2005 04:39 PMOh Pedro, que série de afirmações surpreendentes:
Sócrates é bem intencionado como o Bush; os Coelhos, Lellos e Pinas Mouras vão pontificar no governo; ainda bem que tivemos os governos de Cavaco para saber podemos sobreviver! Tudo argumentos para votar PS.
Nem se o PSD ganhar amanhã Portugal deixará de existir. São eleições! se os portugueses preferirem Santana, assim seja, se preferirem Sócrates, assim seja, se preferirem Portas, assim seja.
Para cada exemplo de maioria absoluta na Europa há um do sucesso da maioria relativa ou de governos de coligação.
Há também exemplo de sistemas maioritários ou presidencialistas. O nosso (parlamentar proporcional) ainda me parece satisfatório, apesar de ser possível melhorar o sistema eleitoral (sem cair no britânico, por favor).
(Ler ambição absoluta)
Partilho a opinião do Pedro Picoito, também gostava de ver o bloco assumir as suas responsabilidades seja activamente no governo ou activamente no apoio a um governo maioritário, ou seja testar a sua maturidade. Por outro lado, gostava também de ver a capacidade de diálogo de um governo do PS que se visse com o poder na mão mas sem ter a maioria dos eleitores a apoiá-lo, ou seja testar a sua maturidade.
(ler radicais ao poder?)
Mas lá está para mim importante importante não é ganhar, é participar. As eleições são a única oportunidade de exprimir a nossa opinião, e é nosso dever não deturpar essa oportunidade. Votar honestamente, sinceramente é um dever.
Ler
Grande dilema, temos para votar, quatro bonecos e um palhaço... nunca vi isto assim.
Afixado por: luis em fevereiro 20, 2005 01:50 PM