Entre os catecúmenos de Paulo Portas, e mesmo entre comentadores distraídos, há quem estranhe a demissão deste quando a "derrota do CDS/PP nem foi assim tão clamorosa".
Estão enganados e Paulo Portas está certo. A derrota só parece benigna ao lado de um PSD arrasado pelas pragas do Egipto. Mas é precisamente esse contexto que não pode deixar de ter feito cair a ficha no processador de Paulo Portas. Se o CDS consegue 7% com um PSD em estado comatoso – ao passo que os comunas e os trotskas têm 14% com um PS em grande –, quanto teria o CDS garantido se o PSD tivesse uma liderança ligeiramente menos jumenta? Cinco por cento? E se o PSD tivesse uma liderança já a melhorar assim para o medíocre? Três? A teoria era que a desgraça do PSD garantiria os mínimos olímpicos para o CDS (escrevi-o eu aqui antes da noite eleitoral, e era o que mais ou menos toda a gente achava). Nem um gajo de esquerda que já foi descrito, em livro, como um optimista patológico (é o meu caso) poderia nos seus sonhos mais loucos esperar aquele resultado do PP.
O que terá evitado que eleitores do PSD tivessem votado neste CDS/PP "de estado"? A irritação ao ver que Paulo Portas fazia de conta de que não tinha nada a ver com o governo? Uma vingança pelas suas diabruras durante o cavaquismo? A estética da maioria absoluta? O desencanto com a obra da direita? O aumento da literacia?
Não faço ideia, mas tenho curiosidade.
Esta baixa votação do CDS/PP neste contexto confirma um preconceito e demonstra uma impossibilidade. Em primeiro lugar, confirma que, afinal de contas, o BE era capaz de ter razão numa coisa em que nem eu nem a maior parte dos barnabés lhe quisemos dar razão (que é impossível ir para o governo com oito por cento e crescer). É um preconceito, não uma regra universal, mas a contra-prova que seria o crescimento do CDS não ocorreu.
Mais importante do que isso, Paulo Portas terá entendido que não chega "lá" pela liderança do CDS/PP. O "lá" é ser o messias da direita e da Pátria. Manter-se na liderança de um CDS/PP em eterno rame-rame é um sonho de gente pequenina, coisa que Paulo Portas se recusa a ser. Se ceder aos apelos dos orfãos, Paulo Portas estará a trair o seu ideal e não conseguirá ser feliz. O que fazer, então? Além da hipótese de abandonar a política – por ser uma pessoa que sabe fazer bem várias coisas, o exacto oposto de Santana Lopes que não sabe fazer bem nenhuma – Paulo Portas talvez tenha como saída ser o grande rival de Marcelo Rebelo de Sousa para os próximos anos. Qualquer TV gostaria de o ter como comentador e é uma hipótese que o tornaria mais simpático aos olhos do público. Pode ainda inspirar-se na travessia do conservadorismo americano e transfigurar-se numa espécie de Newt Gingrich, o tipo que não fala para toda a gente mas só para os mais duros entre os duros, tentando refundar o conservadorismo de que seria o Sumo Sacerdote. Ou talvez Barry Goldwater seja uma comparação mais correcta. Candidatar-se a Presidente é que seria complicado, uma vez que demasiada gente neste país não gosta dele. Mas poderia ser um investimento para o futuro.
Só espero é que ele não leia o Barnabé. Seja como for, o meu conselho é outro: descontraia, tente a mão nas artes como o amigo Miguel Esteves Cardoso, viva a vida, seja feliz. Crie um fotoblogue. A direita portuguesa é demasiado deprimente (e se a esquerda tiver juizinho ainda vai ser mais).
Publicado por ruitavares em- ... Um post "boa onda", com a assinatura do Rui Tavares.
- O Paulinho das feiras vai ficar emocionado com os "miminhos" que lhe andam a dar neste blog!!!
Afixado por: s-o-v-i-e-t em fevereiro 23, 2005 03:02 AMEste blogue é um verdadeiro tratado de sabedoria política.
Nem a Pitonisa se atreveria a tanta conclusão.
Fazes tantos comentários contraditórias que alguma vez hás-de acertar nalgum pormenor.
O que ainda não foi desta, mas insiste que nada se perde, ainda por cima com a invocação desses outro basbaque que dá pela alcunha de MEC pode ser que alcances a felicidade no reino dos inocentes.
Nas suas recomendações finais a Paulo Portas, no último parágrafo do post, esqueceu-se de uma, óbvia: Paulo Portas devia fazer e criar um filho. Um só que seja, para exemplo. Ficaria um homem mais feliz, e teria montes de coisas com que se ocupar. Muito provavelmente, deixaria de vez de nos chatear.
Certamente que no seu partido, no qual ele está longe de ser o único homossexual, encontará alguma lésbica infeliz que se apreste para a doação de esperma.
Afixado por: Luis Lavoura em fevereiro 23, 2005 09:46 AMOnde se lê rame-rame não deve ler-se ramerrão?
Afixado por: Pedro Ribeiro em fevereiro 23, 2005 10:30 AMAcho uma análise interessante, mas a "Verdade é filha do Tempo", e neste momento estamos muito em cima do acontecimento. Eu creio que Paulo Portas se vai retirar uns tempos porque a sua imagem está um pouco desgasta, quer pelo poder quer pela exposição mediática anterior, vai ser deputado, vai fazer uma boas intervenções no parlamento (pelo menos na forma, quanto ao conteúdo...), vai fazer algum comentário e próximo das legislativas se verá. Claro que a esta distancia é fazer futurologia. O sistema politíco português não é muito lógico, e nesse sentido a frase sobre a diferença de um por cento entre trotskistas e democratas-cristãos faz algum sentido, mas o errado não está no crescimento do BE, partidos semelhantes no resto da Europa tem algumas flutuações mas ganharam representação importante quando não fragmentados (caso francês), mas do PP. A questão é o PP não me parece um partido democrata-cristão...
Afixado por: João Gundersen em fevereiro 23, 2005 11:42 AMBoa posta, o parágrafo final era dispensável, digo eu.
PS: Fiquei muito desiludido com o último parágrafo também, do comentário do Luís Lavoura, que, mesmo sem concordar sempre, tinha como pessoa inteligente.
Como eu vejo as coisas:
Os portugueses votaram, como sempre: ao CENTRO.
O CDS criado por Freitas em 74 pretendia ser um partido de centro. O golpe de mestre do PC a seguir ao 11 de Março de 75, ao ilegalizar todos os partidos de direita ou extrama direita - que os havia - fez com que toda essa gente tomasse o CDS de assalto. E o centro fugiu ou refugiou-se no PSD. Quanto mais o CDS, tornado PP, resvalava para a extrema direita, mais o PSD foi resvalando para a direita, até chegar a esse fenómeno incrível que foi o Santana !
Entretanto, o PS foi sendo arrastado nesta dinâmica.
O grosso dos eleitores portugueses votam ou na ala esquerda do PSD, ou na ala direita do PS - foi o que aconteceu agora, com o PS de Sócrates.
Quanto aos extremos - Portas & Portas - têm realmente dimensões quase identicas.
E, atenção bloquistas: o que aconteceu ao PP pode bem vir a acontecer-lhes também.
Pela vossa sobrevivência, deviam agradecer a maioria absoluta do PS, que os impediu de se tornarem o PP do PS ...
Eu pensava que se tinha introduzido o TipeKey nos comentários deste blogue para impedir criaturas como o Luís Lavoura de vomitarem cretinices como a que ele vomitou no seu comentário de cima. Pelos vistos, enganei-me.
Afixado por: Andre Murteira em fevereiro 23, 2005 06:47 PMNão tinha reparado neste comentário do Luís Lavoura, que passou porque ele está registado no TipeKey e nunca teria passado em condições normais. Agora o mal está feito e deixo ficar porque já houve comentasse o comentário e o desaparecimento dele só tornaria as coisas mais confusas. Não sei se é a decisão mais certa.
Seja como for, Luís: que isto não se repita. A pretensão orientação sexual de quem que seja que não deseje referir-se a ela em pública não deve ser debatida por terceiros. No Barnabé, é essa a regra. E não é para ser discutida.
Afixado por: rui tavares em fevereiro 23, 2005 10:09 PM