fevereiro 26, 2005

Dois mitos

A reacção de alguns sectores da nossa direita aos resultados do dia 20 tem sido um espectáculo digno de ser ver.
Ao doloroso exame de consciência, preferem refugiar-se no conforto dos mitos.
O primeiro mito da direita mais choramingona baseia-se no seguinte: perdemos porque o Presidente da República viciou as regras do jogo. Sampaio comportou-se cinicamente em todo o processo que envolveu a sucessão de Durão Barroso pois quebrou o compromisso assumido no Verão passado, ou seja, o de garantir as condições de estabilidade necessárias à governação respeitando a maioria que sustentava o governo na Assembleia da República. A dissolução do parlamento por causa de um punhado de faits-divers inconsequentes veio interromper uma governação que se vira forçada a tomar algumas medidas difíceis e impopulares, mas que dispunha ainda de mais ano e meio para mostrar obra feita. Temos de convir que esta versão dos factos até parece plausível. Não o vou discutir aqui. Simplesmente, quem anda agora obcecado com ela esquece-se de uma coisa elementar: Santana e Portas poderiam perfeitamente ter forçado a convocação de eleições antecipadas, alegando que a demissão de Barroso impunha uma clarificação política. Não o fizeram por uma razão: medo. Medo de sofrerem uma nova penalização eleitoral, medo de perderem o poder e deixarem as suas clientelas insatisfeitas.
Este foi, porventura, o maior erro político de Santana e Portas. Se as eleições se tivessem realizado no início de Setembro, por exemplo, é provável que não evitassem a derrota. Mas contra o PS de Ferro essa derrota nunca seria tão estrondosa como aquela que se verificou no domingo passado. Teriam muito provavelmente impedido a maioria absoluta do PS e contido num patamar aceitável as suas perdas eleitorais.
O segundo mito foi invocado por Portas no seu amargo discurso de demissão e tem sido glosado por vários comentadores políticos. É, basicamente, o mito da “hegemonia cultural da esquerda”. A direita perdeu porque vive concentrada na luta do poder pelo poder, na gestão dos “interesses”, e descurou o combate ideológico mais vasto. Segundo esta versão, a direita é excessivamente acanhada na afirmação dos seus valores e permite que seja a esquerda a definir os termos do debate acerca do tipo de sociedade em que devemos viver. A direita vive na ilusão de que pode governar o país segundo os cânones fixados pela esquerda durante a fundação da nossa democracia – veja-se, por exemplo, a insistência com que algumas das pessoas da área do CDS defendem a urgência de uma revisão constitucional profunda. Guardarei para uma outra ocasião a discussão deste argumento. Por agora, limitar-me-ei a assinalar que a hegemonia da esquerda, da cultura política da esquerda, está longe de me parecer óbvia.
Sem dúvida que Santana e Portas perderam porque, entre outras coisas, tinham “má imprensa”. Mas significa isso que existe uma “hegemonia da esquerda” na nossa comunicação social? Por acaso algum dos grupos de comunicação social do nosso país é controlado por empresários de esquerda? Não é Balsemão o militante número 1 do PSD? Paes do Amaral (Media Capital/TVI) não foi o sócio de Nobre Guedes nos tempos áureos d’O Independente? A RTP não acaba de contratar Marcelo Rebelo de Sousa para seu principal comentador político? E os exemplos poderiam continuar.
Na verdade, a direita há muito que inverteu a seu favor os termos do debate político. Hoje o máximo que as pessoas esperam da esquerda social-democrata é a defesa dos serviços públicos, de algumas políticas de solidariedade social e, claro está, uma visão mais progressista de questões “civilizacionais” (aborto, direitos das minorias, etc.). É claro que os avanços do cavaquismo em Portugal foram muito tímidos em comparação com a “revolução conservadora” de Reagan e Thatcher, mas as pessoas parecem esquecer-se das razões históricas e culturais que facilitaram o triunfo desses projectos no Reino Unido e na América. Nesse sentido, a aplicação de uma terapia equivalente entre nós exigiria que alguém ousasse enfrentar aquilo que Vasco Pulido Valente identifica no seu artigo de ontem como os valores típicos de uma cultura camponesa pobre: a segurança e a rotina. Pessoalmente, não vejo ninguém na nossa direita que esteja à altura do desafio (certamente que não Paulo Portas, um devoto da Irmã Lúcia, figura emblemática dessa cultura camponesa pobre).

Publicado por pedrooliveira em
Comentários

- Porque é que o PR preferiu dissolver o Parlamento, a demitir/afastar o PM (Governo)?...

- Se a AR já não tinha "legítimidade", porque foi favorável à discussão do Orçamento?...

Afixado por: s-o-v-i-e-t em fevereiro 26, 2005 12:55 PM

A direita está bem e recomenda-se.
E não está ressabiada.
Aceita a derrota que todos já sabiam ser inevitável pela razão simples de ter sido interrompidaa legislatura de 4 anos.
E o PR sabia perfeitamente que se Santana Lopes estivesse no poder mais os 2 anos que faltavam, dizia, eu, sabia perfeitamente que o PS ia continuar na oposição.
Esta é que é a verdade dos factos.
O seu texto, tão extenso, só prova que o PS e a esquerda sabem disto e sabem que ainda não era desta que chegavam ao poleiro.
Mas agora que chegaram, esperemos que sejam capazes (ao menos por uma vez) de governar o país razoavelmente e não o deixem afundar como das outras vezes.

Afixado por: maneldomoinho em fevereiro 26, 2005 02:23 PM

E quem diria que, PSL, na hora da despedida, elogiria o PR, que, afinal, não se enganou?
Estamos sempre a aprender... ou a ficar perplexos?

Afixado por: Isis em fevereiro 26, 2005 02:49 PM

totalmente de acordo!
lúcida e pertinente a tua análise.

Afixado por: jorge em fevereiro 26, 2005 04:42 PM

Excelente visão.
Continuo na minha (pobre visão): o pecado original do PR, não ter exigido a continuação da equipa do Fujão de Bruxelas, naturalmente sem o dito (recuso pronunciar o nome do artista) e sem PSL.
Até o guru Luis Delgado já descobriu.
Quanto ao que interessa, o futuro, espero,pouco, que a esquerda não desmereça o 20Fev.

Afixado por: Bravo Mike em fevereiro 26, 2005 06:43 PM

Insisto. A derrota deveu-se apenas porque não estavam reunidas as condições hidromorfológicas e geológicas.

Afixado por: N. F. Thomaz em fevereiro 26, 2005 08:20 PM

Maneldomoinho: afundar o país era o que estava a suceder. Santana não tinha condições para continuar a governar.Só mesmo um utópico para acreditar que ganharia as leições, depois de dois anos em que veríamos os ministros a contradizer-se e acusar-se mutuamente.
Ainda por cima, o próprio Santana acabou por dar razão ao PR, o que cofirma a volatilidade das suas opiniões.

Afixado por: João Pedro em fevereiro 27, 2005 02:47 AM

Pastilhas Rennie para o manueldomoinho que isso passa.

Afixado por: Jameson em fevereiro 27, 2005 09:30 AM

So many words, but nothing new to say...

Afixado por: António da Costa em fevereiro 27, 2005 10:32 AM

"Segurança e Rotina, é tudo que eles querem" (citado de memória) Vincent (Tom Cruise) em Colateral, cena no bar de jazz.

Será que nos Estados Unidos também à uma cultura de campesinato?

Treta. Os nossos intelectuais são uma treta. Portugal já não vive na primeira républica. Há que estudar o país e mudar todo um conjunto de ideias feitas.

Afixado por: Daniel Marques em fevereiro 27, 2005 03:57 PM

Muita gente da direita honesta, suspirou de alívio com a derrota de Santana/Portas.
Muita gente da esquerda desonesta focou danada com a maioria absoluta de Sócrates ...

Afixado por: Isabel Coutinho em fevereiro 27, 2005 04:28 PM

A direita mente e calunia tanto quanto pode e tão repetidamente o faz, que acaba por acreditar, penso eu, nas suas próprias patranhas...
Com um dos povos com maior grau da analfabetismo e de falta de cultura, a direita em Portugal vive essencialmente da mentira e da manipulação.
A maioria dos votantes na direita não está sequer a defender os seus direitos, mas é enganada por uma comunicação social que está praticamente toda na mão da direita (a RTP não é também controlada pelo (i)morais sarnento?) que a manipula a seu belo prazer, muito para além da mais elementar decência.
Logo para começar o PPD-PSD é um partido social democrata? Onde? Só se for em Portugal.
O CDS-PP é um partido democrata cristão? Onde? Só se for em Portugal.
Portugal que parece que mesmo que é um país da treta, onde os tanguistas (com os seus discursos da tanga) conseguem mesmo sobreviver.
Aliás, as siglas duplas não dão mesmo a noção de que nem eles sabem bem o que são...(PPD ou PSD, CDS ou PP?)
Aliás, há quem, como eu, diga que eles são de direita, porque eles dizem que são todos do centro...
Tangas e mais tangas, mas felizmente, já muitos estão fartos delas...

Afixado por: Budapeste em fevereiro 28, 2005 12:45 AM

Manueldomoinho

Volta para o moinho fazer farinha que de política não percebes nada!

Afixado por: João Lisboa em fevereiro 28, 2005 09:49 AM

Essa observação sobre a "cultura camponesa pobre" está fabulosa. Parabens ao Vasco Pulido Valente.

A maioria da classe média portuguesa de hoje, que anda por aí em carros, é filha de individuos que labutavam em aldeias sujas, com carros de bois. E, no seu subconsciente, esta ancestralidade ainda pesa imenso.

Afixado por: Luis Lavoura em fevereiro 28, 2005 10:03 AM

o camarada budapeste é um comediante do melhor

Afixado por: fidel em fevereiro 28, 2005 01:44 PM

E o Fidel um tragico de se lhe tirar o chapéu.

Na farsa tem futuro

Afixado por: a.pacheco em fevereiro 28, 2005 10:52 PM

Como sempre, uma visão selectiva, caro Pedro Oliveira...

Afixado por: AA em março 7, 2005 11:48 AM