fevereiro 27, 2005

Adeus, Peter

A morte de Peter Benenson corre o risco de passar quase despercebida entre nós. Um pequeno obituário aqui e ali e pouco mais. Televisões, nada. É pena que assim seja. O nome de Peter Benenson dirá pouco aos portugueses, mas Portugal desempenhou um papel determinante na extraordinária ideia de Benenson, um advogado britânico católico de ascendência judaica: o lançamento da Amnistia Internacional.
Há vários aspectos comoventes em toda a história que rodeou a criação da AI. Em Novembro de 1960, Benenson ficou estupefacto ao ler num jornal britânico que dois estudantes portugueses haviam sido presos em Lisboa por terem feito um brinde à liberdade, à mesa de um café. Foram depois condenados a sete anos de prisão por este gesto desafiador (segundo julgo, este episódio nunca foi devidamente investigado por nenhum jornalista português). Benenson decidiu então utilizar um expediente tipicamente britânico: uma carta de protesto às autoridades portuguesas. Estava encontrada a fórmula que iria popularizar a instituição que em poucos anos se tornaria a principal ONG na área dos Direitos Humanos: a Amnistia Internacional.
Em 1961, Benenson organizou a primeira grande campanha que estabeleceu o padrão de acção da AI: seleccionou um grupo de "prisioneiros de consciência" e tratou de mobilizar a opinião pública para acções de protesto que pudessem levar à sua libertação.
Entre os prisioneiros de consciência apresentados no célebre artigo publicado por Benensnon no Observer de 27 de Maio de 1961 encontrava-se o médico Agostinho Neto, fundador do MPLA, à época detido em Cabo Verde sem direito a julgamento. O mesmo Agostinho Neto que em 1975 se tornaria o presidente da República Popular de Angola, um dos regimes mais liberticidas da África pós-colonial. As voltas que a história dá...

PS: Um leitor do Barnabé chamou-me a atenção para o facto da SIC-Notícias se ter referido com algum destaque ao desaparecimento de Peter Benenson. Fico contente - mas a SIC-Notícias é um canal por cabo, só acessível a uma parte da população.

Publicado por pedrooliveira em
Comentários

Em portugal, a Amnistia é teleguiada pelo BE...

Afixado por: portugal_liberal em fevereiro 27, 2005 01:17 PM

Dado o que foi explicado no post acerca do nascimento da Amnistia Internacional,tambem está
explicado porque as TV's não se referem á sua morte.
Em portugal a maior parte dos media tenta "apagar" senão mesmo branquear o que se passou naquelas décadas.À desmemorização do passado, contrapõe a tragédia do presente contínuo.E como o que interessa são as estatisticas e o economês neo liberal,a dimensão do gesto humano e a ideia são notas de rodapé.

Afixado por: antonior em fevereiro 27, 2005 03:25 PM

O disparate supostamente liberal que alguém aqui comentou, nem merece resposta - e ignora a actividade da Amnistia em Portugal. Mas, caro Pedro, a SIC Notícias deu generoso espaço de antena ao obituário de Benenson... Talvez por ser fim-de-semana, sem grandes notícias, mas informou...

Afixado por: Marujo em fevereiro 27, 2005 03:45 PM

A AI não é teleguiada pelo BE. Antes fosse, mas não é. Não confundir causas comuns ou semelhantes com dominação de um partido sobre uma instituição. A AI proclama mesmo a sua distância face a partidos.

Afixado por: David em fevereiro 27, 2005 05:13 PM

Não é, e se fosse?
Por quam é teleguiada a nossa ignorãncia?
Haja Deus,liberal ou de esquerda.

Afixado por: Bravo Mike em fevereiro 27, 2005 05:59 PM

E tu, oh meu, és teleguiado porque intuitos, quando afirmas essas baboseiras?
Cresce e aparece.

Afixado por: José Ruas em fevereiro 27, 2005 10:55 PM

De facto, o desvelo com que se segue a lenta agonia de João Paulo II contrasta com o silêncio sobre a morte deste filantropo.
Todavia, no dia 26, data em que se soube da sua morte, o Diário Ateísta cumpriu a sua obrigação, evocando-o no post: http://www.ateismo.net/diario/arquivo/2005_02_01_index.php#110945771006640696

Afixado por: Carlos Esperança em fevereiro 28, 2005 12:55 AM

A AI não é "teleguiada" pelo BE, nem por outro partido. Aliás esta organização tem tentado sempre manter a sua independência face a partidos políticos. Não se pode confundir semelhança de causas com dominação.

Afixado por: David em fevereiro 28, 2005 07:47 AM

Independentemente dos oportunismos políticos que por vezes surgem por detrás das campanhas da AI, a verdade é que Peter Benenson deu um exemplo extraordinário de como um qualquer cidadão pode dar o seu contributo para um mundo melhor.

Afixado por: Marco Oliveira em fevereiro 28, 2005 09:21 AM

Pois, se calhar mais valia terem deixado o Neto a apodrecer à sombra, mesmo sem julgamento...

A propósito, em Guantánamo também há muitos que estão a apodrecer à sombra. Alguns deles serão potenciais liberticidas...

Afixado por: Luís Lavoura em fevereiro 28, 2005 09:52 AM

Se calhar valia mais terem deixado o Neto a apodrecer à sombra, mesmo sem julgamento...

A propósito, em Guantánamo também estão muitos a apodrecer. Se calhar alguns deles são liberticidas em potência, como o Neto...

Afixado por: Luis Lavoura em fevereiro 28, 2005 09:54 AM

Não são muitas as ONGs que se mantém independentes, mas a AI é um exemplo a seguir.
Visite este blog estrelinha ajuizada

Afixado por: vermelhofaial em fevereiro 28, 2005 11:32 AM

Esta história da origem da Amnistia Internacional é linda! pena que de facto só a SIC Notícias deu destaque à morte do Peter Benenson, ou outros canais não tocaram no assunto.A história só chegou á população com tv cabo. Por mim vou divulgar esta história e contar às minhas filhas. Para que não se percam as memórias do respeito do 'livre arbitrio'. Parabéns ao Barnabé pelo excelente meio de informação!

Afixado por: alice rosa santos em fevereiro 28, 2005 02:18 PM

tentei pesquisar a identidade desses dois jovens, mas é difícil, até porque, em Outubro de 1960, cinquentenário da implantação da República, houve manifs e foram muitos presos. Eu não sabia dessa informação da condenação a sete anos. Como foi isso?

Afixado por: irene pimentel em fevereiro 28, 2005 05:35 PM

E o que fez o rapazito lá pelas Inglaterras??? O tipo estava mesmo cego?? Também nunca vi certos radicais manifestarem-se sobre outras atrocidades... é que nem sempre é conveniente.
Parecem uns histéricos com estas coisas.

Afixado por: JC em março 1, 2005 05:26 PM

É realmente pena que a cultura Portuguesa seja tão desprezível (o termo não é suficientemente forte para transmitir a minha desilusão). Pois eu li em destaque a morte deste GÉNIO do respeito pela Humanidade logo na primeira página de o maior jornal Françês que bate os records em credibilidade e de maior saída que se chama "LE MONDE". Não só vinha a linda história de Peter Benenson, assim como citava logo em letras de título que foi verdade que na origem de AI estão dois estudantes Portuguese. Pena é que a nossa cultura passa sómente pela corrida aos lugares de destaque na política, lugares esses agarrados com unhas e dentes por uma só classe de gente que corre desenfreadamente para o poder. Todos os jornais estrangeiros falaram da morte de Peter Benenson. Pois a sua história é linda.
Também está de parabéns o barnabé da informação que nos deu.

Afixado por: madalena em março 1, 2005 11:46 PM