março 07, 2004

Saber ouvir o público

Já era jornalista num vespertino que fazia a sua última tentativa de sobrevivência apostando na qualidade e coordenado por um excelente director: Mário Mesquita. O “Diário de Lisboa” era ensombrado então pelo nascimento de um jornal ambicioso que prometia estar (e esteve) ao nível do que melhor se fazia na Europa: o “Público”. O “Público” tinha suplementos diários, um por cada dia da semana; fazia destaques em que participavam as várias editorias do jornal, em conjunto, vencendo a tradicional balcanização que se vivia e vive nas redacções; dava às notícias internacionais uma relevância que nunca antes se vira num diário português; e tinha páginas diárias reservadas à educação e à ciência. Ficámos então a saber o que era um jornal de referência. Tal como aqui escrevi há uns dias, pouco sobrevive desse tempo. Mas o “Público” continua a ser o melhor jornal nacional, a léguas de todos os outros.

É marcado, no entanto, por um defeito que não é de um jornal, mas de uma classe, de todas as classes que julgam escapar à crítica. A mesma classe que faz subir e descer, todas as semanas, políticos, empresários ou dirigentes desportivos, reage quase sempre muito mal a qualquer critica, mesmo que ela esteja enquadrada pelo maior dos elogios: o de ser o melhor entre todos. Isto, porque a maioria dos jornalistas recusa-se a aceitar para si o que aos outros exige e, se o elogio não for pleno e sem ressalvas, atira-se sem pensar. E deste defeito sofrem quase todos, mesmo as melhores. Não sei se se trata de corporativismo, de espírito de empresa (aquele que nos manda "vestir a camisola") ou qualquer outro comportamento tribal. Mas acontece quase sempre.

Minha cara e muito estimada Ana, nunca aqui fiz a indecência que outros fizeram de te cobrar no blogue as actividades que fora do blogue desempenhas. Mas acusaste o toque que não era para ti e devo, então, responder-te com a maior das simpatias quase nunca correspondidas quando nos encontramos sob o efeito da emocionalidade blogosférica: não, não sou nostálgico e continuo a achar o “Público” o melhor jornal português. Não preciso de ir ao Centro de Documentação do "Público", que leio, todos os dias, desde o primeiro dia. Mas, nem assim – e até porque sempre foi o “meu” jornal, quando me podia dar ao luxo de ler só um – devo ou tenho de ser acrítico e bajulador. Terás de ter paciência: o "Público" é hoje, objectivamente, uma sombra do que foi. Os destaques são continuação das secções correspondentes, a reportagem quase desapareceu, as reportagens internacionais ocupam muito menos espaço, têm menos correspondentes, a ciência tem muito menos relevância e o espaço para os suplementos é muito menor. Será porque tem menos meios? Porque o modelo anterior era demasiado dispendioso? Porque Portugal não tem massa crítica para ler um produto que sai caro? Não sei. Mas saber ouvir esta critica vinda de quem sempre vos leu sem largar logo os cães seria um bom começo para evitar o autismo que muitas vezes mata os melhores projectos.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Lendo os dois posts anteriores, quer o do Barnabé, quer o do Glória Fácil, facilmente se percebe que a Ana Sá Lopes exagerou muito no seu comentário. "Largou os cães", mesmo. Talvez porque tenha reconhecido a verdade do actual estado das coisas no Público no post do Daniel e enraivecida, tenha notado ainda que não pode fazer absolutamente nada para mudar nessa triste realidade. Desabafos...

Afixado por: MCG em março 7, 2004 11:09 PM

Tu eras do DL, pá?
Nem queiras saber o que subiste na minha consideração (que já era elevada). Ainda hoje eu sou um órfão do DL, apesar de ele ter acabado tinha eu uns 16 anos.

Afixado por: Filipe Moura em março 7, 2004 11:36 PM

Que saudades! Foi um ano, o último, mas ainda fui a tempo.

Afixado por: Daniel Oliveira em março 7, 2004 11:56 PM

"Porque Portugal não tem massa crítica para ler um produto que sai caro?"

Como é óbvio, é isto mesmo. Não tenho conhecimentos para dizer se foi melhor ou se agora é assim tanto a "sombra" do que foi. Mas sei que Portugal não pode ter um jornal como o "Público". O Belmiro subsidiou durante muitos anos (não sei se ainda o faz, mas não estou a ver o Público com lucro) muito do que de melhor tem a cultura e a democracia portuguesa.

Outra coisa que me tocou: o teres referido o "luxo" que é só ler um jornal... Um luxo incomensurável, sem duvida... nem tenho palavras...

Afixado por: maradona em março 8, 2004 12:11 AM

Que surpresa ! Pela primeira vez o Daniel Oliveira responde a uma crítica sem ser ao ataque. Será por cavalheirismo ?
Olha que lá no meu grémio, por essas e por outras, começaram com 25%, agora estão nos 33% e quando chegarem aos 50% somos nós que, na melhor das hipóteses, vamos para os 33%.

Afixado por: Real em março 8, 2004 12:15 AM

Também o "Diário de Lisboa", quando acabou, não era nem uma sombra daquilo que tinha sido.
De jornal de referência da oposição aos regimes salazarista e marcelista, tinha-se tornado numa correia de transmissão do PCP.
É justo lembrar aqui o "República" que, por não ter afinado pelo mesmo diapasão, foi ocupado e arrazado pela extrema-esquerda "revolucionária" cujos membros se encontam agora bem alojados no BE !

Afixado por: Isabel Coutinho em março 8, 2004 12:16 AM

Isabel Coutinho,

"Arrasado" não "arrazado":)

Afixado por: thirdbacus em março 8, 2004 12:22 AM

Isabel Coutinho, o "Diário de Lisboa", quando morreu, era tudo menos uma correia de transmissão do PCP. Basta repetir o nome do director: Mário Mesquita.

Afixado por: Daniel Oliveira em março 8, 2004 12:23 AM

Falta urbanidade a esta gente! Respondem a uma crítica, como se estivessem a debitar a receita do cozido à portuguesa... Um cozido sem carnes, só legumes e mal cozidos.
No Diário de Lisbos (saudade "esquerdalha") não se escrevia assim... E a gente também era outra: muitos dos verdadeira e merecidamente notáveis deste país. Se calhar, a raivinha é só essa!

Afixado por: zás!pás! em março 8, 2004 12:31 AM

Mas a Isabel Coutinho tem a certeza que a extrema-esquerda controlou a comunicação social no pós 25 de Abril? Tenho a impressão que esse processo foi liderado pelo PCP. Mas como a Isabel é que percebe muito da História do século XVI...

Afixado por: thirdbacus em março 8, 2004 12:32 AM

A questão-chave é de facto a da massa crítica que não há, e a pouca que existe não se dar ao trabalho de exigir e pagar uma informação de qualidade, purgando o lixo nauseabundo que condiciona e manipula a formação de opinião.
Afinal eu não quero ser "consumidor" de informação que a minha vontade e disponibilidade económica me permite comprar, mas sim procurar os meios que me inspirem confiança na informação que exijo e necessito para formular os meus juízos como pessoa e cidadão.
O "Público" continua a ser referência, mas já não me safisfaz, porque não soube, não pôde ou não quiz manter os padrões de exigência a que inicialmente nos habituou.
Contudo a crítica deve servir de motivação para que, respaldado nos seu leitores, os que o produzem sintam a responsabilidade, que todos esperamos que não desistam de assumir!!

Afixado por: Maria da Fonte II em março 8, 2004 01:09 AM

Não me quero estar a armar em casamenteiro, mas tenho mesmo que dizer isto: para quando um janatrinho romântico entre a Isabel e o thirdbacus? Ou sou só eu que sinto a tensão sexual no ar.. blogue aliás..

Afixado por: Boss em março 8, 2004 03:45 AM

se calhar é má ideia afinal, quer um gajo recomendar um jantarinho e sai um janatrinho...

Afixado por: Boss em março 8, 2004 03:47 AM

Como estou por perto, respondo já.
O sr. Boss está completamente equivocado.

Para além da disparidade ideológica que separa thirdbacus e isabel coutinho, existirá ainda uma enorme disparidade etária - a isabel deverá andar pelos 60-70 anos de idade. Eu sou um pouco mais novo. A única coisa que aproxima thirdbacus de isabel é a necessidade de travar, com cavalheirismo(não se iludam), os disparates por ela proferidos. Quero recordar que o único caso digno de registo em matéria de tensão amoral na blogosfera ocorreu no Bde Weblog e envolveu o Tchernyignobil e a Zazie.

nb: espero que o assunto não volte a ser abordado.obrigado.

Atenções centradas de novo na estrela deste post -Ana Sá Lopes.

Afixado por: thirdbacus em março 8, 2004 04:07 AM

Aliás, será que o Daniel tem um fraquinho pela Ana Sá Lopes?

Afixado por: thirdbacus em março 8, 2004 04:30 AM

Eu realmente acho que a Ana Sá Lopes pasou muito das marcas no seu post. Desceu muitos pontos na minha consideração (que aliás não era por aí além elevada). Aquele "esquerdalha" é muito canalha. Não merecia nem de longe a resposta amigável e bem-educada que o Daniel lhe deu.
Ana Sá Lopes: reconhecer as faltas e pedir desculpas fica bem a tod@s.

Afixado por: Luís Lavoura em março 8, 2004 10:12 AM

Resposta da Isabel Coutinho (que parece que incomoda muita gente) a vários comentários deste post:

1 - A Isabel Coutinho agradece ao thirdbacus a correcção ortográfica da palavra arrasar.

2 - Pode ser que o DL, à data da sua “morte”, já não fosse a correia de transmissão do PC que foi durante muitos anos no pós 25 de Abril. Mas foi-o durante tanto tempo que, na prática, deixou de ter leitores fora dessa área. Talvez por isso tenha deixado de ter condições de sobrevivência.

3 - Efectivamente, não foi a extrema esquerda que controlou a generalidade da comunicação social no pós 25 de Abril, mas sim o PCP, como aqui é dito, e muito bem. Acontece que eu estava a falar do jornal “República”. Transcrevo: “É justo lembrar aqui o "República" que, por não ter afinado pelo mesmo diapasão, foi ocupado e arrasado pela extrema-esquerda "revolucionária" cujos membros se encontram agora bem alojados no BE !” (corrigi o erro ortográfico e também uma gralha que lá estava também). E no caso do República, parece que ninguém duvida que foi mesmo a extrema-esquerda. Eu estive lá – na rua, claro. Ouvi chamar “fascista” ao Raul Rego, Vítor Direito e até a Mário Soares. Também assisti – vantagens da minha idade – ao saneamento revolucionário, no Diário de Notícias, de todos os jornalistas não comunistas, da responsabilidade do “democrata” Saramago. A diferença entre os dois casos foi a seguinte: no primeiro – República – a iniciativa parece ter partido dos tipógrafos, e no segundo, dos jornalistas da facção Saramago. Mas, tanto num caso como no outro, o MFA esteve lá, montado nas suas Chaimites, a apoiar dos saneadores. E eu que, não sendo jornalista, era na época militante do PS, também “levei por tabela”…

4 - E agora a sugestão – do pior gosto – do tal “jantarinho romântico”, com “tensão sexual” e tudo: fico ciente que neste blogue, pelo menos da parte de alguns dos seus mais assíduos frequentadores, a participação de uma mulher não é bem vista. Pelo menos, se as suas opiniões não são coincidentes com as da maioria.
Sem comentários …

5 - Também tomo nota que a impossibilidade desse tal jantar se ficar a dever a a) disparidade ideológica: b) disparidade etária.
Nunca tive problemas em jantar com quem tenha ideias diferentes das minhas, nem com pessoas de idade muito diferentes da minha. No entanto, penso que a Internet ainda não é um Bar de Alterne. A não ser que aqui seja considerada como tal. Espero que isto seja firmemente desmentido, caso contrário, sairei pela mesma porta que entrei.

6 - Resta-me esclarecer a minha idade: sim, tenho 60 anos. Tinha 31 quando, no dia 25 de Abril de 1974 fui para a rua com um cravo vermelho na mão. Foi pois como mulher adulta que vivi essa data e tudo o que se lhe seguiu. Não, não fiquei em casa a coser meias – como talvez alguns deste blogue parecem achar que deveria ter feito. Assim como não o fiz antes dessa data, quando participei nas lutas universitárias, andei a fugir dos pides, e a apedrejar os “creme níveas” (não sabem o que é ? eu explico: eram os carochas azuis e brancos da polícia). Ou quando, mais tarde, como trabalhadora, participei activamente em lutas sindicais (no tempo em que ainda havia pide). Nem quando, depois do 25 de Abril andei na rua a defender a democracia e a liberdade.
Não digo isto com o intuito de me “valorizar”. Foram muitos – homens e mulheres, novos e velhos – que fizeram o mesmo, ou mesmo muito mais que eu. Mas nunca – como aqui e agora – me senti descriminada em função do meu sexo ou da minha idade …
E não será esse pequeno e mesquinho pormenor que me fará alguma vez desistir de lutar por aquilo em que acredito.

Progressistas ?

Afixado por: Isabel Coutinho em março 9, 2004 01:59 AM

Isabel, é sempre bem vinda aqui e, até isto entrar em auto-gestão, ainda somos nós que convidamos. A casa também é sua.

Afixado por: Daniel Oliveira em março 9, 2004 02:28 AM

Mas oh Isabel Coutinho, onde é que você foi parar!
A ideia era provocá-la, não vitimizá-la. Pronto, agora já sei que é uma pessoa susceptível, e já lhe conheço os limites. Mas garanto-lhe que não fazia a mínima ideia sobre a sua idade. Estou estupefacto com a coincidência. Esta semana jogo no totoloto. Quanto à disparidade ideológica, é para isso que a gente está aqui, não é verdade?Pela dialéctica das ideias. Não precisa de se zangar. Eu entendo-me com toda gente, menos com nazis.Anime-se.

Afixado por: thirdbacus em março 9, 2004 03:03 AM

Só para desanuviar o ambiente: 'O "Público" tinha suplementos diários, um por cada dia da semana'. Acontece aos melhores, Daniel Oliveira.

Afixado por: ricardo em março 9, 2004 11:38 AM

Daniel Oliveira:

Fiquei a saber que até agora era "penetra" ...
Mas, obrigada pelo convite.

"Onde todos pensam igual, é porque ninguém está a pensar" (não sei quem é o autor)

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thirbacus,

E eu que tinha ficado admirada com a sua perspicácia !!!! Afinal foi ao calhar ? Na verdade, acho bem que vá jogar no totoloto !

Não, não fiquei ofendida, nem sou tão susceptível assim. Ou antes, as minhas fúrias passam depressa.

A culpa foi daquele "troglodita" do Boss.

"o Diabo sabe muito, não é por ser Diabo: é por ser Velho." (vox poluli)

Afixado por: Isabel Coutinho em março 10, 2004 12:06 AM

vox populi !

Afixado por: Isabel Coutinho em março 10, 2004 12:09 AM

Ricardo: tinha suplementos todos os dias, sempre diferentes em cada dia da semana - um de conomia, outro de livros, outro de música, outro de computadores. Um, em cada dia da semana. Todos os dias.

Afixado por: Daniel Oliveira em março 10, 2004 05:33 AM

O.k., o.k., a língua portuguesa pode levar-nos a situações dúbias e más interpretações. Pareceu-me uma redundância evidente, mas se calhar até não foi o caso.

Afixado por: ricardo em março 11, 2004 12:53 AM
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