março 15, 2004

Capturing the Friedmans


Tudo começou, estava Andrew Jarecki a rodar um documentário sobre entertainers para festas de crianças. Um palhaço era uma das suas personagens principais, David Friedman. Um dia, Jarecki quis saber como David decidiu ser palhaço. Ele falou-lhe da sua infância e disse que havia coisas sobre as quais preferia não falar. Mas falou. E assim nasceu um filme sobre um processo por pedofilia, que abalou uma pequena comunidade de Long Island.

Com o caso Casa Pia a viver momentos mais calmos, vale agora a pena ver este documentário, em exibição no circuito comercial: “Capturing the Friedmans”. É a história de um pai, Arnold, e de um filho, Jesse, habitantes da pequena comunidade de Great Neck, em Long Island, acusados, em meados dos anos 80, de pedofilia. O pai acabará por se confessar pedófilo, mas em privado nega os crimes de que é acusado. O filho também confessa no tribunal, esperando uma pena mais leve por isso. Mas mantém sempre, junto de todos, a sua inocência.

O documentário, baseado em filmagens caseiras de um dos filhos de Arnold Friedman, durante todo o processo, tem uma grande vantagem em relação ao que é habitual neste tipo de trabalhos: não tem uma tese sobre a culpa dos envolvidos. Nem é sobre isso. É sobre as subtilezas da culpa e da inocência, da verdade e da mentira. É sobre os efeitos de um caso destes numa família. É sobre a família, as suas cumplicidades e conflitos. E, das coisas mais perturbantes, é sobre o casamento explosivos da overdose mediática, histeria colectiva e modos ligeiros e justicialistas de conduzir uma investigação. Com poucas certezas, “Capturing the Friedmans” instala sempre a dúvida e questiona os raciocínios fáceis sobre a justiça e a verdade, o que, nos tempos que correm, é bastante pedagógico.

Publicado por danieloliveira em | TrackBack
Comentários

Pelo lido, é também um filme sobre o modo peculiar de justiça americano, no qual a confissão do acusado conta como prova do crime. Tal como contava na defunta União Soviética, e daí as torturas.

Afixado por: Luís Lavoura em março 15, 2004 09:48 AM

Por agora está, no que se vê no filme, bastante mais próxima da portuguesa

Afixado por: Daniel Oliveira em março 15, 2004 10:37 AM

Acrescento ao comentário de Luís Lavoura.

É esta peculiar justiça americana que já está a ser copiada na Europa, com um projecto de lei, em França, que vai também instituir esta figura da "confissão de culpa" como prova decisiva.
Este projecto de lei contempla também outro aspecto "muito interessante" da justiça americana, que é a "negociação da pena".
Pelos vistos, também a "velha Europa" está com complexos de idade e quer aprender com os mais novos. Mesmo que só aprenda disparates.

Afixado por: mafalda em março 15, 2004 12:35 PM

Acrescento ao comentário de Luís Lavoura.

É esta peculiar justiça americana que já está a ser copiada na Europa, com um projecto de lei, em França, que vai também instituir esta figura da "confissão de culpa" como prova decisiva.
Este projecto de lei contempla também outro aspecto "muito interessante" da justiça americana, que é a "negociação da pena".
Pelos vistos, também a "velha Europa" está com complexos de idade e quer aprender com os mais novos. Mesmo que só aprenda disparates.

Afixado por: mafalda em março 15, 2004 12:35 PM

E já agora, mafalda, esperemos que a Europa não comece a aprender com os EUA a moda de fazer leis através de "interpretações" dos juízes. Como no caso da legalização do aborto nos EUA, que decorre, não de uma qualquer lei, mas sim de uma interpretação muito sui generis que os 9 juízes da Supreme Court fizeram, em tempos, da Constituição americana. Uma forma de fazer lei que eu considero totalmente inaceitável e anti-democrática.

Afixado por: Luís Lavoura em março 15, 2004 02:29 PM

Infelizmente, se calhar o que teme também vai acontecer.
Há por esta Europa continental quem ande muito aborrecido com o nosso tradicional sistema de produção das leis pelo poder legislativo e também com o facto de o juiz ser um mero "administrador" da lei. Há quem pregue contra as nossas leis "a priori" e teça loas infinitas a um direito assente na jurisprudência.
Por que não o velho direito consuetudinário? (Ao menos é mais sensato que alguns juízes)
Faço figas para que não se comece também a dizer que os juízes não têm um poder legítimo, porque não são eleitos.
Enfim, se as "elites" intelectuais e políticas da Europa continuarem a ter as suas mentes formatadas a partir dos "mestres" das universidades americanas (ou seja, através da "vulgata" que daí é irradiada como "pensamento actual" , e não a partir do pensamento vivo e livre que lá também se produz), então o que nos espera é mesmo termos chefes de polícia eleitos, julgamentos com jurados e outras coisas igualmente interessantes.

Afixado por: mafalda em março 15, 2004 04:47 PM
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