março 09, 2005

Deixa-me partir

Tal como prometido, aqui vai um dos textos da minha coluna do último sábado no “Expresso”. O segundo está no post em baixo.

A protegida de Frankie, Maggie Fitzgerald, que vive em agonia numa cama de hospital, quer que ele ponha fim àquilo. Quer morrer como viveu: sem depender de ninguém. Quer ficar com o melhor das suas memórias. Frankie pergunta a um padre o que fazer e recebe a mesma resposta resignada de sempre: que deixe nas mãos de Deus. Frankie responde: «Não foi a Deus que ela pediu a ajuda. Foi a mim.»

Ramón Sampedro, tal como Maggie, é tetraplégico. Viveu 28 anos deitado numa cama. As memórias de uma vida foram-se perdendo e, de repente, para ver mar era preciso fechar os olhos. Como ela, quer ser ele a decidir a vida que não quer ter. Ramón pede ajuda ao Estado que lhe dá a mesma resposta burocrática de sempre: quem o ajudar será um criminoso.

Não se trata de saber se um tetraplégico pode ou não ser feliz. Não sou tetraplégico e sei muito pouco sobre a felicidade dos outros. Sei apenas que a nossa vida não é propriedade colectiva. Que só há liberdade quando somos, o mais que podermos, donos do nosso destino. E, acima de todas as liberdades na vida, a mais pessoal e indiscutível é a de decidir não viver. Quando a propriedade privada se transformou num valor tão sagrado que em nome dela todas as misérias são hoje toleráveis, a única propriedade que realmente conta, a da nossa vida, parece continuar a ser um bem colectivo.

“Million Dollar Baby” e “Mar Adentro” dizem-nos o mesmo: o mais incondicional dos amores é o que deixa o outro partir. E enquanto a Igreja e o Estado quiserem regular o amor só podemos esperar o pior. É como diz a cunhada de Ramón, em resposta a um padre virtuoso: «não sei se a vida é nossa ou de Deus, só sei que você tem uma boca muito grande».

Publicado por danieloliveira em
Comentários

Oportuno.

E que tal se o BE estudasse a lei holandesa e propusesse, na AR, uma lei semelhante permitindo a eutanásia? Ou então uma lei semelhante à espanhola, que já entreabre uma porta.

Seria uma boa causa.

Afixado por: Luis Lavoura em março 9, 2005 03:32 PM

Daniel, quando se faz a crítica de 1 filme em exibição na net é da praxe fazer-se referência para que as pessoas que ainda não viram o filme estejam avisadas.....

Afixado por: Ana Lencastre em março 9, 2005 04:18 PM

Sobre o tema "gémeo" do suicídio sugiro o filme de Abbas Kiarostami "o sabor da cereja"...

Afixado por: João Gundersen em março 9, 2005 04:18 PM

Camarada Daniel essa fixação pela igreja é uma questão religiosa ou é só para chatear a malta? A menos que seja católico não vejo razão para incluir a igreja, ou apenas a igreja, nas críticas que faz ao estado por não legislar em relação à eutanásia da forma que o camarada gostaria. Tanto quanto sei a questão da eutanásia não é consensual na classe médica, porque não criticar também os médicos que são contra por uma questão de objecção de consciência ?
Eu sou favorável à eutanásia e não me parece relevante a posição da igreja nesta matéria, para mim é uma posição tão válida como qualquer outra e apenas diz respeito aos seus membros

Afixado por: fidel em março 9, 2005 04:41 PM

A religião entra demasiado em casa das pessoas e para além da mensagem não ser bem passada também não o é bem interpretada. A eutanásia no geral é uma guerra entre o bem e o mal para os dogmáticos religiosos. A vida sempre nas mãos de Deus, o futuro a Deus pertence. Isso é suficiente para me acalmar a dor, sofrimento? Claro que não. Sou agnóstico, não sei se Deus existe, mas sei que detesto a dor, não apenas a física mas tb a "interior", essa que nos consome mais que qualquer outra. Uma pessoa tetraplégica, não tem dor física mas tem uma dor interior que o leva a desistir da vida, porque não faz sentido para ele continuar com vida se não a pode viver. Tem o direito de pensar assim, mas não pode agir por impossibilidades físicas, e o estado não lhe permite partir. Mas tem de começar a deixar partir quem quer, não somos um sistema autoritário, vivemos uma democracia e essa tem a obrigação de nos dar liberdades e garantias, a liberdade de optar por algo que só a cada um de nós diz respeito. Se o estado é laico porque continua tão enraizado numa objecção católica à eutanásia? Os "verdadeiros"(ou o q isso seja) católicos podem sempre optar por não recorrer a essa medida, e assim ficava assegurada a liberdade de escolha.

Afixado por: Daniel Oliveira (OUTRO) em março 9, 2005 04:55 PM

Vocês não percebem que a vida não é uma propriedade de que o homem possa dispor

Afixado por: Francisco em março 9, 2005 05:39 PM

até posso concordar contigo Francisco mas que fazer com a dor sem qualquer esperança e com o direito de cada um poder escolher e enfrentar deus se a isso for obrigado... quem somos nós para decidir? quem é o estado para legislar a consciência de cada um? talvez fosse importante conhecer melhor outras perspectivas, como a holandesa.

Afixado por: pinto ribeiro em março 9, 2005 06:05 PM

Visite este blog estrelinha ajuizada junte aos favoritos

Afixado por: vermelhofaial em março 9, 2005 06:17 PM

Para mim a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros.

Por causa de preconceitos morais que a sociedade enfrenta, têm indivíduos de viver uma vida de sofrimento. Ora para mim isto não me parece justo, a vida não é só respirar e somos felizes, temos ambições e requisitos minímos de condições de vida (que variam de indivíduo para indivíduo). Lá porque a ideia de um indivíduo querer acabar com a sua vida me possa fazer confusão na minha pequenina cabecinha, não me dá a mim o direito de tomar a decisão por ele.

Além disso a própria situação de ter de pedir a pessoas para que terminam com a sua vida é deveras frustrante, o indivíduo vê-se até privado desse direito. Se pensarmos bem esta questão não se punha se existisse a capacidade da pessoa por si só terminar a sua vida.

Para mim a minha vida é propriedade minha, a dos outros é sua propriedade. E disponho da minha vida como bem entender desde que em respeito das outras.

Afixado por: João Dias em março 9, 2005 06:29 PM

Francisco, a minha é. Algum problema com isso ou tenho de ter carta de alforria de alguém.

Ana, não fiz critica de cinema. Usei apenas dois filmes para ilustrar o meu texto.

Afixado por: danieloliveira em março 9, 2005 06:55 PM

A vida é de cada um de nós
Mas cada um de nós não pode fazer o que quer da própria vida.
E isto não é apenas um problema filosófico ou religioso, é também jurídico e ainda tem muito a ver com a deontologia médica.
O médico jurou salvar vidas e não tirar vidas.
Claro que um materialista não entende nada disto porque vive permanentemente encerrado em si próprio.


Afixado por: maneldomoinho em março 9, 2005 07:50 PM

O Daniel, no seu tom decidido e certamente discernido, volta ao ataque propondo a morte como resolução última de um problema. Aí está a solução: Compromete menos, desresponsabiliza as pessoas envolvidas, sacia uma incompreensão e uma revolta (um direito, desculpe), muitas vezes não discernidas, porque tomadas em solidão absoluta.

Propõe-nos que nos pronunciemos sobra a legitimidade de decidir sobre aquilo que a nossa existência tem de mais misterioso. Propõe-nos mexer com esse mistério e tapa-nos os olhos às consequências. No dia em que vier a ser "ultrapassada a fronteira"

- fale-me do sentido que terão os hospitais psiquiátricos que mantêm doentes que sofrem, que só dão trabalho e só gastam dinheiro...
- fale-me das palavras motivadoras que dará aos pais de uma criança deficiente, para que exerçam com amor a sua paternidade
- fale-me do sentido da vida que proporá a uma jovem que se quer suicidar e que pede ao hospital que a ajude a isso.
- Fale-me do que dirá aos seus filhos acerca do sentido da velhice, da eloquência e da importância dos exemplos de quem vive dificuldades...

A sua lógica é a de fechar os olhos e aceitar o inaceitável. A prova são os exemplos que escolheu e o tom conformado e derrotado face ao sofrimento. Fazia-lhe bem ler o livro de Michael J. Fox ou os de Christopher Reeve (para dar exemplos conhecidos) e ver o que estes homens construiram com as suas vidas (e o que ajudaram a estudar e desenvolver sobre as suas doenças), mesmo depois de se verem confrontados com elas.

O tom é completamente diferente e a lógica, é bem distinta da que nos propõe. É claro que dá trabalho e é claro que se tem de ver a vida como algo mais do que um direito ou um património que administramos e mantemos enquanto nos traz felicidade e benefícios.

Essa é a lógica do consumismo exacerbado, que eu me recuso de trazer para a vida.

Afixado por: Pedro Costa Freitas em março 9, 2005 11:30 PM

Realmente prometeste... só que ninguém está interessado em críticas cinematográficas.
Fazes-me lembrar Mário soares que um dia em visita aos Açores disse:
-Como prometi na campanha aqui estou eu nos Açores, para honrar a minha promessa.
Ora bem, mesmo que não prometesse MS visitaria os Açores como visitaria qualquer outro sítio.
Tás igual ao marocas

Afixado por: maneldomoinho em março 10, 2005 12:13 AM

Parece-me evidente que há muita gente que, sabendo ler, não sabe interpretar. O que foi defendido neste "post" foi o direito que todos temos em decidir sobre a NOSSA própria vida. Eu não delego em ninguém o poder de decidirem sobre o meu caminho. Era o que mais faltava. O meu sofrimento É MEU. Não é de mais ninguém. E eu tenho o direito a não querer sofrer. O filme sobre Ramón Sanpedro levanta entre outras, uma questão óbvia: alguém que se tente suicidar e falhe essa tentativa é acusado de quê?
Neste país muita gente continua a confundir tudo. Em especial quando se trata de escolhas INDIVIDUAIS. Se virem o filme e no final, condenarem o acto de Ramón Sanpedro de uma coisa vos garanto: se algum dia estiverem naquela situação (espero que não, obviamente), e se quiserem viver assim, eu vou lá estar para que essa VOSSA ESCOLHA seja uma realidade. Perceberam?

Afixado por: luis rosa em março 10, 2005 03:51 AM

Alguém que se quer suicidar é materialista? A ignorância, essa sim, é materialista porque materializa as visões mais simplórias que pode haver da vida.

Dizer que optar pelo suicídio é uma opção fácil, é de quem não quer ver o tormento de reflexão porque passa alguém que se encontra nessa situação. Defender o direito de eutanásia, não é fazer a apologia do suicídio, é defender que quem não pode fazê-lo por si seja medicamente assistido para tal. É obviamente positivo que alguém que esteja numa fase difícil consiga supera-la e consiga evitar a opção de por termo à vida, mas aqueles que optaram de forma diferente merecem tb o nosso respeito. As decisões de por termo à vida nem sempre são soluções isoladas, e a eutanásia é a prova disso.

A vida não é um património nosso? Então é de quem…do Espírito Santo…de alguma empresa privada…é da PT…

Além disso pareceu-me bem claro que se estava a falar de casos específicos de pessoas que passam a vida acamadas, e que não pretendem passar o resto da sua vida assim. Os médicos deverão ter jurado também que respeitariam a vontade dos doentes com capacidade de discernimento.

Já agora o que diriam a alguém que se pretende suicidar?
Tipo: Não seja materialista? Egoísta só pensa em si? Lá por você ser infeliz e miserável não pode se suicidar porque o corpo não lhe pertence?

Que o suicídio nos faça muita confusão é normal, agora querer retirar a alguém esse direito, já não o é tanto. O suicídio não é uma opção fácil, devemos motivar as pessoas a evitarem-no, mas também não devemos impor a nossa vontade, devemos sim tentar persuadir a pessoa. Quem opta pelo suicídio não tem obrigatoriamente de ser um doente mental, pode ser alguém até consciente demais.

Para mim tanto é um exemplo de vida o M.J. Fox, como o C. Reeve como Ramón Sampedro.

Afixado por: João Dias em março 10, 2005 03:55 AM

http://ajferrao.blogspot.com/

Futuro do BE.

Como todos sabemos o Bloco é um partido de causas. São estes seus “chavões” que criam uma empatia com uma faixa de população bastante alargada nas grandes metrópoles, onde as regras comportamentais, moralismos, ética com tudo o que têm de bom ou mau passam ao lado da maioria das pessoas.
Sendo assim, com a resolução à vista, qualquer que seja a solução encontrada para a problemática do aborto seria urgente encontrar rapidamente uma nova causa puxar a mesma para a discussão do dia a dia, sendo que, se assim não fosse, o capital politico ganho nas ultimas eleições por parte do BE se viesse a esvanecer no tempo. A causa está encontrada e escarrapachada à vista de todos nós, no Barnabé ou nas palavras de Ana Drago. EUTANÁSIA

http://ajferrao.blogspot.com/

Afixado por: AJFerrão em março 10, 2005 07:45 AM

Estou plenamente de acordo contigo Daniel. Parabéns pelo texto, que é muito bom. Essa história impressionou-me muito logo na altura em que ele morreu. Acho que o Ramon Sampedro foi de uma enorme coragem. E já na altura escrevi que, depois de o terem ajudado a morrer, Ramon se transformava num homem livre.

Afixado por: Clara Belo em março 10, 2005 10:31 AM

Obrigado por, sem prévio aviso, ter contado grande parte da história do Million Dollar Baby. Agradeço.

Afixado por: Guybrush em março 10, 2005 11:56 AM

eh pa eu ouço dizer cada estupidez... o homem desde k respire deve viver...isso é k é a dignidade humana? pork ha de a sociedade decidir por nos se somos felizes ou infelizes? solidão?o ramon noa vivia na solidao tinha todo o apoio no entanto decidiu o k decidiu.
digo ja se eu ficasse numa estado vegetativo persistente, como acontece am alguns casos, preferia morrer...a prisao perpetua é o castigo maximo nos paises civilizados...e agora kerem me obrigar a viver aprisionado no meu proprio corpo?
uma sentença pronunciada por uma doença ou acidente?

eu digo não.

ninguem me pode prender e condenar a viver preso no meu corpo até ao fim da minha "vida"...prefiro morrer a viver nessas condiçoes...e tenho todo o direito a decidir o k kero sem ninguem me forçar a sua forma piedosa de viver.

Afixado por: oscar pinto em março 10, 2005 03:36 PM

Não falem do Ben-Hur que eu ainda não vi

Afixado por: rb em março 10, 2005 04:33 PM

Não pedimos para nascer. Mas podemos pedir para morrer. Julgo que qualquer ser humano deveria poder morrer, de acordo com a sua consciência e vontade, se assim o desejasse. Deveria constituir-se como 1 direito fundamental a qualquer individuo. Não vejo razões para prolongar a vida de alguém, que não a deseja mais!

PS1: não vi o filme
PS2: Parabéns a todos pelos posts

Afixado por: Montezuma em março 10, 2005 08:26 PM

Vocês são uma lástima.
A eutanásia é no fundo um acto de amor solitário e/ou solidário.
Porque é que têm de meter a política , o estado e ou a religião nisto?

Afixado por: loureiro em março 11, 2005 12:49 AM

Gosto e sempre gostei de ver homens com convicções fortes.
Gosto de ver homens que não têm dúvidas assim na linha de Oliveira Salazar e Álvaro Cunhal.
Nunca tiveram dúvidas e nem precisavam de ouvir outras opiniões.
O que eles diziam eram dogmas.
Por aqui também começam a aparecer homens de fortes convicções do tipo: daniel oliveira (OUTRO), luis rosa, oscar pinto, montezuma e loureiro entre outros.
São estas criaturas os futuros salvadores da Pátria.

Afixado por: Ana Catarina em março 11, 2005 12:14 PM

A Srª Ana Catarina quando mudar de emprego comunique-me s.f.f.
Porque eu também quero opinar sobre a sua decisão e, se for preciso, decidir EU por SI.
Ah, e claro, não pretendo ser "salvador da pátria".
www.terrorismo-da-comunicacao.blogspot.com
www.blogtroter.blogspot.com

Afixado por: luis rosa em março 11, 2005 12:47 PM

para luis rosa:

O sofrimento não seria só teu mas também daqueles que te amam ( existe sempre alguém que gosta de nós e ...desculpa este discurso burguês).
A questão é a morte e o nascimento e a forma como esta sociedade eliminou o sagrado.
Sabes, sofrimento e sangue tiveram as nossas mães quando nos parriram e sem sofrimento(no seu sentido lato)não crescemos.

Afixado por: loureiro em março 12, 2005 12:06 AM

"Deixa-me rir... essa história não é tua... "

Afixado por: Eu mesmo em março 12, 2005 02:55 AM