
Pat Oliphant, uComics Website.
O Médio Oriente está à beira de se democratizar? Muitos parecem acreditar que sim. Mas curiosamente os mesmos argumentos surgiram a seguir a 1991, com os resultados conhecidos. Penso que se isso nos deve moderar o entusiasmo, no entanto, hoje as coisas são diferentes para melhor, temos a internet e TV por satélite, temos manifs! Há o exemplo da Turquia, e em menor medida de Marrocos, da Jordânia, da Indonésia. Há o exemplo mesmo do Iraque – a história não é linear e de um erro podem resultar coisas boas, especialmente depois de Washington ter sido forcado por Sistani e pela ONU a corrigir parte desse erro e aceitar eleições bem mais cedo do que tinha previsto.
Alguns ditadores parecem ter percebido que democratizar pode ser a melhor defesa face aos EUA. Muitos locais perceberam que o statu quo não é intocável. E todos temem um resvalar para o caos se algo não mudar. A verdade é que quer o Egipto quer o Irão são Estados com longas ainda que imperfeitas tradições parlamentares e constitucionais, e mesmo os ditadores nunca as aboliram completamente. O falhanço, quer dos regimes estatistas e repressivos, quer das promessas islamistas, parecem agora ter dado força a um movimento liberalizador ferozmente reformista mas pacífico, e cada vez mais popular e organizado. Muitos perguntam, porque não nós?
Mas os obstáculos são grandes e os avanços serão necessariamente frágeis.
Por exemplo, economias muito fechadas e ainda muito controladas pelo Estado. O peso da polícia e do exército é enorme. A falta, em boa parte da zona, de uma imprensa realmente livre leva a que florescem todo o tipo de boatos e teorias da conspiração. E quer o poder quer os islamistas e outros radicais podem usar o argumento nacionalista contra os moderados graças ao apoio incondicional dos EUA a Israel, e aos erros cometidos no Iraque e um pouco por todo o lado. Sobretudo, contrariamente ao mito trostkista dos neo-conservadores de que a violência resolve radicalmente o problema, convém reconhecer que ela pode simplesmente gerar mais radicalismo e violência. As transições ou as revoluções são coisas complicadas em todo o lado. Nada mais fácil do que sair-se de uma ditadura para se cair noutra: um homem, um voto, uma vez.
A Europa pode ter aqui um papel essencial e mais activo, condicionando mais a sua ajuda ao evoluir das reformas, e insistindo que uma parte crescente seja direccionada para fontes não estatais. Os EUA o melhor que podem fazer é não fazer nada. Ou mais exactamente concentrar-se em apoiar Sharon e empurrá-lo o mais possivel para fora das zonas palestinas, assim como empurrar a Síria para fora do Líbano (aonde se manteve com o apoio da Washington), e naturalmente criar condições para as tropas norte-americanas sairem o mais depressa possivel do Iraque. Seria a melhor maneira de retirar argumentos aos inimigos da democracia na zona.
Publicado por bruno cardoso reis emEu já tinha visto gente a confundir muçulmanos com árabes, mas pôr a Indonésia no Médio Oriente é algo sem precedentes !!?!?!?
Quanto à afirmação:
"Alguns ditadores parecem ter percebido que democratizar pode ser a melhor defesa face aos EUA." - a aparência de democracia acaba por ser um bom escudo. E com "aparência de democracia" quero dizer uma ditadura mais ou menos alinhada com as vontades atlânticas e com uma máquina de propaganda que lhe permita sobreviver a eleições (vide rússia). Ah, e claro, economia de mercado livre. Veja-se o exemplo de Allawi que não é mais do que um Saddam de uma nova era em termos geopolíticos. Começou como assassino contratado do partido baas. Tirou o curso de medicina em 5 segundos (o tempo que demorou a carimbar o diploma), chateou-se com Saddam, fugiu para Londres, onde se tornou um assassino ao serviço da CIA. Já no governo, fez questão em executar pessoalmente algumas penas de morte (ao disparar pessoalmente sobre a nuca dos condenados). Um "democrata" que nos dá jeito, mas lembremo-nos que o "laico" Saddam também era nos anos 80 um menino bonito, principalmente para a Europa "social" e "laica".
Afixado por: João em março 10, 2005 10:09 PMConcordo inteiramente, Bruno, excepto quando tentas dar o Egipto e o Irão como exemplos de tradição "democrática"...
Afixado por: Francisco Curate em março 10, 2005 10:35 PMA transição democrática é mais complicada em países como o Iraque e a síria por causa da longevidade dos seus partidos Baas. Quem ganhou ao longo dos tempos foram os islamitas, que concentraram o ódio das populações nesses regimes, enquanto proclamam a falência dos nacionalismos árabes, tendencialmente mais laicos. A risco de passar de uma ditadura baasista para um regime ortodoxo muçulmano é real.No Líbano, ainda ontem se viu uma enorme manifestação xiita a favor do Hezbollah.
Francisco, não conheço as tradições parlamentares do Egipto (até porque Nasser e os reis eram algo autoritários), mas o Irão já tem um parlamento há coisa de cem anos. Se actualmente não é uma democracia, deve-se ao poder dos líderes religiosos, por quem as leis têm necessariamente de passar depois de aprovadas colegialmente. a forma de como o Irão teve os seus primeiros contornos democráticos édescrita no livro "Samarcanda", do libanês Amin Malouf.
OK.
E se nos concentrássemos na manif de 19 contra a ocupação do Iraque?
E se a 18 (às 21), 19 durante o dia (com intervalo para a manif) e 20 às 15 Apresentação de um filme norteamericano, ainda inédito sobre o papel dos media) fossemos às sessões da Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque? (tribunal de opinião, claro)no auditório da Torre do Tombo?
Toda a informação, apoiantes, acusação, depoimentos, catálogo de obras de arte á venda para apoio(Sisa, Graça Morais, Eduardo Neri, António, Luis Afonso, Vasco, Manuel Botelho, Figueiredo Sobral, Pomar, Jose´Rodrigues, etc. etc. em www.tribunaliraque.no.sapo.pt
Ainda não saiu sequer nos EUA, mas o filme WMD-Weapons of Mass Deception será apresentado em sessão única e especial no âmbito da Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque, que se vai realizar em Lisboa (Auditório da Torre do Tombo, junto à Faculdade de Letras) nos próximos dias 18, 19 e 20. A projecção terá lugar no domingo, dia 20, às 15 horas.
Por especial autorização do seu autor e produtor, Danny Schechter, o público de Lisboa vai poder ver esta obra contundente ainda antes do público dos Estados Unidos. Neste filme, documentário de longa-metragem que será visto com legendas em português, o jornalista e realizador, ex-repórter da ABC e da CNN, escalpeliza o papel dos grandes media em todas as fases da guerra contra o Iraque, desde a sua preparação até à ocupação militar daquele país.
Ao melhor estilo do grande jornalismo audiovisual americano, Danny Schechter põe em causa, além do comportamento de muitos dos seus colegas, as «ligações perigosas» entre os projectos agressivos do Pentágono e da Casa Branca e os grandes grupos mediáticos que acabam por condicionar uma opinião pública frágil e desprotegida.
No final do filme o autor pergunta directamente aos espectadores: «Esta situação é grave e parece ultrapassar-nos: que podemos fazer contra isto ? que podem vocês fazer quanto a isto ?». Por isso, logo a seguir ao filme, terá lugar uma mesa-redonda, com a presença de jornalistas, juristas, sindicalistas e activistas humanitários e da Paz, moderado pelo advogado João Loff Barreto, sobre o tema: «A guerra do Iraque, os movimentos cívicos e de trabalhadores e o papel da comunicação social».
ADM-ARMAS DE DESINFORMAÇÃO MACIÇA
(WMD-Weapons of Mass Deception)
Danny Schechter, EUA 2005
(98 min., legendado em português)
Entrada gratuita, lotação limitada.
Fico realmente revoltado como tudo o que se passa!
Democratizar o Médio Oriente? Quem somos nós (Ocidente) para podermos pensar que devemos democratizar o que quer que seja? Como se os outros povos não estivessem já fartos do Ocidente, do colonialismo,da escravatura, das conversões forçadas ao catolicismo, etc. Como se o estabelecimento da democracia no mundo fosse uma ordem de DEUS!!! Como se as Democracias Ocidentais fossem perfeitas, ao ponto de serem um exemplo para o mundo. Como podem os E.U.A apregoar democracia, ou cumprimento dos direitos humanos, quando têm a vergonha de Guantanamo, quando elegem um presidente através de uma fraude ou quando não respeitam nenhuma lei internacional.
Fala-se em "erro do Iraque". Erro? Esse "erro", já custou a vida a mais de 100.000 pessoas. Parece que o Ocidente comete demasiados "erros".
A democracia não se conquista com bombas, nem com Golpes de Estado, ou assassinatos de lideres políticos, serão os próprios povos que terão de construir as suas democracias!!!
O que mais me revolta, é que nada mudou! O imperialismo, a miséria e a escravatura continuam a existir!!!!
Afixado por: Montezuma em março 11, 2005 01:21 AM"Alguns ditadores parecem ter percebido que democratizar pode ser a melhor defesa face aos EUA." - Eu acho que o que eles perceberam foi que mais cedo ou mais tarde os EUA vão virar a sua atenção para si, e o problema da atenção dos EUA é que esta envolve geralmente tanques, infantarias, aviões de caça e muitos banhos de sangue.
Afixado por: JR Ewing em março 11, 2005 01:30 AMCaro Joao, nao me diga que nao sabe que os turcos nao sao arabes!!!! Claro que voce nao diz que sao. Mas se nao diz e porque nao sabe! Ou seja, todos podemos jogar esse jogo, mas nao nos leva muito longe. Eu nao me refiro a Indonesia por ser arabe ou parte do Medio Oriente (evidentemente achei que toda a gente sabia que nao e nem uma coisa nem outra). Mas porque e o maior pais muculmano do mundo, tem alguns problemas semelhantes aos paises arabes e a sua evolucao e seguido com interesse no Medio Oriente. Mas independentemente dos detalhes, acho que o seu ponto essencial e importante. Democracia ou fachada? O problema e que em situacoes de transicao e por vezes complicado saber. No Egipto essencialmente fachada, por enquanto, em Marrocos menos, etc. Quanto aos pontos do Francisco e do Joao Pedro. Eu referi tradicoes parlamentares e constitucionais (nao democraticas) e que tinham tido altos e baixos no Irao (desde 1906) e no Egipto (desde 1866). Mas raramente desapareceram completamente. Mesmo hoje ha diversos partidos ou quase partidos a concorrer e eleger deputados nos dois paises, ainda que depois nao tenham poder real. A hipocrasia e a venia que o vicio faz a virtude. Concordo que e pouco, mas e um comeco...
Quanto ao JR e Montezuma, concordo que a violencia e sempre de lamentar e nao e uma solucao milagrosa, mas mesmo da pior violencia podem resultar mudancas positivas. Podemos nao gostar e tentar evitar isso, mas por vezes e assim. Todo o texto insiste que o processo tem de ser essencialmente local mas tal como em Portugal em 1974 as influencias externas contam. E a Europa pode dar dinheiro a quem entender com as condicoes que entender. Se os outros acharem imperialista podem sempre recusar...
Quer a esquerda bem pensante queira ou não, as classes médias dessas regiões do globo já perceberam que não ganham nada em deixar o seu destino político nas mãos dos extremistas islamistas, sempre prontos a transformar os países em que se instalam em viveiros de terrorismo, tornando-os assim alvos quer de atentados quer das necessárias medidas retaliativas na luta contra o terrorismo. A América proclamou claramente que assim seria e, de caminho, demonstrou que os rebeldes eram derrotáveis em eleições livres.
En quanto isso, da nossa confortável poltrona ocidental, uma certa esquerda pós-moderna já com sabor a toque de finados continua a achar que seríamos hoje uma democracia se a América não tivesse 1) entrado na II GM e 2) não tivesse arcado com a factura da Guerra Fria. Mas devem preferir as manifestações do Hezbollah, que fez transportar para Beirute centenas de milhar de camponesas das zonas rurais que efectivamente controla. A esquerda anti-americana delicia-se com manifestações de caciques.
Realmente não existe qualquer possibilidade de alguém entender este "demo-cratas" da esquerda bem pensante do partido psr/udp.
Quando se fala do Pinochet rosnam que nem cães selvagens quando se fala em cuba, Coreia do norte e noutras ditaduras do médio oriente, abanam as caudas que nem “gecos” mansinhos.
Os nazis eram maus como a cobras, os comunas russos, chineses, albaneses, cambojanos, etc eram todos uns santos (ups outra gafe os santos também são malandros).
"O erro iraquiano já custou a vida a mais de 100.000 pessoas" tal mal. O erro angolano custou a vida a milhões de pessoas, são coisas da vida.
Está enganado FIDEL!
O PSR, ao que parece, já não é um partido é uma Associação.
Sim Sim, entedeu bem!
Informações mais pormenorizadas só mesmo com o Daniel Oliveira.
Afixado por: portugal_liberal em março 11, 2005 08:25 PMFIDEL:
O erro Angolano não são coisas da vida! Foi 1 "erro", do qual muitos países deveriam assumir as suas responsabilidades, sendo um deles Portugal. Uma das maiores vergonhas da história foi a partilha de África pelas potências coloniais Europeias. Angola e Portugal fizeram parte desse "sorteio". Não nos podemos esquecer que foram os Russos que armaram o MPLA e os Americanos a UNITA. Não nos podemos esquecer que Angola era um país importante na guerra fria. Para quê? Para depois largarem tudo, deixarem um país devastado pela Guerra com milhões de minas por desactivar e entregue a governantes corruptos. E que hoje apenas interessa pelos seus diamantes(que não têm utilidade nenhuma e apenas servem para adornar os pescoços e dedos das senhoras) e pelo petróleo. Típico!!!
OK. (começo outra vez assim para não me chamarem anti-americano)
Permito-me chamar a atenção para a Terceira Lei Fundamental da Estupidez (Carlo Cipolla): "Uma pessoas estúpida é uma pessoa que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo"
Voltando à questão central, a manif contra a bestialidade colonizadora dos ocupantes do Iraque,e as sessões do Tribunal sobre o Iraque.
O pessoal vai ou não?
Faço uma emenda ao que disse no outro comentário:
o filme "Armas de desinformação macissa" (agora traduzido) acabobu de ser estreado nos EUA.
A propósito não nos devemos esquecer que, no "ocidente" - o Japão tb está incluído, se formos andando lá chegaremos depois de passar o canal do Panamá ou o cabo Horn - o mais avançado, violento e eficaz movimento político, social e cultural contra os crimes de guerra - e não só - de Bush e os neocon, tem lugar nos Estados Unidos.
Caro Fidel quando fala do PSR ou dos double standards nao deve estar a falar para mim. Concordo que ha que fazer um esforco de analise imparcial, sobretudo de conflitos que causaram tantos mortos. O problema em Portugal e que mesmo quando se tenta fazer isso, muito gente acha mais facil tresler de acordo com uma grelha ideologica previa. Se um dia me desse para escrever um elogio ao Hitler no meio de um poste, aposto que apareciam na mesma comentarios com bocas sobre o PSR e a esquerda pos-moderna. Pelo menos neste caso fui acusado por alguns de pro/americano e por outros de anti/americano, o que acaba por bater certo.
Afixado por: bruno cardoso reis em março 12, 2005 01:06 PM