Numa posta de ontem, o Daniel comentou o tema da eutanásia através de dois importantes filmes recentes — One Million Dollar Baby, de Clint Eastwood e Mar Adentro, de Alejandro Amenábar —. Uma das reacções imediatas consistiu em dizer-lhe que a vida não é nossa propriedade, e que portanto não cabe a cada um saber quando é que ela deve acabar.
Curiosamente, este tipo de resposta é típico de uma direita conservadora que tem por princípio sacrossanto o respeito absoluto pela — nem mais nem menos — propriedade privada. E é caso para perguntar: se a nossa vida não é a mais privada das propriedades, que outra propriedade privada será tão importante respeitar?
O paradoxo que acabo de enunciar está bem longe de ser um exclusivo nacional, como é evidente. Bush jr. lançou neste segundo mandato a meta de fazer dos EUA uma "sociedade de proprietários" — the ownership society — propondo entre outras medidas a reforma da Segurança Social por troca com porta-fólios de acções de empresas cotadas em bolsa pela população em geral. E este editorial da AlterNet (a que cheguei via Political Theory Daily Review) nota como esse é um tipo de propriedade trivial, sem o tipo de direitos e responsabilidades de que se usufrui quando se é verdadeiramente proprietário, expondo de forma impecável como todo o programa de Bush assenta na completa e escandalosa inversão do que é "privado" e do que significa "propriedade", — termo que tanto em português como inglês nasce daquilo que nós é "próprio".
Bush e os nossos conservadores opõem-se ao uso de marijuana para usos médicos, à eutanásia e ao casamento homossexual, só para dar três exemplos. Ou seja, a nossa necessidade de aliviar a dor, a nossa vida e a nossa intimidade não nos pertencem. Mas curiosamente, Bush também se opõe a entravar o uso de dados pessoais por parte das empresas, além de propor extensões do uso das patentes e dos direitos de autor que permitirão a muitas companhias "ter" coisas que não inventaram. As coisas que fazemos, gostamos ou compramos podem ser vendidas de empresa a empresa, e certas frases que usamos pode não ser "nossas". De quem é a vida afinal?
Vale a pena ler o texto integral, que é curto e lapidar. Ficam duas frases-chave:
[Bush] acredita firmemente que não somos proprietários daquele tipo de coisas que a maior parte de nós consideraria como indisputavelmente próprias — os nossos corpos, a nossa privacidade, a nossa dignidade, as nossas camas. E, acrescentando a injúria ao insulto, acredita de forma igualmente firme que podemos ser proprietários do tipo de coisas que a maior parte de nós defenderia que não são propriedade sua — ar, palavras, folclore. […] Na "sociedade de proprietários" de George W. Bush, uma pessoa afligida por uma dor debilitante não "possui" o direito de se dirigir ao seu quintal e comer uma planta que lhe alivie a dor. Mas uma não-pessoa — uma companhia — como a MacDonalds "possui" o direito sobre frases como "jogos e brincadeiras para todos" ou "pode acontecer".Publicado por ruitavares em
Este comportamento do Rui faz-me lembrar a história, velha, do prior e do sacristão.
O daniel badala, o Rui replica a campainha.
Depois adjectiva com toda a superficialidade: "tipica da direita conservadora".
Olhai amigos, se matar é tipico da esquerda eu sou, com muita honra da direita, e mais, da direita conservadora.
Comento-vos pouco, é verdade. Mas sou leitora fiel. E amo-vos, por causa de posts como este!
Afixado por: Ana em março 11, 2005 10:21 AMCuriosamente o recente filme canadiano «Les Invasions Barbares» é sistematicamente esquecido nestas reflexões sobre a eutanásia despoletadas pelo cinema. É evidente que há uma lógica de avalanche em relação a isto [se todos falam disso, falemos também]. Ainda assim creio que o Barnabé podia a este respeito ampliar horizontes em vez de os restringir.
Afixado por: JoaoLuc em março 11, 2005 11:11 AMRui, quando se fala de eutanásia, fala-se, quer queiramos quer não, de legislar sobre a morte. Falamos de dar autoridade e legitimidade juridica a determinadas pessoas para decidirem sobre a vida de outras. Falamos de possibilitar (causar) a morte a uma pessoa, atendendo e respondendo apenas à sua vontade pessoal. Falamos de uma lei, não te esqueças.
Ora, tu falas muito dos direitos a esta livre escolha, mas nunca falas das consequências, nem me explicas, depois, como é que um médico que permite a eutanásia, pode negar a "morte assistida" a uma pessoa que quer suicidar-se e que recorre a ele apresentando todo o tipo de problemas e sofrimentos psicológicos. E este é apenas o início das complicações práticas que a vossa medida tão humana (e de amor, como lhe chamou o Daniel) conseguirá. Mas há outros, que já referi nos comentários ao post do Daniel.
Venham lá as propostas para a tal lei e vamos ver em que mãos (e gabinetes) querem deixar as vossas vidas...
Afixado por: Pedro Costa Freitas em março 11, 2005 01:21 PMPedro Costa Freitas, já há uma Lei da Eutanásia na Holanda. Se quiser pode lê-la em
http://www.nvve.nl/english/
"clicar" no lado esquerdo do ecran em "Euthanasia Law".
Afixado por: viana em março 11, 2005 02:28 PMA propredade privada é a miseria capitalista.
Afixado por: ferreira em março 11, 2005 03:39 PMA vida é nossa e de mais ninguém. Viva a propriedade privada.
Afixado por: povd em março 11, 2005 06:10 PMlol o problema é k para a grande maioria das pessoas a sua vida é a unica propriedade privada k possuem.
Afixado por: oscar pinto em março 11, 2005 06:58 PMOh Viana, exactamente porque a conheço (e a de Espanha também) é que falo. Pergunto é sobre as consequências...
Afixado por: Pedro Costa Freitas em março 11, 2005 07:22 PMtípica análise BLOQUISTA!
Misturar, numa concepção entre o místico e o delirante, assuntos tão diversos como: "VIDA", "PROPRIEDADE PRIVADA", "BUSH", "DIREITA", "HOMOSEXUALIDADE", "EUTANÁSIA", "DIREITOS DE AUTOR", "DADOS PESSOAIS", "MARIJUANA", "ETC.", "ETC.",...
E para mais em tão pouca prosa...
E não quero ser mauzinho, mas na Av. do Brasil há pessoas capazes de lhe prestarem uma ajuda bem válida.
Afixado por: portugal_liberal em março 11, 2005 08:17 PMmas meu kerido amigo liberal está tudo relacionado noa percebes?
é uma kestao de ideias conceitos e ideais.
se isso nao lhe parece claro na sua cabecinha devia repensar as coisas...
ou não comprende a ligaçao por exemplo entre direita bush propriedade privada.
direita, k é conservadora em relaçao a homosexualidade a eutanasia etc
bush k é o seu mais alto representante.
e propriedade privada o conceito sagrado para capitalistas.e a america é um pais...(tente adivinhar)
Se não temos a liberdade de decidir sobre as nossas próprias vidas, que é a única coisa realmente nossa, então não temos NADA! Compreendo que a Eutanásia seja 1 assunto controverso para muitas pessoas, no entanto, quando é desejo de alguém deixar este Mundo, não podemos, senão respeitar a sua vontade.
A única coisa que se deve fazer, é tentar demover o paciente das suas intenções através da persuasão. Contudo, se o paciente insistir na sua vontade, deve-se respeitar os seus últimos desejos, confortá-lo, para que possa partir em Paz!
"Deixa-me rir.... essa história não é tua..."
Afixado por: eu mesmo em março 12, 2005 02:57 AMPorque é que a Esquerda é tão previsivelmente dogmática e a Direita tão asquerosamente hipócrita? Mesmo em questões de vida ou de morte...
Afixado por: elbamonte em abril 12, 2005 03:38 PM