Numa perspectiva caridosa, os americanos invadiram o Iraque porque estavam mal-informados em relação ao arsenal de Saddam. A história do século XX oferece-nos, aliás, um rico anedotário no que concerne à "ignorância" dos decisores políticos norte-americanos (e nisso eles não são especialmente originais; simplesmente, o impacto global da sua ignorância é, por motivos óbvios, muito mais devastador). Hoje tropecei neste diálogo irresistível entre John Foster Dulles, Secretário de Estado de Eisenhower, e Walter Lippman, figura lendária do jornalismo americano, travado em 1954, logo a seguir à constituição da SEATO. Dulles tenta explicar a Lippman os motivos que levaram à inclusão do Paquistão na aliança:
"Look Walter, Dulles said, blinking behind his thick glasses. I've got to get some real fighting men into the south of Asia. The only Asians who can really fight are the Pakistanis. That's why we need them in the alliance. We could never get along without the Gurkas.
But Foster, Lippmann reminded him, the Gurkas aren't Pakistanis, they're Indians.
Well, responded Dulles, unperturbed by such nit-picking and irritated at the Indians for refusing to join his alliance, they may not be Pakistanis, but they're Moslems.
No, I'm afraid they're not Moslems, either. They're Hindus.
No matter, Dulles replied, and proceeded to lecture Lippmann for half an hour on how SEATO would plug the dike against communism in Asia"
(citado em Anita Inder Singh, The Limits of British Influence. South Asia and the Anglo-American Relationship, 1947-56)
Na Administração Eisenhower, Nixon era o vice-presidente. No último mandato de Nixon, esse cargo era exercido por Gerald Ford, que lhe sucedeu na presidência devido ao escândalo Watergate. Donald Rumsfeld e Dick Cheney, respectivamente Secretário da Defesa e Vice-Presidente da actual Administração Bush, tiveram ambos cargos na Administração Ford. O Paquistão, um dos principais aliados dos EUA na "guerra contra o terrorismo", apoiou o regime dos Taliban durante anos a fio. A Al-Qaeda tinha os seus campos de treino no Afeganistão governado pelos Taliban e foi aí que os atentados do 11/9 foram congeminados. Como dizia o malogrado Eduardo Guerra Carneiro, isto anda mesmo tudo ligado.
O que me espanta em termos da política externa dos EUA é que eles ingeriram sempre em vários países africanos, latino,americanos etc. e vêm agora os inteligentes defensores do combate ao terrorismo de boca cheia a afirmar que o procedimento em relação ao Iraque foi uma consequência dos atentados às torres gemêas. Como se isso alguma vez correspondesse à realidade. Uma manifesta falta de senso dos apoiantes desta política. E para convencerem os incautos vêm afirmar que o terrorismo espreita em qualquer País do Mundo, como se efectivamente não soubemos aqueles tantos que existem e que têm passado ao lado desse risco, por uma explicação muito simples, não se metem com os seus agentes, logo não colocam em risco as respectivas populações.
Afixado por: congeminações em março 20, 2004 06:12 PMAguardo com curiosidade um post sobre a tal meeeega manifestação que iria ocorrer hoje em lisboa, cidade com mais de 200 mil residentes, 1 milhão de pessoas durante o dia, num pais com mais de 10 milhões de pessoas.
Diga la barnabé, quantos la estavam?
Epá o Francisco não é lá muito bom a demografia, Lisboa com 200 mil habitantes? 1 milhão durante o dia? Onde é que o Francisco terá visto esta informação? Talvez na camara com o mesmo tipo que desmobilisou a manifestação pondo em risco o seu acontecimento... sabe Francisco essa gente, (só cá entre nós!), é aldrabona...
Afixado por: dias em março 20, 2004 07:53 PMnão é preciso estar com grandes rodeios. seja pela praia (já que hoje não foi pela chuva) o que é certo é que a mobilização foi fraca.
Afixado por: Tchernignobyl em março 20, 2004 11:26 PMCada uma destas histórias, a cuja descoberta muita gente dedica a vida, faz de mim um americanofilo ainda mais primário. Como é que com tanta ignorancia a governa-los, e, pela logica das coisas, pois que não se imagina governados muito menos estupidos que respectivos governantes, tanto subdito à beira da falencia cerebral, conseguiram, mesmo assim, construir um país que domina tantas áreas do conhecimento e do poder do mundo. Todo o resto do mundo deve ser mesmo muito pior.
Este gozo mesquinho de apontar a quem é manifestamente melhor que nós falhas que hipocritamente nos escandalizam, só poderia ter desembocado no povo mais brutalmente ignorante comparado com a posição que ocupa nos rankings do desenvolvimento humano: o povo portugues.
O mito do americano ignorante, principalmente quando sublinhado por qualquer europeu, só pode ser acenado por quem acha que nasceu no dia que tem estampado no bilhete de identidade.
Um abraço
fernando (maradona)
"Cinco mil em Lisboa e algumas centenas no Porto."
Não, a culpada não a praia. Foi a manipulação vergonhosa feita pelos organizadores.
Afixado por: Celan em março 21, 2004 12:19 AMErrata: "(...)não É a praia(...)"
Afixado por: Celan em março 21, 2004 12:21 AMMas afinal do que se fala aqui?!
Afixado por: thirdbacus em março 21, 2004 12:25 AMÉ como o Real Madrid, ó Maradona: pode comprar os melhores...
O resto não vale a pena explicar-te, porque tu sabes: não queres é dizer...
De praia e de bola?
Afixado por: Celan em março 21, 2004 12:32 AMLLLOOOLLL!
Afixado por: thirdbacus em março 21, 2004 12:39 AMCaro Pedro Oliveira: quando escreveu A história do século XX oferece-nos, aliás, um rico anedotário no que concerne à "ignorância" dos decisores políticos norte-americanos cometeu um lapso que pode parecer irrisório. Sim, tão irrisório quanto é o equivalente ao Barnabé nos EUA escrever sobre a ignorância dos decisores políticos ibéricos referindo-se ao governo de Madrid. A menos que esteja a incluir deliberadamente o governo canadiano na sua peça, claro. Mas fiquei na dúvida, portanto esclareça-me. Foi um lapso irrisório aos olhos de todo o mundo excepto os do povo canadiano? Ou refere-se realmente aos decisores políticos de toda a América do Norte, e não apenas aos dos Estados Unidos da América, ou estado-unidenses?
Afixado por: Paulo em março 21, 2004 12:48 AMÉ que em toda a peça só leio nomes de políticos estado-unidenses...
Afixado por: Paulo em março 21, 2004 12:49 AMOs EUA ao substituirem na primeira metade do sec.XX, a potência dominante que era o Reino Unido, não aprederam bem a lição, a saber: qualquer território objecto de protectorado, colónia, ou forma de dominação era préviamente estudado, quer do ponto de vista físico, etno-socio-cultural, além de político e militar.
Isso permitia evitar o que está a acontecer no Iraque, pois que, ao tomarem o poder político, directa ou indirectamennte, de imediato era aplicado um plano, préviamente elaborado (trabalho de casa) para a condução dos assuntos correntes da governação, reconstruindo, edificando,etc.
A grande marca desse velho império está, por exemplo, na área tecnológica, na presença do caminho de ferro em todos os territórios por onde os súbditos de sua Majestade impuseram a dua dominação.
Suspeito que no Iraque só ficarão latas vazias de coca-cola, perservativos e toneladas de munições por explodir!!
Quando se fala de americanos deduz-se logo que é EUA não é necessário ser-se muito "expert"
Os EUA querem ajudar os povos... aumentando o seu poder geo-político na zona.
Tem razão Pedro é isso mesmo está tudo ligado.
Nós os europeus somos tão cultos, sofisticados e inteligentes que até conseguimos que uma trupe de mentecaptos abrutalhados nos sirvam de guardas costas durante 60 anos.
Essa ralé, que obviamente aínda se encontra num degrau inferior da evolução humana,não só se apropriou (com certeza pelo uso da força bruta) da mais avançada tecnologia, da mais produtiva economia do mundo e do sistema politico onde a liberdade individual é mais respeitada, como aínda tem o descaramento de esperar a colaboração dos seus protegidos para evitar que eles sejam massacrados.
É também de realçar a superioridade intelectual dos portugueses. Apesar da maioria da população não saber a tabuada nem saber escrever e falar correctamente na sua lingua natal, todos são mais cultos e inteligentes do que aqueles primatas que estudaram em desprezíveis instituições como Yale, Harvard ou MIT.
Enfim, todos os dias fico feliz por ser transportada por um fogareiro intelectualmente superior ao presidente dessa súcia.
Pedro,
Deste um saltinho à manif.?
O Dulles tinha, no fundo, alguma razão. Entre as melhores tropas do império britânico contavam-se, além dos Gurkhas do nordeste indiano e do Nepal, os Sikhs do Panjab, indiano e paquistanês. Os Sikhs são guerreiros temíveis, não são pessoal com quem se brinque de ânimo leve. E uma boa parte deles ficaram no Paquistão, creio (embora Amritsar, a cidade santa dos Sikhs, seja no Panjab indiano).
Afixado por: Luís Lavoura em março 21, 2004 07:47 PMClaro, mas onde é que eu tinha a cabeça... O conhecimento leva à dúvida, a dúvida leva à incerteza, a incerteza leva ao relativismo, o relativismo absolve os terroristas. E chegamos à tríade do Big Brother: "GUERRA É PAZ, ESCRAVIDÃO É LIBERDADE, IGNORÂNCIA É FORÇA"
Afixado por: Pedro Oliveira em março 21, 2004 10:15 PMuma pergunta ao Maradona: os americanos são infinitamente melhores que nós? Em quê? No Basebol, Basquete e Wrestling (no futebol normal não, apesar do jogo da Coreia)? Em hambúrgeres, "hot-dogs" e arranha-céus? Em arsenal bélico e tecnologia espacial? Música rock e cinema de acção? Nesses pontos concedo que sim. Mas se juntarmos inúmeros campos, seja do sistema de saúde e social, herança do passado, filosofia, literatura, gastronomia, e até na qualidade das ciências (Magueijo, Damásio, não lhe diz nada?), e já agora no futebol normal, o calcio, quem é que fica a ganhar? Clara e indubitavelmente este lado do Atlântico. Aliás, se muitos se identificarem com o seu Presidente, não abona nada a favor deles (ao menos há de me fazer o favor de não achar que W Bush é minimamente inteligente). Por todas essas razões e mais algumas é que acho que o facto de ter nascido europeu e até mesmo português faz de mim um previlegiado.
Um facto que tenta provar a "superioridade" dos americanos e que reparei nos últimos tempos é que quando se pronuncia uma determinada língua, como o francês, em pronúncia anglo-saxónica ninguém liga, mas falar inglês com serrado sotaque de outro qualquer idioma já é motivo para riso. Simplesmente ridículo e revelador.
Já agora, tenho algumas dúvidas na nacionalidade dos Gurkas. Confesso que julgava que eram maioritariamente nepaleses (e hindus). Ou então estão disseminados em vários países daquela vasta região.