março 30, 2004

Isto é que é um pai!

Todos os dias, milhões de crianças nos EUA recitam um juramento patriótico escrito em 1892 que dá pelo nome de Pledge of Allegiance: "I pledge allegiance to my Flag and the Republic for which it stands- one nation indivisible-with liberty and justice for all." Em 1952, pressões da direita conservadora mudaram o juramento de forma a incluir a expressão: "one Nation under God".

Michael Newdow, um médico com formação jurídica mas que nunca exerceu em tribunal, quer restaurar o Pledge à sua forma original. Uma vez que é ateu, considera que é uma violência a escola obrigar a sua filha a recitar o Pledge na sua presente forma ou a ser discriminada como a bizarria da escola caso opte por não o fazer enquanto os seus professores dirigem o resto da turma no juramento. Nos EUA, Michael Newdow é unanimemente tido como um chato e um desmancha-prazeres. Noventa por cento dos americanos querem o juramento tal como está. O governo da Califórnia também. A administração Bush também. E até a mãe da miúda, uma "cristã renascida", está contra o pai. Para piorar as coisas, Newdow escolheu a pior das loucuras em tribunal: defender o seu próprio caso.

Esta semana chegou ao Supremo Tribunal. Ganhou o primeiro round brilhantemente. E está cheio de razão.

Publicado por ruitavares em | TrackBack
Comentários

O sistema judicial americano não é uma maravilha?

Afixado por: Joao Miranda em março 30, 2004 12:23 AM

Formidável!
Espero agora que os monárquicos daquele país façam o mesmo quanto à referência da Republica e os anarquistas para a bandeira e a nação. Em meia dúzia de penadas, acaba-se com o juramento.

Afixado por: Agualusa em março 30, 2004 12:31 AM

Isso só prova a beleza da democracia americana:
onde um cidadão "si que tiene el poder de cambiar"

Queridos barnabas...i rest my case..

Afixado por: observer em março 30, 2004 12:46 AM

É nessas alturas que a Europa se torna tão pequenina, tão pequenina, tão pequenina, tão velhinha, tão velhinha, que até dói. A verdade é que as grandes lições de direito chegam-nos dos EUA, onde um cidadão determinado pode fazer a diferença porque pode acreditar. O sistema não é perfeito, tem a pena de morte, mas...o reverso da moeda é brutal e não tem paralelo. Digam-me um país da europa em que uma grande empresa tenha pago uma indemnização choruda a um cidadão comum, em que um cidadão mudou uma lei por iniciativa pessoal(só me lembro da lei bosman, e mais nada).

Afixado por: thirdbacus em março 30, 2004 12:59 AM

Porra! Também temos de convir que essa lei é completamente estúpida! E mais estúpido ainda, é apenas um homem estar a fazer algo para mudar a lei! Devia ser obrigação de qualquer cidadão americano, apoiar esse homem, já para não falar dos políticos de "esquerda", que se deviam disponibilizar para combater uma lei injusta! Como é que é possível que não haja mais ninguém disposto a lutar por essa causa!? Mas será que a maior parte dos americanos não consegue ver como é errado fazer-se referência a deus (com minúscula!) nesse juramento! Façam manifestações carago!


P.S.: O que é uma cristã renascida? Nunca consegui perceber. Agradecia que alguém me explicasse isso.

Afixado por: _achtung_ em março 30, 2004 01:18 AM

Seria um exercício curioso questionar até a essência do próprio juramento original de Bellamy quanto à submissão ao estado e aos seus símbolos . A saudação original à bandeira era feita de braço direito estendido, que só o nazismo fez esquecer.
P.S. Não acredito que a invocação da 1ª emenda vá resultar nalguma coisa, mas o raposinho Bush vai tentar colher dividendos.

Afixado por: dsousa em março 30, 2004 01:19 AM

Boas!
É sempre bom observar o funcionamento da justiça, mas.. e então, que dizer da maioria dos serviços de urgência dos nossos hospitais públicos, que têm na sala de espera o eterno cruxifixo de Jesus?
Pois é!

Afixado por: António em março 30, 2004 01:21 AM

Acho bem que tenham. Uma coisa é obrigar a um juramento com uma carga religiosa a que esse pai se opoem, outra é proibir a presença de simbolos religiosos nos locais publicos.
Seria equivalente ao juramento ter a carga religiosa apenas de forma opcional.
Se o crucifixo incomoda tambem digo que preferia que os hospitais tivessem simbolos religiosos de outras religiões. Embora em Portugal as religiões não cristãs tenham muito pouca expressão.
Na situação de dor em que os doentes se encontram dificultar-lhe um consolo que lhes pode vir da sua fé religiosa pode ser nocivo.

Afixado por: vagabundo dos blogs em março 30, 2004 01:40 AM

Há uma diferença entre os adornos de uma instituição pública e um símbolo de uma nação, não crê, António?
A mim não me incomoda nada ver cruxifixos onde quer que estejam (menos em minha casa e em estabelecimentos públicos de ensino), mas se agora resolvessem meter de alguma forma a religião ou a palavra deus no hino nacional, xateava-me bastante!

Afixado por: _achtung_ em março 30, 2004 02:36 AM

Primeiro: Estou com o sr. Newdow
Segundo: Se fizermos um esforço de análise racionalista sobre os nossos símbolos nacionais e municipais é fácil encontrar exemplos de racismo, xenofobia, etc...

Afixado por: diogenes em março 30, 2004 07:50 AM

De facto, o sistema judicial americano é um exemplo a seguir pelas nossas bandas.
Mesmo que depois venha a ser travado politicamente (como aconteceu com o caso dos casamentos entre homossexuais) é uma prova de que o marasmo em que se encontra o nosso sistema judicial é, apenas, culpa de todos nós.

É que às vezes parece-me que há muita gente rendida à inevitabilidade do estado actual de coisas.

A reforma do sistema judicial é, na minha opinião, o assunto mais urgente neste momento. Principalmente porque é essencial para um melhor funcionamento da democracia.

Afixado por: Nuno em março 30, 2004 08:20 AM

Caro Achtung, não vejo qual a dificuldade em que se reconheça de facto que existe uma associação entre a igreja e o estado, no nosso caso.
A questão é que o nosso estado é pouco laico, não é?

Afixado por: António em março 30, 2004 08:35 AM

Parabens ao sr. Newdow.

Mas o que é ridículo é todo o sistema da Pledge of Alliance, da bandeira e do hino. Chega a pontos de ridículo. Cá em Portugal, por exemplo, só se canta o hino nacional nos jogos de futebol da equipa nacional. Pois bem, nos EUA canta-se em TODOS os jogos de futebol! Eu costumava assistr aos jogos da equipa de futebol feminino da universidade onde trabalhava (uma entre muitas universidades, claro), e em todos os jogos no princípio tocava-se o hino, com as meninas todas em sentido a cantar!

Cada país tem as suas maluqueiras, as suas obsessões. Nos EUA, a bandeira, o hino e @s menin@s em sentido, são uma obsessão nacional. Já do residente, em compensação, pode-se dizer tudo que se quiser. Pode-se dizer que o presidente é parvo, atrasado mental, mentecapto e corrupto (e se calhar é mesmo!). Cá em Portugal, quem quer que diga tal coisa do presidente seria logo posto à sombra.

Afixado por: Luís Lavoura em março 30, 2004 09:58 AM

Os Americanos são gente muito má...

Afixado por: André em março 30, 2004 10:38 AM

Eu cá tenho saudades das fotografias que a sala da minha escola tinha penduradas na parede, do Marcelo Caetano e do Américo Tomás!

Tenho saudades das avés-marias que rezavamos antes de começar a aula e antes de ir embora, todos perfilados, tão lindos, brancos e pretos, sem racismos!

Tenho saudades da D. Joaquina cheia de buraquinhos, do melhor pau santo, cada erro dois bolos.

Tenho saudades da cana de bambu comprida, que nos chegava às orelhas onde quer que a professora se encontrásse.

Tenho saudades do hino do MPLA que a tropa vinha ensaiar connosco no recreio.

Esse americano tá doido. Não entende que está a privar a sua filha dos mais belos devaneios dos Governos da sua Nação.

Afixado por: gui em março 30, 2004 11:05 AM

Um Estado democrático é um Estado laico, ao obrigar os cidadãos americanos a jurar por deus, a norma está a ser discriminatória e portanto fundamentalista, não só em relação aos ateus, mas também aos que professam outras religiões, porque o deus a que são obrigados a jurar é o deus dos cristãos.
Nunca em caso algum um cidadão pode ser violentado a prestar juramento sobre algo que é da sua exclusiva responsabilidade escolher, por muito consensual ou maioritária que essa escolha seja

Afixado por: Werewolf em março 30, 2004 11:49 AM

"o deus a que são obrigados a jurar é o deus dos cristãos" (Werewolf)

Não bem. O judaísmo e o islamismo também são religiões monoteístas (aliás, em rigor, são mais monoteístas que o cristianismo, que é assim a modos que híbrido, sobretudo o catolicismo). Praticamente todos os americanos religiosos acreditam num Deus único.

Afixado por: Luís Lavoura em março 30, 2004 12:21 PM

Concordo 100% com o "Dr." Newdow.
No entanto, só para reflectir: todos os países têm a sua cultura, que deve ser respeitada, e é-nos impossível observar o mundo e a realidade pelos olhos das pessoas que emergem de outras realidades sócio-culturais. Assim sendo, e desejando 90% da população norte-americana a manutenção do juramento tal como está, não será um pouco anti-democrático vir Newdow mudar o estabelecido? Não deveria limitar-se a impor que o seu direito a não fazer o juramento e a não ser por isso discriminado fosse respeitado e totalmente observado?
Não estou a dizer que sim nem que não, apenas estou a levantar o problema...

Afixado por: Naundo em março 30, 2004 12:29 PM

Caro Werewolf, o Deus dos cristãos é exactamente o mesmo dos judeus e dos muçulmanos, seja qual for a sua confissão específica. Mas compreendo o que quer dizer com essa expressão, simplesmente porque a constituição americana, que tem Deus inscrita na mesma, foi escrita numa altura em que as vagas de cristãos eram incomparavelmente superiores às de judeus e a imigração muçulmana não tinha expressão (se é que tinha valor em absoluto).

Se eu estiver enganado corrijam-me por favor.

Afixado por: João André em março 30, 2004 12:48 PM

Ó João Miranda, não desmerecendo, tu é que és uma maravilha! É fascinante! Qualquer dia esculpem-te no Monte Rushmore! Tu deves andar permanentemente de olhos esbugalhados e com um sorriso beato com as histórias dos states, não? Um gajo dá lá um arroto, e tu ficas fascinado com tão magnífica manifestação de liberdade de expressão, não é? E é claro que, por exemplo, a pena de morte é só uma pequeno capítulo de uma interminável longa metragem que vai culminar um dia (eventualmente, quem sabe) com um herói fordiano a ir ao tribunal pedir para a coisa acabar. Por enquanto não dizes nada, mas quando isso acontecer, tu virás aqui dizer: “o sistema judicial americano não é uma maravilha?”. Eu também gosto dos states, mas não consigo tanto, pá! Que saudades de ser simples e ingénuo... what a wonderful life.

Afixado por: antonio em março 30, 2004 02:08 PM

Meu caro Luís Lavoura, obrigado pelo esclarecimento, mas o comentário posterior do João André já te dá a resposta. Quando o presidente americano depois de um qualquer discurso termina afirmando "...so help me god", ou quando uma qualquer testemunha num tribunal americano jura que vai dizer a verdade colocando a mão sobre a bíblia (confesso que neste caso não sei se há objecção de consciência), o juramento é feito perante o deus cristão, particularmente o anglicano (que julgo ser a religião maioritária nos EUA). É evidente que todas as religiões monoteístas, consideram tratar-se do mesmo deus, embora com nomes diferentes, mas na prática não é assim, e mesmo que o fosse não era violentar os direitos dos outros? Dos não crentes, ou de adeptos de religiões politeístas? Continuo a achar que impor um deus, seja ele qual for, ou uma ideologia, seja ela qual for, é uma violentação que é feita sobre o livre arbítrio.

Afixado por: Werewolf em março 30, 2004 05:27 PM

Meu caro Luís Lavoura, obrigado pelo esclarecimento, mas o comentário posterior do João André já te dá a resposta. Quando o presidente americano depois de um qualquer discurso termina afirmando "...so help me god", ou quando uma qualquer testemunha num tribunal americano jura que vai dizer a verdade colocando a mão sobre a bíblia (confesso que neste caso não sei se há objecção de consciência), o juramento é feito perante o deus cristão, particularmente o anglicano (que julgo ser a religião maioritária nos EUA). É evidente que todas as religiões monoteístas, consideram tratar-se do mesmo deus, embora com nomes diferentes, mas na prática não é assim, e mesmo que o fosse não era violentar os direitos dos outros? Dos não crentes, ou de adeptos de religiões politeístas? Continuo a achar que impor um deus, seja ele qual for, ou uma ideologia, seja ela qual for, é uma violentação que é feita sobre o livre arbítrio.

Afixado por: Werewolf em março 30, 2004 05:28 PM

Desculpem lá a duplicação, não foi intencional, resultou de um erro.

Afixado por: Werewolf em março 30, 2004 05:30 PM


O «God Bless America» é aos olhos de qualquer jacobino europeu um ferro em brasa cravado no âmago da laicidade democrática. O hilariante é que o norte-americanos conseguiram, como em tudo, transformar também o «seu» Deus num signo pop. Um esquema talvez ainda mais pernicioso que o beatismo e a seriedade europeus.

Afixado por: thirdbacus em março 30, 2004 06:04 PM

se procurarem alguns links sobre o assunto verão que, apesar da condenação generalizada ao senhor newdow, existem dois apoios que me parecem inesperados mas bastante interessantes.

o primeiro é o dos budistas.

o segundo é o dos ortodoxos judaicos e cristãos, nomeadamente depois de a defesa ter investido numa linha de argumentação em que diz que o juramento já não tem exactamente carácter religioso. o que dizem estes ortodoxos é que 1) ou o juramento tem de ter um sério sentido religioso e toda a gente tem de estar consciente disso; 2) ou então o governo dos EUA está a pedir a milhões de crianças para que invoquem o nome de deus em vão, ou seja, para que blasfemem.

Afixado por: rui tavares em março 30, 2004 06:09 PM

António, não podia estar mais de acordo consigo. Peço desculpa se me fiz entender mal. Apenas acho que a sua comparação entre a cruz nos Hospitais e a inclusão da religião num símbolo nacional.
Estou inteiramente de acordo consigo, o Estado português é muito pouco laico! E é dado à igreja um poder desmedido em Portugal, como se pode ver no caso da legislação do aborto. É absolutamente escabroso, o aborto ainda não ser legal em Portugal e isto, meu amigo, deve-se exclusivamente à puta da igreja! É como dizia o Marx, a merda da religião é o ópio do povo.
Outros exemplos igualmente revoltantes do poder da igreja em Portugal são os subsídios dados a colégios, com base religiosa, e o facto de ser permitida a "instrução" (se é que se pode chamar a essa merda isso) da educção moral e religiosa. Isso devia ser absolutamente proíbido! É uma vergonha deformar as mentes das crianças com o catolicismo e a obtusa e asquerosa moral cristã. Ou de qualquer outra religião for that matter.

Isto sim, são coisas que revoltam, não o facto de existirem a porcaria das cruzes com o gajo lá pregado nas urgências dos hospitais! Creio eu, correndo o risco de estar enganado, que o sr. expressa preocupação por coisas demasiado insignificantes. Mas garanto-lhe que, poucas pessoas haverá no Mundo inteiro que odeiem tanto a religião, nomeadamente a católica, como eu.

Afixado por: _achtung_ em março 30, 2004 10:55 PM
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