março 18, 2005

Habituem-se

Eis as perguntas que eu gostaria de fazer aos senhores que decidem os títulos dos filmes estrangeiros em Portugal:

– Porque detestam o cinema?

– Porque odeiam traduzir?

– Porque desprezam o público?

Eu imagino que tenha havido uma época em que dar ao filme em cartaz nos cinemas nacionais um título completamente diferente do original – em tema, em tom, em tudo – fazia sentido do ponto de vista comercial ou cultural. Pela primeira vez em cinquenta anos de Barnabé usarei maiúsculas para me fazer entender:

ESSA ÉPOCA ACABOU,

oh torcionários da arte.

E eu sei que há casos em que não se pode traduzir literalmente um título. The Life Aquatic with Steve Zissou não é um deles. O que justificará, então, que se pegue neste título deliciosamente elíptico e se esquarteje dele o apatetado "Um Peixe Fora de Água"? Nada justifica. Nada, a não ser a obsessão em conseguir que todos os filmes em cartaz no nosso país, presentes ou passados, tenham títulos indistintos. Não interessa traduzir o original; interessa encontrar uma variação funcionalmente equivalente aos títulos que em português foram usados naquele género específico desde que o pai Lumière viu a mãe Lumière a atravessar a rua pela primeira vez. Se for um filme "de acção" o título tem que ser criteriosamente escolhido entre um escol reduzidíssimo de palavras onde pontificam, como todos infelizmente sabemos, "fatal" e "perigoso/a/as". Se for uma comédia, o título tem de afocinhar no amplo espectro que vai do tontinho ao tolinho.

Basta. Vocês é que têm culpa do atraso português.

Publicado por ruitavares em
Comentários

Concordo com o post e pensei o mesmo quando li a tradução. Só não percebo o que é um título eliptico.

Afixado por: l em março 18, 2005 05:46 PM

Acho que o prémio para traduções idiotas de títulos de filmes está o "Stallone Prisioneiro".

O filme deve ser igualmente idiota (nem sei qual o é título original), mas colocar o nome do actor é realmente imbatível.

Mas não é só por cá que se fazem coisas dessas, no passado a França ainda fez pior. A primeira edição do "Sleeper" (o nosso "Herói do Ano 2000") apareceu em França com esta pérola "Woody et les robots".......

Mas redimiram-se, os filmes de Woody Allan foram dos primeiros em França a ser legendados, em vez de dobrados.

Afixado por: MBP em março 18, 2005 07:29 PM

Dá-lhes, Rui! Durante alguns anos traduzi filmes, e o título em português vinha sempre já dado pela distribuidora, sem que ninguém, entre os tradutores, percebesse por que carga de água era aquele o título escolhido...

Afixado por: marta em março 18, 2005 07:42 PM

Aqui em França passa-se o mesmo com os títulos dos filmes. O que não é igual é o número de salas em que os filmes se podem ver em versão original.
Ora, se num filme com legendas (que é habitual em Portugal), há pelo menos uma parte do público que consegue detectar os erros de tradução, num filme dobrado o público só percebe que há frases que não fazem sentido! E depois tenta adivinhar o que seria o original...

Afixado por: Helena Romao em março 18, 2005 08:45 PM

E custava alguma coisa traduzir Second Hand Lions por Leões em Segunda Mão? Eu sei que há alguns títulos intraduzíveis ou que, traduzidos à letra, não fazem sentido em português (como Blade Runner). Mas este não era o caso e, traduzindo para o insosso os Meus Fabulosos Tios, tiraram-lhe toda a poesia.

Desculpem pelo exemplo práctico... mas esta chocou-me mesmo e ainda não a esqueci.

Afixado por: António Manuel Dias em março 18, 2005 10:18 PM


Hum... Bem, podem sempre adaptar-se aos novos tempos, mas ainda bem que este pensamento revolucionário não existia há 40 anos atrás! O "Vertigo" de Hitchcock teria dado em "Vertigem", como no Brasil, e não em "Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes". A simples ideia de viver uma vida em que este título nunca tivesse existido parece-me insuportável! :)))

Afixado por: Ana Miranda em março 18, 2005 11:45 PM

Foi aqui posto o problema dos títulos "intraduzíveis". Pois são intraduzíveis, assim ficam! Ficam no original, com um subtítulo, por exemplo...

E para que não digam que só digo mal dos franceses, cá vai uma coisa bem feita: o título do filme "Mar adentro", ficou no original. É que a expressão não é para ser lida literalmente, não é uma viagem de barco... e portanto, a tradução não podia ser literal, mas como também não é um ditado popular não se podia encontrar o equivalente... Está em castelhano, quem fôr ver, percebe! E além disso, há muito pouca gente hoje em dia, que vá ver um filme sem ler primeiro o resumo da sinopse no jornal, ou sem falar com amigos, ou sem qualquer informação.

Afixado por: Helena Romao em março 19, 2005 03:21 AM

Quanto à culpa no atraso português, é simples,não leêm a Clara Ferreira Alves e depois queixam-se.

Ela que anda há tanto tempo a educar o povo, e o povo nada...

Afixado por: Fernando Isidoro em março 19, 2005 04:59 PM

Querem mandar os homenzinhos das distribuidoras, uns verdadeiros poetas, que tão bem sabem pôr títulos portugueses nas americanices que cá chegam, para o desemprego???
O que mal tem isso ao pé das dobragens que vemos nas TVs espanholas? A Julia Roberts, a Nicole Kidman,o Tom Cruse, o Brad Pitt , todos numa alegre espanholada...

Afixado por: Outsider em março 20, 2005 08:10 AM

Cá para mim há uma equipa que vê os filmes e quanto melhor estes são pior é o título em português. Para equilibrar as hipóteses! Com títulos como Million dollar baby, 25th Hour ou Lost in translation ninguém ia ver os outros filmes em exibição. A malta vê Sonhos vencidos, A última hora e O amor é um lugar estranho e pensa logo "Antes vou ver a Elektra".
Pior é quando procuramos um filme antigo e vemo-nos à rasca para desvendar títulos e traduções. Existem dezenas de belos exemplos. Fica este: Sabotage (1936) de Hitchcock foi traduzido para "À uma e quarenta e cinco"; em 1942, Hitchcock realizou Saboteur (ou seja, sabotador). Traduziram... Sabotagem

Afixado por: André V. em março 20, 2005 11:28 PM

Muitos títulos são escabrosos, mas pior ainda são as traduções dos diálogos, pq prejudicam mais seriamente os filmes. As traduções do castelhano, então, são verdadeiramente lamentáveis: deve haver por cá a ideia q qualquer bicho careta percebe castelhano (pois se é tão parecido, ora bem!)e então vêm-se coisas fantásticas, com palavras iguais às nossas mas de sentidos completamente diferentes e mesmo construções cujo sentido é precisamente o oposto do que seria em português e q são"traduzidas" como se de português se tratasse! Um mimo.

Afixado por: lucrecia em março 21, 2005 01:52 AM

Não resisto a relembrar duas pérolas que lá em casa se transformaram em clássicos da boa tradução:
1) Numa entrega de prémios, alguém diz "I would like to thanks family and friends..." Tradução: "gostava de agradecer aos meus amigos e à Frances..."
2) "Help, I'm being chased by a bear!" Tradução: "Socorro, estou a ser perseguido por uma cerveja (!!!!!!!!)

Afixado por: JTSSA em março 21, 2005 06:59 PM

É..este tema já é muito mais que rebatido por mim. Eu desisti de lembrar-me de todas as frases que vejo mal traduzidas no cinema e na tv.
Os tradutores não traduzem, inventam! Alguns não sabem o calão da lingua original do filme, outros, pareçe k nem conheçem a lingua original! Há outras situações que simplesmente abano a cabeça e espero que a imagem que formei duma velha portuguesa, que nunca saiu do pais, sentada a secretária, a pensar "hm, não sei o que é que aquilo quer dizer, mas caguei...vai isto e acabou, o público português não iria perceber de qualquer maneira" me saia da cabeça o mais rápido possível antes que me dê na cabeça ir telefonar para a associação de arte e cinema e mandar vir com eles.

Afixado por: Ricardo Martins em abril 3, 2005 10:21 PM

Aqui no Brasil temos muitas vezes os erros de tradução nos diálogos, resultado da contratação de mão de obra desqualificada. Um bom tradutor é caro e geralmente não gosta de fazer tradução de filmes, que sempre é serviço que se tem que entregar rapidamente. Assim, as distribuidoras contratam estudantes inexperientes, pessoas que passaram as férias nos EUA e já acham que falam inglês.

Afixado por: Chris em abril 18, 2005 05:47 PM

Os brasileiros têm, em seu vasto repertório de piadas sobre portugueses, algumas sobre as traduções dos títulos de filme na "terrinha". O mais engraçado é a tradução para Psicose, do Hitchcock, que em Portugal teria sido “O filho que era a mãe”. Sabemos que nem todos são verdade e, além disso, por aqui também temos diversas barbaridades. Mas tem melhorado.

Afixado por: Chris em abril 18, 2005 05:53 PM

Boas! Belo forúm... ja agora para atirar mais uns troncos para a fogueira, cá vai disto:
-(Gunsman) Profissão:Mercenário (quer dizer, só por o gajo ser mercenário, isso já lhe dá o direito de ter a sua profissão como titulo, ñ estou a ver o k tem "Pistoleiro" de mal!!)
-(Alien) O 8º passageiro (pois sim, claro! mas ñ é obvio a nave tinha 7 tripulantes, poix mas só por acaso tinha 8, então e O "9º passageiro" ñ rulava tb como um bom titulo, ou seria demasiado impar???!!!)
-(Hudson Hawk)Hudson Hawk-o Falcão ataca de novo (ja era de esperar...ex presidiário, como seri possivel que ñ voltasse ao mundo do crime)
-(warlock)o sortilégio (pois é, bruxaria com cristianismo só poderia dar nisto, a inquisição voltou??!!!quem sabe...)
-(the last boy scout) a fúria do ultimo escuteiro (imagino que pelo facto de ser um titulo de acção teria de começar pela furia do jovem ou poderia correr o risco de ser tomado por um drama???)
bem poderia continuar semanas nisto, mas tenho mais que fazer... Já agora tb deixo aqui um que acho fenomenal, mas este sim, no bom sentido
-(The Hand that Rocks the Cradle)A Mão que embala o Berço (assim sim, mantem o deslumbre original).

Afixado por: Magnus em abril 19, 2005 01:10 PM