março 20, 2005

Pensar dá muito trabalho, viva o desemprego e o investimento estrangeiro!

O escandaloso caso da Sorefame é um bom exemplo de como os dogmáticos vivem bem de olhos fechados. Com uma resposta pronta e previsível para tudo. A Sorefame foi vendida em nome da nova ortodoxia neo-liberal, que diz que tudo o que seja propriedade do Estado é mau – quando o problema está em haver ou não um processo transparente de escolha de gestores competentes. E que proclama que tudo o que seja investimento estrangeiro é bom – quando a questão devia ser, o que é que ele traz de durável para o País, sobretudo quando se trata de vender empresas com a mais-valia em know-how da Sorefame.

Uma grande multinacional, a Bombardier, decide eliminar uma concorrente chata, e de caminho, claro, ficar com o know-how e a maquinaria – num bom exemplo de tendências monopolistas que não podiam ser mais opostas ao meu entendimento de liberalismo. E o grande problema do João Miranda é que os investidores estrangeiros podem não gostar do pessoal aqui achar mal!!! Afinal onde está o respeito destes cafres pelo direito de propriedade??? Do que Portugal precisa mesmo é de mostrar respeitinho por investigadores estrangeiros como estes e aprender a cartilha dos “comentadores económicos” deste qualibre. Vai longe...

Suponho que o contrato de venda permita esta pilhagem. Se for assim o governo devia estudá-lo bem e evitar de futuro repetir a asneira crassa (se ainda houver alguma coisa para vender). E parece impossível que não se possa alegar má-fé, ela salta aos olhos. Mas claro se a maquinaria sair de Portugal, bem podemos argumentar. O governo devia usar contra este tipo de “gestores” estrangeiros todo o tipo de armas. Negociar com bons modos e esperar resultado, seria esperar um milagre tendo em conta a forma como a Bombardier conduziu todo o processo.

E seria bom o governo começar a olhar para as OGMA… De que serve trazer tecnologia por uma porta e deixá-la sair por outra? Tarefa ingrata para um governo novo, mas bem necessária.

Publicado por bruno cardoso reis em
Comentários

E lá andamos nós à procura de respostas e justificações.... quando o que está em causa é a incompetencia e a irresponsabilidade dos gestores e dos politicos.
O Estado não tem capacidade para negociar seja com quem for em tempo útil. A sua postura é de imposição e quando lhe é substraida essa capacidade, esgota-se e deixa andar.
Privado versus público: são relações quase incopativeis, que têm de ser geridas com muito cuidado.A promiscuidade dá estes resultados, especialmente porque nunca se responsabilizou em Tribunal quem gere mal os interesses do Estado com o nosso dinheiro, pois claro!colocando uma fatia no seu bolso.

Afixado por: TROIA em março 20, 2005 05:23 PM

É uma prática normal do negócio, comprar uma concorrente para impedir a concorrência, absorver-lhe a tecnologia, e fechá-la.

Aqui há uns tempos, instalou-se em Portugal uma empresa inglesa, a PayShop, que permite pagar contas em certas lojas aderentes. A PayShop demorou cerca de um ano a preparar o seu marketing e a começar a operar em Portugal. Depois começou a ter sucesso comercial. Quando isso aconteceu, os CTT, para evitar a concorrência, compraram a PayShop portuguesa. Toma!

Como eu já disse, não vale a pena chorar sobre o leite derramado. O grande mal foi feito quando se vendeu a Bombardier.

Afixado por: Luís Lavoura em março 20, 2005 06:18 PM

Lembro que a Sorefame era especialista em comboios de aço Inox - que pelos vistos já não têm mercado. O destino da Sorefame estava traçado com Bombardier ou sem Bombardier. Veja-se o caso da Alstom - mesmo com o governo francês por trás.

Está mais do que na hora de perceber que o investimento estrangeiro é temporário mas necessário não pela empresa em si mas pelos spin offs, pela massa critica de fornecedores que cria ou fortalece.

Mas não vale a pena explicar a quem não quer perceber.

P.S: Note-se o humor involuntário do Bruno Cardoso Reis: a Bombardier está a roubar "know how" à Sorefame!!!

Afixado por: Daniel Marques em março 20, 2005 07:05 PM

a bombardier ou sorefame, o que lhe quiserem chamar produz comboios, mas isso é fundamental para este pais que precisa de modernizar os transportes designadamente os comboios. a sorefame pode muito bem dedicar-se a outras areas da maquinaria pesadae e aí a sorefame tem pano para mangas.

a sorefame já mostrou a sua mais valia para portugal, participou na construção desde barragens a simples carruagens, em todo o mundo.

a divinização da propriedade privada e do investimento estrangeiro como solução para todos os nossos problemas mostrou-se e mostra-se falsa.
a diabolização do estado como o arquiinimigo do individuo é outra vertente da sociedade actual.
todos os sistemas capitalistas vivem centrados nestes valores, nuns mais visivel do que noutros.

sucessivos governos levaram a cabo a cruzada da privatização de empresas publicas, ao inves de desborucratizar ou acabar com o desleixo, e assim melhorar a eficacia e a rentabilidade, criaram-se os jobs for the boys, afundando ainda mais os serviços publicos.

empresas publicas que podiam melhorar a qualidade dos serviços publicos, torna los mais baratos, criar uma dinamica de emprego, investimento e desenvolvimento sustentavel, simplesmante desmoronaram-se.

agora se uma pessoa levanta a voz e reivindica melhor qualidade de vida, leva com palavras do estilo: austeridade, contenção...isto se não levar com a policia em cima.

ou discursos:
temos de fazer sacrificios para a economia do pais ir em frente; sangue, suor e lagrimas pela patria, pelos lucros dos empresarios e pelos investimentos estrangeiros (os nossos salvadores)...

discursos que só levam a uma dependencia promiscua não so do estado, logo não cumprindo a sua função de estado providencia, mas tambem das pessoas a algo a que não reveiem os seus anseios e aspirações.

há já trinta anos que nos pedem a mão o braço e o resto do corpo...a UE deu nos dinheiro e nós não saimos da cepa torta....está aqui alguma coisa mal.

Afixado por: oscar pinto em março 21, 2005 12:25 AM

Há não sei quantos anos que andamos nisto das privatizações.
Não seria uma altura de parar para pensar e analizar o passado.
O que é que se privatizou? Onde é que correu bem? Onde é que correu mal?
Úma análise destas seria extremamente útil e traria preciosas indicações para o futuro.
Mas não, analizar as privatizações é para um político da nossa praça tão blasfemo como analizar a virgindade da Virgem Maria...

Afixado por: O Raio em março 21, 2005 12:47 AM

Eu cá sei muito bem o que correu bem.
O pessoal que andava na Sorefame foi:
1 - pastar à conta da seg. social.
2 - trabalhar, agora noutros lados
Quanto a mim fico contente, pois apenas os do nº1 continuam a pastar à minha conta. Todos os anos o estado enfiava uns milhoezinhos na Sorefame e lhe entregava de bandeja contratos. Uma vez na CE deixou de poder fazer as 2 coisas, teve de vender, claro.

Quanto ao know-how, havia, e estava nas mãos dos que não andavam a pastar e passaram para outras empresas.

Afixado por: rresende em março 22, 2005 09:37 AM