março 22, 2005

A Falácia dos “Mercados Livres”

Ontem em editorial no Público, José Manuel Fernandes, propôs o que julga ser um dos caminhos que o Banco Mundial sob a liderança de Paul Wolfowitz deve assumir nos seus financiamentos: a “promoção de mercados livres”.

Eu gostava de saber de onde vem esta ideia de que os mercados devem ser livres para que haja desenvolvimento?!!!! Nos anos 80, grande parte da América Latina, por pressão de instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, decidiu adoptar uma série de medidas ecónomicas que abriram os seus mercados e ainda hoje está a pagar por isso com os níveis de pobreza a atingir uma grande parte da população.

Na Ásia, principalmente no Nordeste Asiático, a Coreia do Sul e Taiwan, pelo contrário, decidiram “borrifar-se” para o FMI e o BM, e adoptaram uma outra receita. Normalmente gosta-se de falar das suas políticas de exportação (que uns lêem como abertura aos mercados externos) como modelo para os países em vias de desenvolvimento, mas aquilo de que se fala pouco (porque não é politicamente correcto) é o proteccionismo forte e feio que os governos praticaram para sustentar o crescimento de uma série de indústrias estratégicas que hoje são a sua verdadeira base de sucesso e que contribuiram para os baixos níveis de pobreza nesta região.

O que eu quero dizer é que os “mercados livres” não são a panaceia para os males do sub-desenvolvimento.

Publicado por luísmah em
Comentários

O mercado livre é aquela coisa que ajuda a que as mulheres e os homens que somos sejam cada vez menos livres, não é? Ou sou eu que faço mal contas de cabeça?!

Afixado por: j.c.t.p em março 22, 2005 09:24 PM

"Mas o mais importante é que Paul Wolfowitz tem a consciência clara de que a ajuda ao desenvolvimento e o combate à pobreza não são apenas uma questão de dinheiro e distribuição de ajudas: são antes do mais um problema de boas políticas"

Parece-me perigoso este discurso. Só falta dizer: o que os países do terceiro mundo querem é carinho, não é comida, sem comida passam eles bem. O JMF não precisa de dinheiro, precisa é da nossa compreensão...coitadinho.

"...o Banco Mundial deve associar os seus financiamentos à promoção de mercados livres, de instituições democráticas e de regimes não corruptos, estimulando a iniciativa privada e o crescimento da classe média. "

Epá o JMF é mesmo bem intencionado, quer regimes não corruptos nos países do terceiro mundo, ou seja quer o que nem os países do primeiro mundo têm. Fantástico...sendo assim proponho que comecem por ajudar Portugal. Iniciativa privada e classe média, a combinação perfeita, uns exploram e outros não reclamam com receio de ficarem pobres. Diria mais este é o "ecossistema" perfeito, e tendo em conta o seu sucesso, JMF pretende o alargamento desse "ecossitema" para os restantes países, bem visto JMF é um ambientalista.

Espero que o projecto de P. Wolfowitz para os países subdesenvolvidos, não seja idêntico ao do Iraque, pois, se for o caso, vai estranhar a recusa de ajuda desses mesmos países: deixe estar, nós gostamos de ser pobres.

"Mercado livres"...o que tu queres sei eu.

Afixado por: João Dias em março 22, 2005 10:02 PM

Um acto de corrupção envolve pelo menos dois sujeitos; portanto, se querem combater realmente a corrupção para a promoção do desenvolvimento, os países "desenvolvidos", e o Banco Mundial, podiam começar por eles próprios, que são, frequentemente, os corruptores activos de muitos regimes ( ver, por exemplo, "É este o mundo em que queremos viver" da juíza franco-norueguesa Eva Joly/ www.declarationdeparis.org), nomeadamente daqueles produtores de minerais e energia; seria interessante ver então o Banco Mundial a exigir, por exemplo, o que pede a campanha, http://www.publishwhatyoupay.org/english/
A "inocência" do JMF é tocante!

Afixado por: Jose Sousa em março 22, 2005 11:19 PM

Concordo com JMF. A receita para o crescimento sustentado e alargado a um maior nº de pessoas é a existência de um estado de direito que faça cumprir os contratos, proteja o direito de propriedade e garanta as liberdades (de expressão, de comércio, de movimentação, de escolha dos dirigentes).

Olhemos para os países onde se vive melhor e onde se vive pior e comparemos.

Não é ser de esquerda ou de direita o que está em causa. É ser liberal e moderado (daí não ser aceitável Guantanamo, apesar de não justificar comparações com o nazismo, que considero infantis e que desvalorizam a critica - Guantanamo é eraado porque é anti-liberal!!).

Wolfowitz é um intelectual de elevado gabarito e que tem uma história de apoio á evolução de regimes ditatoriais para regimes democráticos. Não é um economista, mas para o lugar que vai ocupar o que é necessário é visão.

Está marcado pela guerra do Iraque? Talvez. Mas ainda é cedo para sabermos o impacto que esta tem na história.

Neste lugar o seu trabalho será muito exigente e dificil. Penso que não deveria ter o beneficio da dúvida. Há muito para fazer e ele tem obrigações de continuar na vertente económica o empenho que colocou na guerra e assim ajudar a combater o terrorismo e minorar também os efeitos da guerra.

Afixado por: Pedro Vendas em março 22, 2005 11:39 PM

Desculpem lá, mas esta defesa do mercado livre (era isso, não era?) por alguém que se chama 'Vendas', é assim um bocado para o suspeito, não é?

Just kidding!

Afixado por: j.c.t.p em março 23, 2005 12:38 AM

Sobre o post, só quero dizer: deixem-me assinar a petição do zé manel pró iraque outra vez!
Mas o q eu quero mesmo é aproveitar para abordar outro assunto: ouviram as declarações do ex-director da PJ militar?
Seria interessante começar a compôr um retrato + sério do paulinho; é q ainda o pintamos, mesmo os detractores, com cores incomparavelmente + suaves do que o tom sinistro q de facto o cobre.

Afixado por: lucrecia em março 23, 2005 12:40 AM

E ainda podias acrescentar a Malasia, caro Luis

Afixado por: bruno cardoso reis em março 23, 2005 01:22 AM

O problema dos Barnabés é que todos os dias dizem o contrário do que disseram no dia anterior. Os intelectuais da Esquerda do caviar não sabem qual é a sua posição sobre o proteccionismo: (ver aqui)http://politicaxix.blogs.sapo.pt/arquivo/529302.html

Afixado por: TheStudio em março 23, 2005 04:58 AM

Para ter uma boa ideia na cabeça nada como ler "Globalização - A Grande Desilução" de Joseph Stiglitz. É um livro soberbo mas que permite separar as águas daquilo que são as políticas erradíssimas do Banco Mundial e do FMI e a globalização em si como princípio que é o do mercado livre.
Várias vezes Stiglitz acerta na mouche: os mercados livres são algo desejável como fim mas não são necessariamente o melhor meio para chegar à prosperidade. Ou seja, que muitas nações precisam de proteccionismo de alguma forma ou feitio antes de chegar à liberalização dos mercados.
Da forma como o compreendi - e que aceito - a um "estágio" proteccionista segue-se um estágio liberal.
Stiglitz diria isto, obviamente. Seria de esperar, afinal ele foi um dos economistas chefe do BM. Não há surpresas.
Mas leiam então "The Age of Consent", de George Monbiot. Deleitem-se com um manifesto do século XXI baseado nos mercados mais liberais ou seja, com as fronteiras dos países ricos abertas aos produtos dos países em vias de desenvolvimento. Mas com regra: senão não seria mais do que uma continuação do saque aos recursos naturais e humanos dessas nações por parte das nações mais ricas. E disso já há que chegue.

http://ditocujo.weblog.com.pt/

Afixado por: Dito Cujo em março 23, 2005 07:19 PM

esta questão do mercado livre é sempre controversa.

o que se entende por isto?

como justificação da especulação desenfreada?
como concorrencia sem limites nem barreiras levando a degradação das condições dos trabalhadores?
como fonte de monopolios?
fomentar o neo colonialismo?

em relação a isto concordo com a posição da UE que criou entre os seus estados membros, cotas sobre a produção de certos produtos, para evitar depressões, crises, no fundo uma economia baseada na racionalidade.

penso que a dinamica de mercado livre fomentada pelo fmi e o bm estão erradas, os paises devem ter um papel mais activo na decisão e no rumo de politicas economicas.

Afixado por: oscar pinto em março 24, 2005 04:22 AM