março 23, 2005

George Kennan (1904-2005)

Quando alguém que lhe é mais querido vai desta para melhor, o Rui Tavares tem por hábito escrever um post de homenagem intitulado “Parem as Máquinas”!
Ao tomar conhecimento da morte de George Kennan na passada sexta-feira, não posso dizer que esse tenha sido o meu primeiro impulso. Li pouca coisa do senhor (alguns artigos e excertos de livros) e conheço as suas ideias sobretudo em segunda mão. Mas Kennan é uma daquelas figuras em que qualquer pessoa medianamente interessada na história das relações internacionais do século XX acaba por tropeçar. A sua influência no pensamento estratégico dos Estados Unidos foi imensa. Estes obituários do New York Times e do Guardian explicam com algum detalhe o impacto que o seu célebre “longo telegrama” de Fevereiro de 1946 (mais tarde publicado, sob pseudónimo, na Foreign Affairs, com o título “The Sources of Soviet Conduct”) teve na mente dos decisores políticos em Washington, na alvorada da Guerra Fria. Kennan foi uma espécie de pai intelectual da doutrina da “contenção”, que de forma mais ou menos deformada, orientou toda a postura estratégica dos EUA face à União Soviética durante a Guerra Fria.
Na sua carreira diplomática, teve também uma ligação a Portugal: em 1943, Kennan foi o chargé d’affaires da legação americana em Lisboa e foi ele o primeiro interlocutor de Salazar nas negociações que haveriam de conduzir à concessão da Base das Lajes aos EUA um ano mais tarde (ver, sobre isto, o artigo do historiador Luís Nuno Rodrigues com link mais abaixo).
Kennan foi um homem contraditório em muitos aspectos. Foi ele quem destruiu as ilusões de vários responsáveis americanos em relação à URSS de Estaline imediatamente após a II Guerra Mundial, advogando uma resposta robusta a todas as intrusões soviéticas na esfera de interesses norte-americana. Mais tarde, porém, considerou que as suas palavras tinham sido mal interpretadas – segundo ele, o comunismo deveria ser combatido por meios políticos e económicos (como o Plano Marshall) e não tanto por uma postura militar agressiva. Kennan opôs-se à formação da NATO, manifestou a sua apreensão perante a escalada nuclear, e foi um crítico severo do envolvimento americano no Vietname (bem como das guerras mais recentes do Kosovo e do Iraque)
Kennan era um pensador solidamente ancorado na tradição “realista” das relações internacionais, o que ajuda a explicar o seu cepticismo relativamente às ambições “universalistas” de vários presidentes americanos em matéria de política externa. Aliás, as suas opiniões acerca da democracia de massas eram, no mínimo, dúbias. Nos anos 30, Kennan (um misantropo com inclinações depressivas) escreveu que a América precisava de um “despotismo benévolo”, sendo que uma das suas principais premissas deveria ser a restrição drástica do direito de sufrágio (negros, imigrantes e mulheres deixariam de poder votar). Colocado na Embaixada em Berlim nas vésperas da II Guerra Mundial, referiu-se por diversas vezes à Alemanha nazi em termos ambíguos: para ele, Hitler viera devolver à Europa central a estabilidade que esta perdera desde o colapso dos Habsburgos e o advento de democracias instáveis. A sua admiração por soluções políticas fortes, ou mesmo autoritárias, não se desvaneceu com o passar do tempo: em várias entrevistas, por exemplo, confessou-se um admirador de Vladimir Putin. Num artigo publicado em finais do ano passado na revista Relações Internacionais, José Cutileiro diz que Kennan se considerava a si próprio como “um homem do século XVIII” (certamente que pré-1789) e, no fundo, talvez resida aí a chave para compreender estas facetas mais desconcertantes da sua personalidade.

Os artigos de e sobre Kennan referidos neste post podem ser consultados neste website

PS: Só hoje reparei que o Ivan já tinha escrito sobre Kennan, num post que depois actualizou com uma amável referência a este meu texto.

Publicado por pedrooliveira em
Comentários

Sobre a situação em Itália no pós-guerra:

"The left was obviously going to win the elections. [...] The US wouldn't tolerate that. [...] They decided that they would undermine the election. [...] There were other people who were more extreme, like George Kennan, who thought that we just ought to invade the place, not even let them have the election. They managed to hold him back, figuring that subversion and terror and starvation would do it. And it did."

De Noam Chomsky, "Keeping the rabble in line", Common Courage Press, Monroe, Maine (1994).

Afixado por: Luis Lavoura em março 23, 2005 12:41 PM