Tinha começado a escrever sobre Aron e Kennan, mas o Pedro e o Ivan facilitaram-me a tarefa. Queria sobretudo insistir na ironia de ver dois espíritos independentes, que tiveram grandes problemas em serem aceites e em conquistarem e manterem o seu espaço de reflexão particular, serem agora adoptados pela ortodoxia vigente por estes lados. Estou longe de concordar com tudo o que escreveram, e tenho sobretudo problemas com Kennan, pelas razões que o Pedro e o Ivan referiram. Mas sempre apreciei a fortaleza de espírito, a vontade de manter os olhos bem abertos à realidade (custa mais do que parece), e o estilo cristalino.
Seguem-se algumas referências e linques complementares às dos ilustres bloguistas anteriormente citados. (E sim, Kennan e Aron eram realmente bastante altos, dizem).
Aron morreu em 1983. Mas alguns dos seus livros mais importantes nada perderam do seu interesse e ‘actualidade’. Por exemplo, Penser la Guerra : Clausewitz, um duelo de gigantes em dois rounds, em que as passagens sobre a guerra de guerrilhas ou a guerra como continuação da política assentam que nem uma luva ao Iraque. Ou République Imperiale, uma das melhores análises das aventuras dos EUA no Mundo na altura em que foi publicada, nem panegírico nem condenação. Ou o enorme - literalmente - clássico das Relações Internacionais, Paix et Guerre entre les Nations, que entre outras coisas desfaz a relação linear entre ideologia e política externa. Para quem estiver interessado na vida e obra existe uma equilibrada biografia, fiel à complexidade de Aron, por Nicholas Bavarez. Infelizmente está tudo ou quase por traduzir.
Kennan, agora falecido aos 101 anos, foi o autor do artigo mais citado de sempre da Foreign Affairs, que marcou o início da Guerra Fria ao definir uma estratégia de contenção da União Soviética. Mas ele foi desde cedo um crítico da ortodoxia que tinha ajudado a criar e que tanto o queria recompensar! Porque achava, para grande irritação dos falcões da altura, que a URSS acabaria por cair de podre, e que portanto a contenção devia ser essencialmente pacífica e não militar. Um lírico, claro! Saiu do serviço diplomático em 1950, e publicou umas Memoirs muito bem esgalhadas, que comprei há uns anos por acaso em segundo mão. Um texto digno de Indiana Jones, mas de fato e gravata, da Berlim de Hitler à Moscovo de Stalin, passando pela Lisboa de Salazar. Descobri depois que ele tinha ganho o Pulitzer com elas.
Deixo aqui alguns excertos de uma das últimas e melhores entrevistas de Kennan (que só esta disponível integralmente para subscritores na New York Review). O mesmo estilo brilhante e corrosivo de sempre, com a patine deliciosa dos noventa e muitos anos. Um grande americano, mas não do tipo que agrada aos neo-conservadores. Leiam:
We export to anyone who can buy it or steal it the cheapest, silliest, and most disreputable manifestations of our "culture." No wonder that these effusions become the laughingstock of intelligent and sensitive people the world over.
What we ought to do at this point is to try to cut ourselves down to size in the dreams and aspirations we direct to our possibilities for world leadership. We are not, really, all that great. We have serious problems within our society these days; and it sometimes seems to me that the best help we could give to others would be to allow them to observe that we are now confronting those problems with a bit more imagination, courage, and resolve than has been apparent in the recent past.
Serving in Berlin at the height of Hitler's military successes, in 1941, I tried to persuade friends in our government that even if Hitler should succeed in achieving military domination over all of Europe, he would not be able to turn this into any sort of complete and long-lasting political preeminence and I gave reasons for this conclusion. And we were talking, then, only about Europe. Applied to the world scene, this is, of course, even more true. I can say without hesitation that this planet is never going to be ruled from any single political center, whatever its military power.
Publicado por bruno cardoso reis emUm direito internacional, cada vez mais cogente e eficazmente aplicado pelos tribunais internacionais de Haia, é a pedra de toque do liberalismo (do verdadeiro, é claro, o euroliberalismo) nas relações internacionais. Depois do holocausto de 1939-1945 (30 milhões de europeus mortos) e da ameaça nuclear, não há espaço possível para unilateralismos baseados na força. Seria o suicídio colectivo. Hobbes deve ceder a Kant. É que o vencido de hoje pode mesmo assim destruir o vencedor. E a humilhação tipo Versailles que causou a II Guerra, aplicada hoje ao mundo islâmico segundo a proposta bushista-likudista, causaria certamente uma terceira e última guerra mundial. Bush e os neo-cons (neo-parvos, na correcta tradução francesa), são criminosos irresponsáveis que brincam com o fogo, aprendizes de feiticeiro que não dominam as consequências dos seus actos. Jamais 1.300 milhões de muçulmanos se deixarão humilhar por essa escória moral. Mesmo 5 milhões de sunitas iraquianos são suficientes para infligirem um revés aos cruzados bushistas ! Mas as consequências poderão ser trágicas para todos. Compete à Grande Europa tomar as rédeas do mundo e evitar o Apocalipse. A solução é a Paz Perpétua kantiana baseada no direito internacional. A mesma receita que que a Europa pós-45 aplicou a si própria, pondo termo a uma guerra civil de 1000 anos. A Europa sabe como ninguém o que é a guerra. Praticou-a duranre séculos até ao paroxismo assassino das duas Guerras mundiais. Teve na última 30 milhões de mortos (não 250.000 como os americanos...). Sem unidade europeia, há muito que já teríamos tido uma nova guerra de desforra dos vencidos, se continuássemos na lógica hobbesiana da lei da força. O periférico Portugal, felizmente, não sabe o que são os horrores da guerra total. Mas o centro da Europa (Alemanha e França, os grandes inimigos de 3 guerras em 70 anos, sobretudo...) sabe. Por isso a construção europeia baseada na cooperação pós-nacional e no direito internacional, não é uma bizarria ou luxo intelectual. É uma condição sine qua non de sobrevivência da Europa. E o milagre europeu, o fim do estado de natureza nas relações inter-europeias, deve ser alargado (porque hoje a segurança, como a insegurança, são globais) a todo o mundo. É essa a nobre missão da Grande Europa. Para isso devemos rearmarmo-nos, garantir a supremacia do euro a nível mundial e impor, se necessário pela força, o império da lei e do novo Contrato Social pós-nacional. A Paz Perpétua kantiana não pode ser exclusivo da Europa, só pode ser global... Apoiar Bush hoje é o mesmo que apoiar Hitler nos anos 40... Freitas a vu juste...
Afixado por: euroliberal em março 29, 2005 11:49 AM