Uma posta de anteontem, publicada pelo Daniel, visava satiricamente a exteriorização ostensiva do martírio que nos últimos tempos tem (também) infectado o Ocidente. O emblema perfeito deste vitimismo é, claro, o filme de Mel Gibson. Mas, a bem dizer, ninguém duvida de que nos próximos dias lá tenhamos de passar por mais um enjôo do mesmo género, e agora agravado pelos clamores de que a Cristandade, a "nossa" civilização, está em perigo. Como é habitual, a caixa de comentários foi inundada por gente que se declarava ofendida, alguns deles com uma linguagem agressiva e escabrosa, outros apenas porque consideram que não se deve brincar com as crenças dos outros. É principamente a estes que me dirijo. Acho que vale a pena entender o que se passa aqui.
1. Não se deve brincar com as crenças dos outros? Eu acho que deve. A blogosfera, aliás, tem sido um meio poderoso de brincar com as crenças dos outros. Os blogues de direita escarnecem dos alternativos, dos pseudo-intelectuais e dos comunas. Os blogues de esquerda atacam os reaccionários, os belicistas e os homofóbicos. Nem sempre estes ataques são muito justos. Sendo eu anti-comunista, reconheço que culpar os velhinhos da Festa do "Avante!" pelos assassinatos em massa de Estaline é um pouco oblíquo. Mas a analogia também tem alguma razão de ser, e isso é o suficiente para que muita gente a utilize.
Zombar do cristianismo é que, por alguma razão, deixa as pessoas desconfortáveis. A "fé" é suposta ser coisa de um nível diferente. E talvez até o seja. Mas não se esqueçam que a "fé" só é distinta para quem a tem. Para mim que a não tenho, é uma crença igual às outras – apenas mais divertida e menos explorada em termos humorísticos. De resto, conheci comunistas que tinham uma veneração igualmente irracional pela URSS, o que nunca deteve ninguém de gozar com eles, bem pelo contrário.
2. Perguntam-me depois porque não faço aqui no blogue piadas com muçulmanos, negros ou homossexuais. Na verdade, já fiz piadas com muçulmanos, pelo que esta não conta. Por sinal a reacção até foi muito semelhante: não toques na fé dos outros, etc. Em relação a negros e homossexuais não faço piadas por razões que têm muito pouco a ver com o chamado "politicamente correcto". Não faço porque não estou disposto a contribuir para um preconceito que me indigna e enoja, e que campeia livremente na nossa sociedade.
Além disto, esta é uma comparação tão descabida que chega a ser patética. Onde está o último cristão a quem foi recusado o aluguer de uma casa no momento em que o viram de crucifixo ao pescoço? E quando foi a última vez que um católico foi expulso de casa dos pais ou do trabalho quando se descobriu que ele gostava de ir à missa aos domingos?
3. Sejamos sérios. Os cristãos não são em Portugal uma minoria ameaçada. Gozar com eles não é, como nos casos anteriores, um acto de cobardia. Gozar com o cristianismo pode custar caro. Custou um dos poucos assomos de censura na televisão do pós-25 de Abril (o célebre caso da "Última Ceia" de Herman José). E custa a lei não-escrita nas redacções, produtoras e televisões de que, com a religião, não se pode brincar. Tudo o resto, contudo, já é campo livre e explorado até da forma mais imbecil, repetitiva e mesquinha. Uma sitcom recente de Nicolau Breyner era inteiramente estruturada à volta do retrato grotesco de uma empregada negra. Os alentejanos são gozados todos os dias em horário nobre. (Devo dizer que isso não me chateia nada, mas quem julga que se trata de uma brincadeira inocente desengane-se: os meus alunos alentejanos, quando se apresentam no primeiro dia de aulas, provocam de imediato risos na restante turma.)
Poderíamos ficar aqui horas a dar exemplos. Em Portugal, quase toda a gente diz sem problemas: "és mesmo judeu" ou "és mesmo cigano", nos sentidos de cruel e ladrão ou mentiroso, respectivamente. O brasão de Évora ostenta as cabeças de um casal mouro, acabadas de cortar por um cristão.

Já se alguém o nota, cuidado!, trata-se de um chato e um hiper-politicamente correcto.
Mesmo aqui na blogosfera existiu, durante quase um ano, um blogue dos melhores e mais lidos chamado Mata-Mouros. Ninguém se chateou com isso. Os autores desse blogue fazem hoje parte do também excelente Blasfémias. Se algum dia tentarem uma verdadeira blasfémia, no sentido técnico do termo, aí sim teremos um verdadeiro escândalo.
4. Finalmente, diz-se que não se deve brincar com a igreja por uma questão de respeito para com os outros. Falemos então do respeito para com os outros. A Igreja em Portugal, na minha opinião, tem de o praticar bastante mais. Hoje em dia, o proselitismo religioso extravazou o espaço já de si generosíssimo que a lei lhe deu sem mais exigências. Nos media encontramos religiosos de todas as estirpes a fazerem a sua doutrinação. A Igreja Católica tem uma Universidade, paga também com dinheiro do Estado, e onde a liberdade de expressão não é a norma. Lobbies como a Opus Dei ou os Legionários de Cristo têm mais poder neste país (presidentes de bancos, ministros, até a segunda figura do estado) do que qualquer outro dos famigerados lobbies que preocupam tanta gente. Quando as inaugurações de edifícios públicos têm sempre de contar com a benzedura de um bispo; quando um jovem ateu ou agnóstico tem de ver símbolos religiosos em quase todas as escolas públicas; quando os religiosos acham que nada disto faz mal (mas faz sim; pelo menos aos dez por cento de não-católicos que são tão cidadãos como os outros), quem é afinal desrespeitado neste país?
6. As ideias das mais sérias às mais tontas, as instituições em geral e os estilos de vida todos pagam desde sempre a sua taxa à irrisão. Eis porque acho, recapitulando, que a religião não pode estar isenta desse preço: a) a fé não é uma crença diferente de outras; b) os cristãos não são uma minoria ameaçada; c) os católicos estão, de diversas formas, nos centros do poder. E mais ainda: d) a Igreja gosta de fazer de conta de que nada disto é verdade; e) quando se toca nestes assuntos há logo gente que fica pior do que estragada. Poder, dissimulação e empertigamento; terão algumas vez existido melhores condições para o humor?
Das duas uma. Ou se proíbe a sátira, o que sucedeu em Portugal de 1768 a 1794, com fracos resultados. Ou, caso contrário, a sátira vale para todos sem excepção. Falo de sátira mesmo, não de piadinhas simpáticas. Sátira dura, às vezes injusta, sempre higiénica. Não precisa de que toda a gente goste dela – o que é, aliás, a negação do humor. Não me venham com os Monty Python e A Vida de Brian, de que todos parecem tão desportivamente gostar hoje em dia. A Vida de Brian é excelente mas é de 1979. Trazer o filme à discussão é como dizer às mulheres para não usarem calças porque isso já houve uma que as vestiu nos anos 20. Precisa é de ser uma sátira sempre praticada, porque uma liberdade que não se usa é uma liberdade que se perde. E porque se levarmos este tabu a sério viramos um Irão católico – e chato.
Publicado por ruitavares em | TrackBackque grande confusão. Não se tratou de sátira porque sátira é ser-se politicamente incorrecto. tratou-se de jacobinismo acintoso. Não teria importância se tivesse tido graça. Assim apenas abriu as portas ao direito ao politicamente incorrecto à esquerda.
Viva!
somos livres de brincar. Começa-se por onde? há listas? exclusões? algum tabu que não entre?
é melhor informar antes que isto se torne deveras engraçado.
Assim não tem piada.Não se diz reaccionários a brincar- diz-se os fachos. Não se diz homofóbicos- diz-se paneleirotes.
Afixado por: Miguel em abril 8, 2004 01:30 AMno dia em que conseguirem seguir o humor que o Daniel Oliveira até tem, ficam pessoas mais interessantes. O problema dele é que também não leva esse humor até às últimas consequências. Mas está no bom caminho. Aquele "é a guerra! é a guerra!" em caricatura do histerismo sem piada da H.M. foi de antologia.
Afixado por: Miguel em abril 8, 2004 01:37 AMAfinal não resisti, ao contrário do que disse ontem, a dar mais umas vistas da olhos ao Barnabé e até a comentá-lo. Tudo porque me parece que o assunto é digno disso.
Sou, sem margem para dúvidas, uma das pessoas a que o Rui se refere nos 1º parágrafo do post, e realmente não achei grande graça à tentativa de sátira.
Esclareçamos alguns pontos: o post de ontem pode ter sido uma tentativa de satirizar um certo excesso de sofrimento preconizado por algumas correntes católicas. Mas não atingiu o seu objectivo porque evocou as bárbaras tortura e morte da figura Central do Cristianismo (e, porque não dizê-lo, da história), que é bem mais do que uma personagem que existiu há 2000 anos. Para todos nós, cristãos, Jesus é o salvador e Filho de Deus, que veio ao mundo como um homem humilde e conciliador, trazendo uma mensagem absolutamente revolucionária em qualquer época, e que pagou com a vida, ainda que perdoando aos seus assassinos. Satirizar com esse facto é zombar do núcleo fundamental do Cristianismo. Coisa diferente seria uma sátira à Igreja e a alguns dos seus vícios e contradições. Mas o post era muito mais do que isso.
Mais uma vez se faz a comparação com pretos e homossexuais (classes em planos diferentes, e que muitas vezes coincidem), pretextando-se que não se pode satirizá-los porque "são minorias perseguidas". Talvez o sejam, em inúmeras ocasiões; mas a recusa em criar qualquer tipo de humor por essas razões traz-nos de volta aquele pensamento de que "por serem minorias, têm mais direitos que os outros". Se não é isso, parece. O que os colocará num estado de sacramentalização, estado esse que é negado a todos os outros, neste caso os cristãos. Que se na nossa sociedade são maioritários, não o são noutras latitudes: no Paquistão, por exemplo, são o alvo favorito das milícias fundamentalistas, e se se lembrarem bem, eram objecto dilecto de morticínio durante a ocupação indonésia de Timor. Eis alguns casos em que ser cristão é de facto perigoso.
Os cristãos em Portugal não são de forma alguma ameaçados, antes representam um traço da cultura portuguesa; mas há violentas formas de rejeição do cristianismo que não se percebem, como frases tipo: "deviam era tirar tudo à padralhada" ( e este tudo é muitas vezes bem pouco; sim, porque há padres que chegam a passar sérias privações na tentativa de repartir o que têm). Admito que possa haver certos exageros, sobretudo nos meios audiovisuais; mas também o BE (sim, eu sei que o Rui não está ligado a isso, é um mero exemplo)tem uma ampla cobertura mediática, e representa apenas um eleitorado a rondar os 3%.
Poderia ficar a noite toda a comentar o seu post, mas paciência dos leitores deve ter limites. Termino apenas com duas pequenas notas: os subsídios estaduais á Católica foram drasticamente reduzidos, sendo os alunos que têm de pagar couro e cabelo; e nunca, nos anos em que lá estudei,vi qualquer pressão demasiado clerical a quebrar a liberdade de expressão: prova disso é que pude, eu e várias pessoas, criticar a Instituição e a própria Igreja nas diversas publicações estudantis sem o menor entrave ou forma de censura.
o problema não foi o tema. O problema foi o estilo. É sempre o estilo. E a sátira é um humor demasiado acintoso. Nem em nada a ver com os Monty Python. Se tivesse non-sense, se tivesse loucura q.b. ninguém levava a mal. O humor desarma todas as resistências. Só não desarma quando é um pretenso humor, ou um humor demasiado orientado, com terceiras intenções. O D.O. tem humor que baste. O problema é que nem se lembrou dele. Lembrou-se mais dos recalcamentos religiosos. Acontece sempre isso com os ateus militantes. Não conseguem o distanciamento necessário. E sem distanciamento não há humor.
Afixado por: Miguel em abril 8, 2004 02:08 AMestou fora da polémica mas sei que Daniel Oliveira tem o (saudável) hábito da escrita provocadora. Apenas para saudar e reafirmar algo que o Rui Tavares aqui escreveu: como ateu que sou incomoda-me de facto que os assuntos do Estado tenham algum tipo de benzedura. E quando digo algum tipo digo mesmo algum tipo, não me refiro a nenhum em particular. Gosto de ver crucifixos em campanários de igrejas (faz sentido). Não me incomoda vê-los em largos de aldeia (faz sentido e eu tenho respeito pelos símbolos populares). Não me incomoda se os houver na Universidade Católica. Mas incomoda-me vê-los nas salas das escolas públicas.
Obrigado Rui por falares em nome de uma minoria da qual faço parte.
Afixado por: Paulo em abril 8, 2004 02:31 AMops: não é "por falares em nome de" mas sim "por vires a lume defender".
Afixado por: Paulo em abril 8, 2004 02:32 AMConcordo completamente com o comentário do Miguel. O problema do post do Daniel era só um: a total transparência das intenções à qual corresponde uma ausência total de humor. E o Daniel, em muitos dos posts, tem piada e consegue fazer humor inteligente. Aqui, porque quis fazer género, saiu-lhe uma coisa sem a mínima subtileza, um aleijão pseudo-humorístico. Nem todos chegamos ao olimpo mefistotélico do Ega. Essa é que é Eça!
Afixado por: Bruno Vieira em abril 8, 2004 02:33 AMeste gajo é simplesmente palerma. só se pode gozar com aquilo que se conhece, pá, assim fazes figura de saramago, pá.
Afixado por: haja pachorra em abril 8, 2004 02:47 AMÉ pá, estás cá, Otelo?
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 8, 2004 04:10 AMExcelente post Rui! É exactamente isso. Parabéns!
Afixado por: Boss em abril 8, 2004 04:12 AMVejamos, eu até achei alguma piada, mas acho que o problema foi o post ter sido feito mais com a intenção de provocar que de brincar/gozar.
Concordo com o Rui Tavares, não deve haver grande entrave ao humor, mas acredito que deverá haver momentos em que ele pode ser excessivo. Não se deve gozar com a dor de outrém (embora eu entenda que não era esse o caso, pelo menos em relação a todos os cristãos), mas pode-se gozar com as convicções, porque não?, afinal de contas a sátira sempre tem sido uma das principais armas políticas e religiosas ao dispor das populações.
Acho que a grande questão aqui é que o Barnabé é um BLOGUE. Não é um jornal, não está sujeito a um estatuto editorial nem às regras da AACS. O seu elemento mais prolífico pode ser um membro do BE, mas o Barnabé não tem ligações ao Bloco. Não está, portanto, sujeito ao politicamente correcto. Quem não gostar do Barnabé apenas escusa de aparecer. Mas o Barnabé tem cumprido um serviço público ao disponibilizar um excelente espaço de comentários não censurados e não limitados. Por isso as pessoas esperariam que o Barnabé fosse mais "televisivo".
Sou ateu, gozo frequentemente com os padres, a igreja e a religião em especial. Não gosto da religião, tenho-lhe mesmo alguma repulsa. Respeito imenso a fé dos outros, não a partilho, mas respeito quem me diz que "sente Deus". Mas tenho dificuldade em respeitar uma instituição que tem vivido, ao longo dos séculos, à custa dos povos que a seguem. E quem não for cego vê isso facilmente. Se a não nos é permitido gozar com as religiões, que pregam a tolerância, nesse caso pouca coisa será permitida.
Excelente post Rui.
Afixado por: João André em abril 8, 2004 10:03 AMO humor é mesmo para gozar com os "nucleos centrais" das coisas com que goza. Se nao, para que é que serve o humor?
Depois de ler os comentarios sobre este tema cheguei a uma conclusao. Em matéria de uso puritano do politicamente correcto, nos aqui no Barnabé somos uns verdadeiros amadores.
1º Reconheço a toda a gente a liberdade de satirizar seja o que for. Ainda que, por motivos pessoais (de educação, maneira de ser, sensibilidade própria, etc.) me custe ver brincar com coisas sérias em certos momentos: é o caso das anedotas que se seguem a tragédias pessoais ou colectivas. Mas, enfim, é um direito de todos.
2º O post do Daniel só me deixou triste por um razão: A Igreja, o Catolicismo, as crenças religiosas em geral, são um alvo propício ao humor fácil e básico e o Daniel (que eu muito admiro) caiu nessa tentação, com resultados duvidosos. Mas, enfim, um blog é um blog e um post é um post.
3º Posto isto, considerar que «o grande tabu português» é a sátira à religião é andar de olhos fechados. Nalguns círculos o grande tabu são as dúvidas quanto à liberalização do aborto (no PSR, no BE - sei do que falo), noutros é a "cultura" (na Universidade Nova), noutros a "democracia" (veja-se como em várias frentes se tentou despachar a interpelação do Saramago, desviando o olhar), etc., etc.
Todos temos alguns tabus. Faz parte de nós. Quem não tiver que atire a primeira pedra.
Um abraço e uma boa (e santa, se for o caso) Páscoa.
Excelente posta, que assino por baixo e me deixa numa angústia existencial. Estarei a ficar Barnabé ou estarão vocês a virar Blasfemos? Só não percebi essa da "verdadeira blasfémia no sentido técnico do termo". Seremos blasfemos soft?
Mas então porque é que não somos propriamente bemquistos, nem à esquerda nem à direita?
Um abraço
Não muita graça aquele post do Daniel(não foi pelo tema foi mesmo pela "graça") mas 67 comentários (até agora) a uma anedota???
As graças não devem ser para comentar ou têm graça ou não (quem teve sempre graça que atire a primeira pedra...)
Já deste post gostei e concordo com ele(e este sim deve ser comentado pois snão é nenhuma graça mas ainda só tem 15 comentários...)
Excelente Post. Devo confessar que me revejo nalguns dos argumentos expostos pelo Rui. Julgo, no entanto, que se confundem aqui dois conceitos: o conceito da liberdade de se criticar e satirizar o que entendermos (que não contesto) e o tolerante dever de não o fazer sobre determinadas matérias.
A meu ver, existe pelo menos uma matéria onde não é útil nem conveniente fazê-lo: aquela que se imiscui no foro privado, em particular nos relacionamentos afectivos, das pessoas. Sobre aquilo que lhes é intimo e pessoal.
Ora a relação dos cristãos com Cristo, os seus afectos com Cristo e por Deus (de que a Páscoa e a paixão de Cristo é a sua maior expressão) é matéria do foro intimo dos crentes.
Existe entre Deus e os crentes uma relação de afectividade em tudo comparável às relações entre seres humanos: Nalguns casos, parecem mesmo transcender essas mesmas relações. Criticar e gozar essa relação é, a meu ver, entrar por caminhos que violam a liberdade intima das pessoas. A evitar.
O Rui também às tantas refere não se permitir gozar com homossexuais e negros porque não está disposto a contribuir para um preconceito que o indigna e enoja, e que campeia livremente na nossa sociedade. Estou plenamente de acordo. A questão, contudo, não é bem essa. A questão é saber se o Rui está disposto a não criticar e “tacitamente” aceitar que através da sátira se contribua para um preconceito que o indigna e enoja, e que campeia livremente na nossa sociedade.
Se não está, então facilmente compreenderá aqueles que se sentem enojados e indignados por uma prática que eles entendem contribuir para a construção de preconceitos contra a sua fé, os quais também campeiam na nossa sociedade.
E não se esqueça que os católicos (na verdadeira acepção da palavra) não constituem a maioria da população. Julgo que não constituirão mais de 10% da população neste país, constituindo por isso também uma minoria. A grande maioria das pessoas em Portugal ou são agnósticas ou são aquilo que chamo “católicos de casamentos, baptizados e enterros”, o que é o mesmo que dizer que não são católicos na sua verdadeira acepção.
Os Católicos são por isso também um grupo marginal no contexto português. Um grupo que já foi maioritario e que, de certo modo, se vê como depositário da matriz cultural portuguesa. Os sentimentos de perda nesta comunidade estão, por isso, muitíssimo presentes. Sentem-se ameaçados e em regressão o que os torna muito mais sensíveis a todos os indícios de alheamento e desconsideração acerca dos seus valores que, também esses, campeiam a todos os níveis na nossa sociedade. Deveríamos ser um pouco mais atentos a isso.
Lutar contra os católicos e a suas crenças não é, nos dias de hoje, o mesmo que lutar contra o poder. O verdadeiro poder neste país é laico e rege-se por princípios e comportamentos que, cada vez mais, se desviam daquilo que os católicos consideram ser os seus. As “agressões” de que são alvo, são permanentes e sistemáticas e estão muito longe de serem convenientemente avaliadas e percepcionadas por nós, os laicos. A prova disso é, de certo modo, este texto do Rui e as picardias do Daniel sobre estas matérias.
Excelente post. Eu senti um arrepio na espinha quando vi o governo em peso, toda a admnistração da RTP e a comunicção social a rodear um padreco que mandava umas gotas de água para um edíficio. Tenham decência e respeito pelos outros, é o que se pede. E já agora, respeito pela lei. Não é pedir muito, pois não?
Afixado por: rodion em abril 8, 2004 01:27 PMO «casal» de mouros degolados do brasão de Évora, são pai e filha, aquando da tomada da cidade por Geraldo.
Afixado por: perplexo em abril 8, 2004 02:19 PMArgumentação falaciosa partindo de premissas de opinião e arremessando com uma montanha de argumentos qual deles o melhor...
1ª “Não se deve brincar com as crenças dos outros? Eu acho que deve”.
Pois eu acho que não deve. É uma opinião se tem o valor pessoal que tem e unicamente caracteriza quem a profere. Não torna nada verdadeiro ou falso.
2º como na Blogosfera se insultam uns aos outros de comunas/reaccionários, belicistas/pseudo-intelectuais, eis um lugar óptimo para insultar a religiosidade destes tipos !
3º como eu sou anti-comunista e os velhinhos do Avante são comunistas, é um pouco oblíquo acusá-los dos crimes de Estaline. Mas como eu sou ateu e os outros são cristão, porra, aqui já não é nada oblíquo fazer injuriações !
4º “A "fé" é suposta ser coisa de um nível diferente. E talvez até o seja.”
Talvez é sua presunção. É com certeza mas para quem a tem.
” Mas não se esqueçam que a "fé" só é distinta para quem a tem. Para mim que a não tenho... “ E como não tem, tem então o direito de zurzir quem a tem. E como não é preto pode insultá-los e se não tiver mulher nem filhas pode chamar pu... às mulheres. Que argumento mais parvo e rasteiro.
5º "já fiz piadas com muçulmanos, pelo que esta não conta..."
Pois não conta, e sabe, como eu sei, porquê. O seu auditório bem reduzido, não é de muçulmanos, é até de pessoas que facilmente se poriam ao seu lado na chacota. Mesmo Salmon Rushdie, com os Versículos Satânicos, não se livrou da ira, e você estaria condenado à morte se um post deste tipo apontado ao Islão fosse colocado na Al-Jazira.
5º “Em relação a negros e homossexuais não faço piadas....”
o que acho acertado. Nada como misturar algumas tiradas incontestadas, para dar mais consistência ao restante discurso.
6ª “ ...mas quem julga que se trata de uma brincadeira inocente desengane-se... “
Aqui abriu o flanco. Exactamente. O seu post e as suas piadinhas “seleccionadas” também não são brincadeiras inocentes. Fazem parte dum plano muito caro aos “materialistas” para minar as bases de coesão dum país. Pela vossa parte, estão a salvo nesta “batalha”. Tirando a honra da família e o bem estar material (casa, carro, vencimento,...) tudo o resto nenhuma importância tem, e tudo pode ser ridicularizado.
7º o “Finalmente” ponto quatro é ridículo mas também não é inocente. O que está posto em causa é a religiosidade ou o cristianismo de 90% dos portugueses. O articulista salta directamente para as práticas da igreja católica e tenta, com essa associação, demonstrar que não há razão para melindres, pois os padres e a igreja tem sido uns pulhas! Ora, só um distraído se deixa levar por este raciocínio enviesado. Mas ele sabe isso. Mas nada como aproveitar a ocasião, para um agit-pop, e para dar mais um motivo de adesão à ideia nuclear. Eu sou cristão mas também crítico de muitas práticas da Igreja Católica. Mas isso não me aproxima uma milésima da sua posição.
8º “Trazer o filme à discussão é como dizer às mulheres para não usarem calças porque isso já houve uma que as vestiu nos anos 20.”
... e com estes “é como dizer”, se encerra um palavroso comentário que nos leva a concluir: As pessoas que se insurgiram contra o post inicial, não podem ter razão. Façam uma autocrítica pois não têm desculpas a receber. São todos uns fingidos.
Era só o que faltava, que os meninos barnabéus tivessem a veleidade de condicionar o direito à indignação, e fossem vocês a marcar as fronteiras do que é possível de ser ridicularizado do que não é.
Deixem essa função ao “povo pequeno” deste “país pequeno” como vocês já chamaram...
Carlos, tanto texto e não consegues fazer um debate. Acho que não conseguiste ler uma frase, uma única frase do Rui, no sentido evidente que ela tinha.
Já agora, só esta correcção: o que o Rui disse foi que a "fé" só é uma coisa distinta de todas as outras para quem a tenha. Para as outras pessoas, é tão respeitável o desrespeitável como qualquer outra convicção. Ou seja, não disse que se não tenho fé posso gozar à vontade. Disse: quem tem fé tem de aceitar que os que não a têm a olham da mesma maneira que olham qualquer outra questão. E têm de viver com isso. Apenas porque a ausência de fé é tão respeitável como a sua presença.
Se aceito de um cristão que ele me diga que vive Cristo como se fosse seu pai, ele tem de respeitar que eu diga que Cristo era apenas um tipo, como outro qualquer, por isso um bom motivo de gozo. Porque para mim Cristo é só uma personagem histórica. E se o é, para mim, o meu humor deve ser lido tendo esse dado importante sobre as minhas convicções em conta. Dizerem-me: não podes gozar com Cristo (e no meu post eu não gozava com Cristo, mas adiante) como se ele fosse uma pessoa qualquer, então estão a querer-me impor a sua fé. Obrigar-me a contrariar em mim uma convicção que merece tanto respeito como as dos demais: a de que Cristo foi uma pessoa qualquer.
Por isso, sempre que tiver vontade, gozarei com Cristo com o mesmo à vontade com que gozo com Júlio César. Por isso, sempre que tiver vontade, gozarei com o Papa com o mesmo à vontade com que gozo com George Bush. Por isso, sempre que tiver vontade, gozarei com a Igreja Católica ou qualquer outra com o mesmo à vontade com que gozo com um Partido Político. O objectivo não é (nem era o daquele post e lamentei que o tivessem lido de uma forma literal) chocar. Mas se ajudar os católicos (habituados a uma confortável esmagadora maioria no nosso país e a um temor generalizado da minoria em tocar nas suas crenças) a ganhar calo, a perceberem que não podem decidir que o que é importante para si tem deo ser para os outros, então já é qualquer coisa. Porque como diz o Rui, se alguém se pode queixar de ser permanentemente desrespeitado nas suas convicções profundas são ateus, agnósticos e algumas religiões minoritárias.
Não meu caro André,
Estes comentários e esta polémica não demonstram que vocês são uns meros aprendizes do politicamente correcto.
Não demonstra porque vocês não se colocam do lado das paixões, dos afectos, do individual (ainda que em muitos casos estas paixões sejam descabidas) vocês colocam-se acima delas. Vocês colocam-se fora do individual e apresentam o politicamente correcto como norma, como Lei.Vocês colocam-se no lugar de Deus.
Salva-nos a consolação que apenas o fazem por necessidade de ideologia bem terrena.
Abraços
Caro Daniel,
O que acabou de dizer é uma contradição em forma. O Daniel não goza ou deixa de gozar com Cristo ou com o Papa, ou com qualquer dessas personagens invocadas. A sua liberdade não é essa. O Daniel apenas pode ou não gozar com a recepção que essas personagens provocam nos outros. São sempre os outros que estaõ em causa meu caro. E a dimensão histórica, de fé ou de falta dela nada altera.
E o Daniel sabe isso perfeitamente. É por esse motivo que certos gozos não são do vosso agrado. porque estão mais próximo do outro- neste caso do outro que lhes é mais próximo.
Se houvesse dúvidas bastava ler as suas últimas palavras "Porque como diz o Rui, se alguém se pode queixar de ser permanentemente desrespeitado nas suas convicções profundas são ateus, agnósticos e algumas religiões minoritárias."
Desrespeitados meu caro? a crença tal como os gostos e as memórias históricas não são desrespeito para ninguém. Apenas o são para os que se colocam, mais uam vez, fora da crença, da história e da tradição, em nome de uma nova Lei, uma Nova Ordem que as prentende substituir. Esse sempre foi o grande dogma do counismo. Pelos vistos o politicamente correcto consegue ressuscitá-lo.
Afixado por: Franciso Costa em abril 8, 2004 03:31 PMerrata: do comunismo.
Afixado por: Francisco Costa em abril 8, 2004 03:32 PMEste é o mais activo e interessante Blog da lusoblogosfera (mais uma palavra nova?). A prova está não só na perspicácia e actualidade da maioria dos "posts" (não de todos, certo), mas também no ódio e ressentimento que se vê destilar nalguns comentários que eles suscitam. Este Portugal tem gente muito perigosa, livra! Não somos nada de brandos costumes...
Afixado por: carne, senhor carne em abril 8, 2004 03:52 PMPois é. Serve para se constatar muita coisa para além do que foi dito e que não tem um só sentido. Pegando apenas nos últimos posts que glozam o 25 deAbril, serve para constatar que nem os líderes políticos ou os simpatizantes das grandes causas da nossa terra, conhecem o mínimo que seja dos últimos 30 anos da nossa história.
Essa é a grande verdade que se pode tirar para já.
É uam verdade de tal modo comprometedora (falo apenas em termo de ignorância, nem me refiro à cor políitica) que mostra como é possível esta ignorância num blog que inclui dois doutorandos em História.
Esta é que é o grande espanto...
O resto basta tirar por dedução- o discurso político assenta em mitos que nem os próprios conhecem.
excelente post, rui, só não concordo com a ressalva que fazes em relação a pretos e homossexuais. é uma forma de exclusão e o humor é também uma forma de integrar.
Afixado por: celsomartins em abril 8, 2004 04:21 PMNão deixo de notar que existe um assinalável número de pessoas, que por aqui passam e escrevem, que se incomodam (no mínimo) por verem edifícios públicos ou outros serem abençoados por um sacerdote.
Confesso que fico meio confuso com essa reacção. Será que, para um não crente, um edifício benzido se altera no seu valor ou função por esse facto? O que é que em substância muda, para um não crente, pelo facto de um determinado bem ser, simbolicamente, abençoado por um representante de uma comunidade crente. Fica conspurcado por isso? Desvaloriza-se? Ficará impedido de o usufruir como aos outros?
Num dos comboios alvo dos ataques de 11 de Março seguia um padre católico. Depois das explosões, o padre viu-se gravemente ferido, com um braço decepado e rodeado de cadáveres e moribundos. Ao verificar que nada poderia fazer pelas vidas dos que o rodeavam, deteve-se junto deles e deu-lhes os últimos sacramentos (presumo a extrema unção) só abandonando o local depois de concluída essa sua missão.
O padre não sabia se aqueles cadáveres e moribundos eram de católicos, muçulmanos ou ateus. Sabia apenas que foram seres humanos e como tal mereciam o maior respeito possível. Foi o que fez, da melhor maneira que soube e pôde, de acordo com os seus valores. Aqueles homens e mulheres que por ali jaziam mereceram dele um elogio imenso, prova de uma grande humanidade. Não os humilhou nem os conspurcou. Confirmou-os apenas, aos olhos da comunidade cristã, como filhos de Deus e merecedores do Seu acolhimento. Para eles, crentes, isso tem relevo. Para nós, não crentes, não fez mossa alguma. Por mim, foi mais uma prova da enorme capacidade que alguns homens têm para focalizar nos seus semelhantes as suas prioridades, em lugar de em si próprios. E, pelo que tenho visto, essa capacidade existe em muito maior dose entre homens de igreja que nos outros, onde o individualismo é a regra.
Agualusa, desde quando é que Cristo tem a ver exclusivamente com Católicos? Quando contabilizar, contabilize Cristãos e não só deste país porque garanto-lhe que há Cristãos noutros países a navegar pelos blogues.
Afixado por: Reaça em abril 8, 2004 04:36 PMbrlhante exemplo o do Agualusa. A diferença está aqui. E não é preciso invocarem-se crenças ou descrenças. Basta entender o indívuo e não querer legislar afectos. Eu nem sabia que poderia haver quem se sentisse agredido por ver um prédio a ser benzido. Pela minha parte gosto de asssitir a uma série de tradições, algumas até bem mais pagãs mas que fazem parte da nossa história. Agredido podia sentir-se o prédio.
Mas a ideia que passa é a mesma de quem não enra em igrejas, é a mesma que imperou às ordas destruídoras de todos os símbolos cristãos, aquando da revolução francesa e depois na revolução bolchevique.
Ao querer retirar-se uma crença nunca se deixa um lugar vazio. Preeenche-se sempre com outra crença.
O ateísmo militante de tradição jacobina e comunista é talvez a crença mais antipática- não tem sequer rituais nem iconografias que a salvem da miséria da ideia que a sustenta.
e acrescento que não preciso de invocar qualquer crença para constatar este facto tão desgradável.
Afixado por: Francisco Costa em abril 8, 2004 04:40 PMBravo Francisco Costa e Agualusa !
Melhor eu não diria.
É aí que está o umbigo desta polémica.
A tentativa de impõr fundamentos de ideologia comunista a um povo que nunca os aceitará em eleições livres.
Mas a brincar... como o macaco.
Deixem-me falar do umbigo:
"A crença tal como os gostos e as memórias históricas não são desrespeito para ninguém. Apenas o são para os que se colocam, mais uma vez, fora da crença, da história e da tradição, em nome de uma nova Lei, uma Nova Ordem que as prentende substituir. Esse sempre foi o grande dogma do comunismo. Pelos vistos o politicamente correcto consegue ressuscitá-lo."
Caro Francisco Costa,
Num comentário você diz: "Vocês colocam-se no lugar de Deus." (pecado da soberba, claro). Logo mais abaixo é você que, sem se aperceber, se coloca no lugar de Deus, identificando a grande verdade: "Essa é a grande verdade que se pode tirar para já. É uma verdade de tal modo comprometedora (falo apenas em termo de ignorância, nem me refiro à cor politica) que mostra como é possível esta ignorância num blog que inclui dois doutorandos em História." Portanto, se bem percebi, você tem a verdade histórica consigo. Os meus parabéns: anda tanta gente a publicar livros e a perder tempo e a verdade estava aqui à mão, num comentário de post ou por onde quer que você ande.
Já agora: o blogue inclui não dois mas três doutorandos em história. Todos competentes e com provas dadas, cada um na sua área, graças a deus e a muito trabalhinho. Ou quer discutir isto também?
Obrigado!
Desde que o Al-Qaeda Portugal abriu que eu ando a dizer exactamente isso aos nossos leitores, pois até já enviaram uma queixa-crime para o Ministério Público.
Espero que mais gente pense dessa forma.
caro André,
Picou-se? só pode ter isso isso porque mistura um comentário a p´ropósito do politicamente correcto com outro que nada tem a ver com isso e que fou uma esposta ao comentário do senhor carne.
Se quer falar do politicamente correcto e do modo como o coloquei, faça favor.
Se ficou ofendido pela referência ao doutorando em História que desconhece a história dos últimos 30 anos do nosso país, peço desculpa. Não tinha nada de particular, foi uma mera constatação ao seguir os comentários e posts acerca dos golpes de estado.
Creio que, de cabeça fria, e com muito mais humildade todos podiamos reconhecer que não há informação acerca dos últimos 30 anos. Não se estuda, não há sequer um livrito de bolso.
Só isto
Quer agora dar-se ao trabalho de comentar a minha ideia acerca do ateísmo militante que pretende legislar as nossas consciências?
Abraços
Se são 3 doutorandos em História e com as orgulhosas provas dadas mais uma razão para darem uma mãozinha ao Daniel? ou não será?
E é capaz de me explicar a conradição entre a crítica à proibição do véu nas escolas francesas (que o meu caro fez com todo o brilho) e agora a ideia de ateus ofendidos em virtude da tradição de alguns rituais cristãos?
Só lhe ficava bem. Podiamos ter a honra de receber uma lição em História.
E com provas dadas.
Se são 3 doutorandos em História e com as orgulhosas provas dadas mais uma razão para darem uma mãozinha ao Daniel? ou não será?
E é capaz de me explicar a contradição entre a crítica à proibição do véu nas escolas francesas (que o meu caro fez com todo o brilho) e agora a ideia de ateus ofendidos em virtude da tradição de alguns rituais cristãos?
Só lhe ficava bem. Podiamos ter a honra de receber uma lição em História.
E com provas dadas.
e eu explico-lhe com calma o que é colocar-se no lugar de Deus.
Não tem nada a ver com o pecado da soberba. Acho qeu o meu caro consegue ir mais longe.
Tem a ver com outra questão. A saber. Quem se arvora no direito de legislar consciências, fora delas. Fora das ditas crenças e em nome de um valor absoluto que as engloba, coloca-se sim, no lugar da Lei. A Lei com maiúscula. A lei que está acima de cada indivíduo, dos seus afectos, das suas crenças, das suas sensibilidades. É uma intenção de universalidade. Por isso só pode ser um lugar acima dos homens. A saber- o lugar de Deus.
Piquei-me pois. Apanhou-me cansado, no fim de um dia de trabalho. Mas já estou a sublimar.
Não lhe dou lições de nada porque você não é meu aluno.
E quem é que lhe disse que eu sou ateu? Já aqui escrevi uns posts bem cristãos. Entretanto, nada disso tem que ver com o post do Daniel, que me divertiu bastante e foi, do meu ponto de vista, inteiramente decente. O humor, ao contrário do que você se calhar pensa, tem a ver com a tolerância. Quando não se pode fazer humor é que a intolerância chegou (sem precisar do Estado). Portanto, entre o véu e esta questão não não vejo contradição nenhuma, até vejo uma certa coerência, a da liberdade de expressão.
Olhe, não quero legislar consciências de ninguém. Nem eu nem nenhum barnabé. Somos um blogue "privado", o que quer dizer que não tiramos espaço de expressão a ninguém. Se se sente legislado, tem bom remédio, passe ali para o blogue do lado.
Tenho-me dado conta que o barnabé gosta de ofender, mas destesta (indigna-se de imediato) que lhe paguem na mesma moeda.
Boa Páscoa.
Afixado por: André em abril 8, 2004 06:32 PMo meu caro deve estar mesmo cansado porque não entendeu nada do que aqui foi escrito.
1- Não me pronunciei acerca do dito post. Não achei grande piada mas também não me afectou.
E o humor tem até tem a ver com a capacidade de desarmar. O verdadeiro humor é a mais saudável das desmontagens de excessos de convicção. Nunca diria o contrário. Acontece que, por acaso, não foi isso que vi no post do Daniel. Mas, como digo, nem me pronunciei.
Resumindo. Não me aqueceu nem arrefeceu.
Pronunciei-me isso sim, acerca deste post do rui tavares onde se pretendeu sistematizar o que pode ou não pode ser gozado.
Pronunciei-me acerca da ideia base que por aqui andou: a sátira ao cristianismo é uma liberdade que deve ser usada porque o cristianismo, nas suas práticas fora da Igreja é uma violentação - foi esse o termo aplicado - às mais profundas convicções de agnósticos, ateus e de outras crenças.
Isto é que é um contra-senso. Um ateu com fortes convicções é um não ateu. É alguém que milita contra uma crença.
Foi no seguimento disto que disse que me parecia que o politicamente correcto vinha agora ressuscitar o ateísmo comunista.
Porque é descrimina tório, porque se arvora no direito de agir fora dos sentimentos e contra eles, em termos universais.
Agora o véu. O meu caro defendeu, e bem, que a questão do véu não deveria ser legislada. Quanto muito negociada porque legislar seria uma medida de intolerância em nome de um laicismo que, precisamente por o ser (laico) não pode nem deve agir como se fosse religioso.
Ora, neste caso das alegadas violentações que uma benzedura de prédio podem provocar na alma sensível de um ateu, eu pergunto-me: como é? abaixo a benzedura, toca a proibir tudo, incluindo a tradição histórica dos nossos costumes, em nome de um pretenso universalismo fora da história? em nome de um pretenso ecumenismo ateu?
A questão é apenas esta. Sans rancune. Que aqui na blogosfera todos podemos puxar ou não puxar dos galões. Cada um escolhe o papel que mais lhe convém.
E , a esse propósito, deixe-me acrescentar que não pretendi ofendê-lo a propósito do desconhecimento da história recente. Todos sabemos que nem faz parte do programa dos cursos universitários. Depois cada um especializa-se no que bem entende. Admito que poderia haver um pouco mais de cuidado mas esse diz mais respeito à evocação de certas raízes políticas que ao mero saber histórico apartidário.
Abraços
O que me incomoda é a mãe de um amigo ao saber que eu não era baptizado me ter dito carinhosamente que eu "era como os cães". O que me incomoda é venerar-se um velho assassino porque rejeita o uso de perservativo. O que me incomoda é ver milhões de pessoas como os gnus de África a migrarem para Fátima todos os anos e ninguém falar do ridículo que aquilo é tal como os muçulmanos em volta da Kaaba. O que me incomoda é que a esmagadora maioria dos católicos são hipócritas e covardes que criticam o comportamento dos outros e dão a sua quecazinha antes do casamento e vão a bares de alterne apalpar brasileiras e na Páscoa vestem opas e passeiam crucifixos. O que me incomoda são as nossas católicas fingidas que tomam a pílula e que dizem " eu não concordo com tudo o que a Igreja diz " como se elas não fossem parte dessa Igreja e fossem diferentes das "beatas" que são menos fingidas.
Tenho nojo da religião !
Ter um morto pendurado numa cruz é necrofilia !
Há 38 anos que sou martelado com cristos e deuses e a P. Q P. estou farto. Nunca me preguntaram se me incomodava. É gozar com papas e cristos e maomés e essa palhaçada toda !
Tás em casa, meu filho.
Pois é, todas as religiões contêm potencialmente em si o gérmen do fundamentalismo e da intolerância. A ausência de um saudável sentido de humor, mesmo quando é a nossa fé que está em causa, é até um dos primeiros sintomas desse fanatismo latente que pretende impor fronteiras e limites à liberdade de expressão de terceiros. No humor, não vejo nada nem ninguém que se possa arrogar do direito de a ele estar imune enquanto alvo satírico. O que se pode discutir é, à posteriori, a piada ou a falta dela e o bom senso ou o mau gosto (juízos sempre subjectivos) que não são exclusivos desta temática, nunca o direito a criticar o que muito bem se entende. Sendo certo, claro está, que a predominância do 'bom senso' que não o óbvio - não gozar com a dor alheia ou com as deficiências físicas de alguém, por ex. - não augura nada de muito bom em termos estritamente humorísticos ...
Afixado por: Tenente Blueberry em abril 8, 2004 09:16 PMExcelente comentario do Agualusa la mais para cima... Excelentissimo!!!
Afixado por: 8 Abril em abril 8, 2004 09:18 PMNo meio disto tudo, bom, bom foi a imagem do brasão de Évora...
Essa de se poder satirizar os cristãos mas não os pretos e os paneleiros, diz tudo acerca das vossas reais intenções.
Rui Tavares,
Tens aqui um problema para resolver. Tu que conhecerás algum do bom humor feito além fronteiras, explica-me porque razão existem sitcoms de sucesso sobre hábitos e costumes de homossexuais(especialmente nos EUA) e sobre as comunidades negras nos EUA, Inglaterra, e França.Basta recordar a ainda hoje célebre e insuportável:) Archie Bunker, ou ainda humor feito por negros sobre a sua própria comunidade.
Eu digo-te qual é o teu problema. O teu problema é o país em que vives. O português não sabe/não consegue fazer humor sobre minorias?Não tem cultura para isso, ou se calhar não tem mesmo capacidade. Quando se trata de minorias o português muito raramente consegue ultrapassar o nível da anedota de caserna, de quartel. É este o teu problema. É esta deficiência cultural grave. Olhem por exemplo para as Produções Fictícias, que se propuseram revolucionar o humor nacional, e depois a primeira coisa que fizeram em matéria de minorias foi criar a figura do 'preto' Tibúrcio. É sintomático da doença, não te parece. Ainda por cima a equipa das PF é composta por gente que se diz de esquerda, e depois saca do humor mais colonialista dos últimos tempos em televisão.O teu problema, Rui, é que te sentes num beco sem saída. Se quiseres fazer humor sobre minorias tens que emigrar. É muito simples, nem é preciso apontar o dedo ao Rui Pereira.
NB: Já agora gostava de saber o que já foi feito para tentar mudar o brasão de Évora. Ou será que há coisas que não podem ser mudadas?
Vanha-nos Santa Engrácia! está aqui esta alminha a explicar que somos uns grunhos sem cultura e por isso nem humor com pretos podemos fazer, que isso é só para estrangeiro fino e de seguida pergunta se já se fez alguma coisa para alterar o brazão de Évora?!?!
ó Mestres! ó doutorandos! ó tríada de historiadores de esquerda! acudam! acudam que com o politicamente correcto nem o património se salva!
Francisco Costa,
Algum argumento em sentido contrário? Apetece-me conversar.
Afixado por: thirdbacus em abril 8, 2004 11:06 PMmas onde é que eu já ouvi isto que com estes revolucionários nem o património escapa?!?!
não há dúvida que os revolucionários são a velha cruz da arte... :(
Afixado por: Francisco Costa em abril 8, 2004 11:07 PMEu por acaso sou historiador mas não sou de esquerda por isso o melhor é ter uma opinião abalizada do caro André Belo ou do Pedro Oliveira, já para não falar do especialista Celso.
Pela minha parte não quero influenciar ninguém. Só lhe digo: atreva-se que o corria a tiro de caçadeira! e olhe, experimente lá no estrangeiro erudito a ver se deixam
:)
Mas aqui conversa-se ou não? Argumenta-se ou não?
Afixado por: thirdbacus em abril 8, 2004 11:12 PMUm historiador de caçadeira em riste. Que imagem mais poética. Que piada rústica.
Afixado por: thirdbacus em abril 8, 2004 11:15 PMO que quer conversar? acha que se deve alterar o património histórico ao sabor dos preconceitos ideológicos de cada época? mas isso ainda se pergunta? não sabe o que é história, não sabe o que é um testemunho único de uma época? por favor, isso nem a Inquisição fazia. Nem na Idade Média se destruiu a loba capitolina, meu caro! e sabiam que era uma marca do paganismo! nem eles!
Olhe, um que teve a triste ideia de fazer uma fogueira de vaidades acabou no ano seguinte a arder numa idêntica.
Mas como lhe digo, eu não sou de esquerda. O melhor é perguntar a um dos ilustres historiadores do blog que nisto, como em tudo, o que conta não é a palavra, é de onde ela vem...
ou não é assim?
exactamente: um historiador de caçadeira em riste! eis uma imagem que me serve á medida! :)
Afixado por: Francisco Costa em abril 8, 2004 11:21 PMà
e agora vou ali limpar os canos. Com licença. Depois diga-me qual foi o conselho dos ilusres colegas de esquerda.
Francisco Costa,
Eu pedi-lhe argumentos, tal como pedi ao Rui Tavares que foi quem levantou a questão. Quero saber se o brasão é intocável ou não. Se não, porquê. Não me venha com a lenga lenga do património, e muito menos com a lenga lenga da imagética patrimonial porque os símbolos mudam, e têm mudado em longo da história. Ou o historiador acha que a bandeira portuguesa de hoje é a mesma de há 30 anos?
Afixado por: thirdbacus em abril 8, 2004 11:26 PMMeu caro, assim de repente, e de modo básico. Não há comparação possível entre um um brasão e uma bandeira nacional. O brasão é um signo histórico, morto. Apenas testemunha uma marca do passado e não tem qualquer utilização na prática da cidadania. É isso mesmo. Um testemunho patrimonial único e cujo sentido apenas se reporta à sua época. Não há mudança. Só poderia haver destruição caso o património fosse gerido por dementes. O politicamente correcto que se entretenha a mudar as histórias do capuchinho vermelho. Têm sido esses os mais brilhantes exemplos das suas causas.
Olhe, quase me tentou a guardar esta sua pergunta. É que há coisas que também são história...
´É imperssionante o coro de profetas e pregadores que saem da toca de cada vez que se debate a religião.
Bem, na verdade a bandeira nacional mudou em 1910-11. Quanto ao resto, tomo nota, finalmente, dos seus argumentos. E vou-me informar melhor sobre o assunto. É assim que funcionam os revolucionários. Sem caçadeiras.
Afixado por: thirdbacus em abril 8, 2004 11:51 PMAcho piada que alguns comentadores considerem que um ateu não o pode ser convictamente! Ou seja, convicções só as podem ter quem acredita em lendas&afins sortidos!
Absolutamente ... elucidativo :(((
O filme é de 79 e as séries são de meio dos anos 70, mas ao contrário de práticamente todo o humor português, ainda nos fazem rir e não são assimiláveis pelo sistema.
Há mais humor num micro conto do Mário Henrique Leiria do que em quilos de semanários humoristicos e kilómetros de fita com programas de "humor" televisivo nacional, se quisermos falar de casos sérios nacionais.
Afixado por: Mário em abril 9, 2004 12:51 AMÓ Thirdbacus, mas que raio tem o brasão que te faz assim tanta comichão??? Mas será que ainda não percebeste que este país se fez dando cachaporrada nos mouros, e que portanto é naturalíssimo este tipo de brasões??? Sabes porque é que daqui a 50 anos os teus filhos e netos, se os vieres a ter, passarão os dias de cú virado para Meca??? Porque em nenhuma cidade do mundo islâmico alguém alguma vez se indignará por o brasão de uma sua cidade ter uma imagem dum cristão degolado,em suma, não há thirdbacus no mundo islâmico, a médio prazo a nossa xenofilia e etno-masoquismo será a nossa perdição e o fim da nossa civilização. Os muçulmanos estão mais próximos da barbárie que nós, e se no mundo Ocidental isso pode ser uma desvantagem, no inevitável choque étnico/religioso que se avizinha e pelo qual anseio com todas as forças da minha alma, ou nós europeus nos desembaraçamos definitivamente de todo o tipo de pruridos pequeno-burgueses e adoptamos a política do fogo e do aço, ou seremos aniquilados e atirados para fora do palco da História.
Afixado por: Rui Pereira em abril 9, 2004 01:37 AMSobre o brasão entendi-me perfeitamente bem com o Francisco Costa. Com caçadeira encostada à cabeça e tudo. Por isso é que eu gosto do Barnabé.
Afixado por: thirdbacus em abril 9, 2004 01:58 AMAgualusa, você conta..."O padre não sabia se aqueles cadáveres e moribundos eram de católicos, muçulmanos ou ateus". E os restantes Cristãos? Os Ortodoxos, os Anglicanos, os Adventistas, os Luteranos e outros?
Afixado por: Reaça em abril 9, 2004 04:17 AMEm primeiro lugar, muito obrigado pelos comentários, grande parte dos quais levantam questões interessantes.
Vou responder por partes:
1. Ao thirdbacus e ao celso. Se repararem bem, verão que tive algum cuidado a distinguir "humor" de "sátira". O segundo conceito é mais restrito e, do meu ponto de vista, define melhor aquilo de que estamos a falar. Toda a sátira é humor, mas nem todo o humor é sátira. Muitos dos religiosos que se declararam ofendidos com o post do Daniel (e já vários outros no Barnabé), disseram mais do que uma vez que não se incomodam com piadas sobre religião desde que elas cumpram com determinados critérios (não ser acintoso, etc.). Aceitariam, por exemplo, aquelas "piadas inocentes" sobre padres – pelo que concluo disto que não levantam objecções ao humor em geral, mas à sátira em particular.
Esta distinção é importante porque se a levarmos em conta veremos que a contradição que me apontam não é válida, pelo menos da maneira em que a colocam. Eu não disse que não faço humor com negros e homossexuais (até porque concordo com o Celso em que o humor, pelo menos algum, é integrador). O meu texto é sobre a sátira, que tal como eu digo ali é dura e às vezes injusta em termos estritos. Ora, como o Celso sabe, eu faço humor com negros e homossexuais (e às vezes até directamente com os visados). No entanto, por uma questão de temperamento, não tenho vontade de satirizá-los aqui no Barnabé, porque me parece demasiado cómodo e cobarde: é bater em quem já está prostrado.
Contudo, reparem que fui bem explícito ao dizer que as minhas razões não tinham nada a ver com o "políticamente correcto". Quer dizer que entenco esta opção como uma questão temperamental minha e não como um preceito moral geral. Ou seja, ao contrário do que aqui escreveram várias vezes, não acho que "se possa" ou "não se possa" satirizar as minorias, nem sequer que "se deva" ou "não deva" fazê-lo. Disse só que eu não o fazia, até porque acho que é muito pouco corajoso fazê-lo.
Isto que acabei de dizer já estava contido, em menos palavras, naquele parágrafo. Só o desenvolvo aqui porque me parece que a leitura que vocês (e outros leitores) fizeram foi irrestivelmente atraído pelo magnetismo das posições mais tipificadas do politicamente correcto / politicamente incorrecto. Posições essas que, para dizer a verdade, só podem ser satisfatórias para quem é pouco exigente.
Agora fico por aqui. Depois respondo aos outros.
Afixado por: rui tavares em abril 9, 2004 04:20 PMPois, eu cá não concordo com o Celso quando diz que o humor é integrador(algo que se ouve muito por aí). É bem mais o contrário, o humor sobre minorias só é "integrador" a partir do momento em que essas minorias estejam razoavelmente integradas. Rir do marginalizado não é humor, é outra 'coisa'(e aí percebo o que diz o Rui Tavares, se tivermos em conta o contexto português). Ou seja, o olhar humorístico português em relação ás minorias alterar-se-á conforme mais negros entrarem para as faculdades, empresas, associações, etc. Por enquanto contam-se anedotas sobre 'pretos', como uns tipos invisíveis que vivem em guetos lá para os lados da Amadora. E isto pode ser tudo menos humor "integrador", trata-se antes de mais da expressão de uma marginalização real. É isso que estava implícito no meu comentário-interpelação ao Rui. Nos países por mim referidos, a integração é já razoável, e isso nota-se no humor praticado. E aí o papel das Produções Fictícias tem sido lamentável.
Afixado por: thirdbacus em abril 9, 2004 05:29 PMAgora em relação às interessantes objecções do Águalusa:
Para começar, acho que elas foram respondidas pelo ponto 2 do meu texto. A relação que os Cristãos têm com Deus será seguramente especial, mas é-o apenas para eles e não para os outros.
Gostei do argumento inédito segundo o qual essa relação estaria fora do âmbito legítimo da sátira pelo facto de ser da intimidade de cada um. É um argumento válido em geral, mas inválido para o caso presente, em que o que se satirizava era precisamente a ostentação dessa relação que alguns religiosos (certamente que não todos) praticam. Como é evidente, o que é ontensivo não é íntimo. Foi Mel Gibson, por exemplo, que decidiu clamar aos sete ventos a sua relação íntima com Deus. Se ela fosse verdadeiramente íntima, aliás, viveriam os ateus e agnósticos muito felizes com isso. O problema é alguns quererem a todo o momento que eu participe dessa relação íntima, o problema é outros publicitarem-na através da chantagem sobre o estado, o problema é muitos divulgarem o preconceito geral de que eu sou menos (menos feliz, menos inteiro, menos iluminado) por não fazer parte também dessa intimidade que eu não desejo ter. O seu argumento, levado à risca em primeiro lugar pelos religiosos, resolveria todos os nossos problemas. Não o sendo, tem o efeito irónico de transformar essa intimidade numa promiscuidade geral – já não é uma crença pessoal, passa a ser uma ménage à six milliards.
Aproveito para responder às objecções sobre as benzeduras de edifícios públicos. A ideia de que se trata de um gesto inocente, que "mal não faz", etc. é em si demonstrativa dos piores vícios autoritários da argumentação religiosa. Autoridade tão viciada que nem dá por si mesma. Perguntava-se aqui o Francisco Costa porque carga de água se chateiam os ateus e agnósticos com isto, e confessava que lhe custava entender. Pois bem, caro Francisco Costa, a boa notícia é que não precisa de entender porque nos chateiam as benzeduras de edifícios públicos – tal como eu não preciso de entender a fé. Basta apenas registar que não queremos essas benzeduras, e pronto. Que mal fazem? E que mal faria uma desbenzedura a seguir? E um discurso de cinco ou dez minutos por parte de um ateu encartado em todas as cerimónias públicas? E uma missa negra? O mesmo vale para as escolas públicas. Não me fazia mal nenhum ter Nossa Senhora de Fátima numa prateleira à entrada do meu liceu? Fazia sim, desde logo porque aquela era outra demonstração pública do preconceito segundo o qual as pessoas com fé são superiores às que não a têm. Como é que eu sei isto? Simplesmente porque propus ou tirarem aquela imagem, ou em alternativa colocarem uma imagem de um pensador ateu ao lado, à mesma altura, e isto foi recusado. Se eu fosse protestante, o problema seria pior ainda, e só se resolveria com a saída da estátua. Tanto eu como o protestante fomos alunos de segunda, do ponto de vista simbólico – que é essencial.
Já agora, devo dizer que o Francisco Costa não pode trazer à discussão os títulos académicos das pessoas deste blogue e logo a seguir reagir escandalizado aos mesmos títulos académicos. Deslegitima a sua posição. Ou quer falar disso, ou não quer; não é pode é querer uma no papo e outra no saco, como se diz na terra dos meus avôs. O mesmo vale para toda a gente que intervém com agressividade para depois tentar, na réplica, dizer que são os barnabés que não são democráticos, etc. O esquema é tão batido e fica tão exposto à leitura sequencial destas caixas que não entendo como é que ainda perdem tempo a utilizá-lo. Também para aqueles que nos chamam de jacobinos e relativistas ao mesmo tempo fica o pedido: decidam-se, caramba.
Por último, a questão do brasão de Évora. Não me cabe a mim, nem à maioria de nós, decidi-la. Cabe sim aos eborenses no seu conjunto, no dia em que se perguntarem, decidir se querem que o símbolo da sua cidade represente um cristão acabando de decapitar um pai e filha (obrigado ao "perplexo" pela correcção) só porque tinham uma religião diferente da de Geraldo Sem Pavor. Já percebemos todos que o Rui Pereira tem um orgulho quase libidinoso nisso. Isso, aliás, define perfeitamente o seu carácter.
Afixado por: rui tavares em abril 9, 2004 05:49 PMO menino Rui Tavares não gosta que eu brinque com a sua pilinha, pois não?
Então não brinque com as minhas convicções!...
A ignorancia é a pior de todas as fés.
O que percebem vocês de religião para brincarem com ela?
Desiludiram-me...
Se alguém pode, que não deve, julgar as crenças dos outros, necessita ao menos de ter algumas...
Você julga que ser católico é o mesmo que ser do Carcavelinhos?
Deve ter um grande vazio na sua vida....
Entre numa igreja amigo...
É assim que começam os problemas com os árabes... Não conhecer e criticar ignorantemente.
Você deve ter momentos de muita angústia,não?
Se querem realmente salvar o espirito, que a alma, já começo a duvidar que alguma vez encontre a paz, entrem em qualquer igreja portuguesa, e em bom português, ouvirão a mensagem de Cristo...
Só não será sensivel a ela quem tiver medo de reconhecer que viveu toda a vida longe de uma parte de si.
É que seja qual for a fé, se ela se fundar em valores sólidos, constitui a base para a paz interior e para a vida em sociedade.
É verdade que as nossas igrejas não são tão apelativas como o Hermansic, tem menos ucranianas e também não vem a mensagem aos quadradinhos e tão clara como no Calvin ou no Garfield...
Mas a mensagem é algo que cada um reconstroi no seu coração...
Em suma... Conhecer a mensagem é partilhar da felicidade da vinda de Cristo...
Do outro lado da barricada, instala-se sempre o medo, alimentado pela ignorância...
Que Deus esteja convosco em todos os momentos da vossa vida!...
Tenham vergonha!...
Vou ver se me lembro de não voltar cá...
Antes de tentarem ensinar o que quer que seja à Igreja, tentem praticá-lo...
SEnão quem vos dará ouvidos...
Zaping não é audiência...
cum carago...
Cresçam e apareçam...
O maradona tem no blog um link para um texto sobre a predominância cultural dos crentes na América. Curtinho, mas jeitoso.
Afixado por: cordobes em abril 10, 2004 04:00 AM«Se querem realmente salvar o espirito, que a alma, já começo a duvidar que alguma vez encontre a paz, entrem em qualquer igreja portuguesa, e em bom português, ouvirão a mensagem de Cristo...
Só não será sensivel a ela quem tiver medo de reconhecer que viveu toda a vida longe de uma parte de si.»
A arrogância não tem limites.
Afixado por: Daniel Oliveira em abril 10, 2004 04:17 AMCaramba, mero proseletismo bacoco-poético. Arrogância sem limites?? Que bafiento, esse anti-clericalismo.
Há uma sentença do Supremo Tribunal Americano sobre o direito constitucional ao proseletismo que está a fazer agora um ano, lê e aprende.
Caro Rui Tavares, sabe lá você qual é o meu carácter, deixe-se disso homem...
O que eu quis dizer é que o brasão não me faz comichão nenhuma porque ele representa um momento importantíssimo da nossa História ( a Reconquista),e também no futuro teremos que estar prontos física e mentalmente para uma nova Reconquista, não o conseguiremos fazer se virarmos a cabeça para o lado à simples visão de umas cabeças decepadas, isso não quer dizer que eu considere que se deva andar por aí a decapitar toda a gente, quer dizer, isso sim, que se a ocasião o exigir deveremos ser capazes de o fazer sem hesitar, só isso!!!
Parabéns Rui, finalmente houve aqui um separar de àguas, que não acontece com o daniel, assumiste isto: "Sendo eu anti-comunista, reconheço que culpar os velhinhos da Festa do "Avante!" pelos assassinatos em massa de Estaline é um pouco oblíquo.", ora isto vem na linha que eu tenho vindo a defender, que se este blog quer ser, e tem toda a legitimidade de o ser o representante do bloco de esquerda, é bom q defina as suas bases ideológigas (o trostkismo), e que critique de uma vez por todas quem mandou matar esse grande homem que leio desde os meus 12 anos graças a um grande ser humano, joao carlos cabral fernandes, q traduziu a obra de trostky na íntegra para o psr. O bloco de esquerda é partido humanista, e jamais seria capaz de me injuriar e difamar como fui nesse blog, mesmo por omissão, e por acção, ao ter pedido ao daniel para apagar os posts que me injuriavam, e nao me digam q nao me conhecem, o andre conhece o daniel, e os dois sabem quem eu sou, o passo final é a eliminação desses posts.
obrigado por este post
Afixado por: Golfinho em abril 21, 2004 11:57 AMEra só o que mais faltava que não se pudesse brincar com as superstições das pessoas!
Se um indivíduo acredita em Dragões, em Horóscopos, no Pai Natal, na ressurreição de Cristo, no milagre de Fátima, nos curandeiros espiritualistas-cientistas, nos trevos de quatro folhas, ou na Homeopatia, nós não podemos satirizar?
Os Cristãos têm de entender que, se não esperam que nós tratemos alguém que acredita que um gasto negro dá azar de forma diferente de alguém que acredita que os extraterrestres "andem aí" a visitar aldeizinhas no interior, então eles próprios não podem ser tratados de forma diferente.
Aquilo que o Cristianismo tem de diferente das outras superstições é que é mais popular.
Afixado por: João Vasco em junho 23, 2004 11:57 AMOlá a todos,
O meu perfil, para muitos de vocês, é o do reaça católico, obstinado e teimoso.
Sou-o...
Mas também gosto de uma boa gargalhada. Acho que se deve brincar com tudo e com todos. Como é que se distingue uma boa de uma má brincadeira? Através de um indicador difícil de controlar: o do bom gosto.
Há sátiras sobre religião com muito mau gosto, e outras com elevadíssimo bom gosto. Recordo-me do clássico "Life of Brian" dos Monty Python. Adoro este filme, bem como adoro o de Mel Gibson. Pelo facto de que são AMBOS filmes de muito bom gosto. Pelo menos é a minha opinião!
Apesar de os objectivos dos dois filmes serem tão diferentes, deveremos saber-nos rir mesmo da nossa religião. É saudável.
Desde que o humor não passe à chacota desleal, que é aquela que se alimenta de falsos testemunhos, da mentira, da difamação, e pior que tudo, da ignorância!!
Um abraço!
Afixado por: Bernardo Sanchez da Motta em junho 23, 2004 12:31 PMUm padre estava a cobrir uma paroquiana quando entrou o sacristão...
- Sr. Padre...
- Meu filho.. Perdoa-me...
- Eu perdoo-te.. Mas os cornos doem-me na mesma - diz o sacristão.
- O que posso eu fazer para tirar a dor e acreditares em mim?
- Dê-me aí um espacinho. A caridade é muito bonita. Tenho fé na sua boa vontade.
E assim a paroquiana foi abençoada com a sacristia em peso em dupla penetração vaginal...
Eles é que não se tinham apercebido que a pecadora estava com o período.
Nada que um pano e agua benta não resolvesse.
Comeram hóstias e vinho consagrado para se recomporem.
O amor em Cristo é abençoado, 9 meses depois nascia um rapazinho. Foi para o seminário e chegou a bispo. Tal era a herança de fé que detinha...
Afixado por: André Esteves em julho 2, 2004 12:16 AMUm padre estava a cobrir uma paroquiana quando entrou o sacristão...
- Sr. Padre...
- Meu filho.. Perdoa-me...
- Eu perdoo-te.. Mas os cornos doem-me na mesma - diz o sacristão.
- O que posso eu fazer para tirar a dor e acreditares em mim?
- Dê-me aí um espacinho. A caridade é muito bonita. Tenho fé na sua boa vontade.
E assim a paroquiana foi abençoada com a sacristia em peso em dupla penetração vaginal...
Eles é que não se tinham apercebido que a pecadora estava com o período.
Nada que um pano e agua benta não resolvesse.
Comeram hóstias e vinho consagrado para se recomporem.
O amor em Cristo é abençoado, 9 meses depois nascia um rapazinho. Foi para o seminário e chegou a bispo. Tal era a herança de fé que detinha...
Afixado por: André Esteves em julho 2, 2004 12:16 AM«Desde que o humor não passe à chacota desleal, que é aquela que se alimenta de falsos testemunhos, da mentira, da difamação, e pior que tudo, da ignorância!!»
Claro que quem definirá a deslealdade, os falsos testemunhos a mentira, a difamação e a ignorância será o espírito santo de orelha...
DEUS!!!! SALVA-ME DOS TEUS SEGUIDORES!!
O APOCALIPSE É PARA QUANDO?!? JÁ VÊM TARDE!!
«Desde que o humor não passe à chacota desleal, que é aquela que se alimenta de falsos testemunhos, da mentira, da difamação, e pior que tudo, da ignorância!!»
Claro que quem definirá a deslealdade, os falsos testemunhos a mentira, a difamação e a ignorância será o espírito santo de orelha...
DEUS!!!! SALVA-ME DOS TEUS SEGUIDORES!!
O APOCALIPSE É PARA QUANDO?!? JÁ VÊM TARDE!!
a religião?k tema tao complicado de falar?Deus para mim é um ser inocavel,ao qual eu respeito e nao admito k o ponam em causa nem gozem.Os padres e todos os seus representantes nao se somportam de maneira correcta,mas Deus.....Deus é Deus e acredito nele ,e é nas horas de maior sofrimento k me dirijo a ele e peço-lhe ajuda....
Afixado por: marta em setembro 30, 2004 05:22 PMa religião?k tema tao complicado de falar?Deus para mim é um ser inocavel,ao qual eu respeito e nao admito k o ponam em causa nem gozem.Os padres e todos os seus representantes nao se somportam de maneira correcta,mas Deus.....Deus é Deus e acredito nele ,e é nas horas de maior sofrimento k me dirijo a ele e peço-lhe ajuda....
Afixado por: marta em setembro 30, 2004 05:22 PMA única igreja que ilumina é aquela que arde e a melhor coisa que o Marquês fez foi expulsar as ordens religiosas. Esse sr Miguel parece-me um beatozito daqueles que é apanhado no Parque Eduardo 7º com as calças na mão...
Afixado por: Mata-Frades em novembro 12, 2004 07:03 PMA menina Marta deve-se esfregar todinha à noite a pensar no JC na cruz pregado. Compra um vibrador chabala!!!
Afixado por: A Marta tem tesão religioso em novembro 12, 2004 07:07 PM