abril 12, 2004

Uma visão do inferno

Por viver noutro país, não gosto de dizer mal de Portugal. Como sei que dizer mal é um desporto nacional que tem exímios praticantes, abstenho-me de contribuir também eu para ele. Não é só um cálculo: não me apetece mesmo, porque tenho saudades do meu país. Mas quando vi o livrinho de promoção do Euro 2004 no estrangeiro, feito pelo ICEP (Instituto do Comércio Externo), fiquei horrorizado. Meço as palavras. Fiquei mesmo. Eu adoro futebol, como penso que quem lê regularmente o Barnabé já percebeu. Mas ao ver a relva de estádio a espalhar-se como uma praga pelo chão do país todo, na Gare do Oriente, nas colinas do Douro, numa esplanada com vista sobre o Porto, na praia da Rocha, nas lagoas dos Açores, na pousada-castelo do Crato, fico arrepiado. Alguns destes lugares na realidade não são idílicos, e os campos de golfe já são um bocado aquilo, mas pronto, se tirarmos mentalmente os turistas da praia da Rocha, aquilo continua a ser bonito e é uma imagem nossa. Cada um pode pensar que um dia a praia da Rocha será sua outra vez por um momento, rochas espectrais ao fim da tarde só para mim. Agora, transformá-la numa praia de relva, num lago húngaro à beira do oceano? Ora ai está um pesadelo pago a peso de ouro. O pior é que esta fantasia é um sonho de quem a pode realizar. O ideal de levar o campo de futebol para todo o lado do ICEP corresponde a um ideal de dirigentes desportivos e construtores civis seus aliados. O de, onde quer que estejamos, sermos obrigados a ver futebol, a falar de futebol, a associar coisas ao futebol. Na natureza, nas actividades produtivas, no património. Uma intoxicação de publicidade, e o revolver inteiro da paisagem de um país tornado relvado. O futebol como horizonte inescapável. É isso que vai acontecer em Junho. Aliás, provavelmente, já é isso que acontece. Qual Fátima, qual Fado: foi o F do Futebol que ganhou e, neste aspecto, os ideólogos de Salazar eram verdadeiros amadores comparados com os de hoje.

Publicado por andrebelo em | TrackBack
Comentários

andré, nem mais. não seria suposto a publicidade mostrar-nos melhores, ao invés de exactamente como somos?

Afixado por: rui tavares em abril 12, 2004 04:33 PM

Caro André: Portugal É um país comandado por dirigentes de futebol e construtores civis. Veja-se quem tem poder nas autarquias e veja-se quem tem REALMENTE poder na administração central, que é refém de menos de meia dúzia de "empresários". Vejam-se que empresas dependem do Estado e vice versa. O poder em Portugal É o dirigente desportivo e construtor civil. Depois há uns gajos a compor a fotografia, chamados Ministros.

Afixado por: Paulo em abril 12, 2004 04:34 PM

- Com licença, muito boa tarde! O senhor por acaso não viu ali aquele cartaz?
- Por acaso não tinha visto, sô guarda, peço desculpa...
- Então agora fica avisado que não pode vir para a praia sem a bola, ouviu? Para a próxima não se esqueça da bolinha! E das chuteiras! ou pensa que pode ficar aqui de papo pró ar a incomodar os outros banhistas? Hhmmmm?...

Afixado por: antonio em abril 12, 2004 04:51 PM

'IN HOC SIGNO VINCES'» disseram os decisores políticos desta brava Nação com "F" maiúsculo (juntamente com os autarcas, olheiros, rameleiros, patos bravos do betão e chapa, dirigentes desportivos semi-profissionalizados e lavadores de patacas $$)

Afixado por: coco&ranheta em abril 12, 2004 05:09 PM

discordo. essa publicidade tem a ver com o euro2004, com futebol. não foram os relvados que se espalharam pelo país mas o país que entrou nos relvados sem pedir favor. é uma publicidade imaginativa que não nos envergonha.

fora da publicidade e desse livrinho do ICEP é que começam os problemas a sério. percebo que a fotomontagem sirva bem como metáfora do "futebol como horizonte inescapável" mas, francamente, parecem-me exagerados estes comentários ("horrorizado" é um pouco excessivo, não?)

Afixado por: tobi em abril 12, 2004 05:14 PM

Tem toda a razã. Num país onde a saúde é o que se sabe, e a educação também, isto é uma loucura desmedida. Haja alguém lúcido, por favor!

Afixado por: rosa em abril 12, 2004 05:28 PM

... e tenho aqui guardada outra piada excelente para quando transformarem uma praia num gigantesco palco para promover o rock in rio lisboa hehehe

Afixado por: antonio em abril 12, 2004 05:40 PM

Se esquecermos os dirigentes desportivos e os construtores civis e concentrarmo-nos na publicidade, pode dizer-se que estamos perante uma excelente campanha. Funciona. É o que interessa para quem a criou.

Afixado por: manhoso em abril 12, 2004 05:40 PM

manhoso, não me parece que funcione. até acredito que a intenção fosse boa mas a mensagem que passa é "além do jogos do euro, em portugal tudo é futebol". além disso, as imagens são pirosíssimas.

Afixado por: rui tavares em abril 12, 2004 05:45 PM

Bom, na verdade, na verdade, quanto ao funcionamento da campanha, devo dizer que estou desde as 17h00, mais ou menos, a olhar para o cartaz e ainda não me convenci a ir comprar um bilhete para o euro. Mas não sei como é com as outras pessoas. Vou olhar mais meia hora...

Afixado por: antonio em abril 12, 2004 05:46 PM

Face ao deserto de ideias q o autor demonstra com este post, talvez fosse melhor pulvilhar a sua mente de algumas sementes de relva. Todavia, há o grave perigo de, face à pouca fertilidade do objecto da sementeira,a dita relva não nasça e ocorra o mesmo q em alguns dos estádios do Euro...

Afixado por: Vasco em abril 12, 2004 07:10 PM

Tendo a paixão pelo futebol e clubística características muito próximas da religiosa ( de outra forma como explicar que um habitante de Montalegre se diga adepto e por vezes sócio de um clube chamado Sport Lisboa e Benfica a 350 km de distância ). Ou seja, totalmente irracional, que outro tipo de publicidade seria de fazer ?
Tem que ser idiota pois visa idiotas .

Afixado por: fin em abril 12, 2004 07:38 PM

Experimentem entrar ou sair de Portugal via terrestre e, espanto dos espantos, serão saudados exclisivamente na lingua do Shakespeare. You must be joking...Descobri um país que...

Afixado por: rodion em abril 12, 2004 07:47 PM

André,
Eu também não gosta lá muito, mas daí até chamar-lhe uma "visão do inferno"... que exagero!

Sem exagero, uma visão do inferno é imaginar que o Daniel Oliveira pertence ao governo de Portugal! ou que tem um cargo de responsabilidade qualquer (para além de escrever no Barnabé e na Capital!); isso sim são visões do inferno...

Afixado por: Andre Feio em abril 12, 2004 09:10 PM

Fico contente por não se esquecer de mim. Mesmo num post que não tem nada a ver comigo. É bonita tanta entrega e lealdade. Tanto amor e dedicação. Bem... é melhor parar... estão pessoas a ver. Fica para a próxima, 'tá bem???

Afixado por: Daniel Oliveira em abril 12, 2004 09:16 PM

André Belo, apoio inteiramente o seu ponto de vista. Quanto aos reaccionários do costume cit-lhes, de memória, Tom Waits: "whats he building in there? ....he use to have a consulting business in indonésia..." Lá é que eles estavam bem.

Afixado por: A.Torres em abril 12, 2004 10:08 PM

André, bem-vindo a Portugal, ano 2004.

Claro, em algumas pessoas isto tem o efeito contrário. Eu, por exemplo, que em tempos gostei de futebol e até vibrei violentamente com alguns jogos, estou a dar por mim cada vez mais fanaticamente anti-aquela-merda de-jogo-que se-joga-com 11-palermas-de-cada-lado e-uma-bola.

Hoje, recuso-me a ver um jogo que seja, qualquer que seja e onde quer que seja, recuso-me a falar de futebol, a não ser que tenha oportunidade de falar mal, muito, muito mal, etc.

Há mais alguns como eu, mas infelizmente ainda somos poucos. No entanto, não o seremos por muito tempo, parece-me.

Afixado por: Jorge em abril 12, 2004 10:37 PM

O Mao é que não conhecia o futebol quando afirmou que a religião era o ópio do povo. Resuscitem o gajo.

Afixado por: Reaça em abril 13, 2004 02:06 AM

Reaça,

A frase não é do Mao, mas sim do Marx. O contexto da frase tem a ver, no entanto, com a China, mais precisamente com as 2 guerras travadas entre a Inglaterra e a China, no século XIX, e nas quais os primeiros exigiam a liberdade de comércio do ópio na China.

Afixado por: Pedro Sales em abril 13, 2004 03:11 AM

Ups,

Enganei-me. A fórmula que atribuis ao Mao é do Lenine. É, no entanto, um remake de uma velha fórmula de Marx sobre as guerras do ópio:

"O ópio é a religião do povo"

Afixado por: Pedro Sales em abril 13, 2004 03:15 AM

Jorge,

Inclua-me nesse grupo de pessoas, se faz favor... Já não suporto ouvir falar de futebol. É que é quase para todos os lados para onde me viro, existe uma bola ou um coração pindérico a dizer 2004. Roça a visão do inferno, que não achei nada desajustada...

Afixado por: Necrophorus em abril 13, 2004 07:30 AM

O futebol vai virar as atenções de milhões de pessoas para Portugal. Fazer com que estas pessoas olhem para além dos campos de futebol é o objectivo.

Nesse sentido, a publicidade está imaginativa e nada "horrorizante". A ideia é de que o futebol levará os fãs de futebol a sítios que de outra forma não iriam.

Mas andrebelo não percebeu a ideia. Viu-a ao contrário. Tenho a certeza absoluta de que os fãs de futebol que virão a Portugal(que são o público alvo desta publicidade)não terão esse problema.

Afixado por: Nuno em abril 13, 2004 08:03 AM

Nuno,

Uma coisa são os destinatários da publicidade, outra coisa é o que a publicidade nos diz sobre quem a faz.

Afixado por: André Belo em abril 13, 2004 09:25 AM

André, acho o teu comentário altamente exagerado e que, quanto a mim, só revela uma de duas coisas:
ou uma oposição frontal ao euro e a tudo o que o rodeia, e aí acho que isso devia ser assumido;
ou uma aversão ao próprio futebol, não obstante o início do teu post.
Em qualquer dos casos, o pobre do anúncio (que acho bem conseguido) é que acaba por levar por tabela.

Afixado por: Turrra em abril 13, 2004 10:45 AM

André Belo:

Não percebo de onde se pode retirar que o ICEP quer "levar o futebol para todo o lado". Ou que isto corresponderia ao "ideal de dirigentes desportivos e construtores civis seus aliados".

Junho vai ser o mês do futebol em Portugal. É, de facto, inescapável.
Mas também vai ser um mês de oportunidades de promoção (através do futebol) de coisas que nada têm a ver com o futebol.

É a ideia do futebol como veículo de promoção do país que está patente nesta campanha. Não misturar o futebol com o nosso património seria reduzir o Euro ao futebol.

O que isto diz do ICEP é que este está interessado em promover o nosso potencial turístico e não apenas a qualidade dos nossos estádios ou dos nossos jogadores.


Afixado por: Nuno em abril 13, 2004 12:07 PM

Turra, aí está uma coisa que nunca pensei ler: que o André tem aversão ao futebol. Estás a falar com um fanático, com um doente, um dependente. Tem respeito, meu, tem respeito.

Afixado por: Daniel Oliveira em abril 13, 2004 01:19 PM

Oh Pedro Sales, desculpa o engano. Mao, Marx, Lenine... nunca tive média para me licenciar em comunismo.

Afixado por: Reaça em abril 13, 2004 01:41 PM

"A religião é o ópio do povo."
Marx usou a expressão, mas foi buscá-la a Feuerbach.

Afixado por: revisora em abril 13, 2004 05:04 PM

Ó Nuno, eu peço desculpa mas penso que quem não percebeu a mensagem dos cartazes foste tu. As imagens dizem: o campo de futebol está em toda a parte em Portugal. O campo de futebol chega a todo o lado, à praia, aos Açores, a todo o lado onde você for. Isto é literal. Se tu me disseres, "está bem mas as pessoas sabem que a mensagem é figurada", eu pergunto-te: e qual é a mensagem figurada? É esta: onde quer que você esteja em Portugal, há futebol. Esteja tranquilo, não se vai perder. Nós sabemos que você não quer largar o futebol.
É exactamente o contrário de uma mensagem que dissesse: Portugal não é só futebol.

Afixado por: André Belo em abril 13, 2004 06:00 PM

Já agora, Nuno, se junho "também vai ser um mês de oportunidades de promoção (através do futebol) de coisas que nada têm a ver com o futebol", não sei se já viu a campanha da Nike nova, com a selecção portuguesa e a brasileira. Muito bem feita. Agora, aqui em França pelo menos, sairam os cartazes. Vou tentar postar aqui um no barnabé, para você ver como a nossa língua, por exemplo, está a ser bem promovida cá fora.

Afixado por: André Belo em abril 13, 2004 06:03 PM

Independentemente de tudo o que se possa dizer, gostar, ou não, desta camapanha do ICEP, sugiro a todos que vejam os primeiros passos da campanha publicitária do Mundial de 2006 (é verdade, já mexe!) na Alemanha. Numa das últimas "TIME" já vem uma página e imaginem em quem é que os germânicos se inspiraram!!!! Se tiverem oportunidade vejam e digam alguma coisa.

Quanto ao comentário do André Belo, acho-o um bocado exagerado. Posso estar enganado mas acho que o futebol está a "perder terreno" no nosso País. Talvez muito por culpa de alguns "dirigentes desportivos" e dos media que dão cobertura exagerada a esses idiotas.

Afixado por: AMG em abril 13, 2004 07:03 PM

Revisora,

É verdade, Marx foi buscar a ideia a Feuerbach. As boas ideias são como as anedotas, nunca ninguém sabe ao certo de quem são.

Afixado por: Pedro Sales em abril 13, 2004 07:09 PM

Peço desculpa a todos, mas a frase é de Niestschze, sendo que mais tarde outros se aproveitaram.

Afixado por: Trolha-Livre em abril 13, 2004 11:43 PM

André Belo,

Acho que até a própria frase: "Em Portugal, o prolongamento é sempre a melhor parte do jogo" contraria a sua ideia.

Não quererá dizer que os turistas se divirtirão mais fora dos estádios do que dentro deles? Que o extra-futebol é ainda melhor que o futebol?

A mensagem está lá. Branco no verde.


PS: A Nike não tem nada a ver com o ICEP, nem tem o objectivo de promover Portugal...

Afixado por: Nuno em abril 14, 2004 07:54 AM

Nuno

é exactamente o contrario: depois do jogo, o jogo continua. Fora do jogo so ha prolongamento.
mas nao vamos chegar a acordo sobre isto. O que eu queria dizer é simples: a fantasia dos cartazes é mais literal do que parece. Basta ver os 10 estadios novos ou remodelados.
é claro que a Nike nao tem nada a ver com o ICEP. A ver se depois me explico.

saudacoes

Afixado por: André Belo em abril 14, 2004 10:41 AM

André Belo,

Simplesmente, acho que a tal "intoxicação" de publicidade é necessária para rentabilizar o Euro como promotor da imagem de Portugal.

Por isso, para mim, ser contra a publicidade do Euro (agora que é inevitável) é o mesmo que querer que este seja um fracasso.

O que é diferente de ser contra o Euro.


Obrigado pela paciência,

Nuno

Afixado por: Nuno em abril 14, 2004 12:18 PM

Já ouviste falar em metáforas? A relva espalhada pelo país significa simplesmente que os efeitos do euro vão para além dos estádios de futebol, trazem muitas outras coisas, que umas boas outras não, serão a principal fonte de receitas do nosso país, tal como actualmente o turismo o è! Abomino a importancia dada ao futebol, mas nestes anuncios le não é o principal visado!

Afixado por: Tita em maio 3, 2004 10:41 AM
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