março 31, 2005

Páscoas inglesas

O agnóstico Martin Kettle no Guardian confessa-se impressionado pela lição de vida ao aproximar da morte de João Paulo II. Independentemente da retórica que a possa rodear. Alguns no Vaticano usam isso ao serviço da sua interpretação muito abrangente do que seja a eutanásia. Tal como Kettle vejo no seu exemplo o melhor argumento contra os que vêm uma doença incurável como uma morte antecipada, ou aceitam os prognósticos médicos como um juízo final; mas também contra o culto da vida vegetativa em que a tendência para o excesso moralista em torno de questões complicadas tende a degenerar.

A BBC Radio 4 resolveu celebrar a Páscoa muito ecumenicamente destacando o assassínio há 25 anos atrás do Arcebispo de San Salvador, Óscar Romero, em plena missa. Ele sabia que ia morrer, mas estava convencido de que o seu sacrifício era necessária para o seu país encontrar uma paz justa. A julgar pelas declarações dos protagonistas dos acordos de paz de 1992 tinha razão. Parece que foi considerado demasiado político para se avançar desde já com o processo de canonização. E, no entanto, foi um «bispo vermelho» especialmente paradoxal, pois era realmente um figura moderada num país de extremos. Mas todos os bispos vermelhos o são um pouco. Como dizia esse outro bispo vermelho D. Hélder Câmara que cito de memória: ‘Quando disse temos de alimentar quem tem fome, chamaram-me santo. Quando perguntei, porque é que eles têm fome, chamaram-me comunista!’

Quanto ao Spectator chamou a atenção para os 300 milhões de cristãos perseguidos por várias formas de ateísmo de Estado ou outros regimes poucos tolerantes. O que não deixa de ser apropriado. Mas um cristão a sério preferirá sempre ser perseguido a ser perseguidor...

Publicado por bruno cardoso reis em
Comentários

para quem acha que há nobreza na demonstração de fraqueza, para quem acha que há orgulho e dignidade em degenerar aos olhos do mundo, sem dúvida o papa é um exemplo.

Afixado por: fumbler_me em abril 1, 2005 12:06 AM

A frase de D. Hélder Câmara, revela uma coisa fundamental: aqueles que querem de facto erradicar a pobreza, não são propriamente os mesmos que gostam de exercer caridade.

Eu espero que caridade venha a ser uma palavra que caia em desuso, pois será sinal que de facto se apostou em políticas de recuperação social em detrimento de operações de cosmética. Não estou a dizer que caridade seja uma hipocrisia, por parte de uns será, por parte de outros não, estou a dizer que apostar na caridade é apostar num operação de cosmética, em vez de criar raizes de solidez social.

Em relação ao exemplo do papa...não me parece que as pessoas aceitem os dignósticos médicos como verdades incortonáveis, mas acho que as pessoas começam a assimilar os diagnósticos como fortes possibilidades, no sentido de se prepararem para o pior cenário. E isso é um processo difícil, mas na natural do ser humano.

300 milhões de católicos perseguidos, o mundo até estremece com tanta gente em fuga. Ainda por cima por um ateísmo de estado (vejam lá, eleito democraticamente)...eu, como ateu, só peço que não me sejam impostas doutrinas cristãs nem qualquer tipo de religião. E devo confessar que tb me sinto perseguido, quando tocam à campainha a fazer publicidade divina.

Afixado por: João Dias em abril 1, 2005 01:15 AM

O cristianismo foi perseguido desde as origens, por ser uma doutrina de ruptura, com um código de valores completamente novo. ainda o é, e a isso de devem perseguições, intolerâncias e incompreensões.

Afixado por: João Pedro em abril 1, 2005 03:08 AM

sejamos diferentes DELES. deixemos o pobre homem morrer em paz. respeitemos os momentos finais de sofrimento de um velho. ELES que cumpram o seu folclore de abutres.

Afixado por: pinto ribeiro em abril 1, 2005 08:48 AM

Segundo os ensinamentos de qualquer religião, é prefeível ser perseguido a ser perseguidor.
Esse ensinamento não é um exclusivo do nenhuma religião.

Afixado por: Marco Oliveira em abril 1, 2005 09:34 AM

Excelente ideia, sempre, lembrar o assassinato de D. Oscar Romero.

O seu sacrifício não era necessário para conseguir uma paz justa em El Salvador. O seu sacrifício foi, de facto, não o início de uma paz, mas o início de uma guerra de extermínio e de terror paricularmente sangrenta, que só terminou com o assassínio dez anos mais tarde de seis padres jesuítas, em sua casa, durante a noite (e de mais uma empregada que os servia, para completar o quadro). A paz que se seguiu não foi justa.

Fica tudo na conta do patrão que estava por cima de tudo, na altura, Ronald Reagan, o cowboy da Califórnia.

Afixado por: Luis Lavoura em abril 1, 2005 09:43 AM

João Pedro. a história é fértil em exemplos, alguns recentes, de como as vítimas da intolerância e da perseguição se tornam elas próprias forças de intolerância e perseguição. católicos perseguidos?... na china, talvez. mas aí como noutros casos é a população em geral vítima de poderes e estruturas ditadoriais.

Afixado por: pinto ribeiro em abril 1, 2005 11:07 AM

João Dias: "300 milhões de católicos perseguidos, o mundo até estremece com tanta gente em fuga. Ainda por cima por um ateísmo de estado (vejam lá, eleito democraticamente)...eu, como ateu, só peço que não me sejam impostas doutrinas cristãs nem qualquer tipo de religião." - Tem razão, o mundo estremece com tanta gente em fuga... muito mais do que com o número de ateus perseguidos por regimes teocráticos (quantos serão? uns 20, 30 ou milhões?). Quanto ao ateísmo de estado, não conheço nenhum regime ateu que seja "democraticamente eleito". A liberdade deve ser para todos, crentes e não crentes. Não cabe ao Estado dizer o que é correcto ou não acreditar.

Afixado por: Filipe Alves em abril 1, 2005 11:12 AM

Nesta agonia publicamente desvelada, podemos bem ver apenas um velho que sabe que vai morrer e se quer despedir dos seus. Que os seu rebanho também tenha tido ocasião de lhe dizer adeus, é o que alguns pobres de espírito chamam "folclore de abutres".

Já agora, que diabos será um "processo de canonização a santo"? Um bocadito de rigor sempre podia disfarçar o facto de não saberem do que falam, neste caso...

Afixado por: Pensativo em abril 1, 2005 11:13 AM

Como líder de uma organização que durante mais de 2000 anos insiste em renegar o seu Cristo, na sólida tradição do seu primeiro Papa, confesso que a morte deste homem não me impressiona.
Tanto mais que, apesar de nos últimos anos se ter criado uma nova consciência sobre a inaceitabilidade do terrorismo, a igreja católica insiste em celebrar a páscoa e faz questão em chamar a atenção de que está a celebrar a libertação dos judeus do Egipto, provocada por um acto terrorista agoniante: o assassínio de crianças inocentes.

Afixado por: Fernandez em abril 1, 2005 02:04 PM

peço desculpa. é claro que se é um rebanho não faz sentido falar de abutres.

Afixado por: pinto ribeiro em abril 1, 2005 02:48 PM

«Segundo os ensinamentos de qualquer religião, é prefeível ser perseguido a ser perseguidor.»

Devias rever os teus estudos teológicos. Não me parece me Maomé tivesse esse tipo de ideias (muito menos os seus seguidores).

Afixado por: Pedro Oliveira em abril 1, 2005 05:10 PM

Pois eu estou a cometer um erro grave, estou a partir do princípio que os regimes da europa ocidental (por exemplo) são laicos. Ou seja nesses regimes coexistem cristãos, ateus etc. Mas principalmente gosto de regimes que estão "desligados" da religião, por mais devotos que sejam à mesma, nunca misturem argumentação política com religião.

Além disso eu quis por em evidência algo rídiculo, como é podemos dizer que existem estados cristãos, islâmicos, ateus, quando nesses estados coexistem tantas pessoas com diferentes crenças e não-crenças. Parece que é desrespeitar as minorias, e isso não parece coisa de um "bom cristão". O que é que determina um estado cristão, ateu, islâmico? É a sobreposição da vontade de uma maioria? Se o Sócrates for ateu, somos um regime ateu?...se Sócrates for cristão, somos um regime cristão?

"Tem razão, o mundo estremece com tanta gente em fuga... muito mais do que com o número de ateus perseguidos por regimes teocráticos (quantos serão? uns 20, 30 ou milhões?). "
Suponho que esta declaração é ironia pura, e por isso não vou comenta-la.

Afixado por: João Dias em abril 1, 2005 05:27 PM

Caro João Dias, existe uma abissal diferença entre um estado laico e um estado ateu. O primeiro não se pronuncia sobre questões religiosas, sendo assumidamente neutro em tais matérias. É o caso dos países "ocidentais" (mesmo aqueles em que existe uma religião ligada ao estado, como o Reino Unido). Já o segundo declara que Deus não existe e proibe ou restringe a liberdade religiosa dos seus cidadãos. Era o caso de vários países do antigo bloco de Leste e, infelizmente, o da China actual, entre outros. Quanto ao número de ateus perseguidos, não era ironia da minha parte, mas sim um palpite. De qualquer modo, tenho muitas dúvidas que esse número chegue sequer perto dos 300 milhões de cristãos perseguidos. Mas se tiver números concretos que provem o contrário, darei a "mão à palmatória".

Afixado por: Filipe Alves em abril 1, 2005 06:27 PM

Filipe Alves:
Se leu bem o que eu escrevi, deve ter percebido que eu sei a diferença entre estado laico e ateu. E manifestei até preferência por um estado laico...sem sombra de dúvidas prefiro um estado laico. Mas atacar os estados ateus implicaria atacar tb os estados religiosos, é que eles tb impõe uma visão restrita do pensamento existencial.

Para não se pensar que faço esta acusação no vazio, lembro um exemplo recente que vi na sic notícias, em que um líder religioso americano (ligado à administração Bush, peço desculpa mas não me lembro do nome) defendia uma teoria apocalíptica, em que só se salvariam aqueles que acreditassem incondicionalmente em Deus. Dizendo mesmo que não bastava ser católico praticante, era preciso ser incondicionalmente crente em Deus. Já nem vou falar das segundas intenções do discurso, mas deixo a pergunta: para uma religião que se quer tolerante este tipo de pensamento deixa algo a desejar? Não?

Afixado por: João Dias em abril 1, 2005 07:36 PM

João Dias, concordo consigo: o estado deve ser laico. A teocracia é inimiga dos direitos humanos e, no caso do cristianismo, viola os próprio princípio do "Dai a César o que é de César". Enquanto católico, considero que a maior tragédia que afectou a Igreja foi precisamente ter passado a ser uma religião de poder, a partir de Constantino. Creio que foi um cardeal renascentista - cujo nome já não recordo! -, quem disse que por isso mesmo a Igreja "teme mais os Constantinos que os Neros!". Quanto ao fanático ligado ao presidente Bush, penso que se deve tratar de um pastor evangélico e não de um padre católico. Mas não excluo a hipótese; na Igreja há todo o tipo de gente (como em todas as organizações humanas, aliás).

Afixado por: Filipe Alves em abril 1, 2005 08:35 PM

caros comentadores,

concluindo o estado laico é o unico que garante os direitos humanos e a separação da politica com a religião.

todos já sofreram e cometeram perseguições: judeus, hindus, muçulmanos, budistas, cristãos (incluindo catolicos), ateus, agnosticos...(e não se trata de contar o numero de vitimas que cada lado sofreu)

e agora vou fazer uma provocação:

será que um estado laico pode conter a palavra deus na sua constituição? ou vai contra o principio de laicismo?

Afixado por: oscar pinto em abril 2, 2005 01:22 AM

Pode ter a palavra na constituição, mas não deve usar a palavra para justificar qualquer tipo de política. Seja para políticas mais correctas, seja para políticas menos correctas, a argumentação deve evitar misturas. O que não aniquila o direito de as pessoas exercerem a sua religião. Naquilo que eu defendo, não é a palavra Deus que viola qualquer independência, é o seu uso para corroborar qualquer tipo de argumento.

Afixado por: João Dias em abril 2, 2005 04:35 AM

Caro João Dias,

Desde já, deixo claro que não vou entrar em discussões filosóficas, pois não tenho formação para isso, ao contrário de ti que, pelo menos essa humildade não tens. Não sei se no teu “relativismo” me consideras humilde, ou te consideras arrogante por tu, sem formação, andares a publicar comentários que não passam de “piropos” sem estudo e sólida base doutrinal.

Contudo, permite que eu te aponte algumas falhas no que tu dizes.

O teu primeiro erro consiste no seguinte: tu tens a concepção dialéctica de Hegel, que era aceitável no século XIX, mas que agora é ignorância. Porquê? Porque, ao publicares o comentário para mim na Internet (o que não me incomoda nada) para “alargar a discussão”, partes do pressuposto (dogma) que o conhecimento (a evolução) se concretiza num processo dialéctico com uma tese que tem o confronto da antítese para chegar à síntese. Esta discussão, caso não saibas, surgiu na filosofia em muitas alturas.
Esta concepção do conhecimento é muito perigosa, pois fomenta a ignorância, a falta de rigor e a disputa entre as pessoas. Repara: se é assim, isto é, se é necessários confrontar ideias antagónicas para se chegar à síntese (verdade), o que acontece não é a busca de conhecimento com rigor e estudo, mas um conjunto de “piropos” que se desmontam com um pouco de estudo. Como tu queres entrar em discussão comigo sem estudar antes o assunto. Eu por mim não faço isso, até porque nunca te revelei a minha opinião, ao contrário do que dás a entender no teu comentário. Chama-se a isso falta de honestidade intelectual (o conceito não é não é relativo).
Na verdade, penso que as concepções da filosofia mais actual refutam totalmente esta linha hegeliana.
Ou seja: antes de “discutirmos um assunto” – o que significa, defender uma ideia – é preciso estudar as áreas onde entra essa ideia se insere, para além do estudo meramente conceptual (que tu não tens (irei explicar porquê)). Por outras palavras, não se tem o direito de ter uma opinião se não se cumprir o dever de conhecer e aprofundar (a frase não é minha).

Outro erro teu, este menos subtil, consiste em dizer que o “relativismo” surgiu com um “olhar” ás novas descobertas científicas, dando a entender que se tratava da teoria da relatividade do Einstein. Este erro é grave.
O “relativismo” na Filosofia Ocidental (e não só) existe há muito tempo. Os filósofos pré-socráticos, mais concretamente os sofistas, são considerados “filósofos relativistas”. Caso não saibas, foram combatidos pelo Sócrates (Platão) precisamente por serem contra as ideias absolutas. Nos teus emails, foste capaz de por o Sócrates contra o Absoluto, contra ideias absolutas e verdadeiramente universais, contra dogmas. Tens de rever melhor os capítulos de Sócrates e Platão. Por acaso sabes qual é o contexto em que Sócrates diz a frase que citaste? Devias ver isso primeiro antes de citar as frases.
O combate contra o relativismo do Ratzinger não é um combate de agora. Não tem nada que ver com a teoria da relatividade, é totalmente independente disso. A teoria da relatividade não defende o “relativismo” de que fala o Ratzinger. Não confundas os conceitos. Eu, que tenho muito de aprender, digo-te com toda a humildade, falta-te formação conceptual e doutrinal.

Tu dizes que eu defendi que o relativismo é uma doutrina imposta, mas eu nunca fiz isso, portanto ou é falta de honestidade intelectual ou não passa de mais uma confusão. Em relação ao “paradoxo pragmático”, sugiro que leias “Introdução ao Cristianismo” de Ratzinger e “Verdade e Tolerância” do mesmo autor – penso que quem fala sobre o Ratzinger deve ler o que ele diz (não é pedir muito). Sugiro-te estas leituras porque dizes “Que é bastante diferente – do paradoxo programático – do paradoxo lógico, esse nós conseguimos desenvencilhar-nos dele. O paradoxo pragmático é musa e tormento dos filósofos, muitos dedicaram a vida a eles sem nunca se desenvencilharem dos mesmos”. Humildemente te digo, parece-me que tens de estudar e aprofundar melhor estes conceitos antes de te pores a publicar comentários na Internet.

"Só é livre a acção espontânea". A acção espontânea, instintiva, é precisamente o contrário de uma “acção livre”. É acção que segue os instintos, onde vale qualquer coisa que se faça (desde que seja instintivo). Não sei se conheces o conceito de “Autonomia da vontade”. Caso contrário, deves estudar Kant.

“Com frases destas suponho que és um fervoroso admirador de dogmas?” dizes tu. Não compreendo se é uma pergunta ou uma afirmação... Em todo o caso, não sei o que consideras por “fervoroso admirador” de dogmas. Digo-te, abertamente, que todos nós temos dogmas para seguir em frente na vida, isto é, para estudarmos engenharia, para casarmos e constituirmos uma família. A diferença está em que uns assumem e outros não. Por isso, eu disse SE fazes isto és hipócrita (não disse da maneira em que tu publicaste na Internet).


PS – A propósito de demagogia. Eu nunca te acusei de hipócrita (não é relativo, é a verdade). Disse SE, pois esse SE implicava que tu vivias contrariamente ao que defendes, não “existencializavas” as tuas “crenças” e, por isso, serias um hipócrita, de acordo com a definição de hipocrisia.
No entanto, dizes que eu defendo o Ratzinger por ser alemão... Já agora Lind é sueco; em alemão é Lindt... Vês o que acontece quando falamos sobre o que não sabemos... Em todo o caso repito: nunca defendi o Ratzinger, apenas referi que o estavas a atacar de uma forma errada.

Afixado por: Andy Lind (sem t:)) em abril 22, 2005 08:18 PM